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Seminário sobre os Direitos dos Homossexuais

SUMÁRIO

 

Apresentação

Introdução

Transcrições das exposições e debates do Seminário

Abertura

Aspectos jurídicos e legais da orientação homossexual

Políticas públicas e ações governamentais

Debates

Entidades

Carta de Brasília

Projeto de Lei sugerido pelos participantes do seminário

 

APRESENTAÇÃO

A questão da cidadania do homossexual é uma realidade a cada dia mais presente nos trabalhos da Comissão de Direitos Humanos. Em 1999, recebemos de diversas entidades denúncias sobre violações dos direitos dos homossexuais. Por outro lado, é um dos grupos vulneráveis que mais rapidamente vem se organizando no Brasil em prol de seus legítimos interesses.

Mas os dados sobre os crimes que se cometem contra os homossexuais são alarmantes. De acordo com a ABGLT - Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, a cada três dias, um homossexual é assassinato no país em decorrência de sua condição sexual. É crescente o número de crimes de torturas, agressões, ameaças e difamações, principalmente nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, onde há um número maior de violações.

Os dados ainda são incompletos e parciais, tendo em vista que muitos crimes não são sequer registrados. É que, freqüentemente, ao tentar registrar agressões junto às delegacias, homossexuais acabam sendo vítimas de mais discriminação e preconceito por parte dos próprios policiais, passando de denunciantes a denunciados. As ocorrências são então modificadas ou desestimuladas.

Os estudiosos demonstram em suas pesquisas que somos uma sociedade homofóbica, ou seja, há uma especificidade na discriminação existente contra os homossexuais. Neste contexto, o que motiva o crime ou o preconceito, muitas vezes, é a rejeição pura e simples da pessoa em razão de sua orientação sexual. O homem que opta por ser gay, travesti, transexual ou a mulher que opta por ser lésbica, são vistos como desequilibrados, desajustados, doentes que precisam ser excluídos do convívio social. Tudo isso reforça uma cultura hermética e machista que desrespeita a pessoa humana e fere o direito e a liberdade de exercer livremente sua sexualidade.

Estamos certos que o nosso desafio é grandioso, já que não basta legislarmos para tornar cada vez mais eficaz o ordenamento jurídico na punição dos crimes praticados contra os homossexuais. Precisamos igualmente atuar no fomento de ações afirmativas, nas quais a especificidade da cidadania dos homossexuais esteja incorporada a políticas públicas. No combate à violência, é preciso desde educar nossas polícias para o respeito à orientação homossexual, até incentivar a criação de disque-denúncias e programas voltados ao combate à impunidade.

Esta publicação é um meio de contribuição a esse processo de conscientização dos direitos humanos dos homossexuais. Além de divulgar a íntegra dos debates do seminário realizado em setembro de 1991 pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, em conjunto com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos (Ministério da Justiça) e com o apoio de várias organizações não-governamentais. Por ter sido rico e contado com presença de lideranças nacionais que refletem sobre o tema, decidimos transcrever o debate tal como ele ocorreu. Estes Anais também contém a Carta de Brasília, com as conclusões e recomendações do encontro, além de cópia do Projeto de Lei 1.904/99, que apresentamos em antendimento a uma sugestão consensual das entidades participantes do evento.

Desta forma, esperamos que cada vez mais os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, bem como do conjunto da sociedade, assumam iniciativas voltadas para o combate às discriminações, inclusive dos homossexuais. Se todos fizerem a sua parte, contribuiremos para construir uma sociedade pluralista, verdadeiramente democrática e humanista.

 

 

Deputado Nilmário Miranda

Presidente da Comissão de Direitos Humanos

 

INTRODUÇÃO

SEMINÁRIO CIDADANIA HOMOSSEXUAL E DIREITOS HUMANOS

O Seminário Direitos Humanos e Cidadania Homossexual foi realizado no dia 21 de setembro de 1999, no plenário 9 do Anexo II da Câmara dos Deputados, pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em conjunto com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, do Ministério da Justiça, contando ainda com o inestimável apoio de organizações não-governamentais representativas dos segmentos homossexuais da população homossexual, como a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, Fórum Paulista da Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros, Grupo Corsa, Associação de Travestis e Liberados-RJ, Grupo Gay da Bahia e Núcleo de Gays e Lésbicas do PT.

Na ocasião foram debatidos os direitos dos homossexuais, ações afirmativas, aspectos jurídicos e legais da orientação homossexual, políticas públicas e ações governamentais. Foram apresentadas diversas denúncias de violações dos direitos humanos de cidadãos homossexuais no país.

Participam do seminário, entre outros expositores, a ex-deputada Marta Suplicy; o procurador da República Aurélio Virgílio Rios; o diretor do Departamento de Direitos Humanos, Ivair Augusto dos Santos; e o representante da Rede Nacional de Direitos Humanos, Raldo Bonifácio.

 

 

TRANSCRIÇÃO DAS EXPOSIÇÕES E DEBATES DO SEMINÁRIO

DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA HOMOSSEXUAL

 

ABERTURA

 

O SR. COORDENADOR (Deputado Nilmário Miranda) - Declaro abertos os trabalhos da Comissão de Direitos Humanos, dando início ao seminário Direitos Humanos e Cidadania Homossexual.

Antes de explicar a dinâmica desse evento, quero dizer a todos os presentes que a Câmara dos Deputados acabou de votar, há exatamente dez minutos, projeto de lei de iniciativa popular que aqui chegou com 1 milhão de assinaturas. Esse projeto, que é uma novidade, pune a corrupção eleitoral antes das eleições. Qualquer eleitor corrompido por um candidato, com distribuição de bens de qualquer natureza em troca do voto, pode denunciar o político. O eleitor terá o perdão judicial, e o candidato pode ter a sua candidatura impugnada, cassada. Essa denúncia impede, lá no começo, a própria candidatura.

Esse projeto é oriundo de uma articulação que envolveu dezenas de entidades da sociedade civil e foi liderado por igrejas evangélicas e católicas, pela OAB, pelas Centrais Sindicais e por diversas ONGs que, durante um ano, coletaram um milhão de assinaturas com o devido título de eleitor, o que é uma atividade muito difícil. É o segundo projeto de iniciativa popular que chegou no Congresso Nacional em dez anos. Só dois conseguiram isso, o de moradia e esse.

Vamos iniciar este seminário sabendo que, devido à importância da referida votação, a sessão extraordinária da Câmara dos Deputados se estendeu além do tempo previsto, provocando atraso no início do nosso seminário.

Antes de mencionar a importância e o significado deste seminário, convido para compor a Mesa, em primeiro lugar, a ex-Deputada Marta Suplicy, uma das expositoras que, sendo autora de um projeto a respeito do assunto, deixou aqui seu rastro. Convido também os Srs. Aurélio Virgílio Rios, Procurador Federal; Ivair Augusto Alves dos Santos, militante dos Direitos Humanos que "emprestamos" ao Governo e que aqui está representando o Ministério da Justiça, na qualidade de chefe do Departamento de Direitos Humanos daquele ministério; e Cláudio Nascimento, representante da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis. Naturalmente, não tenho como chamar para a Mesa todos os companheiros e companheiras que aqui usarão da palavra.

Vamos começar ouvindo os nossos convidados. Já estão inscritos para usar da palavra a Sra. Zora Yonara Iones, Diretora do Grupo de Lésbicas da Bahia e Secretária Adjunta de Direitos Humanos da ABGLT; o Sr. Marcelo Cerqueira; a Sra. Rosângela Castro; o Sr. Roberto de Oliveira; o Sr. Midori Amorim; o Sr. Derli Luiz; o Sr. Danne Roos e o Sr. Enilson Ferreira. Em seguida, passaremos a palavra aos expositores, o Sr. Cláudio Nascimento; o Dr. Aurélio Virgílio Rios; o Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos; o Sr. Raldo Bonifácio, da Rede Nacional de Direitos Humanos, do Ministério da Saúde; e a Deputada Marta Suplicy, que estão compondo a Mesa.

