Direitos Humanos
 Desejos Humanos
 Educação EDH
 Cibercidadania
 Memória Histórica
 Arte e Cultura
 Central de Denúncias
 Rede Brasil
 Redes Estaduais
 Sociedade Civil
 Mídia
 Conselhos de Direitos
 Executivo
 Legislativo
 Judiciário
 Ministério Público
 Rede Lusófona
 Rede Brasil
 Rede Cabo Verde
 Rede Guiné-Bissau
 Rede Moçambique


FRANS MOONEN

CIGANOS CALON NA PARAÍBA, BRASIL (1993).

Apresentação 

População

O direito à cidadania

Economia

Educação

Os ranchos

Considerações finais  

Núcleo de Estudos Ciganos
E-Texto no. 4
Recife, 2000

 

Apresentação.

            Em 1992 aceitamos o convite do Procurador da República na Paraíba, Luciano Mariz Maia, de realizar uma pesquisa sobre os ciganos calon sedentarizados na cidade de Sousa, visando a obtenção de dados para o Inquérito Civil instaurado, a pedido dos próprios ciganos, para apurar violações aos seus direitos e interesses.

            O ensaio a seguir é uma reprodução parcial do relatório preliminar apresentado em junho de 1993.[1] Os dados se baseiam em pesquisa realizada nos dias 15 a 28 de janeiro, 24 a 26 de março e 14 a 18 de abril de 1993. Por falta absoluta de apoio financeiro e devido à impossibilidade de sermos liberados em tempo integral das atividades docentes na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, não foi possível realizar uma tradicional pesquisa antropológica, com uma permanência mais prolongada no campo.

            Estamos, portanto, conscientes das inúmeras falhas deste relatório, mas esperamos que sirva pelo menos para estimular outros cientistas sociais brasileiros - que hoje já podem dispor de toda a bibliografia ciganológica nacional e mais uma ampla bibliografia ciganológica internacional  - e talvez até alguns cientistas sociais estrangeiros, a retomar a pesquisa, completar os dados que faltam e corrigir os nossos erros. O Brasil é um verdadeiro campo ainda inexplorado para “ciganólogos” nacionais ou estrangeiros.

            Aos ciganos de Sousa, nossos sinceros agradecimentos pela excelente acolhida que nos deram em 1993.

 

População.

Na Paraíba, Nordeste do Brasil, uma grande concentração de ciganos é encontrada na cidade de Sousa, no interior do Estado, a 420 km da capital João Pes­soa. Na periferia da cidade, em 1991 com uma população de quase 45.000 habitantes, habitavam em 1993 cerca de 450 ciganos, espalhados sobre três "ranchos", a 3 km do centro. Os ranchos A e B eram vizinhos e o rancho C ficava a cerca de ùm qui­lômetro de dis­tância; no meio existiam al­gumas casas iso­ladas habitadas por ciga­nos e vári­as ca­sas de não-ciganos pobres. O número total de habi­tações ciganas era em torno de 70, na maioria mo­destas casas de taipa, umas oito casas de alvenaria (algumas ainda em construção) e um número igual de "latadas" (abrigos simples, feitos com algumas estacas de madeira e teto e pa­redes de palha de co­queiro). Ao lado de várias ca­sas existiam ainda "latadas" apenas com um teto de palha e sem pare­des, que não eram usadas para morar, mas apenas para co­zinhar ou exercer atividades diversas.

            Os ciganos de Sousa pertencem ao grupo Calon, ou seja, são des­cen­den­tes de ciganos portugueses que, em séculos passados, mi­graram volunta­ria ou com­pulsoria­mente para o Brasil. Os sobreno­mes mais comuns são Pereira, Fe­reira, Lopes, Costa, Carva­lho, Torqua­to, Figueiredo e Al­ves, uma prova adicional de sua ori­gem portu­guesa. Uma origem que, por sinal, eles pró­prios des­co­nhe­cem.

