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Economia solidária, fundamento de Uma globalização humanizadora

 

Contribuição do GT de Economia Solidária para o lançamento do debate sobre Economia Solidária 

            A questão-chave a debater na Conferência e Seminário sobre Economia Solidária consiste no seguinte: a economia solidária está orientada apenas a mitigar os problemas sociais gerados pela globalização neoliberal, ou tem a vocação de constituir o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação racional das necessidades de cada um e de todos os cidadãos da Terra seguindo um caminho intergeracional de desenvolvimento sustentável na qualidade de sua vida. 

            Ao longo da história, o capitalismo tem se caracterizado pela sua capacidade de desenvolver as capacidades produtivas. Contudo, sua produtividade tem sido acompanhada por uma constante concentração da riqueza e da renda, resultando em crescentes desigualdades sociais, miséria e exclusão. A economia de mercado capitalista está fundada na crença de que o mercado é capaz de auto-regular-se para o bem de todos, e que a competição é o melhor modo de relação entre os atores sociais. Mas a lógica do mercado capitalista só reconhece as necessidades humanas que podem ser satisfeitas sob a forma de mercadorias e são oportunidades de lucro privado e de acumulação de capital. O capital só reconhece a demanda efetiva, isto é, o poder de compra. Quem tem necessidades, mas não tem poder de compra não é reconhecido como sujeito de direitos pelo capital. Num mundo de desemprego crescente, em que a grande maioria dos trabalhadores não controla nem participa da gestão dos meios e recursos para  produzir riquezas, um número sempre maior de trabalhadores e famílias perde o acesso à remuneração e fica excluído do mercado capitalista. Por outro lado, a competição nos marcos deste mercado lança trabalhador contra trabalhador, empresa contra empresa, país contra país, numa guerra sem tréguas em que todos são inimigos de todos e ganha quem for mais forte, mais rico e, freqüentemente, mais trapaceiro e corruptor ou corrupto. A história tem mostrado que o número dos que ganham acesso à riqueza material é cada vez mais reduzido, enquanto aumenta rapidamente o número dos que só conseguem compartilhar a miséria e a desesperança. Além disso, tanto o conceito de riqueza como os indicadores de sua avaliação parecem reduzir-se ao valor produtivo e mercantil, sem levar em conta outros valores como o ambiental e o social de uma atividade econômica. 

            Neste cenário, sob diversos títulos – economia solidária, economia social, socioeconomia solidária, humanoeconomia, economia popular, economia de proximidade etc, têm emergido práticas de relações econômicas e sociais que, de imediato, propiciam a sobrevivência e a melhora da qualidade de vida de milhões de pessoas em diferentes partes do mundo. Mas seu horizonte vai mais além. São práticas fundadas em relações de colaboração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade da atividade econômica, em vez da acumulação privada de riqueza em geral e de capital em particular. As experiências, que se alimentam de fontes tão diversas como as práticas de reciprocidade dos povos indígenas de diversos continentes e os princípios do cooperativismo gerado em Rochdale, Inglaterra, em meados do século XIX, aperfeiçoados e recriados nos diferentes contextos socioculturais, ganharam múltiplas formas e maneiras de expressar-se. Apesar dessa diversidade de origem e de dinâmica cultural, a valorização social do trabalho humano, a satisfação plena das necessidades de todos como eixo da criatividade tecnológica e da atividade econômica, o reconhecimento do lugar fundamental da mulher e do feminino numa economia fundada na solidariedade, a busca de uma relação de intercâmbio respeitoso com a natureza e os valores da cooperação e da solidariedade parecem ser pontos de convergência. 

