FRANS MOONEN
CIGANOS
CALON NA PARAÍBA,
BRASIL (1993).
Apresentação
População
O
direito à cidadania
Economia
Educação
Os
ranchos
Considerações
finais
Núcleo
de Estudos Ciganos
E-Texto
no. 4
Recife,
2000
Apresentação.
Em 1992 aceitamos o convite do Procurador da República
na Paraíba, Luciano Mariz Maia, de realizar uma pesquisa
sobre os ciganos calon sedentarizados na cidade de Sousa,
visando a obtenção de dados para o Inquérito Civil instaurado,
a pedido dos próprios ciganos, para apurar violações aos
seus direitos e interesses.
O
ensaio a seguir é uma reprodução parcial do relatório
preliminar apresentado em junho de 1993.
Os dados se baseiam em pesquisa realizada nos dias 15
a 28 de janeiro, 24 a 26 de março e 14 a 18 de abril de
1993. Por falta absoluta de apoio financeiro e devido
à impossibilidade de sermos liberados em tempo integral
das atividades docentes na Universidade Federal da Paraíba,
em João Pessoa, não foi possível realizar uma tradicional
pesquisa antropológica, com uma permanência mais prolongada
no campo.
Estamos,
portanto, conscientes das inúmeras falhas deste relatório,
mas esperamos que sirva pelo menos para estimular outros
cientistas sociais brasileiros - que hoje já podem dispor
de toda a bibliografia ciganológica nacional e mais uma
ampla bibliografia ciganológica internacional
- e talvez até alguns cientistas sociais estrangeiros,
a retomar a pesquisa, completar os dados que faltam e
corrigir os nossos erros. O Brasil é um verdadeiro campo
ainda inexplorado para “ciganólogos” nacionais ou estrangeiros.
Aos
ciganos de Sousa, nossos sinceros agradecimentos pela
excelente acolhida que nos deram em 1993.
População.
Na
Paraíba, Nordeste do Brasil, uma grande concentração de
ciganos é encontrada na cidade de Sousa, no interior do
Estado, a 420 km da capital João Pessoa. Na periferia
da cidade, em 1991 com uma população de quase 45.000 habitantes,
habitavam em 1993 cerca de 450 ciganos, espalhados sobre
três "ranchos", a 3 km do centro. Os ranchos
A e B eram vizinhos e o rancho C ficava a cerca de ùm
quilômetro de distância; no meio existiam algumas casas
isoladas habitadas por ciganos e várias casas de não-ciganos
pobres. O número total de habitações ciganas era em torno
de 70, na maioria modestas casas de taipa, umas oito
casas de alvenaria (algumas ainda em construção) e um
número igual de "latadas" (abrigos simples,
feitos com algumas estacas de madeira e teto e paredes
de palha de coqueiro). Ao lado de várias casas existiam
ainda "latadas" apenas com um teto de palha
e sem paredes, que não eram usadas para morar, mas apenas
para cozinhar ou exercer atividades diversas.
Os
ciganos de Sousa pertencem ao grupo Calon, ou seja, são
descendentes de ciganos portugueses que, em séculos
passados, migraram voluntaria ou compulsoriamente
para o Brasil. Os sobrenomes mais comuns são Pereira,
Fereira, Lopes, Costa, Carvalho, Torquato, Figueiredo
e Alves, uma prova adicional de sua origem portuguesa.
Uma origem que, por sinal, eles próprios desconhecem.
Afirmam
que existem outros ciganos espalhados por todo o interior
da Paraíba, mas sempre se trata de grupos menores. A segunda
maior concentração parece ser em Patos onde vivem cerca
de cem ciganos, segundo informação do chefe destes ciganos,
quando em visita aos familiares de Sousa.
Antes
de iniciarmos a pesquisa de campo, dois chefes ciganos
calcularam a população cigana da cidade de Sousa em
cerca de 800 pessoas. Na realidade, em janeiro de 1993
o número de ciganos era de 445 pessoas, sendo 224 homens
e 221 mulheres.
