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O Repórter Policial e a sua
 Imagem da Violência e da Ação Policial
[1]
 

Theóphilos Rifiotis (Prof. Departamento de Antropologia/UFSC)
Lúcia Lemos Dias (Mestre em Serviço Social/CDH/UFPB)
Maria de Nazaré Tavares Zenaide (Profa. Departamento de Serviço Social/CDH/UFPB)
Mônica Cristina de Carvalho (Graduada em Comunicação Social/UFPB)
Ana Cristina Moura Ramos (Graduada em Comunicação Social/UFPB)
Tatiana Learth Junqueira (Graduada em Comunicação Social/UFPB)

 

1.  APRESENTAÇÃO 

A presente pesquisa foi realizada com repórteres e editores da área policial dos jornais O Norte, Correio da Paraíba e União da Estado da Paraíba, no ano de 1997, como parte de um trabalho mais amplo sobre a produção do discurso da imprensa escrita no âmbio da violência[2].

Nesta pesquisa foi utilizado como instrumento de coleta de dados a entrevista semi-estruturada, realizada pelos profissionais da área de Comunicação Social que integram a equipe de pesquisa responsável pelo texto apresentado neste Congresso[3].  Como procedimento de análise do material coletado, utilizou-se os fundamentos da análise do discurso com referencial geral, buscando com esta aprender na fala dos jornalistas entrevistados, o conteúdo e seus significados, referentes a sua auto-imagem profissional, a violência, a ação policial e as políticas públicas de segurança e justiça. 

Nesta pesquisa foi utilizado como instrumento de coleta de dados a entrevista semi-estruturada, realizada pelos profissionais da área de Comunicação Social que integram a equipe de pesquisa responsável pelo texto apresentado neste Congresso[4].  Como procedimento de análise do material coletado, utilizou-se os fundamentos da análise do discurso com referencial geral, buscando com esta aprender na fala dos jornalistas entrevistados, o conteúdo e seus significados, referentes a sua auto-imagem profissional, a violência, a ação policial e as políticas públicas de segurança e justiça. 

Foram entrevistados, três editores e três repórteres policiais, todos do sexo masculino, faixa etária entre 30 e 50 anos. Com relação a formação universitária,   apenas dois  editores tem nível superior, os demais não completaram o terceiro grau. Com relação ao tempo de serviço no jornalismo, a maioria tem cerca de 15 a 30 anos. Apenas um  tem menos de um ano.

Tomamos como ponto de partida a imagem da violência e da ação policial da figura emblemática nesta área:  o repórter policial.  Trata-se de um personagem central, juntamente com os editores, na produção e divulgação das matérias sobre violência[5].  É geralmente aceito que a mídia tem um papel destacado na produção de uma cultura específica sobre a violência e a segurança, associada a uma homogeneização das suas múltiplas e diferentes manifestações (SOARES: 17, 1995).  Porém pouco se conhece dos agentes que produzem as notícias veiculas pela mídia, sobretudo sobre os valores e juízos que formam uma espécie de matriz em torno da qual criam a sua leitura dos fatos que divulgam e analisam[6].  Entendemos que salvo raros trabalhos sobre a produção da notícia sobre violência (GOMEZ, 1996), pouco conhecemos também sobre a outra ponta do deste processo qual seja a recepção, seja ele leitor ou telespectador, pois no mais das vezes a atenção dos pesquisadores volta-se para o texto produzido. 

Destacamos, finalmente, que é através das páginas policiais que, diariamente, os jornais divulgam e comentam fatos e práticas sociais de violência, contribuindo para a produção e reprodução do chamado senso comum.  Seguindo a orientação teórica de Umberto Eco relativa a noção de cooperação textual (ECO, 1986), entendemos que o repórter policial dialoga com o leitor imaginado por ele durante o processo de escrita, estabelecendo uma interlocução entre o profissional e o público leitor.  Através deste diálogo imaginado, produz-se um texto que ao mesmo tempo prevê e provê um leitor-modelo com o qual são trocados valores e juízos[7]. 