            Afirmam que existem outros ci­ganos espalha­dos por todo o interior da Paraíba, mas sempre se trata de grupos menores. A se­gunda maior concentração parece ser em Patos onde vivem cerca de cem ci­ganos, se­gundo informação do chefe destes ciga­nos, quando em visita aos familiares de Sousa.

            Antes de iniciarmos a pesquisa de campo, dois chefes ciga­nos calcu­la­ram a popu­lação cigana da cidade de Sousa em cerca de 800 pes­soas. Na reali­dade, em janeiro de 1993 o nú­me­ro de ci­ganos era de 445 pessoas, sendo 224 homens e 221 mulheres.

            O resultado do nosso recenseamento, que acusou a presen­ça de apenas 445 ciganos, visivelmente não agradou a um dos chefes que in­sistia que eram 800, porque muitos estari­am via­jando, estariam fora, para ganhar algum di­nhei­ro e que dentro de algumas semanas ou talvez meses voltariam para Sousa. No en­tanto, até meados de abril, não nos foi possi­vel presen­ciar a volta de famíli­as ci­ga­nas de suas viagens. A irritação deste chefe cigano tem sua ra­zão de ser porque quanto mais ciganos, mais eleitores, mais votos e, se­gundo acre­ditam errôneamente, mais apoio dos po­líti­cos locais. Não fal­tou quem con­fun­disse o nosso censo com uma pesquisa sobre o número de eleito­res: "Doutor, pode es­crever que na minha casa tem oito eleitores".

              POPULAÇÃO CIGANA DE SOUSA – 1993

 

Idade

Homens

Mulheres

Total

75 - ++

  3

  4

  7

70 – 74

  6

  4

 10

65 – 69

  5

  4

  9

60 – 64

  6

  6

 12

55 – 59

  5

  4

  9

50 – 54

  5

  6

 11

45 – 49

 10

  4

 14

40 – 44

  7

 13

 20

35 – 39

 14

 13

 27

30 - 34

 13

 18

 31

25 - 29

 21

 15

 36

20 - 24

 18

 21

 39

15 - 19

 27

 30

 57

10 - 14

39

26

65

 5  -  9

 31

 27

 58

 0  -  4

 14

 26

 40

TO­TAL

224

221

445

           

            Observa-se que nas faixas etárias de 10 até 75 anos, a pi­râmi­de po­pu­la­ci­onal apre­senta uma configuração que pode ser considerada nor­mal, mas que abaixo disto inicia um declínio, mais acentuado no lado mas­culino. Não dis­po­mos de dados sobre a mortalidade infantil. Mas veremos a seguir que o processo de se­dentarização iniciou em 1982, ou seja há dez anos. Uma das consequências disto apa­rentemente tem sido uma drás­tica redu­ção no número de nascimentos, ou um au­mento do ín­dice de mortali­dade in­fantil, ou ambas as coisas. Várias pessoas informa­ram que "antigamente" (antes de 1982) quando ainda "viajavam", nin­guém tinha doenças, as mulheres pa­riam e pouco depois já esta­vam an­dando de novo, não faltava co­mida. Hoje (após 1982) está tudo dife­rente, muitas pessoas estão doentes, a mulher grávida precisa de médi­co, de hospi­tal, e todo mundo passa fome.

            Perguntando sobre a diminuição do número de filhos, vári­os ci­ganos res­ponde­ram que era por causa da po­breza e da miséria em que vivem hoje, pelo que não é mais possí­vel sustentar tantos filhos como an­tes, quando eram nôma­des, e mais ricos. Mas houve também quem acu­sas­se médicos de uma materni­dade local de esterilizar mulhe­res ci­ga­nas. Pelo menos umas dez mu­lhe­res já fi­ze­ram cesariana, e parte destas mu­lheres teve as trom­pas li­gadas. Em pelo me­nos três casos, a laqueadura foi feita sem conheci­mento e sem con­senti­mento do ca­sal, apresentando os médi­cos depois uma mistura de justifica­tivas médi­cas e soci­ais (do tipo: "a se­nhora poderia morrer se ti­vesse outro filho" e "a senhora não tem condições de criar mais outros filhos"). Outra cigana esterilizada, no entanto, elo­giou a atitude dos médicos e con­firmou que, pelo menos no seu caso particular, a laqueadura real­mente ti­nha sido necessá­ria por motivos médicos e que tinha con­cor­dado antes.