O
resultado do nosso recenseamento, que acusou a presença
de apenas 445 ciganos, visivelmente não agradou a um dos
chefes que insistia que eram 800, porque muitos estariam
viajando, estariam fora, para ganhar algum dinheiro
e que dentro de algumas semanas ou talvez meses voltariam
para Sousa. No entanto, até meados de abril, não nos
foi possivel presenciar a volta de famílias ciganas
de suas viagens. A irritação deste chefe cigano tem sua
razão de ser porque quanto mais ciganos, mais eleitores,
mais votos e, segundo acreditam errôneamente, mais apoio
dos políticos locais. Não faltou quem confundisse
o nosso censo com uma pesquisa sobre o número de eleitores:
"Doutor, pode
escrever que na minha casa tem oito eleitores".
POPULAÇÃO CIGANA DE SOUSA – 1993
|
Idade
|
Homens
|
Mulheres
|
Total
|
|
75
- ++
|
3
|
4
|
7
|
|
70
– 74
|
6
|
4
|
10
|
|
65
– 69
|
5
|
4
|
9
|
|
60
– 64
|
6
|
6
|
12
|
|
55
– 59
|
5
|
4
|
9
|
|
50
– 54
|
5
|
6
|
11
|
|
45
– 49
|
10
|
4
|
14
|
|
40
– 44
|
7
|
13
|
20
|
|
35
– 39
|
14
|
13
|
27
|
|
30
- 34
|
13
|
18
|
31
|
|
25
- 29
|
21
|
15
|
36
|
|
20
- 24
|
18
|
21
|
39
|
|
15
- 19
|
27
|
30
|
57
|
|
10
- 14
|
39
|
26
|
65
|
|
5
- 9
|
31
|
27
|
58
|
|
0
- 4
|
14
|
26
|
40
|
|
TOTAL
|
224
|
221
|
445
|
Observa-se que nas faixas etárias de 10 até 75
anos, a pirâmide populacional apresenta uma configuração
que pode ser considerada normal, mas que abaixo disto
inicia um declínio, mais acentuado no lado masculino.
Não dispomos de dados sobre a mortalidade infantil.
Mas veremos a seguir que o processo de sedentarização
iniciou em 1982, ou seja há dez anos. Uma das consequências
disto aparentemente tem sido uma drástica redução no
número de nascimentos, ou um aumento do índice de mortalidade
infantil, ou ambas as coisas. Várias pessoas informaram
que "antigamente" (antes de 1982) quando ainda
"viajavam", ninguém tinha doenças, as mulheres
pariam e pouco depois já estavam andando de novo, não
faltava comida. Hoje (após 1982) está tudo diferente,
muitas pessoas estão doentes, a mulher grávida precisa
de médico, de hospital, e todo mundo passa fome.
Perguntando
sobre a diminuição do número de filhos, vários ciganos
responderam que era por causa da pobreza e da miséria
em que vivem hoje, pelo que não é mais possível sustentar
tantos filhos como antes, quando eram nômades, e mais
ricos. Mas houve também quem acusasse médicos de uma
maternidade local de esterilizar mulheres ciganas.
Pelo menos umas dez mulheres já fizeram cesariana,
e parte destas mulheres teve as trompas ligadas. Em
pelo menos três casos, a laqueadura foi feita sem conhecimento
e sem consentimento do casal, apresentando os médicos
depois uma mistura de justificativas médicas e sociais
(do tipo: "a
senhora poderia morrer se tivesse outro filho"
e "a senhora
não tem condições de criar mais outros filhos").
Outra cigana esterilizada, no entanto, elogiou a atitude
dos médicos e confirmou que, pelo menos no seu caso particular,
a laqueadura realmente tinha sido necessária por motivos
médicos e que tinha concordado antes.
O
problema é que, como pudemos observar em outras ocasiões,
os ciganos, salvo raríssimas exceções, e mesmo assim
apenas quando por nós provocados, não costumam denunciar
nem criticar pessoas das quais dependem para obter benefícios
ou favores (p. ex. políticos e médicos), ou que eventualmente
possam prejudicá-los (p.ex. certas autoridades policiais),
mesmo quando estas pessoas agem ilegalmente. A esterilização
involuntária de mulheres ciganas talvez merecesse
uma investigação mais detalhada por pessoas competentes
da área médica.
