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RODRIGO
CORRÊA TEIXEIRA
HISTÓRIA
DOS CIGANOS NO BRASIL
Núcleo
de Estudos Ciganos
E-Texto
no. 2
Recife,
2000
INTRODUÇÃO
Os ciganos
Este
livro tenta narrar, na medida do possível, parte da história de um
povo, ou melhor, de um conjunto de comunidades dispersas pelas mais
diversas regiões do Brasil, os assim chamados
“ciganos”. Suas origens são incertas, seus costumes e línguas
variam entre os muitos grupos em que se dividem. As relações entre
estes assim chamados ciganos e os membros das sociedades envolventes,
por terem se diferenciado bastante, no tempo e no espaço, nunca forma
tranqüilas.
À
parte a complexa definição da identidade cigana, a documentação
conhecida indica que sua história no Brasil iniciou em 1574, quando o
cigano João Torres, sua mulher e filhos foram degregados para o Brasil.
Em Minas Gerais, a presença cigana é nitidamente notada a partir de
1718, quando chegam ciganos vindos da Bahia, para onde haviam sido
deportados de Portugal.
Em
Minas Gerais, durante o século XIX, praticamente só se falava de
ciganos quando sua presença inquietava as autoridades. Isto ocorria,
por exemplo, quando eram acusados de roubarem cavalos. Nas poucas vezes
que se escrevia sobre aspectos culturais dos ciganos, não havia
qualquer interesse sobre como eles próprios viam sua cultura. Os
contadores da ordem pública, com os chefes de polícia, os compreendiam
como sendo "perturbadores da ordem", responsáveis pelos mais
hediondos crimes.
Outras
fontes, como viajantes e memoralistas, recorriam aos estereótipos
corriqueiros, como "sujos", "trapaceiros" e
"ladrões". Isto funciona como um indicador: os ciganos eram
raramente considerados por si mesmos, e com freqüência, eram sinônimos
de barbárie, imundice, desonestidade e imoralidade. Assim, a documentação
se detém pouco sobre os ciganos singulares, que tornam-se desprovidos
de existência. Quase sempre incidem sobre "o cigano",
entidade coletiva e abstrata à qual se atribuem as características
estereotipadas.
A
documentação sobre ciganos é escassa e dispersa. Sendo ágrafos, os
ciganos não deixaram registros escritos. Assim, raramente aparecendo
nos documentos, aproximamo-nos deles indiretamente, através de
mediadores, chefes de polícia, clérigos
e viajantes, por exemplo. Nestes testemunhos, a informação
sobre os ciganos é dada por intermédio de um olhar hostil,
constrangedor e estrangeiro.
Os
ciganos nas cidades mineiras estavam em dissonância aos ideais de
civilização e progresso, tão marcantes deste período. São
identificados como elementos incivilizáveis, inúteis à sociedade,
supersticiosos, corruptores dos costumes, vândalos, enfim, uma anomalia
social e racial. Uma vez vistos desta maneira, as autoridades tentavam
controlá-los, no entanto, sem obterem grande eficácia. No final do século
XIX e início do XX, ocorreu o ápice dos confrontos entre a polícia e
os ciganos. Foram as "Correrias de ciganos" que, como veremos
mais adiante, eram movimentações destes em fuga, por estarem sendo
perseguidos pela polícia. Nestas correrias haviam freqüentes
tiroteios, que resultaram em mortos de ambos os lados.
A
fim de adiantarmos algo sobre a percepção das nuances no discurso
sobre os ciganos, iremos dar uma rápida prova disto, analisando duas
definições de ciganos em dicionários. Pierre Bourdieu, acertadamente,
afirma que "o dicionário está cheio de uma certa mitologia política".
No entanto, quando se fala da opinião formada em torno dos ciganos,
deve-se considerar que algumas vezes, eles mesmos contribuíram para a
construção de uma "mitologia". Assim, "em algumas ocasiões,
as autoridades locais e os próprios ciganos produziram por diferentes
razões ideológicas, mitos coincidentes sobre o verdadeiro
cigano."
Primeiramente,
vejamos como o Padre Raphael Bluteau, autor do primeiro dicionário de
Portugal, repercute as preocupações que a Igreja tinha com o
comportamento considerado herege dos Ciganos, no início do século
XVIII:
"Ciganos
– Nome que o vulgo dá a uns homens vagabundos e embusteiros, que se
fingem naturais do Egito e obrigados a peregrinar pelo mundo, sem
assento nem domicílio permanente, como descendentes dos que não
quiseram agasalhar o Divino Infante quando a Virgem Santíssima e S. José
peregrinavam com ele pelo Egito."
O
fato de não empregarem os sacramentos católicos (casamento ou batismo
de crianças, por exemplo), em favor de seus costumes, desafiava a moral
religiosa, que pretendia controlar todas as parcelas da sociedade.
Tomada como afronta a Igreja, as cerimônias que os ciganos faziam a sua
maneira, gerou uma duradoura antipatia do clero. Embora a "feitiçaria"
cigana poucas vezes ia além da prática da buena dicha, ela era
rigorosamente atacada pelos religiosos. O agravante disto, era que uma
vez atingida a Igreja, a coroa Portuguesa também se sentia afetada.
No
século XIX, os ciganos continuaram a serem vistos como um grupo desprezível,
por não se guiarem por preceitos católicos. No entanto, esta visão
foi suavizada, porque a compreensão dos ciganos enquanto raça e grupo
socialmente desclassificado obteve maior importância.
