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Militantes Reprimidos no Rio Grande do Norte
Mailde Pinto Ferreira Galvão
Livros e Publicações

1964. Aconteceu em Abril
Mailde Pinto Galvão
Edições Clima 1994

Novas prisões

As prisões efetuadas pelo Exército foram marcadas pelo aparato militar exagerado, com exibição ostensiva de armas e encenação de manobras, como isolamento de quarteirões, cerco e invasão de residências. Amedrontavam as famílias e levavam o perseguido sem explicações sobre o seu destino.

Nas entrevistas com alguns companheiros, falamos sobre as nossas experiências, procurei apenas os mais íntimos respeitando-lhes as emoções. Assim é que as informações limitam-se às lembranças de alguns momentos vividos nas prisões e nas tentativas de fuga.


EVLIM MEDEIROS
(Advogado e ex-Presidente do Comando Estadual dos Trabalhadores do Rio Grande do Norte)

O advogado Evlim Medeiros era membro do Partido Comunista Brasileiro, dirigente do Comando Estadual dos Trabalhadores do Rio Grande do Norte e foi o primeiro a ser preso no Estado pela ditadura militar de 1964. Sua prisão foi efetuada na noite de 1° de abril, por ocasião da invasão pelo Exército na Prefeitura de Natal.

No relatório do delegado Carlos Veras, foi acusado de pertencer ao Partido Comunista,

“contribuir para o partido com a importância de cinquenta cruzeiros mensais e haver disputado a eleição para deputado estadual sob a legenda do Partido Republicano, apoiado não só pelo Partido como por várias organizações sindicais.”

Após vários meses de prisão nos cárceres do 16° RI, conseguiu habeas-corpus, concedido pelo Supremo Tribunal Federal, requerido pelo deputado federal Joaquim Inácio de Carvalho Neto.


HÉLIO XAVIER DE VASCONCELOS
(Advogado, Professor de Direito da UFRN, Presidente do Conselho Regional da Ordem do Advogados do Brasil)

O advogado e ex-líder estudantil Hélio Xavier de Vasconcelos encontrava-se em vésperas de mudança para o Rio de Janeiro e era hóspede de uma família na rua Gonçalves Ledo. No momento da prisão, ouvia um noticiário político transmitido através de um rádio, na voz do jornalista Adalberto Rodrigues, que ameaçava, entusiasmado: “Falta ainda muita gente para ser presa ! Tem muita gente solta !” (sic) Infelizmente, foi semelhante a este o comportamento de muitas pessoas no Rio Grande do Norte.

Hélio foi avisado pela empregada da casa que um oficial do Exército queria lhe falar e que a residência encontrava-se cercada por soldados. Estando no primeiro andar, foi até a janela e viu o quarteirão até a esquina cercado por soldados armados com fuzis e metralhadoras, curiosas nas calçadas e um jipe à sua espera. Apesar de todo o aparato militar, o tenente Ronald foi excepcionalmente gentil ao prendê-lo e o fez como um convite para depor aconselhando, no entanto, a levar a escova de dentes...

O tenente procurou pelos livros que possuía. Estavam guardados na residência do Sr. José Bessa, pai do estudante Danilo Bessa, que era, igualmente, procurado. Hélio respondeu que os livros estavam em casa de um tio, já falecido. Deslocaram-se à casa do tio que, em vida, fora farmacêutico e, na sua biblioteca, encontraram apenas livros sobre medicina, farmácia e uns poucos de literatura, entre os quais, um de capa vermelha intitulado “Vingança Não”, que foi levado. Os militares suspeitavam dos livros de capa vermelha...

Hélio Vasconcelos consegue descrever a prisão com ironia bem-humorada. Conta que, chegando ao quartel do Regimento de Obuses (RO) e entrando em uma cela especial localizada dentro do alojamento transformado em prisão, encontrou já prisioneiros. Luiz Gonzaga dos Santos, Luiz Maranhão Filho, o funcionário “Bual”, da Rede Ferroviária, e José Macedo, ex-tesoureiro do então Departamento de Correios e Telégrafos, que já fora preso em 1935, como participante da intentona comunista. Hélio, ainda atordoado pelo que lhe acontecia, perguntou: “José Macedo, você, que foi prisioneiro político, diga-me como foi o tratamento?” Resposta: Indescritível! Diante da enigmáticas respostas. Hélio deitou-se na cama, cobriu-se com um lençol e desistiu de procurar saber o que o esperava.

O tratamento recebido pelos presos do Regimento de Obuses era, no geral, menos repressivo que o empregado no 16° Regimento de Infantaria. Lá, a presença ostensiva do Capitão Ênio Lacerda deixava sob tensão permanente os ocupantes das prisões. Certa vez, Hélio teve a surpresa de ver, entre os livros que chegavam apreendidos e que se encontravam no corredor de entrada de sua cela, um que ele mesmo havia oferecido a Omar Pimenta, com dedicatória exposta, em página virada, onde se lia: “Para o professor Omar Pimenta, para que faça da cidade de Natal o mundo do socialismo.” O livro era “O Mundo do Socialismo”, de Caio Prado Júnior.

No dia seguinte, chegou preso ao RO o professor Omar Pimenta. Tentaram transformar o encontro em gozação para se distraírem e manterem o equilíbrio emocional na comunicação entre os presos. Hélio considera que a maior presença no quartel era a do professor Luiz Maranhão Filho. Entre todos era o único comunista atuante e assumido. Mantendo-se com altivez e força moral. Luiz distraía os presos relatando suas experiências em viagens e nos embates da vida. Entre outras lembranças de Luiz, Hélio fala de um momento de tensão entre os presos quando iniciaram uma discussão. O professor aproximou-se e falou para todos, com muita calma: “Companheiros, lembrem-se que o nosso inimigo estão lá do lado de fora, não está aqui dentro !” Repetiu a afirmação e os presos exaltados contiveram-se, voltaram às camas e ficaram em silêncio.

Hélio foi terrivelmente pressionado nos depoimentos e vítima da técnica da intriga usada pelos delegados Veras e Domingos, que tentavam jogar os presos uns contra os outros para conseguirem delegações e confissões, mesmo que fossem falsas. A justificativa para a prisão era haver exercido liderança estudantil, pertencer ao Centro de Cultura Popular do Rio Grande do Norte e proferir palestras nos sindicatos.

O primeiro habeas-corpus concedido no Estado foi para ele, logo no mês de agosto e requerido por orientação de um parente militar e pertencente ao Superior Tribunal Militar. A ordem de soltura foi, rapidamente, divulgada entre os demais presos, causando natural euforia.

Num anoitecer de agosto, o tenente Roosevelt, assessor do capitão Lacerda, chegou ao quartel da Polícia Militar, para onde havia sido transferido Hélio, a fim de prestar depoimentos com o delegado Veras, ali instalado. O tenente chamou-o e disse: “Há uma ordem de habeas-corpus para o Sr.” e entregou a ordem de soltura para assinar. Confiante e aliviado, assinou o recibo e pediu para telefonar chamando um táxi. O tenente respondeu, sorrindo: “Não precisa. O Sr. vai andando e encontra um táxi logo ali”, e apontou para a saída do quartel. Hélio saiu apressado, com sua maleta de roupa e um travesseiro, luxo permitido apenas no quartel da Polícia Militar. Caminhou até o portão de saída do quartel, deu mais alguns passos e se deparou com um jipe do Exército de onde saiam dois brutamontes e uma voz que dizia: “Eu tenho uma nova ordem de prisão com o Sr.” A voz era a do coronel João José Pinheiro da Veiga, que demonstrava nervosismo como se fosse a vítima. Hélio, muito surpreso, entrou no jipe e foi levado para o quartel do RO, onde já havia passado alguns meses, antes de ser transferido para o quartel da Polícia Militar. Ao entrar no alojamento-prisão alvoroçou todos os presos. Omar Pimenta, com ironia e decepção, perguntou: “Mestre, o que é isso?” Hélio respondeu, irritadíssimo: “É habeas-corpus, em que dá...”