O
direito à cidadania.
O nosso pequeno questionário usado para o recenseamento
não indagava sobre certidões de nascimento e outros
documentos. A questão surgiu quando, durante o recenseamento,
alguém pediu a nossa colaboração para registrar seus
filhos. A partir de então passamos a perguntar também
sobre os registros dos filhos. Constatamos que pelo menos
72 menores não tinham certidão de nascimento. Na realidade
este número é bem maior, já que não investigamos o
assunto desde o início, em todas as casas. Sem certidão
de nascimento, não há acesso às escolas ou aos hospitais
públicos.
Em
julho de 1992 esteve em Sousa o "Programa Cidadania",
do Governo do Estado, que em toda a Paraíba visa documentar
devidamente a população de baixa renda, fornecendo
gratuitamente certidões de nascimento e carteiras
de identidade e profissionais. Desconhecemos os métodos
de trabalho adotados pela equipe do Programa Cidadania,
mas aparentemente foram distribuídas fichas numeradas,
como se fosse um favor de algum político local. Apenas
um único cigano obteve três fichas para fazer o registro
de seus filhos, e mesmo assim nada conseguiu, porque
o juiz se negou a autorizar os registros. O que deveria
ser um direito de todos, inclusive garantido por Lei,
virou um favor para alguns poucos.
Diante
disto procuramos o cartório de registro, cujo proprietário
nos informou que "mesmo se o juiz mandasse, não
faria mais nenhum registro de graça". O juiz, por
sua vez, quando por nós entrevistado, deixou claro que
a "Justiça" local cria tantos obstáculos e
faz tantas exigências que na prática se torna impossível
um cigano pobre registrar seus filhos. Por isso, a maioria
dos menores e adolescentes ciganos continua sem registro
de nascimento, e por causa disto sem direito a escola,
a hospital e a outros benefícios sociais. Na realidade,
em Sousa cigano só se torna cidadão brasileiro ao alcançar
a maioridade, e mesmo assim ainda tem que esperar até
a próxima eleição e pedir a algum político o favor de
providenciar a documentação necessária para obter
seu título de eleitor. E então a única exigência é o
voto! Para melhorar a situação dos paraibanos ciganos,
a primeira exigência será garantir o seu direito à cidadania
brasileira, desde o dia de nascimento.
Economia.
Antes de na década de 80 abandonarem a vida nômade
e semi-nômade, os 450 ciganos atualmente sedentarizados
na cidade de Sousa, viviam basicamente do comércio
de "animais" (isto é, de equinos: cavalos,
jumentos, burros) ou de objetos industrializados, especialmente
armas. Não consta que tenham sido produtores de artesanato
de qualquer espécie. Nunca, também, trabalharam em atividades
circenses, nem em parques de diversões. As mulheres
completavam a renda familiar praticando a quiromancia
ou rezando "orações" para proteger a pessoa
contra doenças, mau-olhado e outros males. Mas a principal
fonte de renda era o comércio ambulante praticado pelos
homens. A área de perambulação era o interior da Paraíba,
Pernambuco e Rio Grande do Norte.
Na
época, este comércio proporcionava aos ciganos uma vida
bastante confortável. Existiam até ciganos ricos como,
por exemplo, um
antigo chefe, avô de um dos atuais chefes de Sousa.
Segundo vários informantes mais idosos, este chefe possuia
"uma cruz em ouro 18 maciça", muitas jóias
e moedas de ouro, esporas e arreios de cavalo em prata
legítima, etc. Mesmo dando o devido desconto para eventuais
exageros históricos, não resta dúvida alguma que era
um cigano rico.
As informações são contraditórias quanto à época
em que começou o declínio. O chefe teve seis filhos,
um deles hoje residente em Sousa. Segundo alguns informantes,
este chefe era "mão aberta", generoso demais,
e muitos ciganos se aproveitaram disto e ele ficou pobre
ainda em vida; segundo outros foram os filhos que não
souberam administrar a riqueza após o falecimento do
pai. Seja como for, hoje todos os descendentes vivem
na miséria absoluta.