Um
século depois, o dicionário do Padre Blateau passou a ser reeditado
sob a direção do brasileiro Antonio de Moraes Silva, que define os
ciganos da seguinte forma:
"Raça
de gente vagabunda, que diz vem do Egito, e pretende conhecer de futuros
pelas rayas, ou linhas da mão; deste embuste vive, e de trocas, e
baldrocas; ou de dançar, e cantar: vivem em bairro juntos, tem alguns
costumes particulares, e uma espécie de Germania com que se entendem.
(...) Cigano, adj. que engana com arte, subtileza, e bons modos."
As
idéias de trambiqueiros, de divulgarem terem vindo do Egito, e a de
vagabundo, que contém em si também a de nômade, permanecem. Mas as
menções religiosas foram retiradas, e não apenas porque o novo editor
não era um clérigo, mas porque realmente a imagem se transformou.
Continuavam como um grupo criminalizado, mas dá-se ênfase aos seus
aspectos culturais.
Na
consulta de outras fontes, muitos outros adjetivos negativos foram
listados; imorais, sem honra, gananciosos, esbanjadores, sujos etc. Cada
uma destas imagens teve períodos de maior e menor destaque. Além
disto, combinaram-se entre si das mais diversas maneiras, produzindo um
painel extremamente amplo de imagens dos ciganos.
A
história e os ciganos.
Da
simples intenção de se estudar os ciganos em Minas Gerais durante o século
XIX à construção da hipótese principal, foi preciso que o árduo
trabalho de arquivo, em conexão com uma bibliografia sobre o período e
sobre os ciganos, fosse realizado num ir e vir incessante.
Comparando
os restritos testemunhos literários, com os relativamente abundantes
trechos de memórias e relatos de viagens, a série de posturas
municipais, as notícias de jornais, a documentação policial e outras
fontes menos expressivas, conseguiu-se perceber tanto as semelhanças e
diferenças do todo dessa documentação quanto estabelecer referências
mais precisas para as balizas cronológicas.
Primeiramente,
abriram-se duas possibilidades de estudo: a transformação do papel sócio-econômico
dos ciganos e as mudanças na imagem que a sociedade formara deles. E
descartar a perspectiva de um estudo exaustivo do cotidiano cigano, já
que as fontes não propiciavam fazê-lo.
As
datas limites deste estudo são 1808 e 1903. Este período de quase cem
anos justifica-se pela primazia dada às relações entre os ciganos e a
sociedade que os abriga. Isso requisitou uma perspectiva que permitisse
perceber um movimento, relativamente lento, de transformação das
imagens e dos papéis dos ciganos na sociedade. Também a escassez da
documentação exigiu que se estendesse tanto os marcos temporais. Pois
apenas assim foi possível compreender determinados sentidos da
documentação que, se considerada parcialmente e em períodos menores,
não permitiria tal contemplação. A instalação da Corte Portuguesa
no Rio de Janeiro em 1808, junto com as suas conseqüências imediatas
(como a abertura dos portos às nações amigas ¾
leia-se Inglaterra) e as muitas mudanças profundas na política,
economia e sociedade (principalmente, a interiorização da metrópole),
proporcionou a ascensão sócio-econômica dos ciganos, principalmente
dos comerciantes de escravos, no Rio. Os ciganos, em Minas Gerais,
viveram um momento de expansão desse tipo de comércio, embora não
tivessem gozado do mesmo prestígio e riqueza que seus congêneres
cariocas.
Em
1798, a população escrava representa 48,7% do total populacional.
Isto dá uma idéia da importância do mercado escravista no Brasil.
Aproveitando-se do aquecimento econômico, atrelado ao estrondoso
crescimento populacional vivido pela cidade do Rio de Janeiro,
os ciganos, estabelecidos de forma concentrada no Campo de Santana,
aproveitaram-se do espaço desocupado no mercado de escravos de segunda
mão, que atendia a proprietários de plantéis menores.
Além
dos mercados na rua do Valongo, os ciganos comerciaram escravos por várias
partes do interior do país; em Minas Gerais, podemos confirmar que
tiveram um papel importante nesse comércio. Isto proporcionou uma maior
aceitação e mesmo valorização social dos ciganos, já que exerciam
uma atividade reconhecida como útil por grande parte da população.
Alguns ciganos tornaram-se ilustres, patrocinando até festividades na
Corte. Esse momento sui generis da história cigana no Brasil coincidiu com a ascensão
do movimento romântico na Europa que repercutia no Brasil, com a visão
de que o cigano era a encarnação dos ideais da vida livre e integrada
a natureza. Além disso, houve uma idealização da mulher cigana, agora
não mais uma miserável e desonesta quiromante, mas uma mulher forte,
sensual e, ainda que vingadora e passional, fascinante.
Em
fins da década de 1820, viram esse breve momento de prestígio começar
a ruir, com os movimentos políticos pela Independência. Somaram-se a
isso, a partir de meados do oitocentos, os golpes fatais sobre o
escravismo (1850, 1871 e que culminaram com 1888).
O
impulso que a política de construção de uma identidade nacional teve,
a partir da Independência, gerou um cerceamento cada vez maior tanto
dos deslocamentos quanto da própria identidade dos ciganos. Tal fato se
deu pelo crescimento de importância da idéia de modernização e
civilização dos costumes junto às elites brasileiras, que
"pretenderam estabelecer um reordenamento físico das cidades,
higienizar as vias públicas e excluir dos centros urbanos todos os
indivíduos que não se adequaram à nova ordem."
Embora "civilização" e "progresso" fossem
expressões fundamentais na cultura européia desde os fins dos
setecentos, no Brasil, foi no transcurso do século XIX que se almejaram
tais metas, cada vez mais. Desse momento em diante, intensificou-se a
repressão às populações marginalizadas, entre elas os ciganos. Eles
tanto não se enquadravam na nova ordem como, também, segundo a
sociedade acreditava, a ameaçavam. Assim, a segregação ou expulsão
dos ciganos da cidade passa a integrar o projeto "civilizador"
das autoridades imperiais.