2.  IMAGENS DA IDENTIDADE E PRÁTICA PROFISSIONAL DO REPÓRTER E EDITOR POLICIAL 

A inserção na profissão de jornalista da área policial, via de regra, se dá, segundo os entrevistados, “por acaso”, não sendo necessário ser portador de Curso de Comunicação

Social ou de Jornalismo para ingressar como profissional na área.  Observou-se que a falta de formação específica de alguns jornalistas foi motivo de explicações e justificativas durante as entrevistas, constituindo-se um problema para eles.  Um dos entrevistados refere-se assim a esta questão:

“Inicialmente quando cheguei no jornal, vim à procura de um trabalho, poderia ser qualquer trabalho... eu vim, e de repente no jornal, justamente, no setor policial tinha sido demitido dois funcionários, o editor policial e o repórter... fiz um teste, e sem ser formado em jornalismo, com outros, até da Universidade, e, eu fiquei no jornal.” 

A atuação de repórter policial é tida como uma espécie de “desafio” para o ingresso do profissional de jornalismo.  Para alguns ela constitui uma espécie de ritual de iniciação, como a passagem de auxiliar de reportagem para repórter policial, ou como afirma um dos entrevistados:  

“Todo repórter começava pela área policial.  Era o primeiro teste de fogo”.

Embora a área policial se apresente nas falas como porta de entrada para alguns profissionais que ingressaram na área jornalística, alega-se que a permanência na área é opcional, apesar de ser “muito discriminada” entre os próprios jornalistas.   Parece haver uma espécie de identidade dos jornalistas da área policial que os diferencia das outras áreas, destacando-se a “coragem” para estar no lugar dos fatos, para denunciar atos arbitrários da polícia e da justiça, conviver com a polícia[8], ter uma rede própria de informações é a característica mais salientada juntamente com a “missão” de informar.

As fontes de informação são tidas como pessoais e intransferíveis, parece uma espécie de patrimônio acumulado pelos anos de experiência e convívio.  Trata-se de uma rede de informantes dentro das polícias[9], no sistema justiciário, no Instituto Médico Legal, mas também nos hospitais.  É uma atividade descrita pelos entrevistados como dependente das relações pessoais, pois afinal não há uma pauta, apenas indicações, a “boa matéria” vem no “quente” do dia, ou da noite, para ser divulgada no dia seguinte.

Associa-se a relevância profissional do repórter policial, inclusive ressaltando o seu destaque frente aos repórteres de outras áreas, a um crescimento da violência no país, atingindo um amplo espectro de leitores, da classe “A” até “Z”, segundo um dos entrevistados.  Por outro lado, admite-se que o enfoque jornalístico da matéria policial deve ser melhorada, inclusive a exemplo do que aconteceu com os demais setores do jornalismo, a partir da inserção de novos profissionais que passaram por um curso de nível superior da área de comunicação, o que seria fonte da discriminação entre os profissionais da imprensa, conforme assinalado abaixo:

" todos os setores foram arejados, menos polícia.  Polícia continua com uma cobertura unilateral, muito porta de cadeia, sem muito aprofundamento, sem se ver muito o outro lado da questão, sem ver as razões da criminalidade.  Em alguns casos, registra-se que há um certo preconceito sobre a matéria policial, alegando-se que algumas pessoas de nível social mais elevado, preferem negar que são leitores de matérias da área policial.”

O mesmo entrevista continua o seu argumento assinalando um fato muito significativo que marca a posição do repórter policial:

“Nesse sentido, constata-se que o ‘estigma anti-social’, que a sociedade tem da profissão, deve-se a prática de alguns profissionais, que são considerados ‘maus repórteres’, uns toqueiros, como se diz.  Não podem ver dez reais que eles mudam uma notícia, a verdadeira versão da matéria”.

