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Insurreição Comunista de 1935
em Natal e Rio Grande do Norte

Giocondo Dias, a Vida de um Revolucionário

 

 

 

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Giocondo Dias,
a Vida de um Revolucionário

João Falcão, Agir 1993

Infância e Mocidade | Filiação à ANL e ao PCB | Véspera da Revolução | A Rebelião de Natal | Junta Governativa | Três dias de governo | Jornal da Revolução | A Derrocada | A Fuga | Refúgio de comunistas

A fuga

Antes da debandada, a reserva de dinheiro ainda existente foi dividida por Praxedes entre os principais dirigentes do movimento. Ele mesmo relata:

- Aí, eu e Santa percebemos que não havia mesmo mais nada a fazer. Era só fugir. Antes, tínhamos que resolver o problema do dinheiro. Levar todo o dinheiro não seria possível por causa do volume das caixas que iria atrapalhar nossos movimentos. Pensei, então, comigo mesmo, em incendiar o Palácio, com dinheiro e tudo lá dentro. Mas achei melhor não fazer isso. Poderia ser pior ainda. Iriam nos chamar de incendiários. Achei, então, que a melhor solução seria distribuir o dinheiro entre o nosso pessoal. Propus ao Santa e ele concordou. Colocamos os homens em forma, em fila por dois, pegamos as caixas de dinheiro e fomos distribuindo pro pessoal, sempre dizendo que aquele dinheiro era do Partido, que eles deveriam usar apenas o indispensável e guardar o resto porque o Partido poderia precisar do dinheiro. Não perdemos nada, vamos continuar. Vamos nos preparar para o futuro, ia dizendo para o pessoal e distribuindo os maços de dinheiro. Quando acabou a distribuição, peguei uma parte e o Santa ficou com a outra. Eram mais ou menos quatro horas da manhã do dia 27. Nos despedimos e fomos cada um para um canto.1

Quanto ao restante que ficou em seu poder, ele conta que em maio de 1936, no lugar onde estava escondido, foi procurado por um camarada apelidado Gaguinho (Manoel Severiano Cavalcante), enviado pela direção do Partido de Recife. "Ele me perguntou pelo dinheiro e eu disse que havíamos distribuído entre o nosso pessoal. Mandei ele procurar a Virgínia, minha mulher, que ela poderia lhe dar uma parte do dinheiro e lhe dizer com quem havia mais. Mais tarde, o Comitê Central me confirmou que o Gaguinho trouxera o dinheiro que estava com minha mulher, com a mulher do motorista Epiphânio Guilhermino e com outras pessoas."

Na verdade, apenas uma pequena parte do dinheiro recolhido pelos rebeldes foi efetivamente recuperada pelas autoridades, cerca de 992 contos de réis. O restante, ou foi resgatado pelo Partido, ou ficou em poder dos policiais encarregados da repressão, após a Insurreição: "- O dinheiro serviu para corromper a polícia. Teve muita gente que escapou da cadeia dando dinheiro aos policiais..."2

Lauro Cortez Lago, José Macedo e João Baptista Galvão, trajando paletó, gravata e chapéu, fugiram num automóvel dirigido por seu proprietário, o chofer Manoel Justino. Foram para a cidade de Canguaretama, homiziando-se na casa do Dr. Nizário Gurgel. Dias depois caíram prisioneiros do major Elias Fernandes, comandante do destacamento da Força Pública da Paraíba, enviado para combater revolucionários do Rio Grande do Norte. Em poder de José Macedo foi apreendida a im¬portância de Rs. 210:180$100,00 (duzentos e dez contos e cento e oitenta mil e cem réis). Os três foram condenados pelo TSN a penas de dez anos de reclusão.

O sargento Clementino de Barros fugiu para a cidade de Baixa Verde, hoje João Câmara, tendo sido preso no mesmo dia, 27 de novembro. Em seu poder foi encontrada a quantia de oito contos de réis, entregue depois ao deputado estadual João Câmara. Foi condenado pelo TSN a 14 anos de reclusão.