            O problema é que, como pudemos observar em outras oca­si­ões, os ci­ga­nos, salvo rarís­simas exceções, e mesmo assim apenas quando por nós pro­voca­dos, não costu­mam denunciar nem criticar pessoas das quais de­pen­dem para obter benefí­cios ou fa­vores (p. ex. políticos e mé­dicos), ou que eventual­mente possam preju­dicá-los (p.ex. cer­tas autoridades polici­ais), mesmo quando estas pessoas agem ile­galmente. A esteriliza­ção in­voluntária de mu­lhe­res ci­ga­nas tal­vez me­re­cesse uma in­vestigação mais deta­lhada por pes­soas compe­ten­tes da área médica.

 

O direito à cidadania.

              O nosso pequeno questionário usado para o recenseamento não in­da­ga­va sobre certi­dões de nascimento e outros documentos. A questão surgiu quando, durante o re­censeamento, alguém pediu a nossa colabora­ção para re­gis­trar seus filhos. A partir de então passamos a pergun­tar tam­bém sobre os registros dos filhos. Constatamos que pelo menos 72 meno­res não tinham certi­dão de nasci­mento. Na reali­dade este nú­mero é bem maior, já que não inves­tiga­mos o as­sunto desde o início, em todas as casas. Sem certi­dão de nasci­mento, não há acesso às escolas ou aos hos­pitais públicos.

            Em julho de 1992 esteve em Sousa o "Programa Cidadania", do Go­verno do Estado, que em toda a Paraíba visa documentar devi­damente a po­pula­ção de baixa renda, fornecendo gratui­tamente certi­dões de nasci­mento e cartei­ras de identidade e profissionais. Desconhecemos os mé­todos de traba­lho adotados pela equipe do Progra­ma Cidadania, mas apa­rente­mente foram distri­buídas fi­chas nu­meradas, como se fosse um fa­vor de algum político local. Apenas um único cigano obte­ve três fichas para fazer o registro de seus filhos, e mesmo assim nada conse­guiu, porque o juiz se negou a autori­zar os registros. O que deveria ser um direito de to­dos, inclusive garantido por Lei, vi­rou um favor para al­guns poucos.



[1].  Reprodução parcial de F. Moonen, Ciganos Calon no Sertão da Paraíba, João Pessoa, MCS/UFPB, Cadernos de Ciências Sociais 32, 1994, 54pp.

 

Diante disto procuramos o cartório de registro, cujo proprie­tário nos in­formou que "mesmo se o juiz mandasse, não fa­ria mais ne­nhum registro de graça". O juiz, por sua vez, quando por nós entrevistado, dei­xou claro que a "Justiça" local cria tantos obstácu­los e faz tan­tas exi­gências que na prá­tica se torna im­possí­vel um cigano pobre re­gistrar seus fi­lhos. Por isso, a maioria dos meno­res e adolescentes ciganos conti­nua sem regis­tro de nascimento, e por causa disto sem direito a es­cola, a hospital e a ou­tros bene­fícios so­ciais. Na realidade, em Sousa ci­gano só se torna cida­dão brasi­leiro ao alcançar a maiori­dade, e mesmo as­sim ainda tem que espe­rar até a pró­xima eleição e pedir a algum políti­co o favor de provi­denciar a docu­men­ta­ção ne­ces­sária para obter seu título de eleitor. E en­tão a única exi­gência é o voto! Para melhorar a si­tua­ção dos paraibanos ciganos, a primei­ra exigência será ga­rantir o seu direito à cidadania brasi­leira, desde o dia de nasci­mento.

           

Economia.