A reação dos demais presos foi de tristeza e revolta pelo não cumprimento e desrespeito à instituição do habeas-corpus e por sentirem que lhes eram tiradas as esperanças e perspectivas de liberdade.

Na entrevista Hélio lembrou, com emoção, os companheiros torturados fisicamente no quartel do Regimento de Obuses: Luiz Maranhão Filho, João Doca Filho, Geraldo Mafra e Valter Nascimento.

Hélio continuou preso no RO até o dia 18 de fevereiro de 1965, quando foi libertado por um novo habeas-corpus, mais de cinco meses após a sua segunda prisão.


OMAR FERNANDES PIMENTA
(Advogado, ex-Diretor do Ensino Municipal, ex-Chefe de Gabinete da Secretaria Municipal de Educação e Assessor Técnico da Secretaria de Educação do Estado)

No dia 10 de abril, ainda exercendo funções na Diretoria do Ensino Municipal, o professor Omar Fernandes Pimenta foi preso por um comando do Exército, no próprio local de trabalho e levado para o quartel do Regimento de Obuses. Foi ele o primeiro técnico da equipe a ser encarcerado.

Sua prisão e a forma ostensiva como foi efetuada assustou-nos muito. Todas as prisões deixaram marcas profundas nas famílias; a de Omar foi, simplesmente, destruidora. Albaniza, sua esposa, sustentou firmemente a luta em defesa do marido e dos filhos menores, suportou humilhações e dificuldades econômicas, resistiu até à libertação, mas sucumbiu ao esgotamento emocional e hoje apenas sobrevive. De toda a equipe de trabalho, Omar era o mais alegre. Descobria e evidenciava o aspecto engraçado de nossos apuros e conseguia superar, facilmente, as “explosões temperamentais” de Djalma, que não admitia erros ou omissões na execução dos trabalhos.

Na prisão, Omar conheceu a tortura e sadismo de alguns militares. Certa noite escura, levaram-no do local onde se encontrava na prisão para uma cela de castigo, diante do quartel, onde o largaram, sem espaço para deitar, permanecendo de pé até a madrugada, quando vieram buscá-lo. A escuridão era completa; era possível ouvir o mar, mas não sabia onde se encontrava.

Nas noites de 1964, muitas coisas aconteceram nos quartéis de Natal que não queremos lembrar.

Omar falou do episódio pela primeira vez vinte e oito anos depois, com a amargura e a ironia de quem conheceu a tortura e o desprezo pela dignidade humana. Sobre os interrogatórios Omar guarda silêncio. Recebeu habeas-corpus que, igualmente, não foi cumprido. Libertaram-no e o prenderam, em seguida; disse que teve liberdade para caminhar apenas dez metros, sendo recolhido novamente por soldados armados que já se encontravam num jipe, à sua espera. O ritual foi o mesmo vivido por Hélio Vasconcelos. Conta que voltou à cela irritadíssimo, repetindo para os colegas que os militares brincaram de liberdade com ele. Por sorte sua, tiveram que libertá-lo três dias depois, como consequência da chegada a Natal do general Ernesto Geisel, que viajava em inspeção às regiões militares, a fim de apurar denúncias de não cumprimento de habeas-corpus expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. Omar voltou, então, para casa.


GENIBERTO DE PAIVA CAMPOS
(Médico cardiologista, ex-professor da Universidade de Brasília)

Geniberto despertou na manhã de 1° de abril com as notícias do agravamento da crise política nacional e ouviu perplexo, pelo rádio, a informação de que tropas militares já haviam se deslocado de Minas Gerais, com destino ao Rio de Janeiro. Sofreu, então, o que considera “um impacto emocional”.

Com apenas vinte e dois anos de idade, não possuía, ainda a perspectiva histórica em profundidade para compreender aquele momento da vida política brasileira. Dirigiu-se à residência do professor Moacyr de Góes, onde encontrou, de passagem, o prefeito Djalma Maranhão, com quem saiu de carro, tentando analisar os acontecimentos e situar-se na nova realidade; nos anos sessenta não existia ainda a integração nacional através de noticiários, como ocorre hoje, via televisão.

Na condição de líder estudantil, ajudou a organizar, no mesmo dia, uma assembleia de estudantes universitários, que se realizou na mesma sede do Diretório Central de Estudantes. Nela procuravam avaliar a crise nacional. Faziam pronunciamentos e manifestações em defesa da democracia e do presidente João Goulart quando foram surpreendidos pela invasão e ocupação militar do DCE, comandada pelo então major Estevão Mosca. A ocupação foi pacífica, embora o universitário Abelírio Rocha, desafiando baionetas e metralhadoras, tenha subido em uma mesa para lançar o seu protesto. Os colegas conseguiram, rapidamente, imobilizá-lo, retiraram-no e saíram sem outros incidentes.

Com a intervenção do DCE, as lideranças estudantis dispersaram-se e procuraram se proteger, sumindo de circulação por algum tempo.

Além da liderança estudantil, Geniberto exercia o cargo de Diretor do Ginásio Municipal e era integrado à campanha “De Pé no Chão Também se Aprende a Ler”. Após um pequeno retiro em uma fazenda, voltou às suas atividades de aluno da Faculdade de Medicina, de onde foi levado para a prisão do 16° Regime de Infantaria, no dia 14 de abril.

Chegando cedo à prisão, foi submetido a longo interrogatório que durou até a noite, quando deram-lhe uma refeição, um colchão e uma coberta para dormir no chão de uma cela. Na mesma noite foi, novamente, levado para outro interrogatório, quando o submeteram a impiedosa tortura psicológica e aplicaram-lhe a técnica nazista denominada “boite”, que consistia em mantê-lo, por mais de duas horas, em uma pequena sala escura, sob uma forte luz contra o rosto e intenso interrogatório. Geniberto permaneceu nas celas dos quartéis por mais de oito meses, suportando as humilhações e constrangimentos impostos em 1964.

Até hoje sofre dificuldades com ambientes fortemente iluminados.


FRANCISCO FLORIPE GINANI
(Médico coloproctologista, professor da Universidade de Brasília, Chefe de ColoProctologia da UnB. Presidente da Sociedade Brasileira de ColoProctologia)

Aos vinte e dois anos de idade, Ginani cursava o segundo ano da Faculdade de Medicina, era filiado à Juventude Universitária Católica e participava da vida política estudantil, como todos os jovens idealistas e conscientizados de sua geração.

Em 1964, exercia o cargo de chefe de gabinete da Secretaria de Educação do Município assessorando o titular Moacyr de Góes. Nos primeiros dias do golpe militar foi convocado, algumas vezes, para depor com o delegado José Domingos, da Comissão Estadual de Investigações.

Precisamente no dia 22 de abril foi levado, por auxiliares do mesmo delegado, para depor no quartel da Polícia Militar. Encerrado o interrogatório, o escrivão informou-o de que estava preso. Ginani perdeu um ano de estudos, sofreu sete meses de prisão nos quartéis da Polícia Militar e 16° Regimento de Infantaria, foi denunciado pela Auditoria Militar, que julgou os atos de subversão no Rio Grande do Norte, com as acusações de haver participado de reuniões da União Nacional de Estudantes e proferir palestras em sindicatos. Obteve habeas-corpus no final de outubro, foi solto e novamente preso, na saída do quartel do 16° RI, onde uma patrulha já o aguardava. A nova prisão durou mais cinco dias.


JOÃO FAUSTINO FERREIRA NETO
(Pedagogo, Professor da UFRN, Deputado Federal)

O deputado federal João Faustino Ferreira Neto presidia, em 1964, a União Estadual de Estudantes e lutava pelas reivindicações da classe.

