FRANS
MOONEN
ROM,
SINTI E CALON
OS
ASSIM CHAMADOS CIGANOS
1.
A Primeira Onda Migratória
2.
Políticas anti-ciganas
3.
A Segunda Onda Migratória
4.
O holocausto cigano
5.
Os ciganos na Europa comunista
6.
Os ciganos na Europa pós-comunista
7.
Imagens anti-ciganas
8.
Três imagens errôneas sobre os ciganos
Bibliografia
Selecionada
Núcleo
de Estudos Ciganos
E-Texto
no. 1
Recife,
2000
Introdução:
OS
ASSIM CHAMADOS CIGANOS.
“Ciganos”.
A
História escrita dos hoje assim chamados “ciganos”
não vai além de apenas um milênio. Um dos documentos
mais antigos é o de um monge grego segundo o qual,
no ano de 1050, o imperador de Constantinopla (hoje
Istambul, na Turquia), para matar uns animais ferozes,
solicitou a ajuda de adivinhos e feiticeiros chamados
Adsincani. No início do século seguinte, outro monge se refere a domadores
de animais, em especial de ursos e cobras, e a indivíduos
lendo a sorte e prevendo o futuro, que eram chamados
Athinganoi. No Século XIII, o patriarca de Constantinopla adverte
o clero contra adivinhos, domadores de ursos e encantadores
de cobras e solicita não permitir a entrada destes
Adingánous
nas casas, ”porque eles ensinam coisas diabólicas”. É possível que estes tenham
sido antepassados (embora não necessariamente os
únicos) dos indivíduos hoje genericamente chamados
“ciganos”, e neste caso já estariam na Turquia pelo
menos desde meados do Século XI.
Da
Turquia para outros países balcânicos foi apenas
um pequeno passo. Sabemos que vários grupos migraram
para a Grécia. Em 1322 um frade franciscano, de
passagem pela ilha de Creta, escreve sobre indivíduos
que viviam em tendas ou em cavernas, chamados Atsinganoi,
nome então dado aos membros de uma seita de músicos
e adivinhadores, e que nunca paravam mais do que
um mês num mesmo lugar. Depois disto, muitos outros
viajantes europeus, mercadores ou peregrinos a caminho
da Terra Santa, observaram a presença destes indivíduos
nos arredores do porto marítimo grego de Modon (hoje
Methoni), então colônia de Veneza, onde trabalhavam
como ferreiros e sapateiros.
A
partir do início do Século XV, estes “ciganos” migraram
também para a Europa Ocidental, onde quase sempre
afirmavam que sua terra de origem era o “Pequeno
Egito”. Hoje sabemos, com certeza, que esta era
então a denominação de uma região da Grécia, mas
que pelos europeus da época foi confundida com o
Egito, na África. Por causa desta suposta origem
egípcia passaram a ser chamados “egípcios” ou “egitanos”,
ou gypsy
(inglês), egyptier (holandês), gitan
(francês), gitano
(espanhol), etc. Mas sabemos que alguns grupos se
apresentaram também como gregos e atsinganos,
pelo que também ficaram conhecidos como grecianos
(espanhol), tsiganes
(francês), ciganos
(português), zingaros
(italiano), etc.
Na
literatura a seu respeito ainda existem outras denominações
que em nada lembram a suposta origem egípcia ou
comprovada origem grega. Na Holanda, p.ex., a denominação
inicial de “egyptier”
desaparece a partir do Século XVI e utiliza-se apenas
a denominação “heiden”
(pagão), denominação então comum também na Alemanha.
Na França ficaram conhecidos também como romanichel,
manouches
ou boémiens. Em vários países foram confundidos com os tártaros,
mongóis da [i]Sibéria
e Ásia Central.
Todos estes termos são denominações genéricas
que os europeus naquele tempo deram a estes misteriosos
e exôticos imigrantes. Não consta como os ciganos
então se auto-identificavam.
Conforme
se vê, a origem dos ciganos sempre foi um verdadeiro
mistério, e por isso existem, ainda hoje, as mais
diversas lendas e fantasias. Somente no Século XVIII
o assunto começou a ser discutido com mais seriedade,
quando os linguistas concluiram que os ciganos deveriam
ser originários da Índia. As provas linguísticas
surgiram por acaso em 1753 quando, numa universidade
holandesa, um estudante húngaro descobriu semelhanças
entre a língua cigana do seu país e a língua falada
por três colegas estudantes indianos. Constatou-se
assim um evidente parentesco entre as línguas ciganas
e o sânskrito. A teoria da origem indiana das línguas
ciganas seria divulgada somente anos depois na Alemanha,
por Christian Buettner em 1771, por Johann Ruediger
em 1782, e por Heinrich Grellmann em 1783, este
o mais conhecido dos três.