 

              Antes de na década de 80 abandonarem a vida nômade e semi-nô­ma­de, os 450 ci­ganos atualmente seden­tarizados na cidade de Sousa, vivi­am basi­ca­mente do comércio de "animais" (isto é, de equi­nos: cava­los, jumentos, bur­ros) ou de objetos industrializa­dos, especi­almente ar­mas. Não consta que tenham sido produtores de artesanato de qualquer espécie. Nunca, tam­bém, trabalharam em atividades cir­censes, nem em par­ques de diver­sões. As mu­lhe­res comple­ta­vam a renda familiar prati­cando a quiro­mancia ou rezando "orações" para prote­ger a pessoa contra do­enças, mau-olhado e outros males. Mas a prin­ci­pal fonte de renda era o comércio am­bu­lante prati­cado pelos ho­mens. A área de pe­ram­bulação era o interior da Para­íba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

            Na época, este comércio proporcionava aos ciganos uma vida bas­tante confor­tável. Existiam até ciganos ricos como, por exemplo, um  antigo chefe, avô de um dos atuais chefes de Sousa. Segundo vários infor­mantes mais ido­sos, este chefe possuia "uma cruz em ouro 18 ma­ciça", muitas jóias e moedas de ouro, es­poras e arreios de cavalo em prata le­gítima, etc. Mesmo dando o devido desconto para eventuais exa­geros históri­cos, não resta dúvida al­guma que era um cigano rico.

            As informações são contraditórias quanto à época em que co­meçou o declínio. O chefe teve seis filhos, um deles hoje resi­dente em Sousa. Segundo al­guns informantes, este chefe era "mão aberta", genero­so demais, e muitos ciga­nos se aproveitaram disto e ele fi­cou pobre ainda em vida; segundo ou­tros foram os fi­lhos que não souberam ad­ministrar a riqueza após o faleci­mento do pai. Seja como for, hoje todos os descen­dentes vivem na miséria abso­luta.

            Não temos informações sobre outras famílias tão ricas. A ri­queza do ci­ga­no citado acima talvez tenha sido uma exceção, mas não resta dúvida al­guma que todas as famílias ciganas anti­ga­mente viviam numa situação bem mais con­fortável do que hoje.

            Talvez por causa do empobrecimento, em épocas mais re­cen­tes nem sempre vi­ve­ram exclusivamente das atividades comer­ciais. Tam­bém lem­bram, com saudade, os "bons tempos" em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, onde residi­ram vá­rios anos numa fazenda e cons­trui­ram açudes e barragens, mas informam ter traba­lhado tam­bém em ativi­dades agrí­co­las: plan­tio e colheita de ar­roz, feijão, milho e outros produ­tos.

            Os ciganos sabem que esta vida nômade de ou­trora aca­bou de­finiti­va­men­te: "Deus deu um tempo para o cigano an­dar, e outro para morar .........  agora Deus disse para nós parar". Segundo outro infor­mante dei­xa­ram de an­dar "porque foi vontade de Deus, foi tudo conce­bido por Jesus". Só alguns pou­cos ciganos pare­cem ter consciência das reais causas de sua sedentarização.

            Em primeiro lugar pode ser citada a industrialização do Brasil a partir da déca­da de 60 quando, inclusive, co­meçou, em escala maior, a pro­dução na­cional de automó­veis, caminhões, ônibus e tratores. Sempre mais o uso de ani­mais de transporte ou de tração se tornou supérflua. Hoje, quase só a popu­lação pobre ainda utiliza o tipo de equi­nos comer­cializa­dos pelos ci­ganos, para carre­gar água, le­nha ou pro­du­tos agríco­las.