Esta é a primeira vez que, no Congresso Nacional, os direitos humanos dos cidadãos homossexuais são debatidos em evento organizado exclusivamente para esse fim. O modesto número de pessoas presentes reflete as dificuldades naturais de iniciativas como esta, inclusive o preconceito da sociedade sobre o assunto.

Na realidade, os homossexuais constituem uma parcela significativa da população e são um dos setores mais vitimados pela violência. O número de casos de violação dos direitos humanos dos homossexuais é alto, se comparado ao de outros setores. Todos sabemos da intolerância e da discriminação que pesa sobre esses cidadãos e essas cidadãs. As agressões têm atingido proporções alarmantes. São numerosos os casos de ação de grupos de extermínio e de violência policial contra essa parcela de nossa população.

Cidades como o Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Goiânia registram uma expressiva quantidade de homicídios, torturas e agressões físicas envolvendo gays, lésbicas, travestis e transexuais. Grande parte desses crimes tem ficado na impunidade por falta de empenho das instituições policiais e judiciárias, nas quais a discriminação persiste, a exemplo de outras instituições.

A Constituição Federal dispõe sobre o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Há também dispositivos que asseguram direitos à intimidade, à vida privada, à proibição de qualquer discriminação etc. No entanto, o que se vê é o constante desrespeito desses direitos pela sociedade brasileira. Não haverá um verdadeiro Estado Democrático de Direito enquanto a liberdade e a privacidade das pessoas não forem efetivamente asseguradas, tanto pela Legislação quanto pelas instituições e entidades governamentais. Políticas públicas voltadas especificamente para os direitos dos homossexuais devem ser agilizadas, para que se crie uma cultura e uma educação de respeito à liberdade e à orientação sexual das pessoas.

O Programa Nacional dos Direitos Humanos não incorporou uma extensão adequada às demandas dos cidadãos homossexuais. A representação desses setores nos organismos colegiados do Estado não corresponde à amplitude de sua presença na sociedade. Esses são indicadores incontestáveis de que é preciso agirmos no sentido de garantir os valores democráticos em toda a extensão dos direitos humanos aos homossexuais.

A votação do projeto de lei da união civil, apresentado pela Deputada Marta Suplicy, revelou as dificuldades que essa caminhada impõe. Mas foi um começo — um bom começo! Outras proposições que assegurem os interesses e direitos legítimos dessa parcela de nossa população serão apresentados e debatidos. A Parada Gay de São Paulo, com cerca de 30 mil participantes, revelou a força crescente da mobilização dos diferentes setores da população homossexual do País.

Ao realizar este evento, em conjunto com a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, aqui representada pelo Dr. Ivair Augusto dos Santos, a Comissão de Direitos Humanos assume o compromisso de intensificar a luta pela garantia dos direitos fundamentais de todos os cidadãos homossexuais e se coloca à disposição para, juntos, apresentarmos alternativas nessa luta.

Está presente também o Deputado Nelson Pellegrino, Vice-Presidente da Comissão de Direitos Humanos e ex-Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia durante oito anos. Após a votação em plenário, S.Exa. foi fazer um lanche, para agora vir presidir os trabalhos da Comissão, conforme combinamos.

Passo a Presidência ao Deputado Nelson Pellegrino.

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Inicialmente, daremos a palavra ao Sr. Marcelo Cerqueira, Diretor do GGB, Grupo Gay da Bahia, e também Secretário de Saúde da ABLT. Ele é um velho conhecido da Bahia e, juntamente com outros companheiros, tem feito um importante trabalho em seu Estado.

Com a palavra o companheiro Marcelo.

O SR. MARCELO CERQUEIRA - Senhoras e senhores, boa-tarde. Sou Vice-Presidente do Grupo Gay da Bahia e estou aqui para trazer depoimento quanto à violação dos direitos humanos dos homossexuais, gays, lésbicas e travestis no Estado.

Ultimamente, estamos vivendo um regime de autoritarismo, de prisão e de violência em Salvador, pois a Secretária de Segurança Pública, Kátia Alves, autorizou prender todos os travestis que estiverem nas ruas da cidade a partir de determinado horário. É uma vergonha sermos obrigados a conviver com esse tipo de violência e de agressão em nossa cidade e num Estado como o nosso. Trago também o dossiê da violação dos direitos humanos de homossexuais no Brasil no ano de 1998, em que constatamos 116 assassinatos de homossexuais, sendo 73 gays, 36 travestis e 7 lésbicas.

Essa situação é alarmante. O ano de 1999 nem terminou, e já constatamos, através de pesquisas na imprensa, que 104 homossexuais foram assassinados no Brasil.

Bahia e São Paulo são os Estados onde mais se matam homossexuais. Existe uma cultura que determina que o homossexual é frágil, é um cidadão de segunda categoria; por isso, tem seus direitos desrespeitados constantemente nos Estados da Bahia e de São Paulo.

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Passo a palavra à Sra. Rosângela Castro, diretora do Grupo Arco-Íris e Secretaria de Mulheres da ABGLT.

A SRA. ROSÂNGELA CASTRO - Senhoras e senhores, a Secretaria de Mulheres da ABGLT agradece o convite para este seminário, que, com certeza, é um marco para o movimento homossexual brasileiro e também um incentivo do Ministério da Justiça para que possamos estar aqui.

A discriminação em função da orientação sexual tem levado ao isolamento e à marginalização das lésbicas por parte da sociedade. Acreditamos que, se não lutarmos, se não colocarmos a nossa cara nas ruas para mudar a atual situação, seremos penalizadas mais uma vez com o esquecimento e continuaremos isoladas e invisíveis.

A violação de nossos direitos começa em nossas próprias casas. Quando descoberta a nossa orientação sexual, somos humilhadas, espancadas e expulsas, em alguns casos, como temos conhecimento, e até abusadas sexualmente para aprendermos a gostar de homens. Nós gostamos de homens, sim; apenas não os queremos para nossos companheiros, para construirmos e compartilharmos as nossas vidas. Às vezes temos de sair muito cedo das escolas, devido às pressões sofridas e à falta de preparo dos professores e das equipes pedagógicas para enfrentarem a questão da homossexualidade. Muitas vezes, são eles os grandes discriminadores.

O direito à religião também nos é vedado, quando somos colocadas como pecadoras e transgressoras da vontade de Deus, e nos falam que não herdaremos o reino dos Céus e não somos dignas de suas bênçãos. Também somos demitidas de nossos trabalhos. A mídia em pouco tem ajudado a dignificar a nossa imagem, pois continuamos como sapatões, mulher-macho, paraíba, caminhoneira, roceira, roçona, a que deu para ruim. Nas raras vezes em que aparecemos com uma situação financeira estável, bem-sucedidas profissionalmente e numa relação saudável de afeto e amor, somos mortas ou em acidente de carro ou queimadas em incêndio no shopping center.

Acreditamos que esta é a hora de nós, lésbicas, defendermos os nossos direitos, pois temos a força necessária para conseguir mudanças sociais e políticas fundamentais, para sermos cidadãs de plenos direitos na sociedade em que vivemos, de modo a acabar com a discriminação a que somos sujeitas.

Queremos acesso aos serviços de saúde, a barreiras para prática de sexo mais seguro, à partilha de bens, a colocarmos nossas companheiras como beneficiárias de nossos planos de saúde, de nossos clubes e de nossas colônias de férias. Queremos e temos direito a PCR, temos direitos à guarda de nossos filhos.