Conforme consta de alguns depoimentos e do relatório do delegado Carlos Veras, no dia 1° de abril, convocou uma reunião de universitários para manifestarem apoio ao presidente João Goulart. A reunião realizou-se na sede do Diretório Central de Estudantes e dela participaram Geniberto Campos, José Arruda, Abelírio Rocha, Danilo Bessa, Laly Carneiro e outros, tendo sido interrompida pela invasão das tropas do Exército, comandadas pelo então major Estevão Mosca.

Esteve preso algum tempo no quartel da Polícia Militar, foi denunciado pela Auditoria Militar do Recife e excluído do processo por habeas-corpus, requerido pelo advogado pernambucano Roque de Brito Alves.


JOSÉ ARRUDA FIALHO
(Médico cirurgião)

O médico José Arruda, universitário de apenas 22 anos de idade em 1964, foi mais um jovem a ter a vida interrompida pela violência da ditadura militar.

Politizado e engajado no movimento estudantil desde o curso secundário, Arruda participava das lutas e reivindicações estudantis, reuniões e eventos culturais promovidos pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes, Centro de Cultura Popular de Natal e congressos sobre cultura popular.

No dia 1° de abril, encontrava-se em reunião no Diretório Central de Estudantes (DCE) no momento em que forças do Exército ocuparam o edifício, expulsaram os estudantes e fizeram intervenção Expulsos da sede do DCE, alguns líderes, entre eles Arruda, Francisco Ginani, Geniberto Campos e Danilo Bessa, dirigiram-se à Casa do Estudante para redigirem um manifesto de protesto e em defesa da democracia, quando foram interrompidos pelo presidente do Diretório Estudantil da Faculdade de Direito, Sílvio Procópio, que trazia um recado de Hélio Vasconcelos recomendando a se dispersarem e se protegerem, pois nada restava a fazer; o golpe estava consumado e as tropas nas ruas.

Pode se imaginar o desânimo e o espanto daqueles jovens em luta pelos seus direitos que, de repente, perdiam os sonhos, a esperança e a segurança. O universitário Sílvio Procópio transportou-se às residências dos deputados Djalma Maranhão e José Rocha, onde já eram esperados e de onde foram levados para uma fazenda, distante da cidade. Arruda não viajou; refugiou-se na Faculdade de Medicina, de onde foi retirado pelos médicos Leônidas Ferreira e João Campos, para a residência do primeiro, onde permaneceu uns poucos dias. Voltando a casa e às aulas, foi logo procurado por uma patrulha do Exército, que não conseguiu localizá-lo. Acossado e sem condições de escapar à perseguição da ditadura, apresentou-se ao Quartel-General do Exército, depois ao 16° Regimento de Infantaria, onde esperava ser interrogado e liberado, sendo recolhido à prisão que durou mais de seis meses.

Arruda não sofreu a tortura física maior, mas viveu o drama das constantes ameaças pelos torturadores, que o retiravam da cela nas madrugadas, para força-lo a delatar companheiros, o que nunca aconteceu. Os presos da sua cela, na defesa pela sobrevivência, organizavam estudos de língua, história e literatura; entre eles encontravam-se alguns professores. As distrações dependiam da criatividade de cada um dos acontecimentos do dia. Apesar de pouca idade, Arruda sentia-se forte e em condições de suportar a violência daqueles dias; acha que modificou a própria sensibilidade, fortificando-a para os momentos mais diversos de toda a sua vida. Relatou alguns momentos de maior tensão no 16° RI, quando os companheiros de prisão Valdier, Eurico Reis e Moisés grilo eram torturados fisicamente. Certo dia, no horário de visitas, um sargento empurrou pelas costas o preso Dr. Vulpiano Cavalcanti afastando-o da esposa, dona Ângela. Naquele momento, os presos sentiram tamanha revolta que renunciaram às próprias visitas e entraram nas celas. O oficial de dia, um universitário oriundo do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército e servindo em Natal, tentou dialogar com os presos, que não cederam e a visita foi encerrada.

Arruda relata uma visita feia pelo então reitor da UFRN, aos presos do quartel da Polícia Militar, ocasião em que o Dr. Onofre Lopes ficou profundamente chocado com a condição em que se encontravam os universitários, trancados em uma pequena cela e protestou energicamente aos delegados Carlos Veras e José Domingos, que o acompanhavam, dizendo-lhes que “não podia admitir aquele tratamento a jovens que representavam o que havia de melhor na universidade” e reclamou para todos os presos políticos uma condição mais humana. A partir daquela manhã, os presos foram alojados no berçário do hospital da Polícia Militar.

A ordem de soltura por habeas-corpus chegou em outubro, na noite do dia do aviador. Ele e Josemá Azevedo foram avisados a se prepararem para serem libertados. Os dois reagiram acuados e desconfiados: “Não queremos sair para sermos presos novamente.” O oficial insistiu: “Têm que sair”. E chamou-os para dizer, confidencialmente: “Rapazes, podem sair. Vocês não imaginam a repercussão daquelas prisões após os habeas-corpus. A ordem de cima agora é para soltar mesmo.” O oficial era um estudante de odontologia do Recife, servindo temporariamente no 16° RI. Eles confiaram, saíram e não voltaram.


PAULO FRASSINETI DE OLIVEIRA
(Advogado, Procurador Aposentado da Prefeitura de Natal)

O advogado Paulo Oliveira, com 27 anos de idade em 1964, exercia o cargo de chefe de gabinete do vice-prefeito Luiz Gonzaga dos Santos e trabalhava, desde 1954, no então “Jornal de Natal”, posteriormente “Folha da Tarde”, de propriedade do ex-prefeito Djalma Maranhão. A entrevista com ele foi carregada de emoção porque foi difícil para a sua sensibilidade trazer à memória os amigos de Djalma Maranhão, Luiz Gonzaga dos Santos e Luiz Maranhão Filho, que não sobreviveram à crueldade da ditadura. Paulo falou, com muita amargura e tristeza, dos sofrimentos dos pais pela sua prisão e pela de seu irmão Guaraci, mas conseguiu relatar alguns detalhes dos episódios vividos em 1964.

Comentou que sua prisão deveu-se à ligação pessoal e de trabalho com Djalma e atuação nas lutas estudantis desde o curso secundário. Com destacada liderança universitária, foi eleito, em 1961, secretário da União Nacional de Estudantes (UNE), cargo que exerceu durante um ano no Rio de Janeiro, durante a gestão do então presidente e líder da Juventude Universitária Católica (JUC), Aldo Arantes. Para os militares, o seu currículo foi acrescido com uma viagem a Cuba, onde passou um 1° de maio.

Na noite de 1° de abril, encontrava-se no gabinete do prefeito Djalma Maranhão, quando as tropas do Exército invadiram a Prefeitura, armadas com metralhadoras. Sua lembrança do episódio é muito forte. Fala que sentiu pavor da violência com que foram todos expulsos naquela noite, com metralhadoras apontadas em sua direção.

No dia 2, após as prisões do prefeito e vice, refugiou-se com o irmão Guaraci na fazenda de um tio, esperando passar a truculência dos primeiros momentos. Passados 8 dias e as prisões se sucedendo, resolveu voltar. Três dias após, saindo de uma matinê de cinema, encontrou o desembargador Paulo Luz e Louril do Nascimento que lhe comunicaram a prisão do advogado Eider Moura. Paulo compreendeu que estava chegando a sua hora e comentou: “Não sei o que fazer.” O desembargador aconselhou: “Vá para casa pois ninguém vai poder impedir a prisão de quem eles decidirem.” Paulo foi para casa e lá já encontrou os militares do Exército, os pais chorando e os livros espalhados pelo chão.