Alcance da Economia Solidária 

            Usando este termo para abranger todas as práticas e propostas que partilham esses princípios, podemos dizer que a economia solidária não quer se limitar à organização da produção. A economia solidária busca a unidade entre produção e reprodução, evitando a contradição fundamental do sistema capitalista, que desenvolve a produtividade mas exclui crescentes setores de trabalhadores do acesso aos seus benefícios, gerando crises recessivas, hoje de alcance global. A economia solidária também busca outra qualidade de vida e de consumo, e isto requer a solidariedade entre os cidadãos do centro e os da periferia do sistema mundial. Propõe a atividade econômica e social enraizada no seu contexto mais imediato, e tem a territorialidade e o desenvolvimento local como marcos de referência. Redes de consumidores têm se espalhado por diversos países, definindo conscientemente seus níveis de consumo com base em princípios éticos, solidários e sustentáveis. A economia solidária rejeita a proposta de mercantilização das pessoas e da Natureza às custas da espoliação do meio ambiente terrestre, contaminando e esgotando os recursos naturais no Norte em troca de zonas de reserva no Sul. A economia solidária promove o desenvolvimento de redes de comércio a preços justos, procurando que os benefícios do desenvolvimento produtivo sejam repartidos mais eqüitativamente entre grupos e países. O consumo organizado e consciente tem a capacidade de exercer pressão em favor da maior qualidade dos produtos, de regulações mais efetivas desta qualidade, e também é capaz de exercer o papel de consolidar e reativar os modos de produção tradicionais baseados em relações de proximidade, de reciprocidade e de equilíbrio ecológico, desencadear novas atividades produtivas de alta eficiência social, ampliando a organização da produção e reprodução através de redes de complementaridade responsável e comércio justo. 

            O financiamento da economia é outro desafio importante que a Economia Solidária busca enfrentar. A redefinição do papel do dinheiro; a descentralização responsável das moedas circulantes nacionais e o estímulo ao comércio justo e solidário utilizando moedas comunitárias; o conseqüente empoderamento financeiro das comunidades; o controle e a regulação dos fluxos financeiros para que cumpram seu papel de meio e não de finalidade da atividade econômica; a imposição de limites às taxas de juros e aos lucros extraordinários de base monopólica, o controle público da taxa de câmbio e a emissão responsável de moeda nacional para evitar toda atividade especulativa e defender a soberania do povo sobre seu próprio mercado, são alguns dos elementos fomentadores de uma política autogestionária de financiamento do investimento do nível local ao nacional. O valor central aqui é o direito de comunidades e nações à soberania sobre suas próprias finanças. Assim também, os bancos cooperativos, os bancos éticos, as cooperativas de crédito, as instituições de microcrédito solidário e os empreendimentos mutuários, todos com o objetivo de financiar seus membros e não concentrar lucros através dos altos juros, são componentes importantes do sistema socioeconômico solidário, dando ao povo acesso ao crédito baseados nas suas próprias poupanças. 

            Articulando o consumo solidário com a produção, a comercialização e as finanças, de modo orgânico e dinâmico e do nível local até o global, a economia solidária amplia as oportunidades de trabalho e intercâmbio para cada agente sem afastar a atividade econômica do seu fim primeiro, que é responder às necessidades produtivas e reprodutivas da sociedade e dos próprios agentes econômicos. Ela permite articular solidariamente os diversos elos de cada cadeia produtiva, em redes de agentes que se apóiam e se complementam. Conceitos como vantagens cooperativas e eficiência sistêmica substituem as velhas práticas da competição e da maximização da lucratividade individual. Consciente de fazer parte de um sistema orgânico e abrangente, cada agente econômico busca contribuir para o progresso próprio e do conjunto, resultando em melhor qualidade de vida e trabalho para cada um e para todos. A partilha da decisão com representantes da comunidade sobre a eficiência social e os usos dos excedentes, permite que se faça investimentos nas condições gerais de vida de todos e na criação de outras empresas solidárias, outorgando um caráter dinâmico à reprodução social. 

            A economia solidária, nas suas diversas formas, é um projeto de desenvolvimento destinado a promover as pessoas e coletividades sociais a sujeito dos meios, recursos e ferramentas de produzir e distribuir as riquezas, visando a suficiência em resposta às necessidades de todos e o desenvolvimento genuinamente sustentável. O valor central da economia solidária é o trabalho, o saber e a criatividade humanos e não o capital-dinheiro e sua propriedade sob quaisquer de suas formas. Ao acolher e integrar de uma só vez cada pessoa e toda a coletividade, a economia solidária resgata a dimensão feminina que está ausente da economia centrada no capital e no Estado. Sendo a referência da economia solidária cada sujeito e, ao mesmo tempo, toda a sociedade, concebida também como sujeito, a eficiência não pode limitar-se aos benefícios materiais de um empreendimento, mas se define também como eficiência social, em função da qualidade de vida e da felicidade de seus membros e, ao mesmo tempo, de todo o ecossistema 