A
condenação pública do escravismo cada vez mais acentuada e as
respectivas leis restritivas debilitaram o comércio escravista e os
ciganos passaram a se concentrar nas transações de cavalos e mulas. Em
1872, a população escrava era apenas de 15,2%, muito distante dos
quase 50% de sete décadas antes.
O comércio de escravos foi sendo visto, no transcurso da segunda metade
do século XIX, cada vez mais como um ofício degradante e vil. Após a
abolição da escravatura, em 1888, os poucos ciganos que ainda
insistiam neste comércio, perderam sua principal fonte de renda e se
tornaram miseráveis (como tantos outros ciganos na época) o que os
levou a tentar se adaptar à nova conjuntura sócio-econômica.
Dos
fins do período Imperial até os primeiros anos depois de instalada a
República, ocorreram inúmeras diligências policiais no encalço de
bandos ciganos em Minas Gerais, que resultaram em sangrentos confrontos.
Os anos de maior destaque dessas fugas e perseguições relatadas na
imprensa e nos relatórios policiais, foram 1892 e 1897. Depois de 1903,
no entanto, foi interrompida a enorme preocupação policial com os
ciganos, desaparecendo as referências documentais sobre correrias
ciganas. Passados alguns anos, eventualmente, houve problemas entre
ciganos e polícia (1909, 1912, 1916 e 1917).
Mas não houve qualquer continuidade das "Correrias de
Ciganos" ocorridas até 1903, o que justifica o marco cronológico
final.
Não
se conseguiu identificar, na lacuna que se seguiu (pela ausência de
acontecimentos) o fim das correrias. Nem o contexto histórico forneceu
indícios que pudessem sustentar qualquer hipótese viável para o término
desses eventos. No entanto, hipoteticamente, pode-se considerar que o
grande afluxo de imigrantes tenha polarizado, cada vez mais, as preocupações
das autoridades, que tentavam estabelecer planos de assimilação para
eles. Com isto, tendo um problema demograficamente mais importante para
resolver, o controle sobre os ciganos pode ter se tornado frágil. Também,
como hipótese, outro fator pode ter atuado: os ciganos teriam,
gradativamente, se reacomodado econômica e socialmente, estabilizando
seus negócios e necessitando de realizar menos movimentações, que
tanto preocupavam as autoridades policiais.
Denominações
e diversidade
Desde
o século XV a palavra “cigano” é utilizada como um insulto.
O termo aparece registrado pela primeira vez em português em A
farsa das ciganas de Gil Vicente, provavelmente em 1521. Nesta obra
os ciganos são considerados como originários da Grécia.
No século XIX, no Brasil, não se fala nem que são originários da Grécia
nem da Índia. Apesar de ganhar cada vez mais força, na Europa, a
explicação de que os ciganos teriam vindo do subcontinente indiano. No
entanto, há menções sobre ciganos, no Brasil, em que eles se diziam
descendentes de antigos egípcios:
"No
Brasil os ciganos afirmam também que procedem do Egito; e contam a
velha lenda de que, por terem recusado hospedagem à Virgem Maria quando
ela fugia, peregrinam sobre a terra dispersos, sem pátria, por todos os
tempos."
Algumas
vezes são chamados de turcos. Notícias de O
Pharol, de Juiz de Fora, referem-se a esses "turcos"
pedindo esmolas e impingindo bugigangas às pessoas.
Há ainda uma "reclamação vinda de Porto das Flores sobre a
presença de 'turcos' naquela localidade."
Em
geral, nas posturas municipais que tratam de ciganos, em primeiro lugar,
eles são associados às "pessoas desconhecidas e suspeitas."
Em seguida, são definidos como sendo "os que são por taes
havidos", ou seja, reconhecidos socialmente como ciganos.
Reconhecimento dado porque eles "costumão a fazer freqüentes
trocas e compras de animaes, e vendas de escravos, e não são moradores
no Termo, ou não há pessoa capaz, que os conheça, e abone."
Assim, eram relacionados, a
priori, ao comércio de mercadorias roubadas (escravos, animais e
objetos variados), a não ser que houvesse alguém que afiançasse sua
honestidade. A idéia que orientava este prejulgamento, era a de que
apenas seria confiável o indivíduo com residência fixa. Pois o nômade
não tinha morador que o
conhecesse e o abonasse.
O
historiador traz na mente um cigano típico (um protótipo), mas que
necessita ser desmontado pelas evidências de grupos ciganos na
diversidade de situações em que se encontram. Se for sensível,
compreenderá que, antes de tudo, deve desconstruir o modelo sobre os
genericamente chamados ciganos. Uma história de ciganos deve ser feita
de muitas exceções, impossibilidades, contradições, incongruências,
contra-sensos. Essa perspectiva tem um cigano que extrapola a coerência
que a escrita tradicional do historiador exige; as condições espaciais
e temporais individualizam muito os ciganos; a história dos ciganos é
a história de um mosaico étnico. Este cigano - total abstração - é
como a repetição infinita de um modelo ou motivo que se realiza através
de variantes ilimitadas.
Nas
últimas décadas, pesquisadores, ciganos ou não, consagraram a distinção
dos ciganos, no Ocidente, em três grandes grupos. O grupo Rom,
demograficamente majoritário, é o que está distribuído por um número
maior de países. É dividido em vários subgrupos (natsia,
literalmente, nação ou povo), com denominações próprias, como os
Kalderash, Matchuara, Lovara e Tchurara. Teve sua história
profundamente vinculada à Europa Central e aos Balcãs, de onde
migraram a partir do século XIX para o leste da Europa e para a América.