Levado para o quartel do 16° RI, foi jogado em uma cela considerada “de castigo”, onde encontrou o líder sindical Evlim Medeiros, que advertiu para o risco de serem torturados a qualquer momento, como estava acontecendo com alguns presos. Dias depois, transferido para outra cela, encontrou o irmão Guaraci.

Os dramas dos presos políticos de 1964 assemelharam-se, são repetidos, podem se tornar cansativos ao relato, mas trazem o testemunho de uma tragédia humana que não podia ter acontecido, não pode se repetir o que não se pode calar.

Com todos os demais presos, Paulo sofreu o medo, a insegurança e a humilhação, viu o terrível tenente Calado arrebatar das mãos de sua mãe, dona Iraci, e jogar fora, as frutas que lhe eram destinadas e prescritas pelo médico do quartel, capitão Dourado. Não existiram super-homens nas celas dos quartéis militares; existiram homens comuns, presos num regime de exceção, convivendo com torturadores, que chegaram a qualquer hora da noite para aterroriza-los. Resiste-se, resistimos com dignidade, até saímos fortificados e engrandecidos, mas suportamos, nos limites da resistência humana.

Transferido para o quartel da Polícia Militar, com Djalma Maranhão e outros, sentiu-se em quase bem-estar pelo tratamento respeitoso ali dispensado aos presos políticos. Lembrou, visivelmente tenso, a madrugada da saída de Djalma Maranhão para Fernando de Noronha. Naquela noite, conseguiram com um policial uma garrafa de aguardente, que tomaram antes de deitar. Djalma, numa previsão incrível, tomou a bebida e comentou: “Quem sabe... está é a minha despedida...” Ele sentia o peso do ódio contra si, tinha ouvido no rádio de um soldado um noticiário político e concluído que a pressão para destruí-lo politicamente atingia o limite.

A última visão que Paulo guarda do amigo é da sua passagem pela porta de saída, levando uma pequena mala.

Outra lembrança dolorosa ele guarda ele guarda de sua estrada no quartel do Regimento de Obuses, para onde foi, outra vez, transferido. Os militares adotavam o sistema de rodízio, seguramente para aumentar a dificuldade de adaptação dos presos. No RO, encontrou Eider Moura, que relatou detalhes das torturas físicas impostas ao professor Luiz Maranhão. Paulo nunca esqueceu as marcas de óleo na parede da cela, com a forma das mãos de Luiz, ali deixadas no ato de se amparar, quando voltava das sessões de tortura, onde era pendurado pelos pés e mergulhado num tonel contendo água e óleo.

Paulo comentou, também, a ajuda de alguns, como o então recruta do 16°RI, Fernando Bezerril, que fazia, secretamente, a comunicação entre ele e a sua família, e ressaltou a discreta solidariedade dos oficiais e subalternos do quartel da Polícia Militar de Natal.

Foi libertado no dia 26 de janeiro de 1965, por habeas-corpus, ficando ainda obrigado a apresentar-se, todas as quintas-feiras, no quartel-general. Para livrar-se daquela obrigação novo habeas-corpus foi impetrado pelo professor Carlos Varela Barca.

Como todos os funcionários do Estado e do Município, foi demitido por decreto do então governador Aluízio Alves. O mesmo advogado Varela Barca conseguiu sua reintegração, pois o ato de demissão contrariava até o que dispunha o Ato Institucional 1.


GUARACY QUEIROZ DE OLIVEIRA
(Advogado, Conselheiro da Secção Regional da Ordem dos Advogados do Brasil, Procurador Aposentado da Prefeitura Municipal de Natal)

Em 1964, o advogado Guaracy Queiroz encontrava-se tranquilamente estabelecido no seu sistema de vida, com um escritório e um emprego na Câmara Municipal de Natal. Entre seus amigos estavam o vice-prefeito Luiz Gonzaga dos Santos e o então suplente de deputado federal Aldo Tinoco, com quem conversava sobre as reformas de base para o país; desejava-as, mas não participava das lutas reivindicatórias. A única participação política de sua vida aconteceu em 1948, durante a campanha de "O Petróleo é Nosso", quando dirigiu um jornal estudantil.

Deflagrado o golpe militar e as prisões se sucedendo, inclusive de alguns amigos, resolveu sair, por uns dias, e ficar com seu irmão Paulo Frassineti, na fazenda de um tio. Regressando a Natal, voltou à quase normalidade de sua vida, embora angustiado e inseguro, como acontecia com a grande maioria dos brasileiros que viveram a ditadura militar implantada em 1964.

No dia 13 de abril, encontrava-se em sua residência com a esposa no sétimo mês de gestação, quando um comando do Exército chegou para prendê-lo. Levaram-no para o quartel do 16° RI de Infantaria onde permaneceu alguns meses, sendo transferido para o quartel da Polícia Militar e, por último, para o Regimento de Obuses, completando mais de dez meses nos cárceres militares. Até o momento, até abril de 1993, Guaracy desconhece a causa real da perseguição e prisão que desarticulou, por longo período, a sua vida. No processo não havia uma articulação formal; foi intimado a defender-se de corrupção e subversão, sem especificarem atos cometidos.

Dos diversos interrogatórios que respondeu, lembrou que perguntaram "Você é comunista?" Resposta: "Não, sou nacionalista!” Ao que contestaram: "Pois é a mesma coisa!"

Na comissão de inquérito da Câmara Municipal, o vereador José Guará interpelou: "Você acha que o almirante Aragão é almirante do povo?” Resposta: "Acho que ele é almirante da Marinha."

As perguntas eram tão sem sentido e irresponsáveis para um momento grave e decisivo na vida dos acusados que custa a acreditar tivessem os inquisidores compromisso com a dignidade da própria imagem. Guaracy comentou que, para todos os presos, os momentos mais dramáticos eram os vividos nos interrogatórios. Referências amargas foram feitas sobre a fome que passavam; a comida de péssima qualidade chegava fria e descuidada, algumas vezes sem talheres. Certa ocasião, aproveitando uma visita aos filhos, dona Iraci, sua mãe levou um sanduíche de pão com carne. Ao tentar entregar, recebeu, do capitão tapa na mão. O pão caiu longe e ela saiu em pranto.

Na aparência, os detalhes podem ser banais, mas são detalhes que tornaram quase insuportável a vida nos quartéis.

Em janeiro de 1965, Guaracy, seu irmão Paulo e outros presos continuavam, ainda, no quartel do Regimento de Obuses e já o comandante Caldas apresentava solidariedade e preocupação com a demora dos habeas-corpus. Finalmente, no mês de janeiro, foram postos em meia liberdade, com o compromisso de se apresentarem, semanalmente, ao quartel-general do exército até a concessão de outro habeas-corpus, requerido pelo professor Carlos Varela Barca.


RAIMUNDO UBIRAJARA DE MACEDO
(Jornalista)

Raimundo Ubirajara de Macedo, jornalista e funcionário do então Departamento de Correios e Telégrafos, onde exercia o cargo de Secretário do Diretor da mesma repartição, foi preso no dia 7 de abril e levado para o quartel do 16° RI, onde já se encontravam o prefeito Djalma Maranhão, o jornalista Carlos Lima, o então deputado Aldo da Fonseca Tinoco, o sindicalista Evlim Medeiros, o advogado Geraldo Pereira de Paula e outros.

Ubirajara não foi molestado fisicamente, mas considerou uma tortura psicológica a ameaça disfarçada do capitão Lacerda, que o interrogou em frente ao símbolo da justiça, fixo à parede e, nele pendurado, uma virola que era o instrumento usado para as torturas físicas de aplicação de pancadas. No interrogatório foi pressionado para informar onde se reuniam os comunistas dos Correios e Telégrafos e intimidando a explicar os artigos que publicava no jornal "Folha da Tarde", nos quais defendia idéias políticas nacionalistas.