A economia solidária é um poderoso instrumento de combate à exclusão social, pois apresenta alternativa viável para a geração de trabalho e renda e para a satisfação direta das necessidades de todos, provando que é possível organizar a produção e a reprodução da sociedade de modo a eliminar as desigualdades materiais e difundir os valores da solidariedade humana. A economia solidária é também um projeto de desenvolvimento integral que visa a sustentabilidade, a justiça econômica e social e a democracia participativa. Assentada em redes de colaboração solidária entre os diferentes setores da sociedade organizada, ela exige o compromisso dos poderes públicos com a democratização do poder, da riqueza e do saber, e estimula a formação de alianças estratégicas entre organizações populares para o exercício pleno e ativo dos direitos e responsabilidades da cidadania, exercendo sua soberania por meio da democracia e da gestão participativa. 

            A organização socioeconômica da economia solidária exige o respeito à autonomia dos empreendimentos e organizações dos trabalhadores, sem a tutela de Estados centralizadores e longe das práticas cooperativas burocratizadas, que suprimem a participação direta dos cidadãos trabalhadores. A economia solidária, em primeiro lugar, exige a responsabilidade dos Estados nacionais pela defesa dos direitos universais dos trabalhadores, que as políticas neoliberais pretendem eliminar. Ademais, preconiza um Estado democraticamente forte, empoderado a partir da própria sociedade e colocado ao serviço dela, transparente e fidedigno, capaz de orquestrar a diversidade que a constitui e de zelar pela justiça social e pela realização dos direitos e das responsabilidades cidadãs de cada um e de todos. Um tal Estado precisa atuar em dois níveis. Por um lado, garante, protege e promove um projeto próprio e democrático de desenvolvimento socioeconômico e humano, construído a partir e com a participação da sociedade civil do nível local e até o nacional; e, por outro, se relaciona de forma cooperativa e solidária com outras nações, promovendo a complementaridade de recursos e interesses, e buscando instituir uma comunidade internacional centrada nos valores da cooperação, da complementaridade, da reciprocidade e da solidariedade. O valor central aqui é a soberania nacional num contexto de interação respeitosa com a soberania de outras nações. O Estado democraticamente forte é capaz de promover, mediante do diálogo com a Sociedade, políticas públicas que fortalecem a democracia participativa, a democratização dos fundos públicos e dos benefícios do desenvolvimento.  

Enfim, nascida sobretudo entre os excluídos dos Estados de bem estar material, sem acesso aos bens produtivos, aos mercados, à tecnologia e ao crédito, a economia solidária revela o potencial de ser um paradigma de outra globalização, que demonstra que outro mundo é possível. Ao mesmo tempo que reconhecemos todas estas capacidades propositivas da economia solidária, entendemos que é necessário unificar esforços e articular ações conjuntas para fazer avançar este projeto. 

            Alguns aspectos tendem a diferenciar as experiências, que se referem à própria relação delas com o modo de produção dominante. Examinemos os mais relevantes, colocando-os como temas para discussão antes e durante o Fórum Social Mundial 2002. 

A questão da propriedade social e a apropriação dos lucros. 

O primeiro é a questão da superação da exploração capitalista do trabalho humano através da apropriação privada dos meios de produzir e dos benefícios gerados pela produção, comercialização e atividades financeiras. A participação social não apenas nos lucros do empreendimento, mas também na propriedade e no controle do mesmo, enquanto o trabalhador está vinculado a ele por meio do seu trabalho, é um fator distintivo dos empreendimentos que compõem um modo alternativo de propriedade ao modo privatista dominante. Em alguns países, como a Colômbia, o Equador e a Nicarágua (durante o governo sandinista), eles chegam a constituir um setor reconhecido da economia nacional, setor de economia solidária ou setor de propriedade social. A história demonstrou que o problema não é apenas a propriedade dos meios de produção, mas também os mecanismos de apropriação de valor na esfera da circulação. 

            Nas diversas culturas existem diferentes formas de organização da produção e da reprodução baseadas em relações de reciprocidade que têm ou não reconhecimento formal do Estado e que se contrapõem igualmente à organização capitalista no que se refere à forma de combinar propriedade e distribuição dos bens materiais. Também há formas de produção comunitária de bens públicos (mutirões para construir casas da comunidade ou infraestruturas, alfabetizar, etc.) 

