FRANS
MOONEN
ROM,
SINTI E CALON
OS
ASSIM CHAMADOS CIGANOS
1.
A Primeira Onda Migratória
2.
Políticas anti-ciganas
3.
A Segunda Onda Migratória
4.
O holocausto cigano
5.
Os ciganos na Europa comunista
6.
Os ciganos na Europa pós-comunista
7.
Imagens anti-ciganas
8.
Três imagens errôneas sobre os ciganos
Bibliografia
Selecionada
Núcleo
de Estudos Ciganos
E-Texto
no. 1
Recife,
2000
Introdução:
OS
ASSIM CHAMADOS CIGANOS.
“Ciganos”.
A
História escrita dos hoje assim chamados “ciganos”
não vai além de apenas um milênio. Um dos documentos
mais antigos é o de um monge grego segundo o qual,
no ano de 1050, o imperador de Constantinopla (hoje
Istambul, na Turquia), para matar uns animais ferozes,
solicitou a ajuda de adivinhos e feiticeiros chamados
Adsincani. No início do século seguinte, outro monge se refere a domadores
de animais, em especial de ursos e cobras, e a indivíduos
lendo a sorte e prevendo o futuro, que eram chamados
Athinganoi. No Século XIII, o patriarca de Constantinopla adverte
o clero contra adivinhos, domadores de ursos e encantadores
de cobras e solicita não permitir a entrada destes
Adingánous
nas casas, ”porque eles ensinam coisas diabólicas”. É possível que estes tenham
sido antepassados (embora não necessariamente os
únicos) dos indivíduos hoje genericamente chamados
“ciganos”, e neste caso já estariam na Turquia pelo
menos desde meados do Século XI.
Da
Turquia para outros países balcânicos foi apenas
um pequeno passo. Sabemos que vários grupos migraram
para a Grécia. Em 1322 um frade franciscano, de
passagem pela ilha de Creta, escreve sobre indivíduos
que viviam em tendas ou em cavernas, chamados Atsinganoi,
nome então dado aos membros de uma seita de músicos
e adivinhadores, e que nunca paravam mais do que
um mês num mesmo lugar. Depois disto, muitos outros
viajantes europeus, mercadores ou peregrinos a caminho
da Terra Santa, observaram a presença destes indivíduos
nos arredores do porto marítimo grego de Modon (hoje
Methoni), então colônia de Veneza, onde trabalhavam
como ferreiros e sapateiros.
A
partir do início do Século XV, estes “ciganos” migraram
também para a Europa Ocidental, onde quase sempre
afirmavam que sua terra de origem era o “Pequeno
Egito”. Hoje sabemos, com certeza, que esta era
então a denominação de uma região da Grécia, mas
que pelos europeus da época foi confundida com o
Egito, na África. Por causa desta suposta origem
egípcia passaram a ser chamados “egípcios” ou “egitanos”,
ou gypsy
(inglês), egyptier (holandês), gitan
(francês), gitano
(espanhol), etc. Mas sabemos que alguns grupos se
apresentaram também como gregos e atsinganos,
pelo que também ficaram conhecidos como grecianos
(espanhol), tsiganes
(francês), ciganos
(português), zingaros
(italiano), etc.
Na
literatura a seu respeito ainda existem outras denominações
que em nada lembram a suposta origem egípcia ou
comprovada origem grega. Na Holanda, p.ex., a denominação
inicial de “egyptier”
desaparece a partir do Século XVI e utiliza-se apenas
a denominação “heiden”
(pagão), denominação então comum também na Alemanha.
Na França ficaram conhecidos também como romanichel,
manouches
ou boémiens. Em vários países foram confundidos com os tártaros,
mongóis da [i]Sibéria
e Ásia Central.
Todos estes termos são denominações genéricas
que os europeus naquele tempo deram a estes misteriosos
e exôticos imigrantes. Não consta como os ciganos
então se auto-identificavam.
Conforme
se vê, a origem dos ciganos sempre foi um verdadeiro
mistério, e por isso existem, ainda hoje, as mais
diversas lendas e fantasias. Somente no Século XVIII
o assunto começou a ser discutido com mais seriedade,
quando os linguistas concluiram que os ciganos deveriam
ser originários da Índia. As provas linguísticas
surgiram por acaso em 1753 quando, numa universidade
holandesa, um estudante húngaro descobriu semelhanças
entre a língua cigana do seu país e a língua falada
por três colegas estudantes indianos. Constatou-se
assim um evidente parentesco entre as línguas ciganas
e o sânskrito. A teoria da origem indiana das línguas
ciganas seria divulgada somente anos depois na Alemanha,
por Christian Buettner em 1771, por Johann Ruediger
em 1782, e por Heinrich Grellmann em 1783, este
o mais conhecido dos três.