Não
temos informações sobre outras famílias tão ricas. A riqueza
do cigano citado acima talvez tenha sido uma exceção,
mas não resta dúvida alguma que todas as famílias ciganas
antigamente viviam numa situação bem mais confortável
do que hoje.
Talvez
por causa do empobrecimento, em épocas mais recentes
nem sempre viveram exclusivamente das atividades comerciais.
Também lembram, com saudade, os "bons tempos"
em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, onde residiram
vários anos numa fazenda e construiram açudes e barragens,
mas informam ter trabalhado também em atividades agrícolas:
plantio e colheita de arroz, feijão, milho e outros
produtos.
Os
ciganos sabem que esta vida nômade de outrora acabou
definitivamente: "Deus deu um tempo para o cigano andar, e outro para morar .........
agora Deus disse para nós parar". Segundo
outro informante deixaram de andar "porque
foi vontade de Deus, foi tudo concebido por Jesus".
Só alguns poucos ciganos parecem ter consciência das
reais causas de sua sedentarização.
Em
primeiro lugar pode ser citada a industrialização do Brasil
a partir da década de 60 quando, inclusive, começou,
em escala maior, a produção nacional de automóveis,
caminhões, ônibus e tratores. Sempre mais o uso de animais
de transporte ou de tração se tornou supérflua. Hoje,
quase só a população pobre ainda utiliza o tipo de equinos
comercializados pelos ciganos, para carregar água,
lenha ou produtos agrícolas.
Ao
mesmo tempo iniciou-se a construção das rodovias e com
isto surgiu outra importante mudança para os ciganos.
Segundo eles próprios informam, muitos dos fazendeiros
que antigamente hospedavam ciganos, oferecendo-lhes
empregos temporários (p.ex. a construção de açudes,
trabalho nas épocas de plantio e colheita, etc.), ou que
davam alguma assistência temporária (água, alimentação,
ou autorização para acampamento), hoje não residem mais
nas suas propriedades, mas preferiram o conforto de
cidades grandes muitas vezes distantes. Hoje as propriedades
rurais são administradas por capatazes que nada fazem
em favor dos ciganos. Capataz também não compra ou troca
animal, nem dá emprego. Ao que tudo indica, foi este
êxodo dos proprietários rurais para as grandes cidades
um dos principais motivos pelos quais os ciganos tiveram
que abandonar a sua vida nômade, ou seja, foi a causa
principal de sua sedentarização. Mas sedentarização
não significa, necessariamente, também pauperização.
Tanto na Europa quanto no Brasil existem ciganos sedentários
ricos.
Os
melhoramentos nos meios de transporte fizeram aumentar
também o número de estabelecimentos comerciais nas
vilas e nas cidades do interior, outro fator que resultou
na desvalorização do comércio ambulante cigano.
Viajar deixou de ser uma aventura e mesmo as vilas e
sítios menores passaram a ser servidos por uma linha
de ônibus ou outro tipo de transporte coletivo. Hoje
quase todas as pessoas preferem fazer suas compras nas
cidades próximas, onde encontram produtos de melhor
qualidade,
maior variedade e preços mais baratos.
Todos
estes fatores fizeram com que o tradicional comércio ambulante
cigano se tornasse aos poucos sempre menos rentável.
Diante disto, a sedentarização nas proximidades de
uma cidade maior, para muitos ciganos se tornou a única
saída. Ou seja, a nosso ver, não foi a sedentarização
que causou a proletarização, mas foi a proletarização,
foi o empobrecimento que obrigou os ciganos de Sousa
a aceitar uma vida sedentária. E por causa disto, na
década de 80, três grupos ciganos se fixaram sucessivamente
na cidade de Sousa. Hoje totalizam cerca de 70 famílias
nucleares e 450 pessoas.