A questão da autogestão 

O segundo é o modo de gestão. A gestão cooperativa, ou autogestão, ou gestão coletiva e democrática do empreendimento por todos os seus sócios, pelo sistema de cada pessoa um voto, surgiu na Europa no início da industrialização, como forma de superar a oligocracia empresarial dominante. Tem se difundido mais intensamente à medida que o modelo empresarial predominante no capitalismo globalizado passou a gerar desemprego maciço, precarização do trabalho assalariado e enfraquecimento das organizações dos trabalhadores. Mas é preciso cuidar da coerência entre o discurso e a prática. Muitas cooperativas têm surgido a partir da demissão em massa de trabalhadores pelas empresas para em seguida readmiti-los como autônomos ou sócios de uma cooperativa, sem qualquer formação ou consciência e em condições precarizadas. Tais empreendimentos traem os princípios cooperativos e contribuem para facilitar o corte de custos sociais pelas empresas privadas. Mas cooptar estes empreendimentos para a Economia Solidária é possível, se o sistema cooperativo oferecer solidariamente àqueles trabalhadores educação cooperativa e profissional assim como os serviços que antes eram supridos a partir dos encargos sociais. Um desafio relacionado com a construção de redes e cadeias produtivas solidárias. 

A questão da apropriação do tempo liberado de trabalho criado pelo aumento da produtividade 

            O terceiro refere-se à competição exacerbada que a globalização neoliberal tem promovido, a qual obriga todo agente econômico a preocupar-se com a competitividade a ponto de privatizar o tempo de trabalho social que o aumento da produtividade libera, gerando assim mais exploração e mais desemprego. Faz-se necessária a prática da partilha do tempo de trabalho necessário, para que todos possam aceder a trabalhos dignos reconhecidos socialmente para ganhar seu sustento, e todos possam participar ativamente das outras tarefas do desenvolvimento humano. Isto só pode ser viável se se tornar política nacional de governo e, finalmente, do sistema interestatal mundial, de modo que as condições sociais do mercado sejam iguais para todos os agentes econômicos. 

A questão da Socioconomia Solidária como alternativa pós-capitalista de organizar a Sociedade 

            O quarto diz respeito à questão que abre esta nossa contribuição: a economia solidária está orientada apenas a mitigar os problemas sociais gerados pela globalização neoliberal, ou tem a vocação de constituir o fundamento de uma globalização humanizadora, de um desenvolvimento sustentável, socialmente justo e voltado para a satisfação plena das necessidades legitimas de cada um e de todos os cidadãos da Terra? 

Existem os que defendem a primeira posição. Consideram que a economia solidária é um projeto restrito aos sem-emprego, aos que foram excluídos do mercado de trabalho capitalista. Ou que a prática da cooperação deve limitar-se ao interior das empresas. “O cooperativismo tem por objetivo mitigar os efeitos negativos da economia dominante e não se contrapor a ela”, foram palavras de um líder do cooperativismo oficialista internacional. Outros, porém, estão convencidos de que a proposta de uma socioeconomia solidária, ou humanoeconomia, tem o potencial de constituir-se em alternativa pós-capitalista de organização do consumo, da produção, do comércio e das finanças a nível local, nacional e global, substrato de um novo paradigma de valores, de relações e de práxis educativa, cultural e interpessoal. Neste paradigma è fundamental a produção de bens públicos, particularmente a educação e a produção e socialização dos conhecimentos nas suas múltiplas formas. 

Este novo paradigma desponta, relacionando a economia com sua função original, a “gestão da casa”, referida aqui a todas as casas em que habitamos nesta existência, desde o nosso corpo até o planeta Terra, passando pelas comunidades que nos situam, o município, o estado, o país, a macro-região, o continente. O desenvolvimento humano é visto como o objetivo maior da atividade produtiva e criativa. O novo paradigma propõe que a propriedade e a gestão dos bens produtivos sejam atribuídos aos que os trabalham. A dimensão politicamente inovadora deste paradigma está em conceber cada pessoa, cada cidadão ou grupo de cidadãos como o sujeito potencialmente ativo e criativo do seu próprio desenvolvimento. Seu empoderamento econômico, político e cultural passa a ser o objetivo principal dos sistemas de decisão e da atividade educativa, desde a educação básica até a universidade.