Grellmann
criticou primeiro as teorias linguísticas até então
existentes sobre a origem das línguas ciganas, principalmente
aquelas que falavam da origem egípcia. Depois fez
uma análise sistemática de quase quatrocentas palavras
e constatou que de cada trinta palavras ciganas,
doze a treze eram de origem hindi, uma língua derivada
do sânskrito. Apesar de reconhecer que ainda existiam
falhas em seu trabalho, acreditou que a origem indiana
tinha sido suficientemente comprovada. Na segunda
edição de seu livro, Grellmann cita também outros
cientistas que na mesma época tinham chegado a conclusões
idênticas.
Desde
então, a origem indiana nunca mais foi colocada
em dúvida e linguistas posteriores apenas têm acrescentado
mais dados comprobatórios, restando hoje apenas
dúvidas sobre em que época ou épocas, e em que parte
ou partes da Índia estas línguas eram faladas, admitindo-se
em geral que tenha sido a região noroeste da Índia
(atual Paquistão), por volta do ano 1000 da era
cristã.
Fraser,
no entanto, lembra que
a “linguística histórica não pode determinar
a origem racial e étnica dos indivíduos que falavam
Romani........ Não
se pode ter certeza que grupos ou povos são racialmente
aparentados apenas porque falam línguas aparentadas”.
Ou
seja, estas semelhanças linguísticas podem significar
também, e tão somente, que os assim chamados ciganos,
durante muito tempo e por motivos ainda ignorados,
viveram na Índia, sem serem e nunca terem sido indianos,
ou que tiveram contato com indianos ou não-indianos
que falavam o hindi, mas fora da Índia.
Por
isso, as supostas ‘provas linguísticas’ acima citadas,
precisam ainda de provas complementares, sejam elas
culturais, raciais, ou de outra natureza. Não faltam
autores que apresentam supostas provas culturais,
citando semelhanças entre costumes ciganos e indianos,
da mesma forma como outros autores, adeptos da origem
egípcia, descobriram semelhanças com a antiga cultura
egípcia da época dos faraós. Quem procura, sempre
encontrará algumas semelhanças nas culturas de dois
povos diferentes e geográficamente distantes. Elementos
culturais, no entanto, podem ser transmitidos também
por via indireta, sem contato direto com os povos
que os inventaram, e também podem ter origens independentes.
Quanto
a isto, Fraser cita o caso da Grécia onde, na década
de 80, a TV apresentou um documentário em que era
mostrada a origem indiana dos ciganos. Depois disto,
jovens ciganas gregas passaram a vestir os longos
e coloridos sáris indianos e introduziram elementos
orientais nas suas danças. Ao que Fraser, maliciosamente
(mas com toda razão), acrescenta: “Talvez daqui
a uns 50 anos, etnomusicólogos apresentem estes
elementos como um vestígio cultural de sua pátria
original” (a Índia).
Outro
exemplo desta “indianização” artificial foi registrada
também na ex-Iugoslávia, após o II Congresso da
União Romani Internacional, no qual a primeira-ministra
Indira Ghandi declarou (apenas simbolicamente, e
até hoje sem quaisquer efeitos práticos!) que a
Índia era a pátria-mãe de todos os ciganos. Não
há registro de nenhuma família cigana européia que
por causa disto tenha migrado para a Índia (ou seja:
ninguém migrou do ruim para o pior), mas depois
disto, pelo menos na ex-Iugoslávia, muitos ciganos
começaram a ornamentar suas casas com estátuas e
quadros de deuses indianos e bonecos em trajes indianos,
jovens ciganas substituíram a calça turca pelo sári
indiano, músicas e filmes indianos se tornaram de
repente populares, e houve até quem trocasse a religião
muçulmana pelo hinduismo.
