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Raimundo Ubirajara de Macedo

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No Outono da Memória
O Jornalista Ubirajara Macedo Conta a História da Sua Vida
Nelson Patriota, 2010

17. Evocação de Conservatória

Minhas afinidades musicais me fizeram desenvolver desde cedo uma sensibilidade especial para tudo que dissesse respeito à música, sobretudo quando ela responde pela sigla de MPB – música popular brasileira. As letras poéticas e inteligentes de uma Dolores Duran, de um Vinicius de Moraes ou de um Chico Buarque, sempre fazem vibrar dentro de mim uma nota especialmente harmônica.

Nada do que diz respeito à música me é estranho. Por isso, um dia eu teria que descobrir a vila de Conservatória, num ponto em que o estado do Rio de Janeiro faz divisa com Minas Gerais. Na época em que visitei essa vila pela primeira, em 2001, ali viviam pouco mais de quatro mil habitantes que tinham, em comum, o fato de serem todos musicais em alto grau. É uma musicalidade que se expressa nos nomes das ruas da cidade, sempre homenageando um compositor ou uma canção.

Até os estabelecimentos comerciais mais comuns em qualquer cidade, como uma padaria ou uma farmácia, ganham nomes musicais em Conservatória. Assim, ao invés, por exemplo, de nomear uma farmácia com nome de santa ou de santo, lá o seu proprietário prefere atribuir-lhe o nome de uma canção. Farmácia Caminhemos, por exemplo, ou Restaurante Dó-ré-mi, Padaria Lua Branca...

Não admira, então, que o principal lazer dos conservatorianos seja ouvir música. Isso eu pude constatar nas duas vezes em que visitei sua vila. É comum se verem, à noite, seresteiros passeando pelas ruas da cidade cantando canções de Caymmi, de Cartola, Lupicínio, Chico, Tom e outros criadores da canção brasileira.

À medida que a seresta avança cidade adentro, as pessoas vão se juntando ao grupo de músicos e cantores, cantando com eles. Embora os gêneros musicais variem, as pessoas sempre conhecem as letras das canções.

Essa hiper musicalidade dos conservatorianos já pode ser conferida também no Museu da Seresta, localizado no Centro. A iniciativa foi do advogado carioca José Borges, já falecido, cujo irmão, Joubert, vem dando continuidade ao seu trabalho, passando seus fins de semana em Conservatória, razão por que é um dos responsáveis pela tradição musical de Conservatória. A obra de José Borges também lhe valeu o reconhecimento público, como se pode depreender da estátua dele que foi mandada erigir na praça principal da cidade.

No Museu da Seresta, em vez de objetos antigos ou históricos, o que o visitante vai ter é o prazer de ouvir canções de diversas épocas, estilos e regiões do país. O visitante pode ainda pesquisar nos seus arquivos estilos, gêneros e compositores brasileiros de todas as épocas.

Além da música, duas coisas chamam a atenção em Conservatória: é uma cidade tranquila e sem desempregados. Será que a música não tem algo a ver com essa situação tão atípica na realidade social do Brasil? Resta investigar...

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