            Ao mesmo tempo iniciou-se a construção das rodovias e com isto surgiu outra im­por­tante mudança para os ciganos. Segundo eles pró­prios in­formam, muitos dos fa­zendei­ros que anti­ga­mente hospeda­vam ciganos, ofere­cendo-lhes empregos temporá­rios (p.ex. a constru­ção de açu­des, trabalho nas épocas de plantio e colheita, etc.), ou que da­vam algu­ma assis­tência tem­porá­ria (água, ali­mentação, ou autoriza­ção para acampa­mento), hoje não residem mais nas suas proprie­da­des, mas pre­feriram o conforto de cidades grandes muitas vezes distan­tes. Hoje as proprieda­des rurais são adminis­tradas por ca­patazes que nada fa­zem em favor dos ciga­nos. Capataz tam­bém não compra ou troca animal, nem dá em­prego. Ao que tudo indica, foi este êxodo dos propri­etários rurais para as gran­des cida­des um dos principais motivos pelos quais os ciganos tiveram que aban­donar a sua vida nômade, ou seja, foi a causa princi­pal de sua seden­tarização. Mas se­den­tarização não significa, ne­ces­sariamen­te, também pauperização. Tanto na Europa quanto no Brasil existem ci­ganos se­dentá­rios ricos.

            Os melhoramentos nos meios de transporte fizeram aumen­tar tam­bém o número de es­ta­belecimentos comer­ciais nas vilas e nas ci­dades do in­terior, outro fator que resul­tou na desvalo­ri­zação do comér­cio am­bu­lante ci­gano. Viajar dei­xou de ser uma aventura e mesmo as vilas e sítios me­nores passaram a ser servi­dos por uma linha de ônibus ou outro tipo de trans­porte coletivo. Hoje quase todas as pessoas prefe­rem fazer suas compras nas cida­des pró­xi­mas, onde en­con­tram produ­tos de melhor quali­dade,  maior varie­dade e preços mais baratos.

            Todos estes fatores fizeram com que o tradicional comércio am­bu­lante cigano se tornas­se aos poucos sempre menos rentável. Diante disto, a sedenta­ri­zação nas proximi­da­des de uma ci­dade maior, para muitos ciga­nos se tornou a única saída. Ou seja, a nosso ver, não foi a sedentarização que causou a pro­leta­rização, mas foi a proletariza­ção, foi o empobrecimen­to que obrigou os ci­ganos de Sousa a aceitar uma vida sedentá­ria. E por causa disto, na década de 80, três grupos ciganos se fixaram sucessiva­mente na cidade de Sousa. Hoje totalizam cerca de 70 famílias nucleares e 450 pessoas.

            Os homens, ao serem questionados sobre suas atividades e ha­bili­dades profissi­o­nais, em sua quase totali­dade respondem que não sa­bem fazer outra coisa a não ser "negociar” animais ou pe­quenos obje­tos. Mas se este pe­queno comércio já era difícil na zona rural, pior ainda é a si­tu­ação na ci­dade. A popu­la­ção urbana não precisa de ani­mais; o comércio de armas é ilegal e tem de ser feito às es­condidas; tro­car ou vender objetos usados como um relógio, um radio, um conjunto de som ou uma televisão nunca dá muito lucro; encon­trar otários que com­pram caro um objeto ba­rato é quase impossí­vel. Conforme um ci­gano: "a gente com­pra aqui mesmo na bi­jou­teria uma pul­sei­ri­nha ou um colar, e depois vende como se fosse de ouro". Mas para um pe­queno ne­gó­cio como este dar algum lu­cro, obvi­amente será necessário en­con­trar um com­pra­dor não muito esperto. Dificilmente um mo­rador de Sousa ainda cai nesta armadi­lha  pelo que as vítimas são nor­mal­mente os habitantes dos sítios rurais em visita à cida­de. Mais tarde, natural­mente, estas pessoas descobrem que foram enganadas e ninguém pode culpá-las por terem pre­con­ceitos contra ci­ganos. Daí porque, mesmo na ci­dade, o mercado de trabalho para os ciga­nos comerciantes, está di­minuindo sem­pre mais.

            A situação piora ainda mais devido à falta quase total de qualifi­ca­ção pro­fissio­nal, apesar de vários informan­tes afirmarem categori­ca­men­te que "cigano é muito inteligente, sabe fazer qual­quer coisa, logo ele aprende......". Aos poucos, no entanto, nossas observa­ções nos leva­ram a desconfiar que os ci­ganos não conse­guiram aprender tudo que deve­ri­am ter aprendido para so­bre­vi­ver como comer­ciantes e que talvez mais do que os fatores acima cita­dos para ex­plicar sua seden­ta­rização, a sua falta de escola­ridade e de preparo pro­fissional tenha sido a princi­pal causa de sua fa­lên­cia como co­merciantes e de seu em­po­brecimento. Tudo in­dica que, pelo me­nos os ci­ganos de Sousa, foram derro­tados também, e talvez até principalmente, por sua in­ca­pacidade de lidar com números e em conse­quência disto, com a inflação que castiga o Brasil há dezenas de anos.