Muitas organizações ciganas e vários ciganólogos têm tentado
substituir, no léxico, Ciganos por Rom. A este processo tem-se
denominado romanização, e tem a intenção de conferir legitimidade a
estes grupos como sendo o dos "verdadeiros ciganos." Há
ainda, pelo menos, duas derivações dessa política. A primeira, a do
subgrupo Kalderash, autoproclamada a mais "autêntica" e
"nobre" entre as comunidades ciganas. A segunda é a do grupo
lingüístico vlax romani, considerado, por muitos pesquisadores, como
portador da "verdadeira língua cigana".
Os
Sinti, também chamados Manouch, falam a língua sintó e são
numericamente expressivos na Alemanha, Itália e França. No Brasil,
nunca foi feita uma pesquisa apurada sobre sua presença. Provavelmente,
os primeiros Sinti chegaram ao país também durante o século XIX,
vindos dos mesmos países europeus já mencionados.
Os
Calon, cuja língua é o caló, são ciganos que se diferenciaram
culturalmente após um prolongado contato com os povos ibéricos. Da Península
Ibérica, onde ainda são numerosos, migraram para outros países
europeus e da América. Foi de Portugal que vieram para o Brasil, onde são
o grupo mais numeroso. Embora os Calon tenham sido pouco estudados,
acredita-se que não haja entre eles algo que se assemelhe à complexa
subdivisão dos Rom.
Historicizar
os ciganos nos remete a compreendê-los na sua pluralidade e no seu
excepcionalismo. Há uma generalidade reducionista ao se chamar de
ciganos indivíduos e/ou comunidades com diferenças significativas
entre si. Precisa-se, assim, tomar cuidado ao denominar
"cigana" a identidade de grupos que chegaram ao Brasil
deportados de Portugal, desde o século XVI e, ao mesmo tempo, a
identidade de famílias oriundas dos Balcãs e da Europa Central, que
chegaram ao país no final do século XIX. Trata-se de uma enganosa
generalização, sem dúvida, pois que o espaço e o tempo modificam
sensivelmente a constituição desses "sujeitos".
Assim,
um cigano Calon e um cigano
Rom só possuem predicado idêntico no domínio da linguagem, quando
emitimos proposições como: "Este Calon é cigano" ou
"Aquele Rom é cigano". Mas a percepção atenta das
singularidades nega, taxativamente, a suposta identidade dos nomes e dos
predicados.
Em
contraposição a isso tudo, os ciganos pensam em si próprios de forma
fragmentária. Cada cigano tem uma forte identificação com seu grupo
familiar ou com as famílias que têm o mesmo ofício. Mas não existe
uma identidade única entre todos os ciganos.
Entretanto,
apesar de não corresponder aos atributos percebidos ao nível da
singularidade dos indivíduos, o tempo cigano é capaz de nos levar a um
reconhecimento ou a uma diferenciação mínima. Por exemplo, não se
confundia um cigano com um índio ou um mascate libanês.
Quando
alguém usa o predicado "cigano" para qualquer "sigano"
ou "pessoa assiganada" (como aparece em documentos coloniais),
está querendo propor que este predicado representa uma relação de
semelhança entre identidades. Isso é aceitável. Mas não concordamos
com a concepção ingênua de que esse predicado estivesse contendo uma
correspondência perfeita com os seus referentes.
No
domínio dos ciganos, não existem senão múltiplas identidades. Daí
que o termo cigano não designa as comunidades por nomes que elas próprias
dão para si. Ele designa, isto sim, uma abstrata imbricação de
comunidades ciganas. A diferença é muito grande, pois na realidade não
existem ciganos, mas sim diversas comunidades (historicamente
diferenciadas) chamadas de ciganas, mantendo relações de semelhança
e/ou dissemelhança umas com as outras.
O
termo cigano traz consigo uma série de inquietudes semânticas, ideológicas,
antropológicas etc. Uma vez diagnosticada a complexidade e as ambigüidades
inerentes à referida expressão, ao dissertarmos, torna-se impossível
termos pretensões de elaborar sínteses conclusivas. Pois o complexo de
certezas sobre o qual se apoia essa noção é bastante instável.
A
dispersão e o nomadismo, que tiveram início há mais de dez séculos,
propiciou tantos contatos interétnicos e adaptações às condições
espaço-temporais, que aplicar qualquer termo para o conjunto das
comunidades ditas ciganas é um tanto arriscado.
O
que nos parece claro é que os ciganos não são um grupo religioso ou
uma nacionalidade. Além do mais, preferiu-se não chamar os ciganos de
povo, pois também esta expressão tem significados pouco precisos e
muito ambíguos.
Na
falta de um vocábulo que designe com propriedade o conjunto completo de
todas as comunidades ciganas, adotar-se-á a expressão
"ciganos", cujo sentido é aceito na sua generalidade, para
referir-se a todos os indivíduos assim chamados. Embora se reconheça
que tal uso nunca tenha tido plena legitimidade no seio das várias
comunidades analisadas.
A
categoria "cigano" opera inúmeras descontinuidades, enquanto
a narrativa do historiador necessita de conceitos que expressem um mínimo
de continuidade. Ao contrário, estar-se-ia a cada momento escrevendo a
história de um novo objeto de estudo.
Os
segmentos do mosaico existem, sobretudo, no domínio das descrições ou
das teorias ciganológicas, influenciada pela insistência de classificação
neopositivista. Ora, o que temos são grupos e suas variantes,
decorrentes de combinações diversas, condicionadas por tempos e espaços
particulares. Assim, os ciganos são múltiplos e unos.
Nenhum
cigano conhece todos os detalhes da identidade em que está inserido.