Apesar dessa constatação, procura-se mostrar que a atividade de repórter policial não deixa de ter a sua importância e que há “bons” e “maus” jornalistas.  Encontramos nas entrevistas uma recorrência no que se refere a afirmação da importância do jornalista desta e sua equiparação com os de outras áreas tais como: coluna social, esporte, etc.  A relevância dos repórteres da área policial associa-se à “coragem” destes profissionais, que são responsáveis pelo detalhamento de informações acerca de “casos bárbaros”, acrescentando-se que o leitor por mais interesse que tenha sobre casos dessa natureza, tem “medo” de buscar informações de forma direta.  Nas entrevistas encontramos referências a repórteres que foram presos e mesmo baleados, mostrando a dificuldade de atuar nesta área. Vejamos a seguir:

“(...) o repórter policial tem a função de colher detalhadamente um fato, que para muita gente é chocante e as pessoas querem saber, mas não tem coragem nem de ir ver (...)” 

O desafio posto para esse repórter é bem maior do que para os demais profissionais da comunicação, uma vez que lidam permanentemente com duas categorias que estão permanentemente em conflito: a polícia e os bandidos.  O criminoso e o policial seriam “faces de uma mesma moeda”, uma espécie de “parte maldita” da sociedade, cuja existência seria negada por sua estreita ligação com o campo da violência. 

No que se refere ao perfil do repórter policial, constata-se que assim como a versão jornalística da ocorrência de uma prática de violência é limitada à ação policial, o repórter policial retrata o seu perfil profissional como se este fosse semelhante ao perfil de um agente de polícia.  Essa constatação é feita a partir da fala de jornalistas que concebem a profissão de repórter policial, “praticamente como uma cópia de um policial”, aliás, informalmente, eles mesmos referem-se às vezes à sua área com “policial”, omitindo a palavra “repórter” ou “área”.  Entendemos que ele, em princípio, este tipo de jornalismo poderia ser qualificado, por exemplo, com “segurança” e “segurança e justiça”, “criminal”, etc. 

Analisando o material coletado, pareceu-nos significativa a associação com o termo “policial”, e que talvez ela fosse uma marca de aproximação deste ramo do jornalismo com uma espécie de cultura policial, sobretudo a atuação investigativa da Polícia Civil, ou seja, a busca de informações, as fontes, as redes, talvez algo como uma “lei do segredo” no desenvolvimento da investigação.  Por outro lado, foram constantes as reclamações de baixos salários nas polícias, a falta de equipamentos, de informatização, etc.  Reclamos como estes, meses após a realização da nossa pesquisa, foram feitos pelos próprios agentes de segurança da Polícia Civil e da Polícia Militar, que tornaram públicos os reclamos e bandeiras defendidas pelos repórteres entrevistados, através de manifestações na rua e greves em várias partes do país.  Portanto, acreditamos que a aproximação do repórter policial a uma cultura policial mereceria um estudo mais específico.

Concretamente, a identidade profissional do repórter policial encontrada nas entrevistas decorre da proximidade do espaço físico de atuação, vejamos a seguir:

“(...)porque você está numa delegacia, num presídio. Quer dizer, você está em locais onde quem geralmente está é a polícia... o repórter policial está junto de policiais em geral, civil, militar e federal, onde tem crime o repórter está junto. Então em função da proximidade, a gente sempre é repórter policial”.

A denominação profissional “repórter policial”, além de ser justificada pela convivência do repórter no espaço físico da área policial, também se justifica, por ser a própria polícia a fonte de informação para o profissional da área:

“É porque nós convivemos dentro da polícia... veio esse nome porque as fontes nós temos dentro da polícia, isso vem de muitos e muitos tempos. Desde que você lê jornal, da década de 50, por exemplo, você já vê: repórter policial. Eu nunca procurei saber, mas eu acredito que seja por isso, pelos fatos acontecerem dentro da polícia”. 

As dificuldades relacionadas ao levantamento de informações acerca de casos de violência, alega-se que são superadas, face as “relações de amizade” estabelecidas pelos profissionais da área com a polícia, e justiça e até mesmo com os hospitais, que também se constituem em fonte de informação.