Dos crimes contra lésbicas, 60% estão caracterizados pela "lesbofobia" e apresentam requintes de crueldade, como objetos introduzidos nas genitálias e queimaduras no corpo. Devido à invisibilidade das lésbicas, de 1970 a 1999, segundo o Grupo Gay da Bahia e o Grupo Lésbica da Bahia, temos registrados apenas 60 casos de assassinatos — o que não corresponde à realidade, até porque nossos familiares prezam para que não seja divulgada a nossa orientação sexual.

Algumas coisas se modificaram. Temos acompanhado casos de sucesso de companheiras que tiveram seus direitos violados, como o de uma que recebeu indenização da fábrica Aymoré ao ter sido demitida por ser lésbica. Acompanhamos também, inclusive nesta Casa, o caso de duas companheiras que tiveram seus direitos violados, ficaram presas onze meses e ainda correm o risco de ser julgadas. Mas o movimento homossexual brasileiro acredita que justiça será feita. Já tivemos exemplos positivos, e já conseguimos também que gays e lésbicas conseguissem partilha de bens, na Justiça do Rio de Janeiro.

Safo, a quem em sua homenagem somos chamadas de lésbicas, há 640 anos antes de Cristo falou: "Alguém, creio, se lembrará de nós no futuro, e acreditamos que sem os homossexuais os direitos não são humanos".

Obrigada. (Palmas.)

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Passo a palavra a Sra. Zora Yonara Iones, diretora do Grupo Lésbicas da Bahia e também secretária adjunta de Direitos Humanos da ABGLT.

A SRA. ZORA YONARA IONES COSTA - Sr. Presidente, senhoras e senhores, eu queria agradecer a presença de todos os grupos, de todas as pessoas que aqui estão, porque este é um grande passo para a conquista dos direitos dos homossexuais no Brasil.

Nós, homossexuais, temos pouco a comemorar nesses vinte anos da existência do movimento homossexual no Brasil. Cada vez mais nos temos concentrado para a realização e concretização de políticas públicas, que são ações plenas, grandes e únicas, mas decerto pequenas para o que temos ainda a fazer. Este é um processo que vem sendo conquistado com muita dificuldade em nosso País, e temo que entremos no novo milênio com mais registros negativos na nossa causa do que positivos. Se todos temos direitos iguais, então por que, quase na passagem do milênio, ainda não conseguimos políticas públicas efetivas e leis que nos protejam contra tanto ódio e intolerância?

Atualmente, no Brasil, temos 73 leis orgânicas municipais que, em sua constituição, rezam sobre a não-discriminação por orientação sexual. Aqui está um exemplo vivo de ação concreta e política pública. Mas queremos mais, Senhoras e Senhores: queremos que a nossa Carta Magna, a Constituição Federal, tenha escrito que é proibido discriminar por orientação sexual em âmbito nacional. E já existe um projeto de reformulação ou alteração do art. 5º da Constituição Federal, do Deputado Federal Marcos Rolim.

Precisamos que os nossos governantes tenham boa vontade e nos ajudem, política e socialmente, para que essa lei seja aprovada, pois nossa população de gays, lésbicas e travestis está carente de um regimento que nos proteja e de apoio oficial do Governo para que os nossos direitos humanos sejam garantidos por lei. Por isso, reforço meu pedido e digo que nós dependemos do apoio de toda a sociedade para que leis sejam concretizadas. Todos temos responsabilidade, neste instante, e essa população, que é constituída de 10% do total, aproximadamente, necessita dessas leis que nos protejam contra tamanha violência.

Somos homossexuais e somos brasileiros. Temos voz e nunca iremos silenciar. Afinal, o silêncio é igual a morte. E queremos agora gritar aos quatro cantos do Brasil que dentro de nós há uma alma viva e latente por direitos que nos são negados em todos os âmbitos sociais, no seio familiar, na escola, entre os vizinhos, e também na forma mais sublime, que é o amor por outra pessoa. Mas estamos aqui para mudar o curso desse caminho sombrio, instituído por aqueles que insistem em nos calar e nos matar socialmente.

Obrigada. (Palmas.)

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O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Passo a palavra, em seguida, ao Sr. Roberto de Oliveira, Coordenador do Grupo de Gays e Lésbicas do Partido dos Trabalhadores.

O SR. ROBERTO DE OLIVEIRA SILVA - Boa-tarde a todos. O que queremos ressaltar é que no Brasil o preconceito é cultural, é histórico — ou seja, ele foi socialmente construído. Entendemos que não será por decreto que vamos conseguir eliminar o preconceito da sociedade brasileira, mas isso não impede que o Estado, enquanto regulador das relações sociais, possa e deva criar políticas públicas e mecanismos de combate ao preconceito.

Na questão da educação, entendemos claramente que seria necessária a inserção da educação sexual sem preconceitos desde o ensino básico, e também o combate à violência social — a grande bandeira que temos hoje é a tipificação do crime de ódio — mais geral, à violência policial e à violência judiciária. Em particular, precisamos combater o crescimento do neonazismo no Brasil, que em São Paulo, pelo menos, tem crescido e exercido ações quase que cotidianas contra negros, nordestinos e homossexuais.

Gostaríamos que esta Casa garantisse — não sei como, porque a Deputada Marta Suplicy já saiu do Congresso — a aprovação do Projeto de Parceria Civil, que, com certeza, já eliminaria muitas situações esdrúxulas que gays e lésbicas vivem neste País.

Basicamente, seria isto. Mais tarde, no debate, teremos outras questões.

Obrigado. (Palmas.)

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Passo a palavra ao Sr. Midori Amorim, secretário da Associação dos Travestis e também da ABGLT.

O SR. MIDORI AMORIM - Boa-tarde a todos. Estou aqui representando a frente de discriminação de toda a homossexualidade brasileira. Nós, travestis, somos alvos fáceis, porque muitas das vezes somos profissionais de sexo e nos tornamos alvos muito fáceis de serem abatidos por preconceituosos e discriminadores.

Em São Paulo, ultimamente, nós temos uma grande luta contra a FAC, que é a Frente Anticaos, um grupo neonazista que está tentando eliminar todos os homossexuais. E não só a FAC, também o Governo está tentando fazer isso, dizendo que vai moralizar São Paulo tirando os travestis da rua. Não sei como, porque a moralização não é por esse lado, discriminando pessoas e tirando seus direitos civis e humanos.

Quanto à questão de termos leis, eu peço por favor, encarecidamente, a todos aqui desta Casa que tentem fazer uma lei pela criminalização, não por orientação, não por crimes de ódio, porque crimes de ódio é uma lei que vai abranger muitas coisas; mas que comecem, pelo menos, com a criminalização das pessoas que nos discriminam. Nós queremos criminalizar essas pessoas que não nos deixam entrar, que nos batem, nos espancam e muitas das vezes nos matam.

Eu sofri muito porque fui presa injustamente, por conta de uma denúncia feita por um Promotor de São Paulo, dizendo que no Butantã, que é um bairro nobre de São Paulo, estava havendo tráfico de drogas por parte dos travestis. Não tinha isso. Só que eu fui pega para provar essa denúncia, porque eu sabia dos meus direitos e estava brigando por eles — não só pelos meus como pelos das outras travestis que estavam sendo presas naquele dia. E, para provar essa denúncia, eles me forjaram um tráfico de drogas.

Eu fiquei presa seis meses. Por uma questão judicial, eu não fui solta porque teve um excesso de prazo. As minhas audiências eram de dois em dois meses, o que é um absurdo. Depois, naturalmente, eu vou fazer a denúncia. Eu trouxe um outro relatório aqui para esta Comissão avaliar e me ajudar no que for possível.

Quanto à questão do travesti no Brasil, como eu já disse, nós somos a linha de frente de toda essa discriminação a homossexuais. Então, eu peço mais uma vez, encarecidamente, que seja feita uma lei de criminalização a esses crimes contra nós todos, gays, homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais.