Tal como não conhece todo o espaço cultural que o comporta, não
sabendo, pois, ler todo o seu "mapa cultural". Toda cultura,
afinal, oferece uma margem de manobra para os seus membros. Há aspectos
da identidade cigana compartilhados por todos os ciganos, outros que são
particulares de cada subgrupo e ainda outros selecionados pelo indivíduo
num leque de opções. Cada cigano é portador de um conjunto singular
de elementos dessa identidade, embora, não haja uma noção de
individualidade tal como no mundo ocidental.
Toda
história dos ciganos é, na verdade, uma viagem nas línguas, nas estéticas,
nas políticas antivagabundos e antiartistas, nas religiões, nas concepções
de mundo, com os quais vários grupos ciganos, sucessiva e
contraditoriamente, tiveram contato. Nisso a universalidade dos ciganos
se manifesta.
Nesta
história dos ciganos a diferença não pode se dissipar. Para ser
honesta, ela deve mostrar muitas precauções para não condensar num
padrão as particularidades de grupos variados (em momentos e espaços
distintos), porque assim o discurso perderia informação, e a história,
o sentido. Não se pode também confundir os ciganos com os discursos
que os descrevem, ainda que se reconheça a existência de uma conexão
entre eles.
Dito
isto, ressalta-se que as diferenças
e a diversidade entre os ciganos não impedia que houvesse
solidariedade. Os ciganos faziam da própria fluidez, da flexibilidade,
de sua identidade um fator de fortalecimento desta solidariedade. Pois
rearranjavam sua identidade de acordo com suas necessidades, por meio de
alianças matrimoniais ou pelas festas que envolviam comunidades
distintas. Além disto, colocadas em oposição aos não-ciganos, as várias
comunidades se sentiam irmanadas.
As
narrativas históricas sobre os ciganos, muitas vezes, perdem-se pela
generalização exagerada (fala-se dos "ciganos" como tendo
apenas uma única cultura); apenas umas poucas linhas sustentam o caráter
diferencial de cada comunidade cigana estudada. E quando os autores se
cansam das individualidades, esboçam a unidade (frágil e talvez
inexistente) de múltiplos ciganos. Tanto o historiador quanto o ciganólogo
escrevem como se todos os ciganos fossem apenas um só (o "cigano típico"
ou o "cigano genérico").
Portanto,
resta desconstruir essa unidade discursiva sobre os ciganos, pelo estudo
das particularidades do caso em questão, tentando perceber as visões
positivas e negativas que orientaram as ações da sociedade mineira
frente aos ciganos. E também, como os ciganos flexibilizaram sua
identidade diante das transformações conjunturais pelas quais
passaram.
População cigana no Brasil.
Quase
nada sabemos sobre os ciganos brasileiros na atualidade. As pesquisas até
agora realizadas no Brasil provam a existência de ciganos de pelo menos
dois grupos diferentes: os Calon
que migraram para o país, voluntária- ou compulsoriamente, já a
partir do Século XVI, e os Rom
que, ao que tudo indica, migraram para o Brasil somente a partir de
meados do Século XIX. Nenhuma publicação trata de ciganos Sinti,
mas que com certeza também devem ter migrado para o Brasil, junto com
os colonos alemães e italianos, a partir do final do Século XIX.
Segundo dados oficiais, de 1819 a 1959 migraram para o Brasil 5,3 milhões
de europeus, dos quais 1,7 milhão portugueses, 1,6 milhão italianos,
694 mil espanhois, 257 mil alemães e 125 mil russos.
No desembarque registrava-se apenas a nacionalidade do imigrante, e não
a sua identidade étnica. É mais do que provável que no meio dos quase
dois milhões de imigrantes italianos e alemães também tenham vindo
ciganos Sinti, principalmente durante e após a II Guerra Mundial.
Segundo
Vilas Boas da Mota, os Rom brasileiros pertencem aos seguintes
sub-grupos: “Kalderash, que
se consideram nobres e, por conseguinte, os verdadeiros guardiães da
identidade cultural cigana; os Macwaia,
muito propensos à sedentarização ... e, por isto mesmo, inclinados à
perda da identidade étnica... ; os Rudari,
provenientes sobretudo da Romênia, localizam-se em São Paulo e no Rio
de Janeiro e com bom nível econômico-financeiro; os Horahané,
oriundos da Turquia e da Grécia, são renomados vendedores ambulantes;
os Lovara, em franco recesso
cultural, fazem-se passar por emigrantes italianos”.
Nenhum autor brasileiro faz referência a sub-grupos Calon com denominações
específicas.
Também
não existem dados sobre o número de ciganos no Brasil atual, nem sobre
a sua distribuição geográfica. Os censos demográficos
brasileiros nada informam sobre ciganos ou indivíduos que são
identificados ou se auto-identificam como tais, e até hoje ninguém se
interessou ou foi capaz de saber, nem sequer aproximadamente, quantos
ciganos vivem num determinado Estado, e menos ainda no Brasil todo.
Dispomos de dados demográficos detalhados, bastante confiáveis e
constantemente atualizados sobre quase todos os povos indígenas
no Brasil, mas nada sabemos sobre a demografia das minorias ciganas.
