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Djalma Maranhão – Memorial Online
De Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão

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Acervo Impresso
De Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão
Quinta fase: Ensino Profissional
Djalma Maranhão

Ensinar que um B com A faz B-A-BÁ não basta.

Complementando a Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, surgiu uma outra Campanha: De Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão. Destinava-se a dar ao jovem e ao homem alfabetizado, através de Cursos de Aprendizes, os instrumentos profissionais para um Nordeste que vai amanhecendo para a sua industrialização.

Instalada a 11 de fevereiro de 1963, iniciando as suas atividades com oito (8) cursos de aprendizes, elevando-se dentro de alguns meses para 17 e posteriormente para trinta (30) o total de cursos em funcionamento.

Os cursos de aprendizes eram divididos em três turnos, pela manhã, a tarde e a noite e distribuídos nos acampamentos, assim especificados:

ROCAS – Corte e Costura, Alfaiataria, Marcenaria, Sapataria, Telegrafia, Elementos de Eletricidade, Barbearia, Bordado à Mão;

CARRASCO – Barbearia, Corte e Costura, Corte de cabelo feminino, Enfermagem de urgência, Datilografia, Taquigrafia, Encadernação e Corte e Costura;

QUINTAS – Alfaiataria, Sapataria, Marcenaria, Barbearia, Corte e Costura;

CONCEIÇÃO – Telegrafia, Sapataria, Marcenaria, Alfaiataria, Corte e Costura e Barbearia;

NOVA DESCOBERTA – Artesanato; Bordado à mão, Bordado à máquina e Cerâmica.

GRANJA – Alfaiataria, Enfermagem de urgência e Corte e Costura.

NORDESTE – Artesanato, Bordado à mão, Corte e Costura e Barbearia.

a) MATRÍCULA INICIAL DE DOIS MIL Deve-se ressaltar o interesse despertado pela “Campanha da Profissão” no meio da população suburbana, desde a criança ao adulto, de ambos os sexos. Este interesse pode-se constatar por intermédio de uma matrícula nos diversos cursos, que se elevou rapidamente a dois mil aprendizes, com uma frequência e rendimento plenamente satisfatório. Estava em marcha um plano para multiplicar a atividade da Campanha.

b) OS PRIMEIROS DIPLOMADOS Em agosto foi diplomada a primeira turma de cento e quarenta e oito (148) aprendizes aos cursos: Corte e Costura, Enfermagem de Urgência, Sapataria, Marcenaria, Barbearia, Datilografia, Artesanato e Encadernação.

Em novembro foram entregues novos certificados a mais de quatrocentos (400) aprendizes. Era realmente emocionante se verificar os resultados positivos da Campanha da Profissão. Numa região aonde mão-de-obra especializada ainda está em fase embrionária, os “Aprendizes de Pé do Chão” obtinham meios de ganhar a vida imediatamente, logo que concluíam os cursos.

De Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão sensibilizou ponderáveis setores da indústria e foi mesmo apontado por dirigentes das classes empresariais, como o caminho mais curto para a formação de mãode-obra especializada na desesperada tentativa para absorção dos excedentes da população rural. Este setor do plano educacional da Prefeitura, era dirigido pelo Dr. 112 Érico de Sousa Hackrat, a cujo dinamismo e excepcional capacidade de trabalho, deve-se ponderável parcela dos êxitos obtidos.

c) O ALUNO-BARBEIRO Alguns Acampamentos Escolares atingiram a matrícula de 1.500 (hum mil e quinhentos) alunos. Podiam frequentar as aulas descalços, conforme já demonstramos. Recebiam material escolar: livro, caderno, lápis. Tinham direito à merenda. Mas, os casos não ficavam somente nisto. Problema econômico, a batalha frente à miséria crônica em uma região subdesenvolvida, é uma luta amarga, desigual. A maioria dos meninos ficava com os cabelos crescidos.