Grellmann
criticou primeiro as teorias linguísticas até então
existentes sobre a origem das línguas ciganas, principalmente
aquelas que falavam da origem egípcia. Depois fez
uma análise sistemática de quase quatrocentas palavras
e constatou que de cada trinta palavras ciganas,
doze a treze eram de origem hindi, uma língua derivada
do sânskrito. Apesar de reconhecer que ainda existiam
falhas em seu trabalho, acreditou que a origem indiana
tinha sido suficientemente comprovada. Na segunda
edição de seu livro, Grellmann cita também outros
cientistas que na mesma época tinham chegado a conclusões
idênticas.
Desde
então, a origem indiana nunca mais foi colocada
em dúvida e linguistas posteriores apenas têm acrescentado
mais dados comprobatórios, restando hoje apenas
dúvidas sobre em que época ou épocas, e em que parte
ou partes da Índia estas línguas eram faladas, admitindo-se
em geral que tenha sido a região noroeste da Índia
(atual Paquistão), por volta do ano 1000 da era
cristã.
Fraser,
no entanto, lembra que
a “linguística histórica não pode determinar
a origem racial e étnica dos indivíduos que falavam
Romani........ Não
se pode ter certeza que grupos ou povos são racialmente
aparentados apenas porque falam línguas aparentadas”.
Ou
seja, estas semelhanças linguísticas podem significar
também, e tão somente, que os assim chamados ciganos,
durante muito tempo e por motivos ainda ignorados,
viveram na Índia, sem serem e nunca terem sido indianos,
ou que tiveram contato com indianos ou não-indianos
que falavam o hindi, mas fora da Índia.
Por
isso, as supostas ‘provas linguísticas’ acima citadas,
precisam ainda de provas complementares, sejam elas
culturais, raciais, ou de outra natureza. Não faltam
autores que apresentam supostas provas culturais,
citando semelhanças entre costumes ciganos e indianos,
da mesma forma como outros autores, adeptos da origem
egípcia, descobriram semelhanças com a antiga cultura
egípcia da época dos faraós. Quem procura, sempre
encontrará algumas semelhanças nas culturas de dois
povos diferentes e geográficamente distantes. Elementos
culturais, no entanto, podem ser transmitidos também
por via indireta, sem contato direto com os povos
que os inventaram, e também podem ter origens independentes.
Quanto
a isto, Fraser cita o caso da Grécia onde, na década
de 80, a TV apresentou um documentário em que era
mostrada a origem indiana dos ciganos. Depois disto,
jovens ciganas gregas passaram a vestir os longos
e coloridos sáris indianos e introduziram elementos
orientais nas suas danças. Ao que Fraser, maliciosamente
(mas com toda razão), acrescenta: “Talvez daqui
a uns 50 anos, etnomusicólogos apresentem estes
elementos como um vestígio cultural de sua pátria
original” (a Índia).
Outro
exemplo desta “indianização” artificial foi registrada
também na ex-Iugoslávia, após o II Congresso da
União Romani Internacional, no qual a primeira-ministra
Indira Ghandi declarou (apenas simbolicamente, e
até hoje sem quaisquer efeitos práticos!) que a
Índia era a pátria-mãe de todos os ciganos. Não
há registro de nenhuma família cigana européia que
por causa disto tenha migrado para a Índia (ou seja:
ninguém migrou do ruim para o pior), mas depois
disto, pelo menos na ex-Iugoslávia, muitos ciganos
começaram a ornamentar suas casas com estátuas e
quadros de deuses indianos e bonecos em trajes indianos,
jovens ciganas substituíram a calça turca pelo sári
indiano, músicas e filmes indianos se tornaram de
repente populares, e houve até quem trocasse a religião
muçulmana pelo hinduismo.
Ainda
menos sucesso tiveram, até hoje, aqueles que tentaram
provar a origem indiana através de comparações biológicas,
ou raciais. Já desde a chegada na Europa há notícias
sobre a aparência física dos ciganos: pele escura,
cabelos pretos e longos, olhos pretos e grandes,
nariz aquilina, etc. Posteriormente alguns cientistas
notariam semelhanças sanguíneas entre ciganos e
indianos, mas nada disto seria suficiente para provar
sua origem indiana, inclusive porque não existiam
estudos suficientes sobre as características raciais
dos indianos, e outros tantos povos tinham as mesmas
características físicas ou predominância dos mesmos
grupos sanguíneos. Além disto havia o problema da
“mistura racial” que certamente ocorreu desde a
saída da Índia há vários séculos.