Obrigada. (Palmas.)

 

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O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Então, esta denúncia a que V.Sa. se referiu, quer formular agora ou vai encaminhar diretamente à Comissão?

O SR. MIDORI AMORIM - Eu tenho o relatório pronto. Se V.Exas. quiserem, eu poderei ler e passarei depois aos senhores. No dia 10 de novembro de 1998, aproximadamente às 22h30min, encontrava-me trabalhando como voluntária do GRAPA (Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS), de São Paulo, GIVI (Grupo de Incentivo à Vida), e CORSA (Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor), do qual faço parte da Coordenadoria de Travestis, junto aos trabalhadores do sexo, na região do hipódromo, que é o Jóquei Clube de São Paulo, no Butantã, pois também trabalhava como profissional do sexo.

Quando estava na Praça Hugo Sarmento, parou um carro do tipo Monza com dois ocupantes, que se apresentaram como possíveis clientes. Perguntaram o preço de um programa e eu informei. Eles aceitaram fazer. Entrei no carro e fomos em direção a um hotel ali na região. Só que, no caminho do hotel, eles começaram a perguntar: "Você vende droga?". Eu disse que não vendia. "Você usa?" Disse: "Não uso e nunca usei". "E você não conhece quem vende?" Eu disse que não conhecia porque nunca usei droga e não saberia dizer. Então eles entraram numa direção oposta ao hotel e falaram que iríamos tomar cerveja. Eu disse que a cerveja nós tomaríamos no hotel, porque seria mais cômodo, já que nós iríamos fazer sexo no hotel. Eles aceleraram o carro nesse momento, e um, o que estava no banco de trás, agarrou-me por trás, enforcando-me com os braços. Foi quando o outro me batia, o que estava dirigindo, com os cotovelos, e dando-me pontapés também. Então eu consegui morder o que estava me enforcando, para que ele não me enforcasse mais, e escapei dele. Eu puxei o freio de mão do carro.

O carro parou. Eu tentei descer, mas foi em vão. Eles pararam o carro — já estava parado — e começaram a me espancar mais ainda. Foi quando escapei deles e comecei a correr na rua. Eles correram atrás de mim e conseguiram me apanhar. Só que nós conseguimos brigar muito. Brigamos cerca de dez minutos. Eram dois contra eu só. Só que, por trás da rua onde eu estava, a duas quadras, tinha um caminhão-baú da Delegacia de Narcóticos de São Paulo com cerca de 45 travestis e 30 mulheres prostitutas já dentro do caminhão. Então, vieram correndo cerca de três policiais e conseguiram me agarrar. Aí, então, eu fui saber que os dois que estavam brigando comigo eram policiais dessa mesma instituição. Então, fui amarrada com cordas de sisal, algemada nos pés e nas mãos, e fui arrastada no chão. Eles me espancaram muito a ponto de eu desmaiar.

Eu acordei e já estava dentro da Delegacia do DENARC, no centro de São Paulo, não sei quanto tempo depois. Então, começaram mais uma outra sessão de torturas. E essa já foi com cabo de vassoura, com pedaços de cano de ferro, tacos de beisebol. Eu me lembro muito que num deles vinha escrito assim: "Direitos humanos". E eles diziam que era o que eu tinha muito porque eu havia brigado pelos meus direitos naquele momento, e me espancavam muito com aquele taco de beisebol, ao ponto de me quebrarem o nariz, a boca e algumas outras partes.

Daí, então, eu fui levada ao IML para nada, porque a minha guia de exame de corpo e delito veio em branco e a deles veio assinada de todas as outras formas de agressão que eu teria feito contra eles. Depois de eu ter voltado do IML, trancaram-me numa sala escura e jogaram-me um ácido no olho, do qual sofro da vista até hoje. Não consigo enxergar direito. Eu não conseguia enxergar quem estava me espancando. Espancaram-me até cerca das 7 horas da manhã. Eu acho que de tortura deve ter sido cerca de umas 6 horas. Paravam, eu pensava que eles iriam parar e diziam que não, que era só revezamento, que tinha mais policiais para me bater.

Aí, de manhã cedo, às 9 horas da manhã, eu assinei o Boletim de Ocorrência forçada, porque eu não sabia do que se tratava. Eles me disseram que era de drogas, que eles tinham me forjado um tráfico de drogas para eu aprender direito todos os meus direitos que eu tinha e para ver se eu saberia me livrar daquela situação. Eu fiquei presa por seis meses dentro da Delegacia. Nós sofríamos tortura por conta do GARRA e do GOE. O GOE é o Grupo de Operações Especiais e o GARRA é o Grupo de Ataque e Repressão à alguma coisa armada.

Então, eles sempre entravam de madrugada, cerca de 3 ou 4 horas da madrugada, encapuzados, me excluíam do meio dos outros presos — havia 180 presos ali comigo no Distrito do Ipiranga, no 17º — e me espancavam para um lado porque eu era travesti, e espancavam os outros juntos jogando água fria, deixando-nos nus e coisas desse tipo.

Além de eu não ter um acesso ao apoio jurídico, foram apontados dois advogados para me defender, os quais também tentaram me incriminar, porque eles diziam que os nomes dos advogados eram Adail Leone e Eula do Prado. Na primeira visita que a Dra. Eula me fez, ela disse que eu merecia castigo porque era muito rebelde. Na segunda visita foi o Dr. Adail que me fez. Ele batia no meu ombro e dizia: "Não se preocupe, porque o lugar para onde você vai, do que você gosta tem um monte". No entanto, seria o Carandiru, que tem sete mil homens. Ou seja, ele queria que eu fosse condenado para ir para o Carandiru. Condenado, sim, por uma coisa que eu não fiz, apenas por ser travesti e estar ali trabalhando para sobreviver.

E aí, então, eu fiquei seis meses preso, até que consegui outros advogados, e eles conseguiram fazer relaxamento de flagrante, não relaxaram de artigo. O artigo continua sendo o 12. Eu ainda respondo a processo. Mudou de processo para diligência. Eu posso ainda ser condenada.

Então, eu faço essa denúncia, pedindo apoio desta Casa para que me ajudem nesta luta. Eu nunca fui traficante, nunca usei drogas, tanto que nunca foi pedido exame nenhum de entorpecentes para que eu fizesse. Foi negado, aliás não foi nem lido pela Juíza um pedido de exame de corpo e delito no momento em que eu entrei na Delegacia, no dia seguinte ao meu espancamento pelos policiais e pela tortura.

Isso tudo é muito revoltante porque eu sempre, vamos dizer assim, briguei pelas questões de discriminação, principalmente contra travestis, que é quem eu conheço mais. E, de repente, eu própria ser apunhalada pelos próprios policiais... Mas não tinha só eu. Há outras travestis também que foram incriminadas, várias por roubo, várias outras por tentativa de homicídio — quatro travestis foram incriminadas por isso — e outras por assalto. Por quê? Porque é a forma legal que eles têm de nos tirar da rua. Eles forjam esses crimes em nós e dizem: "Nós não podemos incriminá-la por você estar andando de mulher, nós não podemos incriminá-la por você fazer prostituição, nós a incriminamos por direitos. Vocês são assaltantes. Vocês são traficantes. Vocês são assassinas." Então, eles forjam isso e nos prendem. Então, esta eu acho que seja a forma que o Governo esteja usando para tirar os travestis da rua.

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - A denúncia precisa ser encaminhada por escrito, Sr. Midori Amorim, para que a Mesa, no âmbito da Comissão, possa dar-lhe seguimento.

Passo a palavra, em seguida, ao Sr. Derli Luiz, da Associação Goiana de Gays e Lésbicas e após ao Sr. Danne Roos, do Grupo Dignidade, do Rio Grande do Sul.