“... porque na Igreja você não consegue uma reportagem policial, numa Assembléia Legislativa você não consegue uma reportagem policial. Você só consegue dentro da polícia, dentro dos hospitais, IML, são as fontes que a pessoa tendo bom entrosamento, fazendo boas amizades com esse povo, você consegue”. 

3.  IMAGEM DA VIOLÊNCIA 

Os editores e repórteres policiais, ao abordarem os fatores responsáveis pelo violência, destacam como elementos impulsionadores desse fenômeno, os problemas sócio-econômicos, dentre os quais: a pobreza, a miséria, o desemprego, o abandono social, as drogas e o analfabetismo.  Eles reproduzem a recorrente associação entre crime e pobreza, como uma verdade primordial, reafirmando o mito das “classes perigosas”.  É a partir desta verdade que se cria uma espécie de matriz narrativa capaz de gerar diferentes textos sobre os fatos registrados e comentados pelo jornalista, onde os dados concretos devem apenas ocupar posições previamente configuradas na matriz[10].

Nas entrevistas realizadas encontramos as seguintes referências explicativas da violência:

“A miséria leva as pessoas ao desespero, colocar uma faca na cintura ou uma arma, ou então a assaltar um vigilante para pegar a arma dele e praticar assalto, para levar comida para o filho e mulher”.

“A violência urbana é ligada ao analfabetismo, a falta de emprego e o uso da droga. Quanto mais a polícia combate mais aparece”.

“A cada dia aumenta mais a onda de furtos e roubos com a falta de empregos. 90% das ocorrências policiais é causada pelo desemprego”.

“ a violência começa com a criança abandonada, fora da sala de aula (...) as crianças      vão crescendo e agente ver nas ruas elas praticando a violência”

Os repórteres, ao persistirem nas suas falas, a relação entre, pobreza, favela e violência, eles delimitam como espaço da violência, o local de moradia da pobreza, reproduzindo esteriótipos e preconceitos.  Multiplicam assim a imagem de que pobreza é sinônimo de violência e que o espaço da pobreza é o espaço do “mal”, fazendo assim uma leitura homogeneizante, generalizadora e naturalizante das experiências sociais concretas:

“A tendência de um jovem que nasce num morro carioca dominado por assaltantes é ser assaltante porque os heróis desses meninos são todos assaltantes”.

Conforme essa fala, nascer no morro, conviver com criminosos, viver abandonado nas ruas qualificam todo e qualquer pobre como criminosos.  O que implica na reprodução e atualização diária de um preconceito como “verdade” pelos agentes dos meios de comunicação.

Essa relação direta entre pobreza e violência, expressa na fala dos repórteres policiais, produz uma imagem por demais limitada acerca do fenômeno, impossibilitando assim, formas diferentes de pensar, interpretar e explicar o complexo “conjunto” de fenômenos designado pelo termo “violência”.  Alías, registramos também que os entrevistados valem-se destes esteriótipos para marcar a exteriodade da violência, associando-a preferencial, senão exclusivamente, com as situações de pobreza:

“(...) o que causa estranheza é um fato como de Brasília, quatro jovens de classe média, bem informados, tocar fogo num cidadão que estava dormindo”; “se você nasce num meio bom, a tendência é de que vai ser bom. Se você nasce num meio mal a tendência é ser mal.  Porque quem nasce na miséria, cresce na miséria, os heróis dele são todos criminosos”.

Na realidade, encontramos também no nosso material referências a consciência de que  a relação entre violência, ou melhor, crime, e a pobreza, é apenas um pressuposto.  No entanto, quando um jornalista afirmou: “prisão de pobre, eu não boto, só de rico”, ele mesmo em seguida decreta uma lei do interesse da notícia:  “virar notícia depende da posição social”.  Em outras palavras, o crime que não estaria associado a pobreza é uma “boa notícia”, porque causa espécie, confirmando pela negativa a relação entendida como essencial:  pobreza-crime. 