            No Brasil, a inflação existe há muito tempo, mas para a nossa análi­se basta recor­dar a in­flação desde a época em que Sousa foi esco­lhida como "ponto fixo" por pelo me­nos três grupos ciganos, na época ainda nômades e semi-nôma­des. Principalmen­te a partir da década de 80, a in­flação assumiu proporções ca­tas­tróficas a ponto de ser calcu­lada em bi­lhões de porcentos (segunda a revista Veja, de 09.06.93, de 1980 a 1993 a inflação brasileira foi de 146.219.946.300%). A moeda nacio­nal mu­dou quatro ve­zes de nome, cada vez tirando-se três zeros da moeda an­terior; as TV's não se can­sam de mostrar que nin­guém sabe mais o preço e o valor das coisas, nem de uma simples caixa de fósforos, de um pão francês ou de um quilo de batata, para não falar de obje­tos indus­triali­za­dos como ves­tuário ou eletrodomésti­cos. 

            Boa parte da população brasileira soube adaptar-se, a ponto de se falar, inclu­sive, na exis­tência de uma "cultura inflacio­nária". Mas qualquer comerci­ante que queira sobre­viver num país com uma "cultura inflacioná­ria" e uma in­flação permanente de algumas de­zenas de por­cen­tos ao mês, no mí­nimo terá que en­tender algo de cálculos, terá de saber as quatro operações básicas: somar, sub­trair, dividir e multiplicar. Os ci­ganos, devi­do à sua vida nô­made e por outros moti­vos, não costu­mavam fre­quentar escolas, mas ape­sar disto, muitos aprende­ram a ler e a es­cre­ver. Mas tudo indica que nunca aprende­ram corre­tamente a calcular. Em 1993 fize­mos um pequeno teste com sete ciganos adultos, três dos quais ti­nham estudado no primeiro grau; os outros qua­tro nunca fre­quentaram uma escola, mas sabiam razoa­vel­mente ler e escrever. Nenhum deles, no entanto, sabia corretamente fazer cálculos, nem os mais simples.

            Os fatores macro-econômicos citados no início deste capí­tulo (industrialização, mecani­zação rural, êxodo dos proprietários rurais, au­mento do número de estabeleci­men­tos comerciais no in­terior, etc), sem dúvida algu­ma, contribui­ram para a sedentari­za­ção e o empobre­cimento dos ciganos, não so­mente aqui no Brasil, mas comprovada­mente tam­bém na Europa. No entanto, os testes que realizamos com estes sete ciganos provam que com cer­teza não foram os únicos cul­pa­dos. Acreditamos que uma das causas da falên­cia do comércio ambu­lante ci­gano te­nha sido também a sua precária es­co­laridade (para a maioria a ausência total de es­co­laridade), que não apenas os tornou comer­ciantes des­qua­lifica­dos num país com uma cons­tante infla­ção alta, como também os torna, ainda hoje, mão-de-obra des­qualificada para a quase tota­lidade dos empregos ur­banos. As causas macro-econômi­cas são irrever­síveis; a falta de escola­ridade tem solu­ção.

            Ao perguntarmos aos homens sobre as suas fontes de renda atuais, so­bre como con­se­guem comprar comida, roupa, etc., a res­pos­ta, quase sem exce­ção, era que de vez em quando faziam "algum ne­gócio" (quase nunca clara­mente es­pecificado). Só alguns poucos ciganos são assalariados. Em todos os casos trata-se de em­pre­gos pú­blicos, conseguidos como favor po­lítico. Um ciga­no, por exem­plo, trabalha na Rede Ferroviária, ou­tro na CAGEPA (Companhia de Água e Esgotos da Paraíba), e recente­mente o novo prefeito con­tra­tou quatro ciganos para vigiar um gi­násio de esportes, localizado perto dos ranchos ciganos e que, em­bora de cons­trução recente, se encon­tra em completo aban­dono. O salário destes vigias é irrisório, menos do que um salário mí­nimo, a ser dividido entre os quatro! 