Na
realidade, todas as teorias (e inúmeras fantasias,
mitos e lendas) sobre a origem dos ciganos não passam
de mera especulação e não têm nenhuma comprovação
empírica. Até hoje, apenas as semelhanças das línguas
ciganas com o sânscrito parecem devidamente comprovadas,
pelo que muitos ciganólogos costumam admitir que
os ciganos são originários da Índia. Mas isto também
é tudo e, como já dissemos acima, somente a semelhança
linguística na realidade não comprova coisa alguma.
Existem
as mais diversas teorias sobre quando saíram da
Índia, mas em geral admite-se que foi somente a
partir do Século X, ou seja, apenas uns mil anos
atrás. Ou então, o que é bem mais provável, que
ocorreram várias ondas migratórias, em épocas bem
diferentes, talvez até de áreas geográficas diversas,
e por motivos dos mais variados. Também não se sabe
como eles então se identificavam a si mesmos, ou
como eram identificados pelos outros, e provavelmente
nunca o saberemos. Os próprios ciganos nunca deixaram
documentos escritos sobre o seu passado e muitos
ciganólogos informam que os ciganos, em geral, não
têm a mínima idéia sobre suas origens e, o que é
pior, nem demonstram interesse em saber de onde
vieram os seus antepassados.
A
diversidade entre os ciganos.
Conforme
vimos acima, “cigano” é um termo genérico inventado
na Europa do Século XV, e que ainda hoje é adotado,
apenas por falta de um outro melhor. Os próprios
ciganos, no entanto, costumam usar autodenominações
completamente diferentes. Hoje, os ciganos e os
ciganólogos não-ciganos costumam distinguir pelo
menos três grandes grupos:
(1)
os ROM, ou Roma,
que falam a língua romani;
são divididos em vários sub-grupos, com denominações
próprias, como os Kalderash, Matchuaia, Lovara,
Curara e.o.; são predominantes nos países balcânicos,
mas a partir do Século XIX migraram também para
outros países europeus e para as Américas;
(2)
os SINTI, que falam a língua sintó
e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França,
onde também são chamados Manouch;
(3)
os CALON ou KALÉ, que falam a língua caló,
os “ciganos ibéricos”, que vivem principalmente
em Portugal e na Espanha, onde são mais conhecidos
como Gitanos,
mas que no decorrer dos tempos se espalharam também
por outros países da Europa e foram deportados ou
migraram inclusive para a América do Sul.
Estes
grupos e dezenas de sub-grupos, cujos nomes muitas
vezes derivam de antigas profissões (Kalderash =
caldeireiros; Ursari = domadores de ursos, e.o.)
ou procedência geográfica (Moldovaia, Piemontesi,
e.o.), não apenas têm denominações diferentes, mas
também falam línguas ou dialetos diferentes. Como
já vimos acima, desde o Século XVIII costuma-se
atribuir aos ciganos apenas uma única língua, comum
a todos, a língua romani,
parcialmente de origem indiana, embora esta
tenha também inúmeras palavras de origem persa,
turca, grega, romena e de outros países por onde
passaram. Na realidade, já então os ciganos falavam
várias línguas ou dialetos que, apesar de terem
aparentemente uma origem em comum, hoje apresentam
profundas variações regionais que tornam uma comunicação
cigana internacional na prática impossível. Algo
semelhante à atual comunicação entre franceses,
italianos, espanhois, portugueses e brasileiros,
que todos falam línguas derivadas do Latim: muitas
palavras podem ser entendidas por todos, principalmente
quando escritas, mas a comunicação verbal na maioria
das vezes é difícil, quando não impossível. Segundo
Fraser não existe um romani padronizado, único,
mas somente na Europa os ciganos falariam cerca
de 60 ou mais dialetos diferentes.
De
todos os ciganos, os Rom são os mais estudados e
descritos. Isto porque estes ciganos, e entre eles
principalmente os Kalderash e os Lovara - inclusive
no Brasil - , costumam considerar-se a si próprios
‘ciganos autênticos’, ‘ciganos nobres’, e classificar
os outros apenas como ‘ciganos espúrios’, de segunda
ou terceira categoria. Como antropólogos e linguistas
tendem a estudar de preferência povos “autênticos”,
que ainda conservam sua cultura e língua tradicional,
a quase totalidade dos estudos ciganos trata de
ciganos Rom, e praticamente nada se sabe dos outros
grupos.