A violência enquanto objeto de produção de notícia, é ressaltada pelos agentes da comunicação, como o fator de maior audiência e comercialização nos jornais. Em nome do lucro se justifica práticas sensacionalistas, como pode se observar nos discursos abaixo destacados:

“a violência representa 35 a 50% da importância do jornal, pois as pessoas se interessam e vão comprar”;

“tem que ser um tipo de violência que seja alguma coisa fora do normal que choque a sociedade, que atinja a sociedade, que seja incomum”.

“quando aparece uma chacina, um assalto com morte o pessoal se preocupa e o jornal tem saída”; 

A “boa notícia” é na prática um valor mercadológico.  Pelo material coletado, diríamos que os jornalistas entendem que é indispensável para a sua atividade que ele não se limite exclusivamente ao caráter informativo, uma vez que o fato transformado em notícia deve causar alarme e muitas vezes temor.  Este situação representa ao mesmo tempo um compromisso com a empresa à qual pertence o jornal, mas sobretudo com o leitor que, segundo os jornalistas, tem a sua atenção despertada por um certo tipo de matéria, digamos, mais sensacionalista.  

Portanto, havendo interesse meramente comercial na veiculação da matéria sobre a violência, questiona-se a qualidade do conteúdo da matéria e a falta de interesse de qualificação dos profissionais por parte da empresa.O que não deixa de confirmar, através do depoimento de jornalistas, a existência de regras do mercado da informação sobre a violência, que ainda não estão suficientemente estudadas[11].   

4.  IMAGEM DA PRÁTICA POLICIAL 

Os repórteres e editores policiais apresentam avaliações diferenciadas sobre a ação policial.  No geral, pode-se afirmar que houve proporcionalidade entre opiniões críticas e opiniões legitimadoras da prática policial.  Porém, cabe destacar que as críticas sobre a violência policial, ou melhor, o abuso da força no exercício da ação policial aparecem justificados do seguinte modo:

“O ladrão não confessa o roubo, o furto, sem apanhar.  Ele tem que sofrer um pouquinho de pressão uns bolos, porque eles não confessam. O ladrão profissional – ele chega e já diz logo para não levar bolos.”

“A nossa polícia não está preparada para conseguir uma confissão com calma, com diálogo. Mesmo nos EUA com uma polícia altamente preparada você vê casos de violência e fabricação de testemunhas”. 

O que se confirmaria, segundo o mesmo entrevistado pelo fato que o “ladrão profissional confessar logo, para não apanhar”, enquanto que os “pé-de-chinelo” acaba apanhando.  Além do mais ele nos esclarece que falta preparo para conseguir uma confissão com “calma”, com “diálogo”, ou como afirma um outro:  “o policial bate porque fica no meio da violência”.  Essa espécie de contágio com a criminalidade e a prática da tortura juntamente com os procedimento judiciários da polícia mantém entre si uma certa familiaridade conforme procuramos mostrar a seguir. 

Assim, entendemos que o repórter policial identifica a própria ambiguidade da ação da polícia juduciária que necessita da confissão como elemento de prova para compor o inquérito, o que abre espaço para a prática da tortura que é contrária a lei.  Em outros termos, a busca de provas que comprovem a culpa e portanto permitam a condenação legal são produzidas ilegalmente através da tortura (LIMA, 1995).  Entendemos portanto que a mesma palavra de crítica dos jornalistas entrevistados leva a considerar raízes que estão no âmbito do sistema judiciário e sua base inquisitorial e sobretudo na sempre decantada “falta de meios e de treinamento”.

 Os baixos salários e a má formação dos policiais seriam os fatores que contribuiriam para a produção de ações de violência em contraposição as ações de defesa do cidadão, conforme observa-se nos seguintes trechso das entrevistas:

“O policial é mal formado, ele sai quase que mais para enfrentar a sociedade, e não para defendê-la”;

“Ele come mal, dorme mal, cria mal os filhos, ele sofre com tudo isso. O conjunto de todos essas coisas termina refletindo na ação policial”.