Os pais não tinham recursos para mandá-los normalmente ao barbeiro. Eram forçados a seguir, mesmo sem vocação, a moda dos Beatles. Iniciada a Campanha de Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão, a primeira etapa foi preparar alunos-barbeiros. Realmente comovente era assistir um menino cortando o cabelo de outra criança. Rapidamente aprendiam a técnica, manejando a tesoura, o pente e a máquina com maestria.

Em todos os acampamentos, paralelo à Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler, havia a Campanha da PROFISSÃO. Pitorescamente chamavam de “banco dos cabeludos”, às carteiras destinadas aos que diariamente eram enviados pela Diretora do Acampamento à barbearia. O cabelo era cortado no estilo que o menino indicasse. A maioria preferia o corte curto. O aluno-barbeiro acabou com os “cabeludos”. Quando não havia mais alunos para atender, a barbearia do Acampamento cortava o cabelo da meninada da vizinhança, mesmo sem pertencer à campanha, gratuitamente.

Aonde não há mocidade não existe futuro. Pé no Chão era o futuro da juventude pobre de Natal. Os Cursos de Artesanato mobilizaram centenas de jovens. Quanta vocação perdida no anonimato, pela falta de uma oportunidade... Modeladores com profunda sensibilidade impressionaram no Curso de Cerâmica. Um forno improvisado para cozinhar o barro, um professor, que às vezes era um mestre da escola popular que imortalizou Vitalino, eram o suficiente para que os alunos que tivessem vocação se iniciassem na escultura. Falar nas rendeiras é relembrar, com amargura, uma arte que está pouco a pouco desaparecendo e que a Campanha procurou restaurar em toda a sua magnitude.

O artesanato, aproveitando a palha de coqueiro, as fibras mais variadas, os cactos, frutas e raízes, chifre e osso, retalhos de fazendas, objetos imprestáveis habilmente transformados em adorno, uma variedade enorme de brinquedos era um mundo novo que se descortinava para uma geração inquieta. O artesanato tomou grande vulto, caminhando para tornar autosuficiente este setor da Campanha de Pé no Chão.

Elevada era a quantidade de artigos confeccionados, tornando-se necessário fazer exposições e feiras para vendê-los. E o povo não faltou com o seu apoio. As vendas eram compensadoras e já se planificava a organização de 114 uma Cooperativa para aglutinar os concluintes dos cursos que desejavam se profissionalizar e procuravam mercado para o fruto do seu trabalho.

d) MARCENEIROS-MIRINS A falta de mão-de-obra especializada é uma das características das regiões subdesenvolvidas. A especialização é uma decorrência da industrialização. Continuamos a ser, infelizmente, um “país essencialmente agrícola”.

O surto desenvolvimentista verificado anos atrás, deparou-se com a realidade da falta não somente de técnicos de alto nível, mas, também, do simples operário especializado. Citemos um exemplo: envernizador. Saber envernizar é um “segredo”, uma técnica. Em Natal existia uma enorme falta de envernizadores para as pequenas fábricas de móveis.

Quando a campanha de Pé no Chão também se Aprende uma PROFISSÃO, diplomou a sua primeira turma de Aprendizes de Envernização, todos estavam antecipadamente colocados. Eram os “marceneiros-mirins”. A marcha para uma sociedade em que prevalece a tecnologia. Uns se especializavam em fazer bancos, cadeiras, tamboretes, que eram vendidos nas feiras e mercados. Outros fabricavam objetos mais delicados.

Um serrote, uma plaina manual, um martelo e um punhado de pregos, constituíam a ferramenta elementar para um jovem se encaminhar numa profissão. O salto adiante para adquirir uma especialização. O homem de amanhã não pode ser um simples carregador de fardos, ajudante de pedreiro, lavador de pratos, varredor de rua. Necessita de uma profissão, a fim de deixar de perceber salários inconcebíveis, pagos pelo submundo econômico.

e) O APOSENTADO VIROU SAPATEIRO, ínfima, miserável, é a aposentadoria que a imensa maioria dos servidores públicos, estaduais e municipais, percebe depois de 30 e 40 anos de serviço. Não é salário. É uma autêntica esmola. O drama do servidor público aposentado, agrava-se ainda mais com a inflação galopante, a alta vertiginosa do custo de vida, dos aluguéis, dos gêneros de primeira necessidade.