Os
homens, ao serem questionados sobre suas atividades e
habilidades profissionais, em sua quase totalidade
respondem que não sabem fazer outra coisa a não ser "negociar”
animais ou pequenos objetos. Mas se este pequeno comércio
já era difícil na zona rural, pior ainda é a situação
na cidade. A população urbana não precisa de
animais;
o comércio de armas é ilegal e tem de ser feito às
escondidas; trocar ou vender objetos usados como um relógio, um radio,
um conjunto de som ou uma televisão nunca dá muito lucro;
encontrar otários que compram caro um objeto barato
é quase impossível. Conforme um cigano: "a gente compra aqui mesmo na bijouteria uma pulseirinha ou
um colar, e depois vende como se fosse de ouro".
Mas para um pequeno negócio como este dar algum
lucro, obviamente será necessário encontrar um comprador
não muito esperto. Dificilmente um morador de Sousa ainda
cai nesta armadilha
pelo que as vítimas são normalmente os habitantes
dos sítios rurais em visita à cidade. Mais tarde, naturalmente,
estas pessoas descobrem que foram enganadas e ninguém
pode culpá-las por terem preconceitos contra ciganos.
Daí porque, mesmo na cidade, o mercado de trabalho para
os ciganos comerciantes, está diminuindo sempre mais.
A
situação piora ainda mais devido à falta quase total de
qualificação profissional, apesar de vários informantes
afirmarem categoricamente que "cigano
é muito inteligente, sabe fazer qualquer coisa, logo
ele aprende......". Aos poucos, no entanto, nossas
observações nos levaram a desconfiar que os ciganos
não conseguiram aprender tudo que deveriam ter aprendido
para sobreviver como comerciantes e que talvez mais
do que os fatores acima citados para explicar sua sedentarização,
a sua falta de escolaridade e de preparo profissional
tenha sido a principal causa de sua falência como comerciantes
e de seu empobrecimento. Tudo indica que, pelo menos
os ciganos de Sousa, foram derrotados também, e talvez
até principalmente, por sua incapacidade de lidar com
números e em consequência disto, com a inflação que castiga
o Brasil há dezenas de anos.
No
Brasil, a inflação existe há muito tempo, mas para a nossa
análise basta recordar a inflação desde a época em
que Sousa foi escolhida como "ponto fixo" por
pelo menos três grupos ciganos, na época ainda nômades
e semi-nômades. Principalmente a partir da década de
80, a inflação assumiu proporções catastróficas a ponto
de ser calculada em bilhões de porcentos (segunda a
revista Veja, de 09.06.93, de 1980 a 1993 a inflação brasileira
foi de 146.219.946.300%). A moeda nacional mudou quatro
vezes de nome, cada vez tirando-se três zeros da moeda
anterior; as TV's não se cansam de mostrar que ninguém
sabe mais o preço e o valor das coisas, nem de uma simples
caixa de fósforos, de um pão francês ou de um quilo de
batata, para não falar de objetos industrializados
como vestuário ou eletrodomésticos.
Boa parte da população brasileira soube adaptar-se,
a ponto de se falar, inclusive, na existência de uma
"cultura inflacionária". Mas qualquer comerciante
que queira sobreviver num país com uma "cultura
inflacionária" e uma inflação permanente de algumas
dezenas de porcentos ao mês, no mínimo terá que entender
algo de cálculos, terá de saber as quatro operações básicas:
somar, subtrair, dividir e multiplicar. Os ciganos,
devido à sua vida nômade e por outros motivos, não
costumavam frequentar escolas, mas apesar disto, muitos
aprenderam a ler e a escrever. Mas tudo indica que
nunca aprenderam corretamente a calcular. Em 1993 fizemos
um pequeno teste com sete ciganos adultos, três dos quais
tinham estudado no primeiro grau; os outros quatro nunca
frequentaram uma escola, mas sabiam razoavelmente ler
e escrever. Nenhum deles, no entanto, sabia corretamente
fazer cálculos, nem os mais simples.
