Marize Castro Voz e Poesia

 

 


há uma represa pronta para transbordar.
nunca saberemos o que realmente somos.

a hipocrisia continua alerta.
acendo o lume e desprezo as rédeas.

o que esperar numa província, além de regressos?
como ser numa metrópole onde a inquietude é lustre,
força curadora, teofania, deserto?

tomo conta de mim e me protejo.
sou minha filha e minha mãe.
as labaredas da infância estão  queimando.
não tenho o dom de esquecer, por isso reinvento.

a morte me beija os lábios. e passa. mansamente.
nasci meio calipso. meio circe. meio penélope.
finjo que teço. finjo que finjo. finjo.

estamos no limiar e a delicadeza é inevitável.
ainda me lembro do meu cheiro quando me descobri mulher:
fêmea arrebatada por jovens aedos. blandiciosa. estrangeira.

que toda nau nos leve a ítaca
todo filho seja telêmaco, todo homem, ulisses.
toda ama, euricléia.

kórax era um homem e não uma ave.
uma ave é uma ave, e não um homem.
o teto é branco. o tejo é vasto. o tâmisa é triste.

o potengi é ícone.

e eu permaneço oblíqua. aconchegada em penhascos.
rodeada de mar de hexâmetros.

viver é lento. mas querer é urgente.

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