            Apesar da baixa remuneração, são estes os empregos cobi­ça­dos por to­dos, por não re­quererem qualificação profissional al­guma. O pro­ble­ma é que não existem muitos destes empre­gos dis­poníveis em Sousa. Aliás, na cidade quase não existe oferta de emprego para nin­guém, ci­gano ou não-ci­gano, fato agrava­do ainda mais pela recessão econômica e pela sêca que as­so­lava a região em 1992/1993. Não dispomos de dados estatísticos, mas tudo indica que existe uma altíssima per­cen­tagem de desempregados na região como um todo.

            Os ciganos, obviamente, costumam atribuir o seu desem­prego à dis­cri­mi­na­ção pela socie­dade não-ci­gana, e não à sua falta de qualifi­ca­ção pro­fissio­nal. Não negamos que existem este­reótipos negati­vos sobre os ci­ganos. E por causa da má fama que os ci­ganos gozam na regi­ão, é ló­gico que o indus­trial, o empre­sário, o constru­tor ou o comerciante que precisar de mão-de-obra não-qualifi­cada, dê preferência à contra­tação de não-ciga­nos, mesmo para serviços avul­sos.

            Aparentemente não falta vontade de trabalhar. Inúmeras ve­zes ho­mens nos pediram para falar com a pessoa X ou Y para "arrumar um empre­go". Ao in­dagarmos sobre "que tipo de empre­go?", a resposta, quase invaria­velmente era, "qualquer um, mas vê se êle não precisa de um vigi­lante". A pre­ferência pela "profissão" de vigilante tem sua ra­zão de ser, não porque ela não exige qual­quer habilitação profissional, mas prin­cipalmente porque ela justi­fica que a pessoa ande ar­mada e talvez até consiga o tão desejado porte de armas.

            Em Sousa não é se­gredo para nin­guém que muitos ciganos pos­suem ar­mas. Mas para andar armado na ci­dade, sem ser incomodado pela polí­cia, o porte de armas é talvez o docu­mento mais cobiçado. Pelo menos uns dez ho­mens nos pediram para falar, em João Pessoa, com o Secretário da Segu­rança Pública, ou com o Procurador da República, para lhes con­seguir um porte de armas.

            Na prática, não há trabalho assalariado para os homens, nin­guém pos­sui terras para plan­tar, e as atividades comerciais são quase inexisten­tes. Diante disto, uma impor­tância funda­mental as­sumem as atividades econômi­cas fe­mini­nas, por­que, ao que tudo in­dica, hoje são basi­camente as mulheres que susten­tam as fa­míli­as, que conseguem o feijão e o arroz de cada dia, e às vezes algum pouco "tempero" (carne, peixe). Logo cedo pela ma­nhã, en­quanto a maioria dos ho­mens ainda está dormindo ou joga bara­lho "para passar o tempo", as mulhe­res já estão a caminho do centro de Sousa (menos de três quilômetros de dis­tân­cia) onde se dedicam princi­palmente à mendi­cância: "a gente conse­gue um pouco de feijão aqui, um pouco de arroz ali; vai juntando até dar para uma refeição".

            Durante a nossa pesquisa, nenhuma cigana pediu para "ler" a nos­sa mão. Afir­mam que ainda dominam a arte da quiromancia, mas como já estão há tanto tempo em Sousa, provavel­mente já "leram" a mão de cada habitante umas cinco ve­zes, e nin­guém aguenta mais. Só fazem isto de vez em quando, se encontrarem uma pessoa des­co­nhecida. Da mesma forma, ne­nhuma ci­gana puxou uma bola de cris­tal, um tarô, e menos ainda pedras ru­nas, para ga­nhar algum dinheiro às nossas custas.