As acusações eram, como todas, forjadas para aterrorizar, sem apresentarem fatos concretos. Lembrou detalhes que dão a idéia da condição humana na vivência diária dos prisioneiros; falou de Djalma Maranhão com admiração pelo equilíbrio, resistência moral e liderança conservados, ainda, na prisão. Do preso Luiz Gonzaga de Souza, diretor do então Correios e Telégrafos, professor do Atheneu e dedicado à literatura. contou que algumas noites ele passava a recitar na cama, poemas de Fagundes Varela, Castro Alves e outros. Certa noite, interrompeu um longo poema, levantou-se e indagou, solene: "Quando é que a gente vai sair desta merda" Todos riram. Comenta, ainda, que os presos conviviam bem, apesar dos limites de espaço e tensão emocional.

Falou também de um episódio lamentável que demonstra os critérios adotados para efetuarem prisões. Um comentário infeliz do capelão do Exército, padre Eymard Monteiro, provocou a prisão de um homem simples e sem militância política. Visitando as celas dos presos, em companhia do coronel Mendonça Lima, o capelão exclamou: "Estou sentindo falta aqui do meu compadre "Doca", porque ele gostava..." No dia seguinte, chegou preso João Doca Filho, que somente foi libertado muitos meses depois, já pelos últimos habeas-corpus. O "compadre Doca” era um modesto funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos, com muitos filhos e difícil situação econômica.

Ubirajara lembrou os casos de tortura acontecidos no 16° RI, foram torturados, em diversas ocasiões, os presos Valdier Gomes, Eurico Reis, Moisés Grilo e, uma vez, Floriano Bezerra. As torturas eram do conhecimento de todos os presos e pode-se imaginar a tensão emocional em que viviam, sob o risco constante de serem levados pelo capitão Lacerda, para os mesmos fins. Comentou, ainda, Ubirajara, que a última seção de torturas aconteceu num dia dedicado à assunção de Nossa Senhora, fato que lhe fez reacender a fé religiosa por considerar que, naquele dia, acontecera um milagre.

Era feriado no quartel, não havia circulação de veículos e de pessoas quando viram chegar o capitão Lacerda, dirigindo o seu próprio carro. O preso Dr. Vulpiano Cavalcanti previu o que ia acontecer e aconselhou aos que eram comumente torturados e apanhavam em silêncio a gritarem o quanto fosse possível.

O capitão Lacerda levou o preso Valdier e deu início a mais uma sessão de tortura. Valdier gritou muito. Moisés Grilo gritou mais. Eurico Reis apelou por Nossa Senhora e gritou o mais alto que pôde. Naturalmente, os gritos foram ouvidos por todo o quartel. Daquele dia em diante acabaram-se as torturas no 16° RI.

Poucos meses depois, com o fim das investigações, o temido capitão Lacerda foi transferido de Natal.

Libertado em 19 de março de 1965, após 12 meses de prisão, Ubirajara deixou, ainda presos, dois camponeses. Um deles, o Sr. Manoel Bento, ruralista de Canguaretama, nunca demonstrou, nas conversas entre os presos, que tivesse qualquer envolvimento político.


LUIZ GONZAGA DE SOUZA
(Advogado, ex-Professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense, ex-Diretor do Departamento de Correios e Telégrafos)

Convivi com Luiz no então Departamento de Correios e Telégrafos e conheci seu gosto pela literatura francesa que lia no original. Freqüentei a biblioteca de sua residência de onde levava livros emprestados e conversávamos sobre poesia, uma de suas paixões.

Na avalanche de caça às bruxas, lá foi ele parar nas celas do 16° Regimento de Infantaria, como ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro e acusado de executar uma administração subversiva na repartição que dirigia.

Carente de beleza e sensível, valeu-se da poesia para suportar a solidão e o tédio das noites da prisão. Este era o Luiz que conheci, divagando acima do feio da vida e construindo com as suas cores o mundo que lhe convinha.

Luiz morreu há alguns anos e não chegamos a conversar sobre a prisão. Não tenho dúvidas, no entanto, de que falaria com fina ironia e muita distância dos seus perseguidores.


CARLOS ALBERTO DE LIMA
(Jornalista, Empresário e Editor)

Entre as amargas lembranças de Carlos Lima, preso nos primeiros dias de abril e encarcerado no 16° RI, ficou, especialmente, uma certa meia-noite em que o capitão Lacerda, com a grosseria que lhe era peculiar, acordou os presos ordenando que juntassem os seus pertences e saíssem das celas pois estariam sendo transferidos para o confinamento da ilha de Fernando de Noronha. Caminharam um pouco e apagaram-se as luzes do quartel, ficando na escuridão absoluta. Djalma Maranhão advertiu em voz alta que todos ficassem parados, sem qualquer movimento que pudesse justificar uma reação armada contra uma pretensa fuga. Percebeu a cilada e o risco de serem metralhados com a desculpa de tentarem a fuga. Passados alguns minutos, acenderam-se as luzes e foram todos transferidos para outras celas, nos fundo do quartel.

Carlos Lima foi uma das vítimas de tortura por parte do capitão Lacerda. Levado a depor e tendo o seu depoimento coincidido com o do prefeito Djalma Maranhão, o militar zangou-se e interrogou-o novamente, afirmando que haviam combinado previamente as respostas. Não conseguindo contradições no segundo depoimento, o capitão o levou para uma cela especial de castigo, medindo um metro de diâmetro, deixando-o incomunicável por três dias sobre o cimento molhado.

A sensibilidade de Carlos Lima e seus problemas de saúde inibiram-me de insistir nas suas lembranças de 1964.


GERALDO PEREIRA DE PAULA
(Advogado, ex-funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos)

Contratado como advogado das Ligas Camponesas, uma sociedade civil com personalidade jurídica criada para defender os interesses dos trabalhadores do campo, atraiu contra si a fúria do patronato rural e a acusação de subversivo em 1964. Na primeira semana de abril, encontrava-se na cidade do Recife, acompanhando a cirurgia de uma filha. Voltou a Natal no dia 10 e foi logo informado que havia sido procurado por militares do Exército, com um recado para se apresentar ao coronel Estevildo Caldas, no 16 ° Regimento de Infantaria.

Dirigiu-se ao quartel, convencido de que prestaria algum esclarecimento, sem maior conseqüência. Ao se apresentar, foi logo colocado em uma cela, onde já se encontrava o pastor protestante José Fernandes Machado. No dia seguinte, o capitão Dover levou-o para o isolamento de outra cela, localizada nos fundos do quartel e vizinha à sala do capitão Guedes.

Levado a depor na noite do dia l l, foi submetido à tortura conhecida como 'boite', que consistia em ficar sentado frente a uma fortíssima lâmpada, distante dos seus olhos apenas uns vinte centímetros. De cada lado, um soldado encostava-lhe uma baioneta abaixo de cada braço. Sem poder se mexer, Geraldo suportou a tortura por, aproximadamente, três horas, rodeado pelo capitão Dover e pelos tenentes Calado e Castelo Branco, até a entrada do coronel Mendonça Lina, a quem reconheceu pela voz. Ao coronel, que antes havia comparecido à cela e ironizado o preso, afirmando que " quem tomou conta do Brasil foi o Exército brasileiro, não foi Hitler nem Mussolini", Geraldo apelou: “coronel o senhor disse que quem tomou conta do Brasil foi o Exército brasileiro; no entanto, estão aplicando os métodos de tortura usados pelas SS de Hitler". O coronel disse apenas: “Desliguem a luz”, e retirou-se.