Os
fatores macro-econômicos citados no início deste capítulo
(industrialização, mecanização rural, êxodo dos proprietários
rurais, aumento do número de estabelecimentos comerciais
no interior, etc), sem dúvida alguma, contribuiram
para a sedentarização e o empobrecimento dos ciganos,
não somente aqui no Brasil, mas comprovadamente também
na Europa. No entanto, os testes que realizamos com estes
sete ciganos provam que com certeza não foram os únicos
culpados. Acreditamos que uma das causas da falência
do comércio ambulante cigano tenha sido também a sua
precária escolaridade (para a maioria a ausência total
de escolaridade), que não apenas os tornou comerciantes
desqualificados num país com uma constante inflação
alta, como também os torna, ainda hoje, mão-de-obra desqualificada
para a quase totalidade dos empregos urbanos. As causas
macro-econômicas são irreversíveis; a falta de escolaridade
tem solução.
Ao
perguntarmos aos homens sobre as suas fontes de renda
atuais, sobre como conseguem comprar comida, roupa,
etc., a resposta, quase sem exceção, era que de vez
em quando faziam "algum negócio" (quase nunca
claramente especificado). Só alguns poucos ciganos são
assalariados. Em todos os casos trata-se de empregos
públicos, conseguidos como favor político. Um cigano,
por exemplo, trabalha na Rede Ferroviária, outro na
CAGEPA (Companhia de Água e Esgotos da Paraíba), e recentemente
o novo prefeito contratou quatro ciganos para vigiar
um ginásio de esportes, localizado perto dos ranchos
ciganos e que, embora de construção recente, se encontra
em completo abandono. O salário destes vigias é irrisório,
menos do que um salário mínimo, a ser dividido entre
os quatro!
Apesar da baixa remuneração, são estes os empregos
cobiçados por todos, por não requererem qualificação
profissional alguma. O problema é que não existem muitos
destes empregos disponíveis em Sousa. Aliás, na cidade
quase não existe oferta de emprego para ninguém, cigano
ou não-cigano, fato agravado ainda mais pela recessão
econômica e pela sêca que assolava a região em 1992/1993.
Não dispomos de dados estatísticos, mas tudo indica que
existe uma altíssima percentagem de desempregados na
região como um todo.
Os ciganos, obviamente, costumam atribuir o seu
desemprego à discriminação pela sociedade não-cigana,
e não à sua falta de qualificação profissional. Não
negamos que existem estereótipos negativos sobre os
ciganos. E por causa da má fama que os ciganos gozam
na região, é lógico que o industrial, o empresário,
o construtor ou o comerciante que precisar de mão-de-obra
não-qualificada, dê preferência à contratação de não-ciganos,
mesmo para serviços avulsos.
Aparentemente
não falta vontade de trabalhar. Inúmeras vezes homens
nos pediram para falar com a pessoa X ou Y para "arrumar
um emprego". Ao indagarmos sobre "que
tipo de emprego?", a resposta, quase invariavelmente
era, "qualquer
um, mas vê se êle não precisa de um vigilante".
A preferência pela "profissão" de vigilante
tem sua razão de ser, não porque ela não exige qualquer
habilitação profissional, mas principalmente porque ela
justifica que a pessoa ande armada e talvez até consiga
o tão desejado porte de armas.
Em
Sousa não é segredo para ninguém que muitos ciganos
possuem armas. Mas para andar armado na cidade, sem
ser incomodado pela polícia, o porte de armas é talvez
o documento mais cobiçado. Pelo menos uns dez homens
nos pediram para falar, em João Pessoa, com o Secretário
da Segurança Pública, ou com o Procurador da República,
para lhes conseguir um porte de armas.
Na
prática, não há trabalho assalariado para os homens, ninguém
possui terras para plantar, e as atividades comerciais
são quase inexistentes. Diante disto, uma importância
fundamental assumem as atividades econômicas femininas,
porque, ao que tudo indica, hoje são basicamente as
mulheres que sustentam as famílias, que conseguem o
feijão e o arroz de cada dia, e às vezes algum pouco "tempero"
(carne, peixe). Logo cedo pela manhã, enquanto a maioria
dos homens ainda está dormindo ou joga baralho "para
passar o tempo", as mulheres já estão a caminho
do centro de Sousa (menos de três quilômetros de distância)
onde se dedicam principalmente à mendicância: "a
gente consegue um pouco de feijão aqui, um pouco de arroz
ali; vai juntando até dar para uma refeição".