Apesar
disto, Costa Pereira escreveu em 1985: “Pode-se afirmar que hoje há
cerca de 150.000 ciganos espalhados por todo o Brasil, nômades ou
semi-sedentários. Isto sem nos referirmos aos que negam a sua
ciganidade, o que triplicaria este número”. A autora não informa
como ela conseguiu contar estes 150.000 ciganos, e menos ainda como
contou os cerca de 300.000 ciganos brasileiros que não mais se
identificam como ciganos, ou seja, ciganos invisíveis, ou melhor ainda,
do ponto de vista antropológico, ex-ciganos. Na realidade, estes números
nem sequer são estimativas, mas mera fantasia, uma miragem. Em 1990, a
mesma Costa Pereira, informando basear-se em dados da Romani
Union de Madrid (mas sem citar a fonte bibliográfica), afirmou
que a população cigana brasileira era de cerca de 800.000 pessoas,
mas dois anos depois, com supostos dados da Unesco, sem maiores explicações
(e mais uma vez sem citar qualquer fonte bibliográfica), diminuiu
este número para 500.000.
O mais grave é que estes dados foram publicados numa revista italiana,
pelo que os estrangeiros podem pensar que os brasileiros, em apenas dois
anos, eliminaram uns 300.000 ciganos. Um verdadeiro genocício, um novo
holocausto brasileiro, e que obviamente não ocorreu!
Todos
estes números, no entanto, são mera fantasia, são apenas delírios
psicodélicos, porque nenhum ciganólogo, e nenhuma organização cigana
ou pró-cigana de qualquer parte do Mundo, e menos ainda a Unesco, tem
autoridade alguma para divulgar estimativas populacionais ciganas
seja de que país for, a não ser que estas estimativas sejam baseadas
em dados confiáveis fornecidos por cientistas ou instituições
de pesquisa daquele país. E no Brasil, até hoje, nem o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelos censos
demográficos oficiais, nem qualquer outra instituição de pesquisa
demográfica, nem qualquer Organização Não-Governamen-tal (ONG), nem
cientista algum tem feito um levantamento sistemático e confiável
da população cigana.
Em
resumo: nada, mas absolutamente nada, sabemos sobre o número de ciganos
nômades, semi-nômades e sedentários atualmente existentes no Brasil,
nem sobre sua distribuição geográfica.
Capítulo
1.
HISTÓRIA
GERAL DOS CIGANOS NO BRASIL.
Ciganos
no Brasil: Séculos XVII e XVIII.
Com
as fontes históricas conhecidas até agora, é praticamente impossível
procurar exatidão em quaisquer dados histórico-demográ-ficos sobre os
ciganos no Brasil. As informações sobre os ciganos nos Séculos XVI e
XVII são muito limitadas, embora sejam conhecidos documentos relativos
às políticas anti-ciganas portuguesas.
Essa
documentação referente ao Brasil torna-se menos escassa somente a
partir do Século XVIII. Isto porque a partir do reinado de Dom João V,
que durou de 1706 a 1750, a perseguição aos ciganos portugueses se
acentuou e dezenas deles foram degredadas para as colônias
ultramarinas, inclusive para o Brasil. No entanto, é bastante difícil,
praticamente impossível, determinar quantos ciganos vieram para o
Brasil até 1822. Segundo Donovan: "Enquanto a Gazeta de Lisboa menciona grandes grupos de deportados, nenhuma
lista oficial de criminosos exilados tem sido trazida à luz. Assim o número
de indivíduos e famílias embarcadas nos cargueiros anualmente, o
volume daqueles transportados, permanece desconhecido."
Inclusive o número de ciganos deportados, que certamente constavam
nestas listas de criminosos exilados, e eventualmente os motivos dessas
deportações.
Mas
não há dúvida alguma que os primeiros ciganos que desembarcaram no
Brasil foram oriundos de Portugal, e que estes não vieram
voluntariamente, mas expulsos daquele país. Foi o que parece ter
acontecido, por exemplo, já em 1574, com um certo João de Torres e sua
mulher Angelina que foram presos apenas pelo fato de serem ciganos.
Inicialmente João foi condenado às galés e Angelina deveria deixar o
país dentro de dez dias, levando seus filhos. Alegando, no entanto, que
“era fraco e quebrado, e não era para servir em coisa de mar e muito
pobre, que não tinha nada de seu”, João pediu para poder sair do
Reino, ou então que pudesse ir para o Brasil para sempre.
O
“pobre” cigano João de Torres deve ter pago um bom suborno porque
logo, em poucos dias, seu pedido foi deferido e a pena foi mudada para
“cinco anos para o Brasil, onde levará sua mulher e filhos”.
O número de filhos não é mencionado, mas devem ter sido alguns
poucos, talvez dois ou três, porque certamente não iriam deportar
gratuitamente para o Brasil um (auto-declarado) miserável e inútil
cigano João, sua mulher e uns dez ou quinze filhos.
Por
causa deste documento João de Torres sempre é citado como o primeiro
cigano a entrar no Brasil. Não se sabe, porém, se ele realmente
embarcou (ele pode ter pago outros subornos para se livrar disto), se
“fraco e quebrado” aguentou a longa viagem marítima, na qual
certamente não teve tratamento de primeira classe, ou se chegou ao seu
destino, nem aonde desembarcou, nem quanto tempo ficou no Brasil, nem se
depois dos cinco anos voltou a Portugal, algo pouco provável. Ou seja,
nada, mas absolutamente nada se sabe sobre o destino dele e de sua família.
É possível que nunca tenha chegado ao Brasil. De qualquer forma, se
ele realmente embarcou, veio acompanhado apenas pela mulher e alguns
poucos filhos e não “liderando um bando de ciganos” ou “chefiando
numerosas famílias que o acompanhavam”, como erroneamente informam
alguns autores, que preferiram usar a fantasia em vez de ler o documento
original.
A
deportação de ciganos portugueses para o Brasil, ao que tudo indica, só
começou mesmo a partir de 1686. Dois documentos portugueses daquele ano
informam que os ciganos deviam ser degredados também para o Maranhão.
Antes eram degredados somente para as colônias africanas.