De volta à cela sem alimento e sem água por quarenta e oito horas; quando levaram comida não lhe deram água. O sol penetrava na cela, fazia muito calor e, com a sede, entrou em desespero. Chamava pelos sentinelas e não lhe atendiam. Passou a chutar a porta que foi aberta pelo capitão Guedes que, surpreso, indagou o que estava acontecendo. Informado de que Geraldo estava sem tomar água há dois dias, retirou-o da cela, mandou-o sentar e ordenou à sentinela que trouxesse, do restaurante dos oficias, um litro de água gelada e um copo. O soldado voltou e comunicou que o oficial de dia havia dito que não era para fornecer água por dois dias. O capitão Guedes zangou-se e determinou: “Volte, diga que mande a água se não vou lá prendê-lo! Não admito este tipo de tratamento a um preso.”

A Geraldo: “O senhor pode ser o que for. Se é comunista prendam e processem mas isso não!" Geraldo saciou a sede.

No dia seguinte, foi retirado do isolamento para uma cela maior, onde encontrou diversos outros presos.

Geraldo foi interrogado apenas duas vezes uma pelos militares e outra pelo delegado Veras. Em outra ocasião, foi salvo, mais uma vez, pelo coronel Mendonça Lima, quando o capitão Dover mandou buscá-lo algemado e escoltado. No encontro, o capitão cumprimentou-o, com desdém: - "Bom-dia "Seu" Geraldo." - "Bom- dia 'Seu' Dover." O capitão se enfureceu e vociferou: "Seu" Dover? Eu sou capitão!" Geraldo revidou: “Eu sou Doutor!” O capitão partiu para agressão física e Geraldo gritou: "Vai me bater? Não pensei que um oficial do Exército brasileiro batesse num preso algemado!" Entrou o coronel, advertiu o capitão e o preso foi levado de volta.

Lembrou, ainda, o sofrimento e a resistência física do companheiro de cela João Soares, que apanhou oito surras, voltava sangrando e o próprio Geraldo tirava-lhe as roupas e lhe aplicava compressas molhadas.

O habeas-corpus de Geraldo chegou em fins de outubro, juntamente com os de Luiz Gonzaga dos Santos e outros presos, quando se encontrava no quartel da Polícia Militar, para onde fora transferido. O major João Pinheiro da Veiga procurou-os à noite, mandou assinar a ordem de soltura, mas impediu que telefonassem para a família ou pedissem um táxi. Geraldo percebeu que militares do Exército encontravam-se em frente ao quartel e propôs dormir no chão do pátio, alegando que não gostaria de sair a pé, na escuridão da noite. O major argumentou que estavam livres e não podiam pernoitar no quartel. Obrigados a sair, foram presos, novamente, na calçada, e levados de volta. Geraldo perguntou: "Major, eu gostaria que me dissesse qual foi a subversão que fiz daqui para o portão. Pelo que eu teria feito antes, o Supremo Tribunal Federal já decidiu mandar me soltar..."O major retrucou: "O senhor tem ainda coisas a explicar..."

Geraldo conseguiu passar um telegrama, em nome da esposa Anita, para o ministro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo Tribunal Federal, e para o ministro da Guerra, general Costa e Silva. Poucos dias depois, foram postos em liberdade.

Em liberdade, conviveu com a rejeição e o preconceito contra os considerados subversivos. Nas rodas de conversas habituais no Grande Ponto a que sempre freqüentou, passou a ser discriminado, acintosamente. Resolveu divertir-se, dissolvendo grupos; aproximava-se e os companheiros de antes afastavam-se e ele ficava só.

Da tortura na "boite", restou a Geraldo Pereira de Paula séria e irreversível lesão nos olhos.


CARLOS ALBERTO GALVÃO
(Economista, Empresário)

Em 1964, o empresário Carlos Alberto Galvão era funcionário do então Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários e amigo pessoal do vice-prefeito Luiz Gonzaga dos Santos, com quem colaborava na secretaria do Partido Trabalhista Brasileiro, que Luiz dirigia a nível municipal. Carlos tocava seus negócios comerciais – um bar e a então Sorveteria Oásis - e sua vivência politica limitava-se à consciência critica da exploração do país pelas multinacionais americanas.

Viveu o l° de abril entre os negócios e a preocupação com o país comum a qualquer cidadão. No dia 4, ao sair da sua residência, foi abordado por dois militares à paisana, que se identificaram como sargentos do Exército e o intimavam a comparecer ao quartel do 16° Regimento de lnfantaria. No quartel, já ao anoitecer, colocaram-no em uma cela de isolamento onde ficou sem nenhum contato humano, além da sentinela que trazia a comida em silêncio. Em uma ocasião da troca da guarda ouviu uma recomendação: "Cuidado com este prisioneiro que ele é muito perigoso." lncrédulo e assustado, questionava se aquele prisioneiro perigoso seria ele. A tensão do isolamento crescia e foi agravada por um tiro casual que um sentinela disparou na janela, cuja bala entrou na cela. Houve um corre-corre e nova recomendação: "O prisioneiro é muito perigoso..." Um oficial que se dizia espírita passou e entregou-lhe uma Bíblia.

Fragilizado fisicamente, Carlos atingiu o limite da resistência e foi acometido por um colapso periférico. Quando despertou, os que o rodeavam estavam muito assustados; foi atendido pelo capitão Dourado, médico do quartel. No dia seguinte, levado a depor com o capitão Lacerda, observou, em cima da mesa que os separava, uns aparelhos usados para aplicação de choques elétricos. O capitão avisou que se tratava de um detector de mentiras. O interrogatório, que iniciou tenso, foi logo interrompido por ordem do coronel comandante e retomado depois, com a presença de um médico. Da sala de interrogatórios foi levado por uma escolta e, na passagem, viu toda a tropa formada e perfilada Ficou muito assustado, associando ao episódio vivido por Luiz Maranhão em uma de suas prisões, quando foi humilhado e apresentado a toda a guarnição como traidor da pátria. Carlos confessa que era muito sugestionado pelas notícias das torturas da guerra. No momento em que entrava em outra cela, começaram a tocar o Hino Nacional. Os soldados perfilaram-se e ele parou, meio apavorado, olhos arregalados, barba crescida, assustando os companheiros que ali se encontravam e que o imaginaram louco.

Meses depois foi transferido para o quartel da Polícia Militar, onde conseguiu saber que era acusado de contrabandear armas e manter comunicação, via radioamador, com Cuba, Pequim e Moscou. Compreendeu, então, porque o consideravam muito perigoso... Seu envolvimento com armas resumira-se a possuir dois rifles sem uso e, em algum tempo, haver vendido dois ou três revólveres que um parente havia trazido dos Estados Unidos. Da acusação de radioamador sobrou um prejuízo para o seu primo dentista Clemente Galvão, que lhe entregou para mandar consertar um receptor de radioamador, que foi apreendido e nunca devolvido. As acusações foram tão sem fundamento que a Auditoria Militar do Recife não o denunciou. No dia 23 de outubro, foi liberado por habeas-corpus e, em companhia de outros presos, recolhido novamente à prisão. Foi libertado dias depois.

Carlos reassumiu os negócios e verificou que se encontrava à beira da falência.


MARCOS JOSÉ DE CASTRO GUERRA
(Advogado, Doutor em Direito Internacional do Desenvolvimento, Consultor Internacional (UNESCO, FAO, OIT, PNUD, UNICEF, CEE), Consultor das Nações Unidas no Brasil, Secretário de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte)

Em 1964 o universitário Marcos Guerra coordenava a aplicação do método de alfabetização do professor Paulo Freire no programa de alfabetização de adultos desenvolvido pelo governo, iniciado em 1962, na cidade de Angicos, através do Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN), autarquia fundada com o objetivo de agilizar o acordo de cooperação firmado entre o governo americano e o governador Aluízio Alves através da Aliança para o Progresso e da SUDENE.