O
nomadismo, aparentemente
maior entre os Calon do que entre os Rom,
pode ter dificultado pesquisas sobre sua língua
e seus costumes, mas não explica, nem justifica,
porque foram tão negligenciados pelos ciganólogos.
Román, por exemplo, informa que na Espanha ainda
não foram realizadas intensivas pesquisas históricas
e antropológicas sobre os ciganos Calon, naquele
país quase todos há muito tempo sedentários.
Na França a situação não é diferente: segundo Liégeois,
o grupo Rom, naquele país com apenas alguns milhares
de membros, é praticamente o único estudado, enquanto
as dezenas de milhares de ciganos Sinti (Manouch)
e Calon são ignoradas, fato que reforça ainda mais
a imagem dos ciganos Rom da Europa Oriental como
ciganos ‘autênticos’.
Praticamente nada, também, sabemos sobre os atuais
ciganos Sinti e Calon no Brasil.
Este
“rom-centrismo”, dos próprios ciganos e dos ciganólogos,
faz Acton falar até de “romólogos” que, em lugar
de analisarem as diferenças existentes entre os
grupos ciganos, apresentam um modelo ideal como
se os ciganos formassem uma totalidade homogênea.
Segundo este sociólogo, “A grande falha da literatura
sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização;
observadores têm sido levados a acreditar que práticas
de grupos particulares são universais, com a concomitante
sugestão que [os membros de] qualquer grupo que
não têm estas práticas não são ‘verdadeiros ciganos’“.
Ou seja: a cultura rom passa a ser considerada
a “autêntica” cultura cigana, a cultura “modelo”,
e quem não falar a língua como eles, quem não tiver
os mesmos costumes e valores ..... , bem, estes
só podem ser ciganos de segunda ou terceira categoria,
ciganos espúrios, inautênticos, quando não falsos
ciganos.
Entende-se
assim porque a quase totalidade dos livros de ciganólogos
que tratam genericamente da suposta “Cultura Cigana”,
na realidade descrevem apenas ou quase exclusivamente
a cultura dos ciganos Kalderash que durante séculos
viveram nos Bálcãs - na atual Romênia na qualidade
de escravos, libertos somente em meados do Século
XIX - onde desenvolveram uma cultura fortemente
influenciada pelas diversas culturas nacionais,
em especial a romena. Um exemplo clássico, entre
vários outros, é o kris
romani, uma espécie de tribunal cigano, sempre
apresentado como algo tipicamente “cigano”, quando,
segundo Formoso, na realidade é um elemento cultural
apenas dos Kalderash, que o tomaram emprestado da
sociedade rural romena, e que não existiria nem
entre os ciganos Rom Lovara e Curara e é desconhecido
também entre os Sinti e Calon.
Outros dois exemplos seriam o marimé,
as idéias sobre pureza / impureza, que na realidade
são de origem árabe e turca, e a pomana,
o ritual funerário, de origem romena. O kris,
o marimé
e a pomana costumam ser descritas por nove entre dez ciganólogos como
se fossem comuns a todos os ciganos, quando se trata
apenas de características culturais Kalderash.
A cultura Kalderash - praticamente a única conhecida
do grande público não-cigano - é apenas uma das
inúmeras sub-culturas ciganas hoje existentes em
todo mundo, cada uma das quais com características
próprias, resultantes de histórias diferenciadas
de convivência, quase nunca pacífica, com as mais
diversas sociedades e culturas.
Porém,
os ciganos não se diferenciam entre si apenas linguistica
e culturalmente, mas também econômica e socialmente.