A
escolha da Coroa pela capitania do Maranhão visava pelo menos a dois
objetivos. Primeiro, colocar os ciganos "bastante afastados das áreas
brasileiras de mineração e de agricultura assim como longes dos
principais portos da colônia, do Rio de Janeiro a Salvador."
Segundo, esperava-se que os ciganos ajudassem a ocupar extensas áreas
dos sertões nordestinos, então ainda ocupadas por índios. Ainda que
perigosos, preferia-se os ciganos aos índios. Não foram ainda
descobertos documentos com dados sobre o número de ciganos deportados
para o Brasil nesta época, para quais capitanias e por quais motivos.
Mas
sabemos que também outras capitanias receberam ciganos, principalmente
a partir de 1718, outro marco na política portuguesa de deportação de
ciganos. Segundo Donovan:
"Como
uma forma de expor publicamente sua determinação João V ordenou a
deportação imediata de uma pequena comunidade cigana consistindo de
cinquenta homens, quarenta e uma mulheres e quarenta e três crianças,
então detidos na prisão municipal de Limoeiro. Seu banimento foi um
procedimento cuidadosamente planejado, servindo como um ato de Estado. A
justiça do início do período moderno era praticada de uma forma
deliberadamente cerimonial. Oficiais publicizavam o evento antes através
de anunciamentos boca a boca ou públicos. Nesse caso o embarque do
navio brasileiro, que sempre atraía grandes multidões, forneceu o
palco. A visão dos ciganos partindo acorrentados demonstrava para os
espectadores o esforço da coroa pelo controle social. Isso é a publicação
dos banimentos subsequentes assinalavam, sem dúvida, que a assimilação
não era mais uma opção dos ciganos para escapar de seu status
criminoso."
Em
15 de abril daquele ano, foi expedida comunicação de Lisboa para o
governador de Pernambuco, apoiando-se no decreto já mencionado de Sua
Majestade. Informa-se o embarque de ciganos para aquela capitania, mas
parte dos quais deveria ser remetida depois para o Ceará/Brasil, e
outra parte para Angola/África. Também devia-se tomar cuidado para que
nenhum cigano ficasse em Pernambuco, e aos governadores do Ceará e de
Angola recomendou-se que não deixassem os ciganos retornar a Portugal,
nem permitissem o uso de sua língua, chamada também de geringonça.
Apesar
disto, muitos ciganos permaneceram em Pernambuco, entre eles alguns que
solicitaram licença de permanência, ou então permissão de mudar-se
para outras províncias.
Pereira da Costa informa que:
“(.....)
ficaram na capitania [de Pernambuco] vários ciganos, aos quais concedeu
o vice-rei, por ordem de 14 de dezembro de 1720, que eles fossem
estabelecer a sua moradia em Sergipe del-Rei. Permanecendo em Pernambuco
avultado número de ciganos, apesar das ordens em contrário, representa
contra eles a câmara de Olinda em 16 de dezembro de 1723, dizendo na
carta que dirigiu ao soberano, que viviam eles espalhados pela
capitania, cometendo toda a sorte de crimes, principalmente de furtos e
assassinatos, e em tal escala, que não se podia mais tolerá-los,
concluindo que S. Majestade houvesse de os mandar para o Ceará, onde
poderiam prestar algum serviço na conquista do gentio bravio, e ficar
assim o povo com algum sossêgo”.
Também
em 1718, foram enviadas de Portugal para a Bahia "diversas famílias
de ciganos."
Por isto, Dom João V ordenou ao vice-rei, de forma semelhante ao que já
havia feito ao governador de Pernambuco, o seguinte:
"Eu,
Dom João, pela Graça de Deus, etc., faço saber a V. Mercê que me
aprouve banir para essa cidade vários ciganos - homens, mulheres e
crianças - devido ao seu
escandaloso procedimento neste reino. Tiveram ordem de seguir em
diversos navios destinados a esse porto, e, tendo eu proibido, por lei
recente, o uso de sua língua habitual, ordeno a V. Mercê que cumpra
essa lei sob ameaça de penalidades, não permitindo que ensinem dita língua
a seus filhos, de maneira que daqui por diante o seu uso desapareça."
Os
documentos históricos comprovam que a então comunidade cigana em
Salvador apresentou um grande crescimento demográfico e econômico.
A primeira capital colonial brasileira tornou-se também a mais
importante cidade para os ciganos do Brasil. Consta que em Salvador os
ciganos inicialmente foram alojados no bairro da Mouraria, e
posteriormente também no bairro de Santo Antonio d’além do Carmo”.
De Salvador saíram muitos ciganos rumo a região das minas (hoje Minas
Gerais), causando grande incômodo às autoridades.
Sem
indicarem as fontes nas quais se basearam, historiadores como Augusto de
Lima Júnior e João Dornas Filho apontam a presença de ciganos nas
Minas de Ouro (hoje Minas Gerais) já nos fins do século XVII. Lima Júnior
acredita que os ciganos chegaram a Minas logo após o descobrimento do
ouro: "os judeus e cristãos-novos, bandos imensos de ciganos,
atiraram-se para as terras ultramarinas, buscando a fortuna e a redenção
na largueza dos sertões infindos, onde dificilmente chegariam as
importunações do Santo Ofício."
Na
verdade, sabe-se que a Inquisição se preocupou pouco com os ciganos. O
autor ainda informa sobre a preocupação das autoridades com eles.
Descrevendo a alarmante escassez de víveres de 1700 em Ouro Preto e
arredores, comenta que, naquele ambiente de desespero e desolação,
"os negros escravos e os bandos de ciganos bem armados salteavam os
vivos e saqueavam os mortos."