Durante
a nossa pesquisa, nenhuma cigana pediu para "ler"
a nossa mão. Afirmam que ainda dominam a arte da quiromancia,
mas como já estão há tanto tempo em Sousa, provavelmente
já "leram" a mão de cada habitante umas cinco
vezes, e ninguém aguenta mais. Só fazem isto de vez
em quando, se encontrarem uma pessoa desconhecida. Da
mesma forma, nenhuma cigana puxou uma bola de cristal,
um tarô, e menos ainda pedras runas, para ganhar algum
dinheiro às nossas custas.
Também
as mulheres afirmam que sabem fazer "muitas coisas",
como, por exemplo, crochê e renda. Só que não vimos nenhuma
mulher fazendo crochê ou renda. Enquanto isto, no distrito
vizinho Aparecida, a cerca de 20 km. de distância, encontram-se
dezenas de moças e mulheres fazendo crochê, durante o
dia todo, em qualquer esquina do lugarejo ou sentadas
na frente de suas casas.
Resta, portanto, apenas a mendicância, praticada
quase que exclusivamente pelas mulheres. Apenas alguns
poucos homens, geralmente velhos, viúvos ou com problemas
mentais, também pedem esmolas; os outros, quando de
suas idas ao centro de Sousa, ficam parados junto ao
prédio da TELPA, esperando pessoas para trocar ou vender
algum objeto ou animal, ou para arrumar algum serviço.
Ao
que tudo indica, muitos ciganos de Sousa incorporaram
o discurso da "discriminação generalizada contra
os ciganos", e por causa disto nada mais fazem para
conseguir um emprego ou um trabalho avulso: "Não
adianta, doutor, ninguém nos dá emprego; por isso a gente
nem procura mais". O que aparentemente existe
é uma imensa apatia, uma enorme falta de força de vontade
de vencer na vida, por muitos não-ciganos, com ou sem
razão, interpretada como "preguiça".
Esta
opinião é partilhada também por um chefe cigano de outra
cidade da Paraíba. Para ele, os ciganos de Sousa seriam
"acomodados": "de
cada cem, uns vinte trabalham, e os outros ficam dependendo".
A origem desta dependência provavelmente seja o
alto valor que, ainda hoje, os ciganos dão à família extensa
e ao chefe. Um bom chefe é aquele que não apenas decide
por seu povo, mas que também cuida do seu povo, que arruma
alimentos, que paga as consultas médicas e compra os
remédios, que resolve os problemas com as autoridades
locais, etc. Este valor cultural, obviamente, tem seu
lado positivo, porque - como eles próprios dizem -
ninguém passa fome (a não ser quando todos passam fome,
um fenômeno sempre mais frequente). Mas o lado negativo
deste paternalismo, com certeza, tem sido o estímulo
ao acomodismo, à falta de espírito de iniciativa, à
passividade de boa parte dos homens ciganos de Sousa.
Naturalmente,
os ciganos negam isto e fazem questão de dizer que são
esforçados, trabalhadores, etc. O problema é apenas
que não apresentam as provas disto. Com exceção louvavel
para os ciganos que sonhavam fundar um conjunto musical,
não observamos nenhuma iniciativa para melhorar de vida.
A quase totalidade dos ciganos fica esperando que Deus,
Jesus, Nossa Senhora, Padre Cícero, São Francisco das
Chagas, frei Damião ou, na falta deles, algum político,
algum procurador ou até algum antropólogo resolva todos
os seus problemas. A pessoa vence na vida não por esforço
próprio, mas com a ajuda de alguma entidade celeste,
ou de algum político ou amigo terrestre.
Em
Sousa existe ainda um problema adicional, observado às
vezes também na Europa: a presença, num determinado
local, de um número excessivo de ciganos, que quase
todos se dedicam à mesma profissão. Em Sousa encontram-se
126 homens de 15 a 64 anos de idade, que só sabem fazer
uma única coisa: negociar animais ou pequenos objetos,
e um número quase igual de mulheres que apenas sabem
mendigar. Metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro ou
Recife talvez fossem capazes de absorver tamanha população
não-qualificada cigana, mas isto é simplesmente impossível
|