As cadeias produtivas e redes reprodutivas se reconstroem, então, fundamentalmente de baixo para cima e de dentro para fora. Os valores da cooperação, do respeito à diversidade, da complementaridade e da solidariedade passam a prevalecer sobre o da competição e do egocentrismo. Um mundo do trabalho emancipado, das necessidades de cada um e de todos sendo continuamente satisfeitas por cada um e por todos, passa a ser possível. A relação com a Natureza deixa de ser marcada pela espoliação irracional e pela destruição, substituídas pelo conhecimento e respeito dos equilíbrios ecológicos e pela responsabilidade intergeracional. O Estado e o sistema mundial interestatal passam a estar subordinados a sociedades organizadas e conscientes dos seus direitos e deveres – transformam-se, enfim, em Estado e sistema político mundial democráticos, dedicados à sublime tarefa de orquestrar a diversidade e zelar pelo bem-estar e felicidade de toda a coletividade. Numa tal ordem de coisas, é possível visualizar a paz, não mais como uma abstração, mas como fruto da justiça e da fraternidade entre os cidadãos e entre povos. 

Propostas para debate

 

1.      Elaborar o conceito de eficiência social, consolidando indicadores não monetários complementares ao PIB, a fim de dar conta da diversidade das formas de atividades econômicas e de riqueza produzida, assim como dos efeitos sociais e ambientais da atividade econômica.

Elaborar o conceito e os indicadores operativos de necessidade e satisfação das necessidades, do sistema de necessidades e de critérios e mecanismos de legitimação das pretensões de satisfação das necessidades particulares.

Elaborar os conceitos de público e privado na transição que estamos vivenciando.

Por razões políticas, em lugar de apurar um consenso nominalista, tratando como sinônimos diferentes denominações, explicitar e diferenciar em profundidade as diversas denominações e propostas de ação que coexistem no amplo espectro de iniciativas com sentido popular e democrático, e que só podem convergir numa estratégia compartilhada se reconhecem nas suas diferenças e se acordam praticamente “modelos”, códigos ou princípios básicos de ação conjunta.

Construir instrumentos metodológicos para medir, avaliar e valorizar as especificidades das empresas da economia social e solidária, relevando as finalidades sociais e ambientais da sua atividade, sua aptidão para utilizar recursos com prudência e sabedoria, seu cuidado com os riscos, seu funcionamento democrático e participativo, a dimensão não monetária do envolvimento de voluntários e usuários nas suas atividades; sua consciência cidadã em relação ao uso de fundos públicos e ao acompanhamento ativo das instituições governamentais.

Consumo ético, finanças solidárias, comércio justo de bens e serviços, agricultura sustentável, produção associativa, comércio eqüitativo e solidário, gestão participativa do habitat urbano, diálogos interculturais, sistemas de trocas solidárias, são algumas das tentativas concretas de responder coletiva e criativamente às necessidades criadas pela globalização neoliberal. Analisar, sistematizar e divulgar as lições destas práticas de Economia Solidária e promover sua interação e articulação em redes, com vistas a construir uma alternativa ao atual modelo de desenvolvimento.

Reconsiderar a cooperação internacional a partir do paradigma da solidariedade Sul-Sul, Norte-Sul, Oriente-Ocidente, consumidores-produtores, trabalhadores-empreendedores, em lugar da mera ajuda financeira ou técnica.

Introduzir critérios éticos na atividade econômica, relacionados aos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais dos cidadãos e da nação. Adotar códigos de conduta que garantam a justa implementação daqueles critérios na prática dos empreendimentos, sejam eles sociais, privados ou públicos. Estudar e comparar as diversas formas de expressão e de efetivação desses critérios nas diversas culturas e marcos jurídico-normativos.

 Consolidar e difundir as práticas bem sucedidas, substituindo as tentativas de modelização e transplante por processos de aprendizagem coletiva de lições adequadas a cada cultura e situação histórica concreta, úteis para construir sistemas orgânicos de consumo, produção e distribuição sustentáveis entre os diferentes componentes da Economia Solidária no plano local, nacional e internacional.

Desenvolver espaços e instrumentos para a articulação territorial entre os diversos componentes da Economia Solidária, de modo que as ações sejam complementares e fortaleçam as unidades econômicas autogestionárias.