O SR. DERLI LUIZ CHAVES - Primeiramente, boa-tarde. Quero, mais uma vez, agradecer o convite para estar aqui. Nós, que vivemos na região Centro-Oeste, sabemos que a situação aqui não é diferente da que há no Sudeste ou no Nordeste. Sabemos que também aqui a homofobia é grande, e sofremos muito por isso. Se estamos aqui hoje, mais uma vez, reunidos para discutir os direitos humanos, é porque acreditamos na Justiça e sabemos que ainda podemos ter esperança de um dia não precisarmos mais estar reunidos para discutir direitos humanos, e sim direitos gerais, legais, como educação e outras coisas mais, e não por questão de homofobia, por estarmos mais preocupados em saber se iremos morrer ou não. Mas, se estamos aqui hoje, graças a Deus, é porque confiamos nisso, e, mais uma vez, esperamos que esta Comissão possa nos ajudar em alguma coisa.

Obrigado. (Palmas.)

O SR. DANNE ROOS - Boa-tarde a todos os amigos aqui presentes, aos representantes de várias entidades que cuidam dos direitos humanos dos homossexuais, iguais a mim, aos repórteres, a Marta Suplicy e aos Deputados.

Eu me sinto bem à vontade para estar falando com vocês porque, apesar de viver num País que se diz democrático, um País tido como a oitava economia do mundo, e apesar de ter 31 anos de idade, ainda assim a sociedade de meu País não consegue me compreender. A palavra "homossexual" tornou-se, no povoamento de meus pensamentos, uma tortura, a tal ponto de eu esquecer realmente que o meu País é um país para mim.

Ao estar aqui com vocês, eu me sinto privilegiada. Centenas de homossexuais gostariam de estar aqui, mas, por fazerem parte daquele grande grupo de excluídos da economia deste País, infelizmente não podem. E, como falou a minha amiga de São Paulo, o gay está na marginalidade não porque quer — porque é muito importante existir o respeito à prostituição, mas quando a prostituição é voluntária, quando a pessoa tem o direito de compreender a conceituação da palavra "voluntária".

As pessoas nos dizem que os homossexuais têm direito à opção, mas acredito que a palavra "opção", no meu caso e no de muitos homossexuais homens e mulheres não deveria ser usada. Ninguém faz uma opção dentro do Brasil em termos de direitos humanos. Somos jogados na marginalidade. Trabalhamos com o total falta de privilégio dos direitos a nós cabíveis. Neste Planeta, há centenas de anos se fala sobre o homossexualismo e, apesar de tanto conhecimento moderno, ainda assim, ninguém chegou a um consenso. Agora, crime, maldade humana, ódio, raiva, governos corruptos, policial bárbaro, isso aí é bem fácil compreendermos.

Seria muito difícil defendermos os direitos dos homossexuais sem compreendermos a cultura deste País, que, infelizmente, é muito mesquinha, em que muito poucos conseguem manter o seu corpo, a sua sobrevivência, com dignidade, e outros tantos mal conseguem isso. Ser homossexual no Brasil é muito sério. O que mais me deixa perplexo é saber que homens normais, iguais a mim — porque me considero normal, sei ler, sei escrever, respeito o alheio, respeito as leis deste meu País —, homens e mulheres tidos como normais, seres humanos, conseguem olhar para nós sempre com algum tipo de consciência para buscar algum adjetivo pejorativo. As pessoas não conseguem olhar para um homossexual e vê-lo como um cidadão, já não diria nem ser humano, não precisa falar em religião, mas um cidadão. Temos uma Constituição. Somos comuns neste País. Temos os mesmos direitos. E, se não os temos, temos que buscá-los.

Estamos aqui hoje para denunciar mesmo, seria a principal razão de a Comissão nos reservar este seminário, denunciar essa maldade que existe na sociedade. A questão não é ser cidadão brasileiro; a questão é ser um ser humano. Uma pessoa matar, odiar o outro porque ele é sensível, sem se colocar no lugar dele? Enquanto estou falando aqui, quantas crianças, no Brasil todo, filhos de mães e pais homofóbicos serão homossexuais no futuro? E, nesta reunião de hoje, 21 de setembro de 1999, o que podemos fazer por eles?

Fico pensando no que falar, enquanto centenas de homossexuais no Brasil — é reconhecido que são centenas, milhares de homossexuais — mal sabem dos seus direitos, seu direito de cidadão, de completar uma universidade. Mas aí ele parte para estudar o primeiro e o segundo graus. Se ele consegue freqüentar o ensino médio, como fica? O ser humano é um ser animal como qualquer outro, e o sexo é inerente a qualquer ser vivo. Agora, o homossexual não pode manifestar o seu sentimento. E, quando ele o faz, é podado diariamente. Não adianta eu, no meu caso, por exemplo, exigir que os policiais me respeitem, se a minha família não me respeita. E quantas famílias de gays os expulsam de casa? Não acredito que haja uma única solução para os problemas dos gays. Existem, sim, várias soluções, e várias entidades estão trabalhando para isso. Volto a dizer que é um privilégio estar aqui.

Para não me prolongar, eu gostaria de dizer que o Grupo Dignidade, do Rio Grande do Sul, começou atuando na área de prevenção à AIDS. Vemos como é importante a prevenção à AIDS no mundo dos homossexuais, porque, em termos gerais, quando o cidadão valoriza o seu corpo, ele começa a ser cidadão. E o Grupo Dignidade começou a atuar há mais de sete anos, na região da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde a discriminação é muito maior do que se pode ouvir falar. Graças a Deus, conscientizamos as pessoas. Eu traria para esta Comissão a palavra "conscientização". Conscientizar o cidadão comum de que chamar um homossexual de adjetivos pejorativos é crime. Mas, quando um homossexual ou uma lésbica que foram vítimas da homofobia se dirigem a uma Delegacia de Polícia, sofrem ainda mais agressividade de policiais, muitas vezes extremamente desqualificados, que usam palavras como: "Você é "homossexual"? Um policial, no Brasil, no ano de 1999, usando palavras tão distorcidas.

Não se pode falar de homossexualismo no Brasil e não se falar de Igreja, principalmente da católica, do cristianismo. O Grupo Dignidade, do Rio Grande do Sul, mandou para todos vocês, através da minha pessoa, uma mensagem, que muito tem a dizer sobre os direitos dos gays.

É muito difícil para nós, homossexuais no geral, raciocinarmos a partir do ponto de vista católico-cristão e, ao mesmo tempo, aceitarmos a doutrina discriminatória imposta pelo Vaticano.

Quando o Papa ordena aos fiéis a discriminação às tendências homossexuais, ele está desobedecendo a ordem de Cristo, que diz: 'Não julgueis, para não serdes julgados; atire a primeira pedra quem não tem nenhum pecado.' E assim por diante.

É lógico que o Vaticano compreende que o Novo Testamento anulou o Velho. Cristo disse: 'Nem olho por olho e nem dente por dente.' E acrescentou: 'Dá tua face direita quando baterem na tua face esquerda.'

A Igreja é basicamente alicerçada nos princípios judaicos primitivos; e não é à toa que foram os judeus os carrascos de Cristo.

Apesar de sabermos das atrocidades patrocinadas em todos os séculos pelo catolicismo, permanecemos omissos perante o poderio doutrinário ditatorial dos dogmas apostólicos romanos sobre nossas leis constitucionais de Nação independente.

É óbvio que o materialismo que infringe o direito individual é contrastante com a espiritualidade cristã. Entretanto, a Igreja detona arbitrariamente regras abusivas, bem mais opressoras do todo respeitado livre arbítrio, intocável direito eterno das almas, do que propriamente as leis dos homens brasileiros.