Ao referendar a violência policial praticada no processo de instauração do inquérito policial, a fala dos jornalistas revelam como a violência vem se constituindo num dispositivo, socialmente legitimado, utilizado pela polícia para a extração de dados acusatórios.

As falas que tendem a legitimar a ação policial, quando abordam a violência na prática policial, adjetivam a ação da polícia como pacata ou transfere a existência desta prática para um tempo remoto, ou para outros lugares distantes, a exemplo:

“A polícia aqui ainda é uma polícia calma.Às vezes sai denúncias mas é uma vez na        vida. Agora lá pro sul, aqui para Recife, voce ver todo dia.”

“A polícia tinha uma maneira agressiva de trabalhar, hoje temos as academias que formam o policial. Os comandantes se preocupam em mostrar que estamos num tempo diferente”.

“A polícia tá fazendo o possível.  A de nossa cidade [João Pessoa] ainda é uma das mais pacatas – com todas as dificuldades, é uma das melhores do Brasil(...) a  polícia da Paraíba, tanto a militar quanto a civil é uma polícia pacata. Ainda é uma polícia que dá tapa e soco aquele negócio.Comparando com o Recife, Rio Grande do Norte, São Paulo e Rio , ainda é uma polícia calma”.  

Os repórteres policiais entrevistados ao serem perguntados sobre o papel social das polícias tais como: “prevenir o crime”, “controlar a violência” e “garantir a segurança”, delimitam sua ação para O estado, para o campo da ordem e do controle social:

“O papel da Polícia Militar é o policiamento ostensivo e a prevenção do crime. A Polícia Civil instaura inquérito policial e encaminha o processo à justiça.  A Polícia Federal competem os assuntos do governo federal” .

“A polícia serve para coibir a violência e na medida do possível acabar com a violência”. 

Por outro lado, quando enfatizam que o papel social das polícias na defesa do cidadão, redirecionam a ação policial para o homem, sujeito de direitos e para a sociedade, então a aparecem críticas às instituições:

“A polícia é um órgão que não está preparado para a segurança da população(...) a polícia deveria ser preparada sem precisar bater, espancar, essas coisa”

“O papel da polícia é oferecer segurança ao cidadão que tem seus direitos garantidos na Constituição, mas que infelizmente não são cumpridos(...) não tem condições de canto nenhum viver sem a polícia.Agora voce tem que que ter uma polícia preparada.Infelizmente as pessoas sabem da má qualidade dos policiais”

Quando perguntados sobre a imagem social da polícia, os jornalistas revelam uma imagem negativa, de críticas desconfiança e descrédito.  Como agentes de defesa do cidadão, a polícia está mal posicionada, socialmente a sua imagem seria, segundo os entrevistados, aproximada com a de “bandido”.

“A imagem da polícia está muito desgastada perante a opinião Pública”

“A sociedade jamais convida a polícia para participar de uma festa”;

“A sociedade reclama sem saber porque eles fizeram aquilo. Para não morrerem tiveram que matar.É preciso estar no lugar da polícia”

“A sociedade vê a polícia como um batedor, como um matador, como um assaltante”.

“As pessoas acreditam na polícia desacreditando.  Vão procurar a polícia com medo e receio, porque as pessoas infelizmente sabem da má qualificação dos policiais.  Eu acho que a imagem da polícia é bastante desgastada perante a opinião pública”. 

Quanto ao papel do repórter policial, os mesmos apontam duas direções: uma ação em parceria com o Estado, no sentido da investigação e descoberta de crimes e da divulgação de ação do poder público, e outra ação, articulada à sociedade, voltada para o controle social e a vigilância das ações arbitrárias por parte dos agentes de segurança do Estado.  O que se traduz nas seguintes passagens das entrevistas:

“é através da denúncia que em seguida vem a correção, a punição e a apuração”;

“falar o que a polícia está fazendo para solucionar e colocar os responsáveis na prisão se forem julgados e condenados”;

“divulgar as notícias sem distorções”;

“ A imprensa tem a liberdade de informar, se aconteceu o fato, porque a imprensa se não divulgar, as pessoas não sabem. Ë um direito que ela tem de divulgar (...) é costume das pessoas quererem saber o que aconteceu”. 