Articular as diferentes formas e setores da Economia Popular, do nível local ao global, construindo e reforçando as redes de colaboração solidária que facilitam a interação dos diversos atores a fim de que se vejam uns aos outros como atores coletivos, que participam do desenvolvimento socioeconômico de territórios específicos, e como atores da transformação social.

Desenvolver uma visão do sistema socioeconômico composta pela Economia Capitalista, a Economia Pública e a Economia do Trabalho – esta última com um forte núcleo-guia de economia solidária – analisando as contradições e relações dialéticas entre elas, a partir da perspectiva de um longo processo de transição tendente a outro sistema social pós-capitalista.

Criar novas formas de contrato e de financiamento entre a Economia Solidária e os poderes públicos, incluindo mecanismos inovadores para recompensar o trabalho hoje não remunerado.

Exercer pressão sobre as instituições multilaterais e continentais (ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, OIT, etc.) para que integrem a Economia Solidária como um componente indispensável de um desenvolvimento social e humano sustentável e multidimensional. Estabelecer um grupo de pressão sobre essas instituições, em particular o PNUD, para que sua metodologia e seus indicadores de desenvolvimento humano incorporem o grau de associação e de solidariedade dos empreendimentos e das relações sociais de produção.

Promover o desenvolvimento de programas públicos orientados à economia familiar, que incluam as dimensões da solidariedade, do gênero e da classe e sua integração em sistemas de produção e reprodução autônoma do assistencialismo clientelista.

Promover a defesa, extensão e transformação do sistema público de educação, pesquisa e geração de tecnologia, que deve desenvolver efetivamente as capacidades e disposições para a economia solidária e a participação democrática.

Utilizar estratégias de comunicação e informação capazes de fazer conhecer e valorizar a Economia Solidária.

Recuperar a história dos lugares, regiões e nações, fortalecendo suas raízes de identidade encobertas pela colonização e pelo capitalismo, sobretudo em relação a valores e formas de vida comunitária e social preexistentes, superiores à mercantilização capitalista e ao individualismo extremo.

 

            A economia solidária é um movimento de alcance global que nasceu entre os oprimidos e os velhos e novos excluídos, aqueles cujo trabalho não é valorizado pelo mercado capitalista, sem acesso ao capital, às tecnologias e ao crédito. É deles e dos ativistas e promotores da economia solidária que emerge a aspiração e o desejo de um novo paradigma de organização da economia e da sociedade. Reconhecendo o potencial transformador da economia solidária, convidamos a todas as trabalhadoras e trabalhadores do mundo a debater este projeto estratégico no Fórum Social Mundial 2002 e a aliar-se com o fim de fazê-lo avançar na prática.

 

            Durante o FSM-2002 realizaremos dois grandes eventos sobre a Economia Solidária. Uma Conferência, para debater as propostas que constam deste e de outros documentos preparatórios, e um Seminário, cujo título é “Economia Popular Solidária: Alternativa Concreta de Radicalização da Democracia, Desenvolvimento Sustentável, Humano e Solidário”. O convite está feito à mais ampla participação.

 

 

Este texto aproveita as contribuições dos seguintes documentos:

  • “Texto Base para a Economia Solidária – Fórum Social Mundial 2002”.
  • “Construindo a Socioeconomia Solidária do Espaço Local ao Global”, PACS, Série Semeando Socioeconomia, n. 1, Rio de Janeiro, 1998.
  • “Construindo a Rede Brasileira de Socioeconomia Solidária”, PACS, Série Semeando Socioeconomia, n. 4, Rio de Janeiro, 2000.
  • Marcos Arruda, 2001, “A Nova Economia: Transformações no Mundo do Trabalho e seu Futuro”, PACS, Rio de Janeiro
  • Canteiro Economia Solidária do PSES – Polo de Socioeconomia Solidária, “Caderno de Propostas”, Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidário, Assembléia Mundial de Lille, dezembro 2001.
  • José Luis Coraggio, 2001, “Problematizando la economía solidaria y la globalización alternativa”, presentación en el II Encuentro Internacional sobre Globalización de la Solidaridad, Québec, 9-12 octubre 2001 (http://www.fronesis.org/jlc/QuebecJLC.doc)
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