Como exemplo podem ser citados os ciganos espanhois,
cuja população em 1993 deveria ultrapassar um total
de 400 mil pessoas, ou seja, cerca de 1,1% da população
nacional. Garcia distingue entre eles quatro categorias
sociais bem distintas, a saber:
(1)
uma pequena elite com alto nível de instrução (diplomas
e carreiras universitárias), geralmente indivíduos
de famílias ‘integradas’ também com bom nível de
instrução, e que têm empregos assalariados e muitas
vezes casam com gadjé [denominação genérica usada pelos ciganos para os não-ciganos];
entre eles encontram-se os ativistas políticos que,
entre outras coisas, lutam pelo reconhecimento da
identidade cigana;
(2)
um grupo numericamente maior do que o anterior,
mas ainda minoria entre os ciganos, de “tradicionalistas”
geralmente economicamente bem sucedidos que vivem
“à la gitane”,
exercendo profissiões tradicionais (antiquários,
comerciantes, artistas), casam entre si e dentre
de sua categoria social, e gozam de prestígio e
admiração entre os outros ciganos;
(3)
o grupo maior é formado por ciganos em mutação que
vivem em bairros periféricos ou marginais das cidades,
muitos deles misturados com gadjé,
o que exige adaptações nos seus valores tradicionais
e nas relações sociais. As crianças frequentam a
escola e a convivência com gadjé é constante no trabalho, na vizinhança, nos bairros, nas instituições
públicas. Suas atividades econômicas - comércio
ambulante, ferro velho, trabalhos temporários -
estão em declínio e por isso muitas vezes passam
a depender da assistência social. Para eles, hoje
só há uma alternativa: ou eles se assimilam nas
camadas mais baixas da população, ou então eles
ficam à margem da sociedade como grupo, e com a
marginalização individual de muitos deles;
(4)
um grupo desestruturado e marginal, o segundo em
importância numérica, cujos membros vivem em favelas,
não têm emprego permanente mas vivem de apanhar
ferro ou papel velho, de vez em quando comércio
ambulante, atividades sempre mais difíceis de exercer.
Costumam ser analfabetos e seus filhos não frequentam
a escola com regularidade. Em tudo dependem da assistência
pública, e não há como sair desta situação. São
considerados um grupo socialmente problemático,
gerador de conflitos e responsável pelos estereótipos
negativos sobre os ciganos. Sua cultura hoje é semelhante
à de outros grupos sociais miseráveis. Para sobreviver
dedicam-se também à mendicância e a praticas ilegais
como o tráfico de drogas.
O
sociólogo Acton, por sua vez, apresenta uma tipologia
dos ciganos ingleses, de acordo com o seu grau de
integração na sociedade gadjé,
e que tem algumas semelhanças com a classificação
citada acima: (1) ciganos conservadores, (2) ciganos
em processo de desintegração cultural, (3) ciganos
em fase de adaptação cultural e (4) ciganos assimilados
ou em processo de assimilação.
Inúmeras
outras classificações são possíveis, de acordo com
os interesses teóricos ou práticos de cada pesquisador.
O que importa aqui, no caso, não são tanto as duas
classificações acima, mas deixar bem clara a enorme
diferenciação que existe entre os ciganos, mesmo
entre os ciganos de um determinado país ou região,
para que sejam evitadas levianas generalizações
que normalmente são mais prejudicais do que benéficas
para as minorias ciganas. Nas palavras de Acton:
“[Os ciganos] são um povo extremamente desunido
e mal-definido, possuindo uma continuidade, em vez
de uma comunidade, de cultura. Indivíduos que compartilham
a ascendência e a reputação de “cigano” podem ter
quase nada em comum no seu modo de viver, na cultura
visível ou na língua. Os ciganos provavelmente nunca
foram um povo unido”.
Desconhecemos
estudos detalhados sobre as diferenciações entre
ciganos em países específicos (por exemplo, entre
Kalderash e Calon no Brasil), mas é mais do que
provável que em todos os países existam ciganos
ricos e pobres, conservadores e progressistas, analfabetos
e outros com diplomas universitários, politicamente
passivos ou ativos, nômades e sedentários. Cabe
aos cientistas sociais documentar esta imensa variedade
cultural e social, algo que até hoje ainda não foram
capazes de fazer, nem na Europa, nem no Brasil,
nem em outras partes do Mundo.
Ciganos
'verdadeiros' e 'outros' ciganos.
Muitos
ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e
entre eles em especial os Lovara e os Kalderash,
costumam auto-classificar-se como ciganos “autênticos”,
“verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira
categoria, sendo todos os outros apenas ciganos
“espúrios” ou “falsos” ciganos. Infelizmente, esta
atitude discriminatória (dos próprios ciganos) é
assumida também por muitos gadjé
que realizam estudos ou trabalhos práticos entre
os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações
ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos
se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter
sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia
“ciganos
originários da Polônia, sem prévias pretensões de
serem Kalderash, adotaram nomes Kalderash quando
de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas
é atribuído um status exôtico e favorável pela sociedade
dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas
sociais. Parece que também em outros países da Europa,
por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha,
grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash
ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados
de origem oriental, indiana, e de receberem status
‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes
políticos gadjé”.