“denunciar os atos arbitrários que fazem a polícia e a justiça, uma vigilância constante em defesa da sociedade(...) o repórter policial é como um promotor de justiça, olhando os defeitos , os erros que existem dentro da polícia e da justiça”

Assim, o repórter policial seria uma espécie de detetive auxiliar, e um vigilante da da ação policial para a sociedade.  O que configura mais uma vez a “missão” salientada pelos entrevistados para caracterizar o seu trabalho jornalístico.

5.  CONSIDERAÇÕES GERAIS

O trabalho sobre imagem social realizado com jornalistas da área policial, possibilitou  levantar alguns elementos de percepção desses agentes da notícia, acerca de sua prática profissional, assim como da violência e da prática policial, dentre as quais destaca-se:

A prática de repórter policial, exige uma aproximação  direta do jornalista com fatos e pessoas em situação de violência, bem como a prática dos agentes da área de segurança pública. Esta aproximação produz uma relação de identidade entre os repórteres e a prática policial. Essa constatação, foi observada a partir do código linguístico utilizado pelos repórteres , de perfil profissional, do significado do papel social de sua prática profissional. O que coloca o problema do compartilhamento de valores e juízos entre estes dois segmentos sociais;

O repórter policial apresenta a página policial ou a página que trata de temas da área de segurança , como desafio para o profissional de comunicação. Esse desafio é posto, face a necessidade  de aproximação direta práticas de violência;

A sociedade segundo os repórteres, estigmatizam a página policial. Para eles, por exemplo, os segmentos mais favorecidos economicamente não admitem ler socialmente as páginas policiais. Porém, afirmam que é uma página “obrigatória” para qualquer leitor, independentemente de sua classe social;

Amizade segundo os repórteres, é um  recurso indispensável para a obtenção de dados para produção de matéria policial. Enquanto eles admitem ser possível a obtenção de informação junto a polícia e seus órgãos, o mesmo não acontece junto a entidades da sociedade, exemplo igreja e assembléia legislativa, etc.

Apesar dos repórteres apresentarem  razões sociais  para existência da violência, hegemonicamente verifica-se  que na concepção deles sobre violência, predomina a associação direta entre pobreza e violência. Para eles, espaço de pobreza é espaço de violência.Esse espaço chega a ser visto de forma generalizada, como espaço do “mal”.Com essa leitura, revela-se a inexistência de uma visão mais abrangente das práticas de violência;

Violência para a mídia segundo os repórteres policiais, constitui uma mercadoria valiosa para empresas na área da comunicação. A violência quanto mais anormal e alarmante for, maior seu efeito econômico.Esse dado revela de certo modo, como a cultura da viol6encia vem sendo explorada pelos meios de comunicação muito mais para provocar a curiosidade do que informar e ou ampliar a concepção da sociedade sobre o problema;

Identificado com os policiais, o repórter policial tende de forma mais ampla legitimar a ação da polícia frente a função de segurança, apesar de levantar alguns pontos críticos deste, entre os quais despreparo para o processo investigativo e para a defesa da sociedade;

Os repórteres policiais admite a falta de legitimidade e descrédito da sociedade em relação e a polícia.Segundo eles, a polícia não está preparada para defender o cidadão, embora este devesse ser seu perfil ideal;

Os repórteres policiais concebem a ação preventiva e ostensiva em defesa da ordem, como a ação prepoderante da prática policial.Por outro lado, a ação em defesa do cidadão aparece apenas no plano da intenção o que deveria ser.Essa lwitura segundo eles, é comprovada pela imagem negativa da sociedade frente a polícia. 

6. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 

ADORNO, Sérgio. A Violência na Sociedade Brasileira - Um painel incloncuso em uma democracia não consolidada in: Sociedade e Estado Vol X No. 2, Julho- dezembro 1995 

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. SP, Livraria Matins Fontes 1977 

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Nova Série

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[1]  Trabalho apresentado na Comissão nº 18:  “Violência e Políticas Democráticas de Segurança Pública” do XXI Congresso Latinoamericano de Sociologia (São Paulo, 1 a 5 de setembro 1997).

[2] A noção de violência é complexa e apresenta diversas definições, correspondendo a diferentes concepções teóricas.  Trata-se de um campo extremamente motivado por visões de mundo e sobre o qual persiste uma valorização negativa, que aproxima e identifica violência e crime, além de uma extensão constante do seu campo semântico (RIFIOTIS, 1997).

[3]  O objetivo mais amplo deste pesquisa é investigar a imagem dos agentes da área de comunicação social sobre a violência e a ação policial.  Dada a extensão do trabalho proposto, formamos uma equipe interdisciplinar de pesquisadores (antropólogo, assistente social, psicologia e comunicação social) da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal da Paraíba, com atuação e interesse pela defesa e promoção da cidadania no Brasil.

[4]  O objetivo mais amplo deste pesquisa é investigar a imagem dos agentes da área de comunicação social sobre a violência e a ação policial.  Dada a extensão do trabalho proposto, formamos uma equipe interdisciplinar de pesquisadores (antropólogo, assistente social, psicologia e comunicação social) da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal da Paraíba, com atuação e interesse pela defesa e promoção da cidadania no Brasil.

[5]  Na realidade, para além da imprensa escrita devemos ter presente que numa próxima etapa da pesquisa deveremos trabalhar com o rádio e, sobretudo, com a televisão.  Conforme assinala Hélio Bicudo (BICUDO: 43, 1994): “(...)o papel da mídia na problemática a violência pode ser verificado no jornalismo policial, que vem se esprainando no rádio e na televisão, mas que também ocupa espaço apreciável nos jornais diários, em especial nos de maior circulação”.

[6]  Destaca-se aqui que para além da chamada objetividade jornalística encontramo-nos num processo de expansão da “notícia de criação”, um produto híbrido do texto estritamente informativo com o interpretativo.  O que reforça a necessidade de um estudo mais direto junto aos produtores de notícias que neste tipo de texto híbrido trocam, às vezes, “(...)o empenho da verdade pelo da verossimilhança(...)” (SODRÉ: 212, 1996).

[7]  Baseado no conceito de texto de U.Eco, um dos autores deste trabalho está preparando uma pesquisa sobre o leitor-modelo da denúncia de violência policial a partir do caso da Favela Naval (Diadema, São Paulo).

[8]  Um dos entrevistados afirma que há jornalistas que acompanham inclusive os interrogatórios, e que haveria mesmo casos de repórteres que presenciam ações de tortura, e até mesmo colaboravam no espancamento de acusados.  Este mesmo entrevistado, contraditoriamente, afirmou em tom categórico que se “baterem na frente dele, ele denuncia”, e esclarece que havia em João Pessoa o “hábito de bater” na frente dos repórteres.

[9]  Uma das fontes era o COPOM que comunicava aos jornalistas matérias “interessantes” a partir dos chamados para o telefone de emergência, o 190.  Esta comunicação foi proibida pelo Comando da Polícia Militar da Paraíba no dia 1o de fevereiro de 1997.  É interessante destacar que esta proibição foi criticada na imprensa como sendo uma restrição à informação.

[10]   Em trabalhos de análise de texto jornalisticos que estamos desenvolvendo, pudemos identificar este tipo de matriz, que, teoricamente, encontra-se fundamentada por Teun A. Van Dijk (van Dijk, 1996).

[11]  Referimo-nos aqui ao polêmico texto de Nilo Batista  (BATISTA, 1994) sobre os “sete princípios da da cobertura policial jornalística”.  Na continuidade da nossa pesquisa com os repórteres policiais da Paraíba, pretendemos verificar se os “princípios” identificados são correlatos a categorias nativas que estruturam a prática jornalítica nesta área.

 

 
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