No Brasil, temos nossas leis constitucionais e, nelas, a discriminação é condenada. No entanto, quando o Sr. Papa João Paulo II estipula determinações incontestáveis a serem seguidas pelos seus fiéis, do maior rebanho católico oficialmente reconhecido, que é o Brasil, o que eles, os fiéis católicos brasileiros, a TFP, Tradição, Família e Propriedade, a ultradireita, poderão fazer a não ser acatar tais ironicamente violações dos direitos humanos, quando milhares de homens e mulheres homossexuais são vítimas da homofobia, voluntariamente incentivada pela Igreja? Qual a diferença que a análise poderá reconhecer entre o Papa João Paulo II e Adolph Hitler, por exemplo, e, também, que validade têm as leis da Constituição da República Federativa do Brasil perante o império da Igreja do Vaticano?

Diante dessa incógnita, quais as conclusões que devemos avaliar quando formos diagnosticar as razões que levam uma sociedade em pleno início de uma nova era, que precisa e quer muito sepultar da lembrança uma horrível trajetória da história do Holocausto e do homem carrasco do próprio homem, a manter a permanente perseguição, com tamanha ferocidade, sobre membros minoritários, que bem poderiam ser seus próprios pais, irmãos, irmãs, tios, sobrinhos, amigas, por pura incapacitação lógica da assimilação do mandamento máximo da mesma espiritualidade em que se apegam a basearem-se, a fim de darem razão para a brutal prática de atrocidades a parcelas da sociedade que sempre foram minorias desprezadas? Onde está o amor ao próximo como a ti mesmo?

Nós, gays, poderíamos dar vários palpites a respeito desse delírio coletivo. Porém, como sempre, nossas bocas estarão amordaçadas, nossas vozes inaudíveis, nossos gemidos não-lamentáveis, e a vida a que temos direito não é vida, é mera aberração da natureza. Não é que somos incompreensíveis, apenas não querem compreender-nos.

Os mantenedores da nossa condição marginal vão à igreja, oram, choram e dão esmola, lêem a Bíblia Sagrada, texto por texto, versículo por versículo, declaram aos quatro ventos que são servos de Deus e que respeitam vossos mandamentos, revelam que querem viver felizes consigo mesmos e com seus semelhantes. Gritam, em altos brados, que querem e precisam ser santos, que não são maus nem ambiciosos, mas sim grandes seguidores da palavra, e que seu labutar diário é a serviço da paz do mundo.

Infelizmente, porém, o resultado de seus esforços são os referenciais da ganância, da ambição desenfreada, da perseguição aos mais fracos e, ao mesmo tempo, submissão aos poderosos, do amor ao orgulho e a vaidade pelo conquistado. Suas colheitas, que são feitas por métodos muitos sofisticados, garantem-lhes cada vez mais abundância de lucros exorbitantes. Seus poderios estão cada vez mais além de fronteiras e, profeticamente, contabilizam ainda ganhos maiores além-mundo e vão, com toda a certeza, angariar mais e mais fortunas. E até que Deus os duvide, ninguém os fará parar ou mudar de idéia. Estufam o peito e amaldiçoam à destruição qualquer um que os faça refletir, mesmo que sem vontade alguma, naquela remota possibilidade de existirem riquezas maiores do que as fortunas a que detêm apego neste mundo em alguma outra dimensão e, nesse estado de espírito enlouquecido, antecipadamente já decidiram que, se um poderá ser contra todos, portanto, todos poderão ser contra um gay, um negro, um menino de rua, um velho, um aleijado, um louco, um estrangeiro, um discriminado, um marginalizado, um humilhado, um índio, um brasileiro, um ser humano."

Obrigada. (Palmas.)

O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Esse seu documento poderia ser encaminhado para a Mesa, Danne Roos, para que fosse incluído no arquivo da Comissão. Passo a palavra, em seguida, a Enilson Ferreira, Presidente do Grupo Estruturação, de Brasília.

O SR. ENILSON FERREIRA BASTOS - Boa-tarde e bem-vindos a todos os colegas do Brasil. Estou surpreso até por estar falando aqui, agora, mas, enfim. Quando fui convidado para o seminário, fiquei muito contente, porque não tinha conhecimento, como funcionário desta Casa, de iniciativa anterior. Mas a minha alegria se dissipou um pouco com essas estatísticas, com isso tudo que ouvi aqui, não porque eu desconhecesse que isso acontecia, lógico que não, mas porque, aqui em Brasília, felizmente, nossos dados não são assim tão pesados.

Se, de um lado, não existe, digamos assim, tanta violência física, eu só gostaria de dizer que um dos primeiros atos do atual Governador de Brasília foi tirar do ar o único programa de rádio que existia no Brasil dedicado a gays e lésbicas. Assim que tomou posse, o programa saiu do ar, sem nenhuma justificativa, o que se traduz, realmente, em uma grande violência.

Não sei mais em que posso contribuir, mas estamos aqui. Espero que o resultado desta Comissão seja realmente alguma contribuição, porque estou acostumado a acompanhar os projetos desta Casa, acompanhei com ansiedade o projeto da Deputada Marta Suplicy, e vemos que, além de demorar muito, no final, acaba acontecendo o que aconteceu. Espero que realmente saia uma iniciativa que tenha algum resultado prático. Até se citou aqui o Brasil como potência econômica e tudo, e não podemos continuar nesse atraso, porque vemos que a Colômbia já aprovou um projeto de parceria civil há pouco tempo, e o México também. Será que vamos continuar sendo uma cidadezinha, uma republicazinha de bananas sempre, sem uma lei para proteger os nossos direitos? Não é possível. É inadmissível. É inaceitável. Não podemos continuar aceitando isso.

Obrigado. (Palmas.)

 

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O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Por fim, nessa fase de depoimento das entidades, passamos a palavra a Cláudio Nascimento, Secretário-Geral da ABGLT e, também, Presidente do Grupo Arco-Íris.

Com a palavra o companheiro Cláudio.

O SR. CLÁUDIO NASCIMENTO - Boa-tarde a todos, boa-tarde aos membros da Mesa. É um prazer estar aqui com vocês, uma enorme satisfação. Estou muito feliz também com a participação dos grupos aqui presentes. Já verifiquei que há grupos das Regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste. Não estão aqui membros da Região Norte, mas isso, de certa forma, aponta para as dificuldades econômicas e financeiras que os grupos homossexuais no Brasil têm para estar presentes em eventos tão distantes de suas cidades. Mas também demonstra a força e a capacidade de organização desses grupos para estarem aqui. Também é importante destacar e agradecer a presença maciça hoje do Grupo Estruturação.

Bem, essa iniciativa da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados é muito importante. Eu gostaria de parabenizar o Presidente desta Comissão, Deputado Nilmário Miranda e todos os membros da sua equipe, Secretária Nacional de Direitos Humanos, Dr. Ivair Augusto Alves dos Santos, do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, que, na verdade, foi a pessoa que conseguiu garantir esforços para que representantes de outros Estados estivessem aqui, como o Roberto de Oliveira, do GGL-PT, de São Paulo, a Rosângela Castro, do Rio de Janeiro, a Zora Yonara, da Bahia, o Marcelo Cerqueira, da Bahia, várias outras pessoas que estão aqui participando e eu.

Quero agradecer muito, porque, sem esse apoio prático, sem essa parceria, seria, de fato, impossível estarmos hoje neste seminário.

Em nome da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, considero importante este momento para apontar suas afirmativas concretas para a promoção dos Direitos Humanos e civis de gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais em nosso País, nos três Poderes.

Em 4 de dezembro de 1998, Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis recebeu em audiência o Celso de Melo, que declarou ser preciso que os três Poderes tomem consciência e tenham percepção de que é necessário enfrentar essa situação de grande adversidade por que passam os integrantes desse grupo extremamente vulnerável. Seguindo esse caminho, é importante ressaltar que a violação aos Direitos Humanos de gays, lésbicas, travestis e bissexuais é preocupante e atinge todas as esferas da sociedade. Nós, gays, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais, sofremos com o preconceito e a discriminação na família, na escola, no trabalho, nos meios de comunicação, nos aparatos de segurança pública e privada, na religião e na sociedade em geral.