Mas
como se isto não bastasse, os ciganos ainda se discriminam
mutuamente também por outro motivo: os ciganos sedentários
muitas vezes olham com desprezo para os ciganos
nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto
os nômades acusam os sedentários de terem abandonado
as tradições, e com isto terem deixado de ser ciganos.
E com isto surgem intermináveis debates, entre os
ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem
não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir
quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa
praticamente impossível porque não existem critérios
objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao
chegarem na Europa Ocidental, no início do Século
XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados
através de sua aparência física, sendo a característica
mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não
é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia,
casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de
modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente
não se distinguem da população gadjé
nacional. Ciganos “racialmente puros” hoje não existem
mais em canto algum do mundo, e nunca existiram,
porque nunca existiu uma “raça” exclusivamente cigana.
Impossível, portanto, identificar os ciganos através
de características físicas peculiares ou estabelecer
“critérios biológicos de ciganidade”.
Por
sinal, já se tentou fazer isto no passado, mas sem
êxito. Na Alemanha nazista, por exemplo, antropólogos
físicos e biólogos tentaram descobrir, para fins
práticos, quais as características raciais ciganas,
já que na maioria dos casos era impossível distinguir
os ciganos do resto da população, através de características
físicas, culturais ou outras. Mas mesmo os nazistas
nunca foram capazes de descrever estas características.
Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era considerado
“cigano” todo indivíduo com três avós “verdadeiros
ciganos”; mestiço em primeiro grau era quem tinha
menos do que três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço
em segundo grau era quem tinha pelo menos dois avós
“ciganos-mestiços”. Mas, acreditem se quiserem,
para os ‘cientistas’ (antropólogos e biólogos) nazistas,
avó ou avô “verdadeiro cigano” era aquele que sempre
tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como
“cigano”. Ou seja, no final das contas, quando da
identificação ‘racial’ dos vovôs e das vovós, passavam
a usar critérios subjetivos (sociais/culturais),
e não objetivos critérios científicos (biológicos/raciais).
Calcula-se que cerca de 500.000 ciganos europeus
foram exterminados pelos nazistas antes e durante
a II Guerra Mundial.
Classificar
como “verdadeiros” ciganos todos aqueles que falam
uma língua cigana também não adianta, porque muitos
ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito
mal, ou até já a esqueram por completo. Muitos autores,
de várias partes do mundo, afirmam que, mesmo entre
si, os ciganos costumam falar a língua do país em
que vivem e que a língua cigana, na maioria das
vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente,
quando necessário. San Román, por exemplo, informa
que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos
conhecem [a língua] Caló, e recorrem a ela principalmente
na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar,
e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua
Caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes
um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol”.
Características
culturais exôticas, visíveis externamente, também
não servem mais para identificar os ciganos, pelo
simples fato de que os ciganos não têm, e provavelmente
nunca tiveram, uma cultura única. Um exemplo, entre
muitos outros possíveis, é o vestuário.
Muitas mulheres ciganas ainda usam longas
saias, além de jóias de ouro e prata, mas inúmeras
outras não. Os homens ciganos, ao que tudo indica,
nunca tiveram uma roupa “típica”, a não ser às vezes
no meio artístico. Por isso, em quase todo mundo
os ciganos usam a mesma roupa dos gadjé
do país em que vivem, a não ser nas ocasiões em
que é necessário ou útil ser reconhecido como cigano,
o que pode ser o caso com mulheres que se dedicam
à quiromancia, ou com homens que exercem atividades
artísticas, p. ex. músicos das populares ‘orquestras
ciganas’ européias, fantasiados com fardas de militares
húngaros ou cossacos russos de séculos passados.
No carnaval europeu (e parece que também brasileiro),
no entanto, as fantasias ‘ciganas’ populares mais
usadas pelos gadjé
costumam ser imaginárias vestimentas ciganas
ibéricas, tanto para os homens quanto para as mulheres.
Desnecessário dizer que nenhum cigano e nenhuma
cigana veste uma roupa desta na vida real.