Ainda
menos sucesso tiveram, até hoje, aqueles que tentaram
provar a origem indiana através de comparações biológicas,
ou raciais. Já desde a chegada na Europa há notícias
sobre a aparência física dos ciganos: pele escura,
cabelos pretos e longos, olhos pretos e grandes,
nariz aquilina, etc. Posteriormente alguns cientistas
notariam semelhanças sanguíneas entre ciganos e
indianos, mas nada disto seria suficiente para provar
sua origem indiana, inclusive porque não existiam
estudos suficientes sobre as características raciais
dos indianos, e outros tantos povos tinham as mesmas
características físicas ou predominância dos mesmos
grupos sanguíneos. Além disto havia o problema da
“mistura racial” que certamente ocorreu desde a
saída da Índia há vários séculos.
Na
realidade, todas as teorias (e inúmeras fantasias,
mitos e lendas) sobre a origem dos ciganos não passam
de mera especulação e não têm nenhuma comprovação
empírica. Até hoje, apenas as semelhanças das línguas
ciganas com o sânscrito parecem devidamente comprovadas,
pelo que muitos ciganólogos costumam admitir que
os ciganos são originários da Índia. Mas isto também
é tudo e, como já dissemos acima, somente a semelhança
linguística na realidade não comprova coisa alguma.
Existem
as mais diversas teorias sobre quando saíram da
Índia, mas em geral admite-se que foi somente a
partir do Século X, ou seja, apenas uns mil anos
atrás. Ou então, o que é bem mais provável, que
ocorreram várias ondas migratórias, em épocas bem
diferentes, talvez até de áreas geográficas diversas,
e por motivos dos mais variados. Também não se sabe
como eles então se identificavam a si mesmos, ou
como eram identificados pelos outros, e provavelmente
nunca o saberemos. Os próprios ciganos nunca deixaram
documentos escritos sobre o seu passado e muitos
ciganólogos informam que os ciganos, em geral, não
têm a mínima idéia sobre suas origens e, o que é
pior, nem demonstram interesse em saber de onde
vieram os seus antepassados.
A
diversidade entre os ciganos.
Conforme
vimos acima, “cigano” é um termo genérico inventado
na Europa do Século XV, e que ainda hoje é adotado,
apenas por falta de um outro melhor. Os próprios
ciganos, no entanto, costumam usar autodenominações
completamente diferentes. Hoje, os ciganos e os
ciganólogos não-ciganos costumam distinguir pelo
menos três grandes grupos:
(1)
os ROM, ou Roma,
que falam a língua romani;
são divididos em vários sub-grupos, com denominações
próprias, como os Kalderash, Matchuaia, Lovara,
Curara e.o.; são predominantes nos países balcânicos,
mas a partir do Século XIX migraram também para
outros países europeus e para as Américas;
(2)
os SINTI, que falam a língua sintó
e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França,
onde também são chamados Manouch;
(3)
os CALON ou KALÉ, que falam a língua caló,
os “ciganos ibéricos”, que vivem principalmente
em Portugal e na Espanha, onde são mais conhecidos
como Gitanos,
mas que no decorrer dos tempos se espalharam também
por outros países da Europa e foram deportados ou
migraram inclusive para a América do Sul.
Estes
grupos e dezenas de sub-grupos, cujos nomes muitas
vezes derivam de antigas profissões (Kalderash =
caldeireiros; Ursari = domadores de ursos, e.o.)
ou procedência geográfica (Moldovaia, Piemontesi,
e.o.), não apenas têm denominações diferentes, mas
também falam línguas ou dialetos diferentes. Como
já vimos acima, desde o Século XVIII costuma-se
atribuir aos ciganos apenas uma única língua, comum
a todos, a língua romani,
parcialmente de origem indiana, embora esta
tenha também inúmeras palavras de origem persa,
turca, grega, romena e de outros países por onde
passaram. Na realidade, já então os ciganos falavam
várias línguas ou dialetos que, apesar de terem
aparentemente uma origem em comum, hoje apresentam
profundas variações regionais que tornam uma comunicação
cigana internacional na prática impossível. Algo
semelhante à atual comunicação entre franceses,
italianos, espanhois, portugueses e brasileiros,
que todos falam línguas derivadas do Latim: muitas
palavras podem ser entendidas por todos, principalmente
quando escritas, mas a comunicação verbal na maioria
das vezes é difícil, quando não impossível. Segundo
Fraser não existe um romani padronizado, único,
mas somente na Europa os ciganos falariam cerca
de 60 ou mais dialetos diferentes.