Com a eficácia do método no desenvolvimento do programa de alfabetização em Angicos, e estando o professor Paulo Freire na presidência da Comissão Nacional de Educação Popular, criada pelo Ministério da Educação do governo João Goulart, o mesmo sistema de alfabetização estender-se-ia para outros Estados, a começar por Sergipe, no governo Seixas Dória. Para lá dirigiu-se Marcos a uma pequena equipe do SECERN, com a finalidade de formar professores e técnicos.

Em Aracaju, encontrava-se no dia 1° de abril. Consumado o golpe, decidiram voltar a Natal e o fizeram via cidade de Caruaru, onde ficaria uma companheira, filha do prefeito do município e aliado político do governador Miguel Arraes. Na residência do prefeito, foram cercados por uma companhia do Exército de que iriam reforçar o movimento de guerrilhas. Liderado pelo prefeito. Presos e algemados, foram transportados em cima de um caminhão para o Recife e entregues ao centro de triagem e interrogatório do coronel Ibiapina, que se destacou pela repressão e tortura aplicada aos presos. Identificados durante os interrogatórios, irritaram o coronel que divulgara haver descoberto um grupo de guerrilheiros e constatava que executavam um plano de alfabetização que ele, o coronel, considerava perigosíssimo para o país. Na interpretação do coronel, o programa de alfabetização popular havia sido decidido em Moscou, para ser executado em toda a América Latina, onde o povo, conscientizado de seus direitos, tomaria o poder.

Segundo o professor Marcos Guerra, o coronel tinha grande lucidez sobre a força da educação e enorme fantasia sobre as ordens de Moscou.

No Recife, Marcos foi jogado, com os companheiros de Natal José Ribamar de Aguiar e Pedro Neves Cavalcanti, em uma cela superlotada, onde dormiam no chão, colados uns aos outros e de onde só puderam sair por habeas-corpus, após um tempo que não lembra - quarenta, cinquenta dias.

Marcos não esqueceu a primeira visita do pai, professor Otto de Brito Guerra, que lhe declarou: "Houve um grande mal-entendido sobre o trabalho que vocês faziam. Você vai ter paciência; é importante saber, que nós conhecemos o que você estava fazendo. Não baixe a cabeça!" O conselho foi de extrema importância para o jovem de 23 anos a dignidade da postura política e responsabilidade social duramente castigada pela ditadura militar.

Na prisão, conviveu com importantes figuras da política pernambucana, como o prefeito Pelópidas da Silveira, o secretariado do governador Miguel Arraes e, também Clodomir Morais, Francisco Julião e Gregório Bezerra, convívio que lhe permitiu adquirir uma grande experiência de vida. Os presos organizavam seminários permanentes, analisavam acontecimentos políticos e aproveitavam para comentar suas experiências Entre as celas havia duas para isolamento individual. Na entrevista Marcos lembrou um momento de beleza humana na solidariedade dos soldados, que conduziam o líder comunista Gregório Bezerra, destinado a uma cela do isolamento. Os soldados simularam um engano e o colocaram na cela superlotada. Gregório, que resistiu às mais ultrajantes torturas, entrou na cela exausto e faminto. O soldado comunicou: "Ele vai ser posto aqui, por engano, durante algumas horas." Gregório recebeu a solidariedade de todos os presos. Havia um bico de água onde ele conseguiu banhar-se. Um preso que se encontrava doente e recebia maçãs, deu-lhe uma. Ele comeu, descansou, e a maçã, como único alimento em muitas horas, provocou uma crise de suor. Em poucas horas o soldado voltou e o levou para o isolamento.

Marcos recebeu habeas-corpus requerido por seu pai, foi libertado, mas voltou a ser preso uma dezena de vezes. Conseguiu transferir o processo para Natal e esteve preso no 16° Regimento de Infantaria, por algum tempo. As prisões se repetiram até o ano de 1965, os habeas-corpus também.

Esclareceu que assumiu, em 1962, a coordenação da Alfabetização do SECERN com o então Secretário de Educação Calazans Fernandes, no governo Aluízio Alves. Agia integrado ao programa da União Nacional de Estudantes que, sob presidência de Aldo Arantes, convocou os universitários a se engajarem no trabalho concreto de cada região, dentro da especialidade de cada um.

Após a formatura no curso de Direito, em 8 de dezembro de 1965 e, no limite do suportável, com tantas entradas e saídas da prisão, decidiu sair do Brasil para a França, de onde lhe chegara convite e ajuda financeira para viajar. Seguiu para São Paulo onde recebeu ajuda do Sindicato dos Jornalistas e de funcionários da VARIG, que lhe facilitaram o embarque. Em Paris, participou ativamente da organização internacional de ajuda a exilados e refugiados políticos.

A experiência de Marcos na ditadura foi muito cruel mas muito rica de aprendizado de vida. Viveu 25 anos fora do Brasil. Trabalhou no Instituto de Pesquisas e Formação em Educação e Desenvolvimento, para onde foi contratado como professor e onde encontrava-se outro brasileiro, professor Heron Alencar, ex-vice-reitor da Universidade de Brasília. Com carteira de trabalho assinada, o que mudava sua condição de exilado político, assumiu um cargo de direção no mesmo Instituto e pôde ajudar muitos estudantes da América Latina, Ásia e África. Pelo mesmo Instituto, orientou a coordenação dos programas de desenvolvimento de alguns países do terceiro mundo, entre eles Níger, Costa do Marfim, Moçambique, Angola, Cabo Verde e Nicarágua, concluindo sua trajetória internacional em Paris como diretor de uma Agência de Cooperação, Solidariedade Internacional e Financiamento de Projetos, e Consultor das Nações Unidas.

Em condições privilegiadas para atuar livremente no combate à ditadura do seu país, participou ativamente do movimento de denúncias de torturas a presos políticos do Brasil e da luta externa em favor da anistia e redemocratização do país.


JOSÉ RIBAMAR DE AGUIAR
(Advogado, Professor da UFRN)

PEDRO NEVES CAVALCANTI
(Advogado, Funcionário aposentado do Banco do Nordeste)

Universitários da Faculdade de Direito, Ribamar e Pedro foram aprovados no curso para monitor do curso de alfabetização de adultos do sistema Paulo Freire a ser implantado na cidade de Angicos. Selecionados para comporem a equipe de execução do método no Estado de Sergipe, encontravam-se em Aracaju no dia l° de abril. Com o golpe militar, voltaram para Natal, quando foram presos na cidade de Caruaru, algemados e conduzidos para o quartel da 2a. Companhia de Guardas, em Recife, onde foram interrogados pelo coronel Ibiapina.

Sem pertencerem a partidos políticos, não participavam de lutas reivindicatórias nem de organizações religiosas ou estudantis. Os acontecimentos de suas experiências foram os mesmos descritos no depoimento de Marcos Guerra.


DANILO BESSA
(Advogado)

Estudante de Direito, aos vinte anos de idade, Danilo foi estimulado pelo professor Luiz Maranhão Filho a estudar o marxismo. Convencido de que o regime socialista seria a solução para as injustiças sociais, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro e passou a exercer atividades políticas, através da União Nacional de Estudantes e União Estadual de Estudantes. Na mesma época, Danilo sonhava fazer um bom curso, ingressar na magistratura e exercer dignamente a profissão. Em abril de 1964 mudou o país e seu destino.

Consumado o golpe, procurou o amigo Luiz Maranhão e a orientação que recebeu foi: "cada um que procure escapar porque o golpe é patrocinado pelos Estados Unidos e pode significar até a morte para todos." Com essa advertência, tratou de sumir. Com a ajuda do deputado estadual José Rocha viajou para Campina Grande, de onde seguiu para uma fazenda no interior do Ceará, ali trabalhando como camponês até dezembro de 1964. De lá, seguiu para o Rio de Janeiro, adotou o nome de Leo Monteiro, tentou mudar o visual, conseguiu trabalho, mergulhou no anonimato. Fez contato com militantes do Partido Comunista, colaborou no jornal "Voz da Unidade", foi novamente perseguido e obrigado a fugir para o Paraguai, de lá voltando para São Paulo.