Ouvido em inquérito Policial Militar, apontou, em seu depoimento, os nomes dos principais chefes do movimento. Entre os civis: Lauro Lago, João Baptista Galvão, José Macedo e José Praxedes. Quanto aos militares, ele próprio depoente "a quem avisaram no dia 25 que se ocuparia da Secretaria da Defesa" - e aqueles com os quais mantinha relações mais próximas: os sargentos Eliziel Diniz Henriques, Sebastião dos Santos, Julião Thomaz de Aquino e Amaro Pereira da Silva; os cabos Giocondo Alves Dias, Antônio Baptista da Costa, Gilberto de Oliveira, Estevão Juvenal Guerra, Adalberto José da Cunha e João Wanderley, entre outros. Como soldado cita o nome de Valdemar Ferreira Coelho.3

No inquérito, Quintino omitiu - provavelmente para ocultá-Ios - os nomes de dois civis que tiveram destacada atuação naquele movimento: João Lopes, o Santa, e Horácio Valladares, assessores do Comitê Central do PCB. Ambos conseguiram escapar, e contra eles não foi aberto nenhum processo no Rio Grande do Norte.

Dentre os civis, atuaram ainda com destaque: Raimundo Reginaldo da Rocha, professor; José Aguinaldo de Barros e João Fagundes, comerciantes; Epiphânio Guilhermino Maia, chofer; João Francisco Gregório, estivador, presidente do sindicato da categoria; Benildes Dantas, estudante; e de outras profissões, Jaime de Brito, Manoel Justino, Francisco Braz Leopoldo, Domício Fernandes Lima e Carlos Vander Linder.4

Entre as mulheres destacaram-se: Leonila Felix (mulher de Epiphânio), Amélia Reginaldo, Francisca Alves de Souza, Virgínia Pereira da Silva (mulher de Praxedes). Todas se fardaram e atuaram na área militar. Chica da Gaveta ou Chica Pinote prestou serviços domésticos na Villa Cincinato.

José Praxedes de Andrade, quinto membro da Junta, fugiu para Pajuçara, no interior potiguar, permanecendo escondido no mato durante seis meses. Daí, andando sempre à noite, alcançou Nova Cruz, na fronteira da Paraíba, onde conseguiu tomar um trem que o levou a João Pessoa. Depois, chegou de ônibus a Recife, deslocou-se para Maceió e terminou sua via crucis em Salvador. Condenado à revelia, impuseram-lhe oito anos de reclusão, pena que jamais cumpriu.

João Lopes, o Santa, assessor do Comitê Central, conta que antes de fugir foi procurar o Valladares, "que era o nosso chefe de polícia e era quem dava passaporte para quem quisesse ir embora; e ele tinha sumido. Aí eu disse: fracassamos. Às cinco da manhã fui-me embora. Saímos em dois automóveis do governo. Num o chofer era Lauro, e iam dois primos seus. No outro, o chofer era Zé Pretinho, e fomos eu, minha mulher e um garoto de Pernambuco. Eu e ela levamos quinze dias no mato. Largamos o automóvel, seguimos a pé, e eu mandava ela pedir comida."5

Finalmente, João Lopes foi preso em Pernambuco e levado para a cadeia de Recife; aí ficou mais de um ano. Solto com a Macedada, em sete de junho de 1937, viajou logo depois para o Rio, onde novamente se ligou ao Partido. Nunca voltou a ser preso.

Horácio Valladares, outro assessor do Comitê Central, fugiu sem deixar qualquer pista. Não foi processado.