Na família, somos alvos de perseguição de parentes, somos mantidos em situação de cárcere privado, somos forçados a tratamentos psiquiátricos e psicológicos forçados, quando não, em muitos casos, somos expulsos de casa, sofrendo agressões morais e físicas.

Na escola, muitos homossexuais percebem um ambiente hostil e incapaz de conviver com a diferença. A pedagogia escolar não estabelece espaços para uma abordagem positiva e respeitosa dos direitos sexuais. Temos inúmeros exemplos de gays, lésbicas e travestis expulsos da escola sem motivo aparente.

No trabalho, a discriminação ainda acontece. Sofremos com o a preterição na hora da seleção. Muitos homossexuais não têm ascensão profissional e outros são demitidos por causa da sua orientação sexual.

Os meios de comunicação ainda fazem uma abordagem da homossexualidade baseada em estereótipos, calcada quase sempre em buscas sensacionalistas, apesar de vários órgãos da imprensa já terem avançado neste sentido. No geral, ainda permanece a piada e as palavras jocosas, que, em boa parte delas, alimentam o preconceito e arraigam a noção de que é mais do que natural a violência contra os homossexuais. A novela Suave Veneno deu um exemplo de que isso pode ser diferente.

Quanto aos aparatos de segurança pública, Polícia Militar, Civil e Guarda Municipal, o Dr. José Gregori, recentemente, em congresso na OAB, afirmou: a maior dificuldade para colocar em prática uma política atuante de direitos humanos no País é a tradição da impunidade, da desigualdade, do desrespeito aos semelhantes e de violência das instituições policiais, problemas estes que fazem parte da história do Brasil. Pois é este ainda um problema crônico. A violência e o abuso de autoridade policial contra os homossexuais é alarmante e precisa de dois tratamentos. O primeiro é punir severamente policiais que estejam envolvidos em violência contra os homossexuais. Outro é educar os policias para a noção e filosofia dos Direitos Humanos.

No Rio de Janeiro, o Grupo Arco-Íris está coordenando um programa pioneiro de sensibilização das Polícias Civil e Militar em Direitos Humanos e homossexualidade. Já atingimos até agora quase três mil policiais militares em quatro meses, mais de oitenta delegados e detetives em dois meses e, agora, oitenta instrutores da Guarda Municipal foram capacitados e sensibilizados para a questão dos direitos humanos e homossexualidade.

É fundamental marcar a denúncia e que hoje estejamos todos aqui falando da violação dos direitos humanos dessa população. De fato, só nós podemos avaliar nosso sofrimento e como isso nos vitima, provocando-nos baixa auto-estima, que, muitas vezes, nos faz perder a força e a capacidade de luta. Mas é fundamental também que não fiquemos apenas na denúncia, mas que partamos para ações concretas, no campo da sociedade civil organizada e, também, no âmbito dos Três Poderes.

No campo do Poder Legislativo, é imperioso destacar, em primeiro lugar, a atuação que a ex-Deputada Marta Suplicy teve em seu mandato, pois conseguiu incluir na pauta política nacional as questões dos diretos humanos de gays, lésbicas e travestis, a partir de dois projetos importantíssimos para a comunidade homossexual.

O primeiro projeto estabelece a não-discriminação por orientação sexual, em relação aos arts. 3º e 7º da Constituição Federal, justamente para garantir proteção a casos de homossexuais discriminados no trabalho, na escola e em outras esferas; o segundo, o projeto da parceria civil registrada, trata de importante lei para assegurar direitos de casais homossexuais, o qual a Igreja, por muito tempo, tentou apresentar como se fosse projeto de casamento, de matrimônio.

No Brasil, não existe nenhuma lei que proíba um casal homossexual, seja de lésbica, de gays ou de travesti — como seu companheiro —, de se casar em cerimônia religiosa e tudo o mais. Essa lei não existe. Mas queremos, de fato, que a partilha de bens e os direitos aos benefícios na relação com o companheiro sejam garantidos. São questões legais, patrimoniais.

Por muito tempo, tivemos que brigar com a Igreja — por sinal, uma briga muito feia —, que ainda tenta disfarçar seu preconceito e discriminação contra homossexuais com argumentos de que isso seria uma afronta aos valores familiares, de matrimônio — e nada tem a ver uma coisa com outra.

Ainda em relação à legislação, tivemos várias audiências com o Dr. José Gregori, da Secretaria de Direitos Humanos, e com o Dr. José Carlos Dias, do Ministério da Justiça — fomos recebidos no dia 24 de agosto deste ano — e enfatizamos, já que está sendo elaborado anteprojeto do Código Penal, a reivindicação da comunidade homossexual de que nele estejam tipificados os crimes por orientação sexual. E desde já queremos o compromisso desta Casa, já que o anteprojeto será avaliado por ela. Essa é uma reivindicação importante para a comunidade.

Outro projeto que está tramitando na Casa, reapresentado pelo Deputado Marcos Rolim, é o da ex-Deputada Marta Suplicy, que foi ampliado pela inclusão da não-discriminação por credo. Também é um projeto muito importante, motivo pelo qual faremos esforços para que seja aprovado. Pedimos apoio não só dos Deputados, mas da comunidade e das autoridades aqui presentes, no sentido de envidarmos esforços para aprovação desse projeto que será muito importante para estabelecer uma referência positiva no campo da legislação brasileira.

De fato, não há nenhuma lei que criminaliza a homossexualidade no Brasil. A homossexualidade não é crime no País. Por outro lado, não temos nenhuma legislação que, de fato, estabeleça direitos concretos e que proteja os direitos dos homossexuais. Então, vivemos uma contradição.

No campo do Executivo, temos outro trabalho a fazer. É fundamental que o Executivo, pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, pelo Departamento de Direitos Humanos e por outras áreas, como os Ministérios da Educação e da Saúde, cada vez mais amplie ações de promoção dos direitos humanos. Nesse caso, posso destacar algumas ações importantes que já vêm acontecendo, principalmente realizadas pelo Ministério da Saúde, que há vários anos apóia o movimento homossexual em relação à prevenção da AIDS e à defesa dos direitos humanos.

Há um ano estabelecemos parceria com a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, na pessoa do Dr. José Gregori, e com o Departamento de Direitos Humanos, na pessoa do Dr. Ivair Augusto da Silva. É fundamental que essa parceria seja ampliada, não só pela retórica, mas também por projetos e ações, para que, de fato, todas essas propostas aqui apresentadas possam ser executadas e efetivadas. Já estamos estabelecendo parceria com o Departamento de Direitos Humanos e esta participação aqui já é fruto dessa parceria. Ainda não nos sentimos contemplados com o Plano Nacional de Direitos Humanos, conforme já nos pronunciamos publicamente e em audiências com o Dr. José Gregori e com o Ministro José Carlos Dias, pois sentimos que ainda não há propostas concretas de implementação de ações dos direitos humanos de homossexuais.

Buscamos implementar essas ações por intermédio do Dr. Ivair Augusto, mas, em relação ao Plano Nacional de Direitos Humanos, ainda não foi feita essa reformulação. Para nós, essa é uma questão fundamental, para que justamente possa servir como referência aos Estados e Municípios que estão estabelecendo seus planos estaduais e municipais de direitos humanos.