            Também as mulheres afirmam que sabem fazer "muitas coi­sas", como, por exemplo, cro­chê e renda. Só que não vimos ne­nhuma mulher fa­zendo crochê ou renda. Enquanto isto, no dis­trito vizinho Aparecida, a cerca de 20 km. de dis­tância, encontram-se dezenas de moças e mulhe­res fazendo crochê, durante o dia todo, em qualquer es­quina do lu­garejo ou sentadas na frente de suas ca­sas.  Resta, portanto, apenas a mendi­cância, praticada quase que exclusiva­mente pe­las mu­lheres. Apenas alguns pou­cos homens, geral­mente velhos, viúvos ou com pro­blemas mentais, tam­bém pe­dem esmolas; os outros, quando de suas idas ao centro de Sousa, fi­cam pa­rados junto ao pré­dio da TELPA, espe­rando pes­soas para trocar ou vender algum objeto ou animal, ou para arrumar algum serviço.

            Ao que tudo indica, muitos ciganos de Sousa incorporaram o dis­curso da "discriminação ge­neralizada contra os ciganos", e por causa disto nada mais fa­zem para conseguir um emprego ou um trabalho avul­so: "Não adianta, doutor, ninguém nos dá em­prego; por isso a gente nem pro­cura mais". O que aparente­mente existe é uma imensa apa­tia, uma enorme falta de força de von­tade de ven­cer na vida, por muitos não-ciganos, com ou sem razão, interpre­tada como "preguiça".

            Esta opinião é partilhada também por um chefe cigano de outra ci­da­de da Para­íba. Para ele, os ciganos de Sousa seriam "acomodados": "de cada cem, uns vinte trabalham, e os outros ficam dependendo". A origem desta de­pendên­cia pro­vavelmente seja o alto valor que, ainda hoje, os ciganos dão à família ex­tensa e ao chefe. Um bom chefe é aquele que não apenas de­ci­de por seu povo, mas que também cuida do seu povo, que arruma ali­men­tos, que paga as consul­tas médicas e compra os re­médios, que resolve os problemas com as autoridades locais, etc. Este va­lor cultu­ral, ob­viamente, tem seu lado positivo, por­que - como eles pró­prios di­zem - ninguém passa fome (a não ser quan­do to­dos pas­sam fome, um fenôme­no sempre mais fre­quente). Mas o lado negativo deste pater­na­lismo, com certeza, tem sido o estímulo ao aco­modismo, à falta de es­pírito de inicia­tiva, à passi­vidade de boa parte dos homens ciganos de Sousa.

            Naturalmente, os ciganos negam isto e fazem questão de di­zer que são esforça­dos, tra­ba­lhadores, etc. O problema é apenas que não apre­sentam as provas disto. Com ex­ceção lou­va­vel para os ciganos que sonhavam fundar um con­junto musical, não ob­servamos nenhuma iniciativa para melhorar de vida. A quase tota­lidade dos ciga­nos fica esperando que Deus, Jesus, Nossa Senhora, Padre Cícero, São Francisco das Chagas, frei Damião ou, na falta deles, algum po­líti­co, algum pro­curador ou até algum antro­pólogo resolva todos os seus pro­blemas. A pes­soa vence na vida não por esforço próprio, mas com a ajuda de alguma en­tida­de ce­leste, ou de al­gum político ou amigo ter­restre.

            Em Sousa existe ainda um problema adicional, observado às vezes tam­bém na Europa: a presen­ça, num determinado local, de um nú­mero ex­cessivo de ciga­nos, que quase todos se dedicam à mesma profissão. Em Sousa encon­tram-se 126 homens de 15 a 64 anos de idade, que só sabem fazer uma única coisa: ne­gociar animais ou pequenos objetos, e um nú­mero quase igual de mu­lheres que ape­nas sabem mendigar. Metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro ou Recife talvez fos­sem capazes de ab­sorver tama­nha população não-quali­ficada ci­gana, mas isto é simples­mente impos­sível