Após deixar a salvo os oficiais presos e ordenar a debandada no quartel, Giocondo deu início a uma fuga rocambolesca. Primeiramente homiziou-se na casa de um tio de Lourdes, Antônio Tavares de Souza, que residia à Rua Marechal Floriano, no bairro de Petrópolis, defronte da cadeia pública. Ali permaneceu uma semana. Depois, D. Alzira Floriano, viúva, ex-prefeita de Lages – a primeira mulher no Rio Grande do Norte a assumir esse cargo levou-o para a Vila Jardim do Angico, situada naquele município. Fazendo uma mudança arriscada – escondendo-o na carga de um caminhão –, D. Alzira deixou-o na fazenda Primavera, de propriedade do advogado Paulo Teixeira, seu irmão.

Nesse refúgio, Dias permaneceu mais de quatro meses, ficando a salvo das autoridades policiais, apesar da caça inclemente feita aos comunistas e implicados no levante de novembro. Lourdes foi visitá-Io mais de uma vez.

Entretanto, um surpreendente e sinistro acontecimento veio abalar sua tranqüilidade naquele esconderijo: uma intriga de caráter amoroso envolveu-o com a mulher do seu anfitrião, que reagiu passional e violentamente, mandando três capangas vingá-Io. Apunhalado muitas vezes, Dias escapou por milagre, graças à intervenção do comerciante Genésio Cabral de Macedo. Mas, denunciado, foi preso pelo delegado, capitão João Pedro, e levado - quase morto - para a Casa de Detenção. Era abril de 1936.

Os cuidados e a dedicação de sua mulher Lourdes, de sua sogra, D. Maria Emília Tavares, e da viúva, que lhe proporcionaram assistência médica e boa alimentação, foram providenciais para a rápida recuperação de Giocondo. Ajudaram-no também sua compleição atlética e sua juventude.

Permaneceu no presídio pouco mais de um ano. Aí recebeu, em outubro, a notícia do nascimento de sua filha, que só veio a conhecer seis meses depois. Chamava-se Ana Maria, o mesmo nome da avó paterna. Lourdes sabia quanto essa homenagem lhe agradaria, principalmente nas circunstâncias em que ele se encontrava.

Enquanto corriam centenas de processos, com as cadeias repletas, e as autoridades procuravam recuperar o dinheiro distribuído pela Junta, fato que suscitava as mais variadas especulações, Giocondo cuidava de sua saúde e elaborava um plano para sair da prisão. Nesse ínterim as condições políticas do país foram se modificando com a perspectiva das eleições, marcadas para janeiro de 1938. A campanha pela anistia, a reorganização dos partidos e a propaganda eleitoral para os candidatos à Presidência da República, José Américo de Almeida e Armando de Sales Oliveira, agitavam o país. O novo ministro da Justiça, José Carlos de Macedo Soares, considerando a incompatibilidade de uma campanha eleitoral com a existência de milhares de presos políticos sem processo formado, decidiu libertá-Ios. Este gesto configurou uma alvorada que fez exultar a todo o Brasil, ficando conhecida como a Macedada, anistia provisória decretada a 27 de junho de 1937. As prisões abriram-se e Giocondo foi posto em liberdade.

Ele previa, entretanto, que esta não duraria muito. Estava sendo processado pelo Tribunal de Segurança Nacional, tribunal de exceção recém-criado para julgar os implicados no mo¬vimento de 1935. Estava livre, mas, para onde ir? Giocondo não teve dúvida: Salvador, para perto de sua família.

Com a ajuda da sogra, que lhe comprou roupas e uma passagem, embarcou no porto de Natal. Ainda muito fraco, contou com a solidariedade e a dedicação de um leal companheiro, o cabo Valverde, que o acompanhou e cercou de cuidados durante a viagem.

Sob o risco de ser preso pela temível polícia política pernambucana, Valverde saltou no porto de Recife para comprar leite, alimento necessário a Giocondo e que não existia a bordo.

 

Notas:

1 - Moacyr de Oliveira Filho. Ob. cit., p. 77.

2 - Id., ibid.

3 - João Medeiros Filho. Ob. cit., p. 23.

4 - Moacyr de Oliveira Filho. Ob. cit., p. 77.

5 - Giocondo Dias. Ob. cit., p. 156.

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