Muitas
vezes mulheres gadjé
que se dedicam a atividades esotéricas costumam
fantasiar-se de “cigana” conforme os estereótipos
existentes na região, o que dá mais “status” e atrai
mais clientes. Já dissemos que o vestuário estereotipado
cigano em muitos países costuma ser uma popular
fantasia carnavalesca. O problema é que, às vezes,
os próprios ciganos passam a usar estas fantasias,
como se fosse seu vestuário tradicional, o que parece
ser o caso principalmente com artistas que apresentam
músicas e danças ditas ciganas, e que por isso não
apenas precisam ser,
mas também precisam parecer
ciganos, e de preferência Kalderash. E para parecer
um cigano, somente usando um estereotipado vestuário
cigano, nem que seja uma fantasia carnavalesca.
No Brasil, alguns ciganos, inclusive, adotaram nomes
artísticos ou fizeram retoques nos seus sobrenomes
portugueses ou italianos (que poderiam denunciar
uma descendência Calon ou Sinti, menos valorizada
pelos gadjé
e pelos próprios ciganos) e deram-lhes uma aparência
mais balcânica, mais “Kalderash”, substituindo,
por exemplo, os terminais -ite
e –ides
por –itch ou -icth, ou -ante
por -anov,
ou algo semelhante.
Já
vimos que este processo de ‘kalderashização’ também
foi observado por Okely na Suécia, entre ciganos
poloneses. É óbvio que, no Brasil, uma “Orquestra
Cigana Francisco Santana Filho”, vestindo roupas
de couro dos vaqueiros nordestinos, teria bem menos
chance de obter sucesso do que uma “Orquestra Cigana
Ferenc Santanovitch”, vestindo-se a
la gitane, com carnavalescas fantasias ciganas
(húngaras, russas ou espanholas), e as mulheres
dançando alegremente um csàrdás húngaro vestindo
roupas de bailarina flamenca espanhola. Trata-se
de uma estratégia artística legal, adotada mundialmente.
Uma
das características sempre atribuídas aos ciganos
tem sido seu nomadismo, sua vida errante, de modo
que muitas vezes ciganos são identificados como
nômades, e vice-versa. No Reino Unido, para fins
legais, os juizes da Suprema Côrte concluiram em
1967 que cigano era ‘uma pessoa que leva uma vida
nômade sem emprego fixo e sem domicílio fixo’. Logo
depois, a Caravan
Sites Act de 1968 definiu ciganos como “pessoas
com um modo de vida nômade, qualquer que seja sua
raça ou origem, excluindo artistas viajantes ou
pessoas que trabalham em circos viajantes”.
Ambas as definições jurídicas são totalmente errôneas,
porque na Europa, e inclusive no Reino Unido, vivem
centenas de milhares de nômades que não são ciganos,
não se identificam e nem querem ser identificados
como ciganos, e sabe-se que, por motivos diversos,
hoje apenas uma minoria cigana é nômade. Por isso,
para alguém ser um “verdadeiro” cigano, não há porque
exigir que ele tenha uma vida nômade. Ciganos nômades
ainda existem, mas muitos hoje são semi-nômades
ou sedentários: os nômades viajam regularmente,
os semi-nômades (ou semi-sedentários) viajam somente
durante parte do ano e ficam em acampamentos fixos
ou em casas e apartamentos durante o resto do tempo;
os sedentários deixaram de viajar por completo
ou viajam dificilmente, mas nem por isso deixaram
de ser ciganos.
Um
caso talvez raro, mas que certamente não será o
único no mundo, são os ciganos que a antropóloga
Kaprow encontrou em Zaragoza, na Espanha. Embora
auto-identificados e identificados pelos gadjé
como ciganos, não apresentavam nenhuma das características
normalmente atribuídas aos ciganos: viviam em casas,
frequentavam lojas, hospitais, cinemas, como os
outros espanhois, dos quais fisicamente em nada
se distinguiam; falavam apenas espanhol, e não tinham
atividades profissionais especiais, tipicamente
“ciganas”. Ou seja: nenhuma característica exterior
possibilitava a identificação destes “ciganos” de
Zaragoza, que não tinham tradições, valores, ideologias,
rituais, culinária, etc. próprias. Mesmo assim se
identificavam e eram identificados como ciganos.
Quem
é então cigano? Dizer, como faz Acton, que cigano
é “toda pessoa que sinceramente se identifica como
tal”
não é uma definição satisfatória, por ser unilateral,
porque a identidade étnica, da mesma forma como
a identidade nacional, é bilateral e exige também
que o grupo étnico, ou a nação, reconhece o indivíduo
como membro. A questão é bastante complexa porque,
como lembra Willems, “em princípio estão envolvidos
quatro partes: os definidos, isto é, os ‘ciganos’,
as autoridades (Igreja e Estado), os cientistas
e o povo”.