A campanha de Aprenda uma Profissão, sensibilizou centenas de aposentados. Após alguns meses de frequentar os cursos, estavam aptos a desenvolver a atividade para complementar o orçamento doméstico. É muito comum, no Brasil, as pessoas que necessitam ganhar mais alguns cruzeiros, transformarem-se em “bicheiros”. Bicheiro é o que vende – “passa” jogo do bicho, que deixou de ser um cancro, um simples caso de polícia, para se transformar em um imenso “problema social”.

Muitas destas pessoas matricularam-se na Campanha de Pé no Chão Também se Aprende uma Profissão. Os mais idosos tinham preferência pela profissão de Sapateiro. É mais fácil começar a trabalhar, botando “meia sola” nos sapatos dos vizinhos. Um “pé-de-ferro”, um martelo, uma faquinha bem amolada, alguns apetrechos e está montada a ‘tenda” do novo sapateiro.

Era com emoção que encontrávamos salas de visitas de casinhas suburbanas, transformadas em local de trabalho. Ou então, no quintal, na sombra de uma árvore. O modesto amanuense aposentado, estava, como se diz na gíria popular, “lambendo sola”. Ganhava algum dinheiro para comprar um quilo de carne ou um litro de feijão, porque a carne pelo seu alto custo, é artigo proibitivo na mesa do pobre.

f) MOÇAS COSTUREIRAS E TELEGRAFISTAS Não eram somente meninos, rapazes e homens que procuram adquirir uma profissão, através da Campanha de Pé no Chão, que na sua primeira fase dedicou-se a ensinar as técnicas de ler, escrever e contar e na segunda etapa ministrar os rudimentos da especialização profissional, através de quase 30 (trinta) categorias diversificadas.

A mulher, na luta pela sua reabilitação social, pela igualdade de direitos com o homem, também se incorporou ao nosso movimento. Primeiro foram os cursos de Corte e Costura. As matrículas abriam-se e encerravam-se, superlotadas, no mesmo dia. Fazíamos um esforço econômico e comprávamos mais algumas “máquinas de costura” e novos cursos se iniciavam, funcionando em três (3) turnos, pela manhã, à tarde e à noite.

Aprender a costurar é fundamental para a mulher. Não somente serve como uma profissão, para trabalhar como costureira e ganhar dinheiro, mas, principalmente para costurar a roupa da família, economizando o que seria pago para fazer os vestidos das filhas, a camisa do marido, a sua própria saia e blusa. Depois vieram os cursos de bordado à mão, e a máquina. E também os chamados cursos de artes domésticas. Mas o destino da mulher, na concepção moderna do mundo, não é somente trabalhar com linha e agulha.

E as moças e senhoras, principalmente as moças, almejavam adquirir uma profissão definida. Muitas se matricularam nos cursos de datilografia e taquigrafia. O caminho mais curto para chegar a um escritório. Diversas aprenderam a arte da encadernação. Haviam, entretanto, outras que preferiam uma especialização diferente. Por exemplo: telegrafia. Tivemos, assim inúmeras moças que aprenderam a operar com o aparelho de morse.

É o Brasil do futuro em marcha. A explosão demográfica, leva o nosso país a um crescimento acelerado, uma pátria de jovens. Estatísticas oficiais revelam que metade de nossa população tem menos de 20 (vinte) anos. Outros 15 (quinze) milhões estão na faixa dos 20-30 anos. É impossível deter estas moças costureiras, bordadeiras, datilógrafas, estenógrafas, encadernadoras e telegrafistas!

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