No campo da sociedade civil organizada, é fundamental pensarmos e trabalharmos com uma visão pontual de direitos humanos. Sabemos que, em um primeiro momento, não alcançaremos tudo o que reivindicamos e apontamos como importante. Precisamos eleger prioridades. Então, a partir delas, poderemos estabelecer ações pontuais de cobrança e de pressão aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Principalmente ao Poder Judiciário, porque, nos últimos anos, vem estabelecendo relação de total exclusão de defesa dos direitos dos homossexuais, haja vista que, por exemplo, o processo do Vereador Renildo José dos Santos, assassinado em 1993, em Coqueiro Seco, Alagoas, continua às moscas. Ele está no Supremo Tribunal de Justiça desde 1995, mas até hoje não houve nenhum tipo de julgamento: nem absolvição dos culpados, nem condenação. Isso é fruto de total displicência e homofobia da Justiça.

Outro caso a destacar é o de um travesti assassinado em São Paulo, em 1994, em que a Justiça Militar acabou absolvendo o soldado, mesmo com todas as provas. Isso mostra a política de dois pesos e duas medidas à qual a Justiça e esses Poderes estabelecem na relação com os cidadãos.

É muito importante pontuar que a questão do preconceito contra gays, lésbicas e travestis é fruto, conforme já foi dito pelos nobres colegas, de cultura e valores arraigados, principalmente, a partir de visão religiosa. Mas não podemos ficar reféns desse tipo de visão. A política dos diretos humanos é muito clara e não seleciona o grupo "x" ou "y", mas deve ser administrada para negros e brancos, mulheres e homens, homossexuais e heterossexuais, mocinhas e prostitutas, pessoas saudáveis e doentes, homens ricos e pobres, pessoas com teto e sem teto, pessoas sem casa e com casa. A política dos direitos humanos é radical e deixa muito claro seu princípio de respeito a todos, independentemente de orientação sexual, de gênero, de raça, de etnia e de vários outros aspectos.

Nesse sentido, solicito que, ao final deste evento, aprovemos pelo menos uma carta sintética com os pontos principais, apontados neste seminário, a respeito das necessidades da comunidade homossexual. Também esperamos que as autoridades aqui presentes apóiem esse empreendimento.

De fato, é necessário que partamos para ações positivas. Com relação a ações positivas, estamos conseguindo estabelecer, no Rio de Janeiro, o programa de treinamento da Polícia Militar. Trata-se de treinamento pioneiro, realizado desde março, que tem sido muito rico para nossa comunidade no Rio de Janeiro. Já fizemos palestras para a Polícia Civil e, em cinco aulas, atingimos 80 delegados e detetives, que estão sendo direcionados para delegacias onde existe o maior foco de apresentação de denúncias de violência contra homossexuais. A Polícia Militar está sendo sensibilizada no contexto de direitos humanos e homossexualidade, em programa conjunto com a comunidade homossexual do Rio de Janeiro e a UERJ. A Polícia Militar fez o convite direto à comunidade homossexual do Rio de Janeiro, por intermédio do Grupo Arco-Íris, para, juntos, coordenarmos esse programa. A partir dessas ações positivas é que podemos começar a mudar esse contexto.

Outra questão importante a dizer é que lançamos, no Rio de Janeiro, o Disque Defesa Homossexual, um serviço telefônico que orienta gays, lésbicas, travestis e bissexuais em situação de violência. Esse serviço foi inaugurado em 1º de julho e, nos dois primeiros meses de serviço, já recebeu quase 500 ligações. Dessas, quase 200 tornaram-se casos registrados, ou seja, viraram denúncias, o que demonstra que a comunidade homossexual vive um potencial reprimido de denúncia. Na medida em que se tem um espaço para estabelecer a denúncia, a comunidade o aproveita e o efetiva de fato.

Para finalizar, ainda me referindo à experiência do Rio de Janeiro, criamos o Centro de Referência de Acompanhamento de Crimes e Violência contra Homossexuais. Trata-se de fórum formado pela Secretaria de Segurança Pública, pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis, e pelos oito grupos de homossexuais do Rio de Janeiro. Temos uma executiva de quatro pessoas — uma da Secretaria e mais três ativistas do movimento — que se encontram e, de dois em dois meses, há um encontro geral dos grupos e da Secretaria, que monitoram as políticas nessa área. De fato, já estamos estabelecendo essa parceria com o Governo Anthony Garotinho, o que tem sido muito positivo. Espero que essas ações que ocorrem no Rio de Janeiro possam servir de referência para todo o Brasil. O Ministério da Justiça, o Congresso Nacional e os Deputados aqui presentes podem ajudar, e muito, para que essa idéia possa ser estendida a todo o País.

Obrigado. (Palmas.)

 

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O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Registro a presença do Deputado José Genoíno, de São Paulo, Líder do Partido dos Trabalhadores nesta Casa, a quem, pela ordem, concedo a palavra.

O SR. DEPUTADO JOSÉ GENOÍNO - Sr. Presidente, em um minuto farei meu registro.

Em primeiro lugar, quero expressar meu compromisso militante com a causa apresentada neste Seminário de Direitos Humanos e Cidadania Homossexual. Entendo que esse é um problema do modelo de visão democrática de sociedade pluralista, humanista e, realmente, democrática; não se trata de problema em que se discuta apenas um setor da sociedade. Na verdade, estamos discutindo a feição, o tipo, a visão que temos de sociedade realmente pluralista em toda a sua radicalidade.

Devido as minhas obrigações como Líder, tenho que ir ao plenário para cuidar da pauta e uma série de outros problemas, mas deixo aqui meu apoio à Comissão, às entidades aqui presentes e a todas as pessoas, além de prestigiar minha colega de partido e de bancada, que teve e continua tendo papel de vanguarda na Câmara dos Deputados no tratamento dessa questão de cidadania. Afinal, não existe cidadania pela metade, relativa ou em termos. A cidadania é a coisa mais radical que a sociedade humana pode construir, enquanto utopia viável, possível, tanto dos pontos de vista das condições materiais de vida como das condições humanas, subjetivas, etc.

Portanto, expresso meu compromisso de luta por essa causa e prestigio, na condição de Líder, este importante debate, mesmo considerando que não há, aqui, grande número de Deputados. O enfoque desse tema tira, dos escaninhos do preconceito, questão nova, pluralista.

Realmente, não poderia deixar de fazer esse registro. (Palmas.)

 

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ASPECTOS JURÍDICOS E LEGAIS DA ORIENTAÇÃO HOMOSSEXUAL

 O SR. COORDENADOR (Deputado Nelson Pellegrino) - Passando a outra fase desta audiência pública, anuncio dois temas para os quais haverá quatro expositores, isto é, dois para cada tema.

O primeiro tema são os aspectos jurídicos e legais da orientação homossexual. Para esse tema, teremos como palestrantes a ex-Deputada Federal, do PT de São Paulo, Marta Suplicy, e o Dr. Aurélio Virgílio Rios, Procurador da República do Distrito Federal; o segundo tema é sobre as Políticas Públicas e Ações Governamentais, cujos expositores serão o Dr. Ivair Augusto dos Santos, do Departamento de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, que também trabalha na Secretaria Nacional de Direitos Humanos, e o Dr. Raldo Bonifácio, da Rede Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Saúde.

Passo a palavra à ex-Deputada Marta Suplicy, que não necessita de apresentação, pois teve participação destacada nesta Casa em defesa da mulher e das minorias, concorrendo, nas eleições de 1998, ao Governo do Estado de São Paulo, privando-nos da sua valiosa presença nesta Casa.

A SRA. MARTA SUPLICY - É um prazer retornar a esta Casa em defesa do projeto de parceria civil, que está pronto para ser votado pelo Plenário quando o Presidente da Casa assim o desejar.

Agora, estamos vivendo o final deste século, que foi caracterizado pela conquista dos direitos humanos. Mesmo que muitas delas ainda estejam no papel, não podemos deixar de reconhecer que a situação da mulher neste século teve uma melhora muito grande, assim como a situação do negro, do índio e das minorias sexuais também