De
todos os ciganos, os Rom são os mais estudados e
descritos. Isto porque estes ciganos, e entre eles
principalmente os Kalderash e os Lovara - inclusive
no Brasil - , costumam considerar-se a si próprios
‘ciganos autênticos’, ‘ciganos nobres’, e classificar
os outros apenas como ‘ciganos espúrios’, de segunda
ou terceira categoria. Como antropólogos e linguistas
tendem a estudar de preferência povos “autênticos”,
que ainda conservam sua cultura e língua tradicional,
a quase totalidade dos estudos ciganos trata de
ciganos Rom, e praticamente nada se sabe dos outros
grupos.
O
nomadismo, aparentemente
maior entre os Calon do que entre os Rom,
pode ter dificultado pesquisas sobre sua língua
e seus costumes, mas não explica, nem justifica,
porque foram tão negligenciados pelos ciganólogos.
Román, por exemplo, informa que na Espanha ainda
não foram realizadas intensivas pesquisas históricas
e antropológicas sobre os ciganos Calon, naquele
país quase todos há muito tempo sedentários.
Na França a situação não é diferente: segundo Liégeois,
o grupo Rom, naquele país com apenas alguns milhares
de membros, é praticamente o único estudado, enquanto
as dezenas de milhares de ciganos Sinti (Manouch)
e Calon são ignoradas, fato que reforça ainda mais
a imagem dos ciganos Rom da Europa Oriental como
ciganos ‘autênticos’.
Praticamente nada, também, sabemos sobre os atuais
ciganos Sinti e Calon no Brasil.
Este
“rom-centrismo”, dos próprios ciganos e dos ciganólogos,
faz Acton falar até de “romólogos” que, em lugar
de analisarem as diferenças existentes entre os
grupos ciganos, apresentam um modelo ideal como
se os ciganos formassem uma totalidade homogênea.
Segundo este sociólogo, “A grande falha da literatura
sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização;
observadores têm sido levados a acreditar que práticas
de grupos particulares são universais, com a concomitante
sugestão que [os membros de] qualquer grupo que
não têm estas práticas não são ‘verdadeiros ciganos’“.
Ou seja: a cultura rom passa a ser considerada
a “autêntica” cultura cigana, a cultura “modelo”,
e quem não falar a língua como eles, quem não tiver
os mesmos costumes e valores ..... , bem, estes
só podem ser ciganos de segunda ou terceira categoria,
ciganos espúrios, inautênticos, quando não falsos
ciganos.
Entende-se
assim porque a quase totalidade dos livros de ciganólogos
que tratam genericamente da suposta “Cultura Cigana”,
na realidade descrevem apenas ou quase exclusivamente
a cultura dos ciganos Kalderash que durante séculos
viveram nos Bálcãs - na atual Romênia na qualidade
de escravos, libertos somente em meados do Século
XIX - onde desenvolveram uma cultura fortemente
influenciada pelas diversas culturas nacionais,
em especial a romena. Um exemplo clássico, entre
vários outros, é o kris
romani, uma espécie de tribunal cigano, sempre
apresentado como algo tipicamente “cigano”, quando,
segundo Formoso, na realidade é um elemento cultural
apenas dos Kalderash, que o tomaram emprestado da
sociedade rural romena, e que não existiria nem
entre os ciganos Rom Lovara e Curara e é desconhecido
também entre os Sinti e Calon.
Outros dois exemplos seriam o marimé,
as idéias sobre pureza / impureza, que na realidade
são de origem árabe e turca, e a pomana,
o ritual funerário, de origem romena. O kris,
o marimé
e a pomana costumam ser descritas por nove entre dez ciganólogos como
se fossem comuns a todos os ciganos, quando se trata
apenas de características culturais Kalderash.
A cultura Kalderash - praticamente a única conhecida
do grande público não-cigano - é apenas uma das
inúmeras sub-culturas ciganas hoje existentes em
todo mundo, cada uma das quais com características
próprias, resultantes de histórias diferenciadas
de convivência, quase nunca pacífica, com as mais
diversas sociedades e culturas.
Porém,
os ciganos não se diferenciam entre si apenas linguistica
e culturalmente, mas também econômica e socialmente.