Em São Paulo voltou à militância do Partido Comunista, foi preso e levado para o DOPS, onde ficou 17 dias, no mesmo bloco em que esteve Luiz Maranhão. Ali foi interrogado diversas vezes, levou tapas e choques elétricos, aplicados através de um chuveiro elétrico. Desesperado pelas ameaças de morte e acossado por muitos interrogatórios, solicitou papel para escrever as informações que lhe exigiam. No escrito, expôs suas idéias e atividades políticas, concluindo com um apelo dramático pela vida e liberdade.

Para ser solto, Danilo pode ter contado com a ajuda do amigo Oswaldinho, filho de general Oswaldo Cordeiro de Farias. Em liberdade, voltou ao Rio de Janeiro, fez concurso para a Confederação de Comércio, foi aprovado, conseguiu a nomeação com a interferência do senador Dinarte de Medeiros Mariz.

Danilo não esqueceu o convívio com militantes na clandestinidade e o desespero de alguns, quase garotos, quando, emocionados, despediam-se para cumprirem tarefas do Partido. Uns voltavam, outros desapareciam.

Novamente em Natal, concluiu o curso de Direito, exerce advocacia na capital e no interior mas perdeu o sonho de ingressar na magistratura estadual.


EIDER TOSCANO DE MOURA
(Advogado, Geógrafo, Professor da UFRN)

Exercendo as funções de Promotor Público, Eider foi preso pelo Exército nos primeiros dias de abril e levado para as celas do quartel do Regimento de Obuses, onde permaneceu por nove meses, sob as mesmas acusações que justificaram todas as demais prisões. Foi interrogado por oficiais do Exército e pelo delegado Veras, sendo libertado por um dos habeas-corpus requeridos pelo deputado federal Carvalho Neto, concedido pelo Supremo Tribunal Federal.

Eider faleceu em 27 de agosto de 1990.

JOSÉ FERNANDES MACHADO
(Advogado, Pastor Evangélico, Juiz de Direito)

Machado, pastor evangélico, funcionário do então Departamento do Correios e Telégrafos foi, também, uma das maiores vítimas da perseguição do 1964.

Através de Eunice, sua viúva, registro alguns episódios daqueles dias.

Preso pelo Exército nos primeiros dias de abril, foi levado para o quartel do I6° Regimento de Infantaria onde permaneceu por seis meses. Na Diretoria do então Departamento de Correios e Telégrafos ocupava o cargo do Inspetor Regional. Em alguns setores do então DCT havia, em 1964, delatores e caluniadores assumidos. A vida que Machado levou na prisão é semelhante à aqui relatada pelos outros presos.

Em um dia determinado para visitas aos presos políticos, Eunice compareceu acompanhada por um irmão de Machado, residente no Recife, o que tornou difícil a aproximação com o marido pelas restrições ao acompanhante. Na preocupação de vigia-lo esqueceram de revistar a roupa levada para Machado. Às onze horas da noite ela foi procurada em casa pelo tenente Calado, acompanhado por dois outros militares quo a obrigaram a acompanhá-los. No quartel, rodearam-na em tomo de uma mesa, para confirmar que o cunhado havia sido portador de uma carta "de outro comunista do Recife” Como não encontraram vestígios da carta, exigiam dela uma confirmação. Eunice entrou em desespero, ameaçou gritar, descontrolou-se e eles mandaram-na de volta com um motorista.

Machado foi solto por habeas-corpus, no mês de outubro.

Na ocasião de uma ação terrorista no aeroporto do Recife, quando colocaram uma bomba que explodiu no desembarque de alguns generais e matou um almirante, ele se encontrava naquela cidade, participando de um congresso de igrejas evangélicas. Regressou a Natal e foi novamente procurado por militares do Exército e da Policia. Chegando à Secretaria de Polícia para atender um chamado do secretário Ernâni Hugo, foi preso, algemado e, sem nenhuma explicação, transportado de avião para a Base Aérea do Recife. Ali foi duramente interrogado para confessar sua participação no atentado. Machado apresentou testemunhas da sua permanência no congresso e os pastores assinaram termo de responsabilidade, o que permitiu a sua liberação.

Demitido do emprego, Machado sobreviveu a muitas dificuldades econômicas, passando a residir, com a família, em casa de parentes. Conseguiu ajuda do professor Ulisses de Góes, que o contratou para ensinar na Escola Técnica de Comércio, e do professor Woden Madruga, então diretor da Escola Técnica de Comércio “Visconde de Cairu”, que o admitiu como professor de português. Woden conviveu alguns anos com Machado, guarda dele boas lembranças e fala com respeito da sua competência e responsabilidade pela formação dos alunos.

Nos anos setenta, Machado submeteu-se a concurso para professor do Departamento de Direito da UFRN, quando obteve o primeiro lugar, mas foi preterido e nomeado um outro candidato. Não foi o único a ser perseguido pela direção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, nos anos da ditadura: diversos professores, estudantes e funcionários foram vítimas da delação interna e responderam a processos junto à Comissão de Investigação constituída por determinação do reitor Onofre Lopes, através das portarias de números 57, 65 e 70, dos dias 4 e 29 de maio e 3 de junho de 1964, respectivamente. A comissão era presidida pelo professor Genário Alves Fonseca, tendo como membros auxiliares os professores Antônio Pipolo, José ldelfonso Emerenciano e o capitão Hugo Manso.

Em outro concurso para Juiz de Direito, foi aprovado e nomeado.

No livro "O Cristo do Povo", o escritor Márcio Moreira Alves escreve sobre Machado o seguinte:

“Professor da escola dominical, presidente por duas Vezes da Federação da Mocidade Presbiteriana Independente do Norte, presbítero e secretário do Conselho da igreja, queria fazer sentir a presença de seus irmãos no grande debate social que então se realizava e onde a única influência cristã marcante era a dos católicos. O prefeito de Natal, Djalma Maranhão, realizava urna administração revolucionária, quebrando a anterior tradição imobilista e burocrática, lançando a campanha "De Pé no Chão Também se Aprende a Ler" e trazendo a discussão de temas de cultura popular para a praça pública. José Fernandes participava desses debates - sobre arte, cinema, educação - que semanalmente movimentavam o marasmo intelectual da pequena capital provinciana. Em sua repartição liderava os estudos de reivindicações salariais e na UBSPT, União Brasileira de Servidores Postais Telegráficos, fora eleito para o cargo de orador oficial, sendo, portanto, incumbido de saudar as personalidades políticas que visitavam a entidade.

As múltiplas atividades do jovem presbítero foram devidamente anotadas pelos organismos de informação militar que, mesmo no auge do delírio esquerdizante do governo Goulart, sempre funcionaram na anotação de possíveis subversivos e comunistas. Com o golpe de 1° de abril, as fichas foram imediatamente promovidas a libelos de acusação. José Fernandes foi preso a sete de abril, logo no primeiro bote da repressão, ficando sete meses na cadeia.”

José Fernandes Machado faleceu a 11 de setembro de 1982.


VULPIANO CAVALCANTI DE ARAÚJO
(Médico)

O médico Vulpiano Cavalcanti, considerado um competente profissional, era militante do Partido Comunista Brasileiro. Preso nos primeiros dias de abril de 1964 foi conduzido, inicialmente, para o quartel da Polícia Militar.

Com a experiência de outras prisões onde, inclusive, sofreu torturas físicas ajudou os demais presos com o exemplo de sua formidável resistência.

Após maus de oito meses de prisão, foi libertado por habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, requerido, igualmente, pelo deputado federal Carvalho Neto.

Faleceu em Fortaleza, a 19 de novembro de 1988.

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