Mais adiante, quando o autor menciona "a confusão e a desordem
reinantes nessas Minas Gerais recém-nascidas", acrescenta que
"bandos de ciganos ágeis e aguerridos percorriam as estradas
entregues à mais solta rapina."
Para esses supostos crimes ciganos, Lima Júnior também não
apresenta nenhuma fonte.
João
Dornas Filho, sem apresentar qualquer documento, afirma que os ciganos
chegaram a Minas Gerais possivelmente penetrando "pelo Rio São
Francisco com as primeiras entradas baianas."
Mesmo tendo-se dúvida quanto à presença de ciganos em Minas Gerais no
Século XVII, ou mesmo antes, quando das primeiras entradas baianas,
parece bem provável que a penetração tenha se dado pelo vale do São
Francisco. Pela extensão e características físicas do território,
ainda que Minas dispusesse de inúmeras estradas e caminhos, eram os
vales fluviais que cumpriam a função de ser a principal forma de
adentrar o sertão.
As
afirmações dos historiadores acima são duvidosas, porque não citam
fontes documentais. Certamente alguns ciganos chegaram até as Minas de
Ouro em seus primeiros tempos.
Mas foi somente a partir de 1718 que diversas famílias ciganas vieram
juntas para o território mineiro.
A presença comprovada de ciganos em Minas Gerais é registrada desde o
início do Século XVIII, ao
que tudo indica contrariando as intenções originais da Coroa
portuguesa.
Dom
Lourenço de Almeida, num bando de 15 de julho de 1723, fazendo uma
variação do decreto de 1718, recorda que El Rey havia remetido ciganos
ao Brasil, apenas para que seguissem em direção a Angola, e não para
que ficassem no continente americano. Acrescentando, reclama: "por
ser hua gente muito prejudicial aos seos povos porque não vivem se não
dos roubos q. fasem, cometendo exacrandos insultos, e porque pelo
descuido que houve el algua das praças da Marinha vieram para estas
Minas vartas familias de ciganos, onde podem fazer mayores roubos q. em
outra nenhua parte (...)."
Um
documento de 1723, de Vila Rica (hoje Ouro Preto) informa que “pelo
descuido que houve em alguma das praças da Marinha vieram para estas
Minas várias famílias de ciganos”, e manda prender todos eles e
remeter para o Rio de Janeiro, de onde então seriam deportados para
Angola. Não somente manda prender os ciganos, que o documento chama de
“ladrões salteadores”, mas também seriam presos e degredados para
Angola todos aqueles que se encontrarem em sua companhia ou lhes
hospedarem em suas casas ou fazendas. Além disto, qualquer cidadão
podia prender ciganos e entregá-los na cadéia mais próxima, podendo a
pessoa tomar-lhes todos os bens, ouro, roupas ou cavalos.
Porém,
em 1737 o governador de Minas Gerais adverte: “Pelo que toca a ciganos
as queixas que há são só por serem ciganos, sem que se aponte culpa
individual (.....) tenho
recomendado que prendam e me remetam os que fizerem furtos”, ou seja,
não qualquer cigano apenas pelo fato de ser cigano.
E
como tudo que é ruim só podia ser de origem cigana, houve quem
suspeitasse que a epidemia de varíola que naquele ano grassava em Minas
Gerais tinha sido trazido pelos ciganos!
Dornas
Filho acrescenta longas narrações sobre a ação de salteadores,
principalmente na Serra da Mantiqueira, até o final do Século XVIII,
citando inclusive cartas de Tiradentes que, segundo ele, “comandou por
mais de uma vez a tropa de assalto ao reduto desses malfeitores,
prendendo e matando ciganos às dúzias”.
Ou seja, o heroi mineiro e nacional Tiradentes assassinou
covardamente também algumas dezenas de ciganos, quase todos eles
certamente desarmados e trabalhadores honestos, mas um genocídio que na
época era motivo até de recompensas financeiras e honrarias especiais.
O
leitor fica com a impressão que em todos estes casos citados por Dornas
Filho se trata de ciganos, porém a maioria dos documentos não faz
absolutamente nenhuma referência a ciganos, mas apenas a bandidos em
geral ou, quando muito, fala de “ciganos e outros malfeitores”.
Alguns podem até ter sido ciganos, mas com certeza a quase totalidade
destes bandidos, assaltantes e assassinos da época eram portugueses,
mineiros ou brasileiros, não-ciganos. No entanto, sempre quando algo de
ruim acontecia e um cigano por acaso estivesse na redondeza, já se
sabia a quem atribuir a culpa.
Em
1726 há notícia de ciganos em São Paulo, quando foram solicitadas
medidas contra ciganos que apareceram na cidade e que eram
“prejudiciais a este povo porque andavam com jogos e outras mais
perturbações”, pelo que tiveram que abandonar a cidade dentro de 24
horas, sob pena de serem presos. E em 1760 os vereadores de São Paulo
resolveram “que por ser notório que nesta cidade se acha um bando de
ciganos composto de homens, mulheres e filhos sendo público terem sido
expulsos de Minas Gerais por serem perniciosos naquelas povoações e
assim se vieram acolher a esta cidade aonde já vão havendo algumas
queixas (....)”.
Também
estes receberam um prazo de 24 horas para sair da cidade.
Ou seja, trata-se da velha política de “mantenho-os em movimento”:
Minas Gerais expulsa seus ciganos para São Paulo, que os expulsa para o
Rio de Janeiro, que os expulsa para Espírito Santo, que os expulsa para
a Bahia, de onde são expulsos para Minas Gerais, etc. Ou seja, o melhor
lugar para os ciganos sempre é no bairro, no município ou no Estado
vizinho; ou então no país vizinho ou num país bem distante. Um alvará
de 1760 informa:
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