Como exemplo podem ser citados os ciganos espanhois,
cuja população em 1993 deveria ultrapassar um total
de 400 mil pessoas, ou seja, cerca de 1,1% da população
nacional. Garcia distingue entre eles quatro categorias
sociais bem distintas, a saber:
(1)
uma pequena elite com alto nível de instrução (diplomas
e carreiras universitárias), geralmente indivíduos
de famílias ‘integradas’ também com bom nível de
instrução, e que têm empregos assalariados e muitas
vezes casam com gadjé [denominação genérica usada pelos ciganos para os não-ciganos];
entre eles encontram-se os ativistas políticos que,
entre outras coisas, lutam pelo reconhecimento da
identidade cigana;
(2)
um grupo numericamente maior do que o anterior,
mas ainda minoria entre os ciganos, de “tradicionalistas”
geralmente economicamente bem sucedidos que vivem
“à la gitane”,
exercendo profissiões tradicionais (antiquários,
comerciantes, artistas), casam entre si e dentre
de sua categoria social, e gozam de prestígio e
admiração entre os outros ciganos;
(3)
o grupo maior é formado por ciganos em mutação que
vivem em bairros periféricos ou marginais das cidades,
muitos deles misturados com gadjé,
o que exige adaptações nos seus valores tradicionais
e nas relações sociais. As crianças frequentam a
escola e a convivência com gadjé é constante no trabalho, na vizinhança, nos bairros, nas instituições
públicas. Suas atividades econômicas - comércio
ambulante, ferro velho, trabalhos temporários -
estão em declínio e por isso muitas vezes passam
a depender da assistência social. Para eles, hoje
só há uma alternativa: ou eles se assimilam nas
camadas mais baixas da população, ou então eles
ficam à margem da sociedade como grupo, e com a
marginalização individual de muitos deles;
(4)
um grupo desestruturado e marginal, o segundo em
importância numérica, cujos membros vivem em favelas,
não têm emprego permanente mas vivem de apanhar
ferro ou papel velho, de vez em quando comércio
ambulante, atividades sempre mais difíceis de exercer.
Costumam ser analfabetos e seus filhos não frequentam
a escola com regularidade. Em tudo dependem da assistência
pública, e não há como sair desta situação. São
considerados um grupo socialmente problemático,
gerador de conflitos e responsável pelos estereótipos
negativos sobre os ciganos. Sua cultura hoje é semelhante
à de outros grupos sociais miseráveis. Para sobreviver
dedicam-se também à mendicância e a praticas ilegais
como o tráfico de drogas.
O
sociólogo Acton, por sua vez, apresenta uma tipologia
dos ciganos ingleses, de acordo com o seu grau de
integração na sociedade gadjé,
e que tem algumas semelhanças com a classificação
citada acima: (1) ciganos conservadores, (2) ciganos
em processo de desintegração cultural, (3) ciganos
em fase de adaptação cultural e (4) ciganos assimilados
ou em processo de assimilação.
Inúmeras
outras classificações são possíveis, de acordo com
os interesses teóricos ou práticos de cada pesquisador.
O que importa aqui, no caso, não são tanto as duas
classificações acima, mas deixar bem clara a enorme
diferenciação que existe entre os ciganos, mesmo
entre os ciganos de um determinado país ou região,
para que sejam evitadas levianas generalizações
que normalmente são mais prejudicais do que benéficas
para as minorias ciganas. Nas palavras de Acton:
“[Os ciganos] são um povo extremamente desunido
e mal-definido, possuindo uma continuidade, em vez
de uma comunidade, de cultura. Indivíduos que compartilham
a ascendência e a reputação de “cigano” podem ter
quase nada em comum no seu modo de viver, na cultura
visível ou na língua. Os ciganos provavelmente nunca
foram um povo unido”.
Desconhecemos
estudos detalhados sobre as diferenciações entre
ciganos em países específicos (por exemplo, entre
Kalderash e Calon no Brasil), mas é mais do que
provável que em todos os países existam ciganos
ricos e pobres, conservadores e progressistas, analfabetos
e outros com diplomas universitários, politicamente
passivos ou ativos, nômades e sedentários. Cabe
aos cientistas sociais documentar esta imensa variedade
cultural e social, algo que até hoje ainda não foram
capazes de fazer, nem na Europa, nem no Brasil,
nem em outras partes do Mundo.
Ciganos
'verdadeiros' e 'outros' ciganos.