Cada uma destas partes pode ter opiniões e definições
diferentes sobre quem é ou não é cigano. Um bom
exemplo de confusão terminológica é oferecido pela
ex-Iugoslávia.
Naquele
país, em 1990 milhares de individuos tradicionalmente
identificados como “ciganos” passaram a auto-denominar-se
“egípcios” e exigiram ser reconhecidos como narodnosti
(nacionalidades, ou minorias nacionais, como os
albaneses e húngaros residentes no país) e não mais
como grupos étnicos, como os ciganos. Informaram,
ainda, terem sido os fundadores do “Pequeno Egito”,
na Grécia, quatro séculos antes de Cristo. Suas
atividades comerciais os teriam levado até a Macedônia
(na ex-Iugoslávia), onde fizeram florescer as cidades
de Ohrid e Bitola, nas quais vivem há séculos. Por
terem sempre adotado as línguas dos povos com os
quais faziam comércio, teriam esquecido por completo
a língua egípcia. Somente muitos séculos depois,
também outros imigrantes, os tais ‘ciganos’, teriam
chegado ao “Pequeno Egito”, de onde depois se espalharam
pelo resto da Europa e do Mundo. No censo anterior,
de 1981, quando este movimento ainda não tinha iniciado,
a maioria destes “iugo-egípcios” declarou ser “albanês”,
enquanto os albaneses legítimos os consideraram
“ciganos albanizados”.
Para
nós não interessa aqui discutir se esta história
sobre a origem egípcia, que se baseia numa mais
do que duvidosa história oral, é verdadeira ou apenas
mais uma lenda, uma fantasia. O que interessa é
saber que de repente milhares de indivíduos (eles
próprios calcularam que eram 100.000), tradicionalmente
denominados “ciganos”, de repente passaram a negar
esta identidade e assumiram outra, tirada de um
baú de lendas, estórias e fantasias, para a qual
reclamaram, inclusive, o status superior de narodnosti
(nacionalidade ou minoria nacional).
Apesar
de todas estas dificuldades, definimos aqui cigano
como cada
indivíduo que se considera membro de um grupo étnico
que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon,
ou um de seus inúmeros sub-grupos, e é por ele reconhecido
como membro. O tamanho deste grupo não importa;
pode ser até um grupo pequeno composto de uma única
família extensa; pode também ser um grupo composto
por milhares de ciganos; nem importa se este grupo
mantém reais ou supostas tradições ciganas, ou se
ainda fala fluentemente uma língua cigana, ou se
seus membros têm “cara” de cigano ou características
físicas supostamente “ciganas”.
A
identidade cigana é automaticamente transmitida
aos filhos quando ambos os pais são ciganos. No
caso de casamentos mistos, com gadjé
- que, embora exceção, sempre existiram – geralmente
os filhos só serão considerados ciganos se os pais
residam no grupo ou mantenham vínculos com o mesmo,
e desde que os filhos sejam educados na ‘tradição
cigana’, seja ela qual for. A identidade cigana
pode ser perdida, primeiro, por opção individual,
quando o indivíduo se desliga consciente e voluntariamente
do seu grupo e passa a viver no mundo dos gadjé,
assimilando seu modo de vida; segundo, pelo casamento
com gadjé e posterior opção pela vida fora do grupo, no mundo gadjé,
caso em que também os filhos não serão mais considerados
ciganos; e finalmente, por expulsão, quando o indivíduo,
por ter infringido certas normas grupais, deixa
de ser considerado membro da comunidade cigana.
Quanto
à suposta autenticidade e aristocracia dos Kalderash
ou Lowara, subscrevemos a afirmação de Williams
que considera inadmissível a distinção entre “verdadeiros”
ciganos, aos quais se atribue uma origem exôtica
e riqueza cultural, e “os outros”, que seriam apenas
marginais no mundo cigano.
Ou seja: não existem ciganos autênticos e ciganos
espúrios: existem apenas Rom, Sinti e Calon, que
possuem inúmeras auto-denominações, que falam centenas
de linguas ou dialetos, que têm os mais variados
costumes e valores culturais, que são diferentes
uns dos outros, mas que nem por isso são superiores
ou inferiores uns aos outros.
Em
comum todos eles têm apenas uma coisa: uma longa
História de ódio, de perseguição, de discriminação
pelos não-ciganos, em todos os países por onde passaram,
desde o seu aparecimento na Europa Ocidental, no
início do Século XV.
Capítulo
1