Muitos
ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e
entre eles em especial os Lovara e os Kalderash,
costumam auto-classificar-se como ciganos “autênticos”,
“verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira
categoria, sendo todos os outros apenas ciganos
“espúrios” ou “falsos” ciganos. Infelizmente, esta
atitude discriminatória (dos próprios ciganos) é
assumida também por muitos gadjé
que realizam estudos ou trabalhos práticos entre
os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações
ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos
se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter
sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia
“ciganos
originários da Polônia, sem prévias pretensões de
serem Kalderash, adotaram nomes Kalderash quando
de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas
é atribuído um status exôtico e favorável pela sociedade
dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas
sociais. Parece que também em outros países da Europa,
por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha,
grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash
ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados
de origem oriental, indiana, e de receberem status
‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes
políticos gadjé”.
Mas
como se isto não bastasse, os ciganos ainda se discriminam
mutuamente também por outro motivo: os ciganos sedentários
muitas vezes olham com desprezo para os ciganos
nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto
os nômades acusam os sedentários de terem abandonado
as tradições, e com isto terem deixado de ser ciganos.
E com isto surgem intermináveis debates, entre os
ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem
não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir
quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa
praticamente impossível porque não existem critérios
objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.
Ao
chegarem na Europa Ocidental, no início do Século
XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados
através de sua aparência física, sendo a característica
mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não
é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia,
casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de
modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente
não se distinguem da população gadjé
nacional. Ciganos “racialmente puros” hoje não existem
mais em canto algum do mundo, e nunca existiram,
porque nunca existiu uma “raça” exclusivamente cigana.
Impossível, portanto, identificar os ciganos através
de características físicas peculiares ou estabelecer
“critérios biológicos de ciganidade”.
Por
sinal, já se tentou fazer isto no passado, mas sem
êxito. Na Alemanha nazista, por exemplo, antropólogos
físicos e biólogos tentaram descobrir, para fins
práticos, quais as características raciais ciganas,
já que na maioria dos casos era impossível distinguir
os ciganos do resto da população, através de características
físicas, culturais ou outras. Mas mesmo os nazistas
nunca foram capazes de descrever estas características.
Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era considerado
“cigano” todo indivíduo com três avós “verdadeiros
ciganos”; mestiço em primeiro grau era quem tinha
menos do que três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço
em segundo grau era quem tinha pelo menos dois avós
“ciganos-mestiços”. Mas, acreditem se quiserem,
para os ‘cientistas’ (antropólogos e biólogos) nazistas,
avó ou avô “verdadeiro cigano” era aquele que sempre
tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como
“cigano”. Ou seja, no final das contas, quando da
identificação ‘racial’ dos vovôs e das vovós, passavam
a usar critérios subjetivos (sociais/culturais),
e não objetivos critérios científicos (biológicos/raciais).
Calcula-se que cerca de 500.000 ciganos europeus
foram exterminados pelos nazistas antes e durante
a II Guerra Mundial.
Classificar
como “verdadeiros” ciganos todos aqueles que falam
uma língua cigana também não adianta, porque muitos
ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito
mal, ou até já a esqueram por completo. Muitos autores,
de várias partes do mundo, afirmam que, mesmo entre
si, os ciganos costumam falar a língua do país em
que vivem e que a língua cigana, na maioria das
vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente,
quando necessário. San Román, por exemplo, informa
que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos
conhecem [a língua] Caló, e recorrem a ela principalmente
na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar,
e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua
Caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes
um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol”.
Características
culturais exôticas, visíveis externamente, também
não servem mais para identificar os ciganos, pelo
simples fato de que os ciganos não têm, e provavelmente
nunca tiveram, uma cultura única. Um exemplo, entre
muitos outros possíveis, é o vestuário.
Muitas mulheres ciganas ainda usam longas
saias, além de jóias de ouro e prata, mas inúmeras
outras não. Os homens ciganos, ao que tudo indica,
nunca tiveram uma roupa “típica”, a não ser às vezes
no meio artístico. Por isso, em quase todo mundo
os ciganos usam a mesma roupa dos gadjé
do país em que vivem, a não ser nas ocasiões em
que é necessário ou útil ser reconhecido como cigano,
o que pode ser o caso com mulheres que se dedicam
à quiromancia, ou com homens que exercem atividades
artísticas, p. ex. músicos das populares ‘orquestras
ciganas’ européias, fantasiados com fardas de militares
húngaros ou cossacos russos de séculos passados.
No carnaval europeu (e parece que também brasileiro),
no entanto, as fantasias ‘ciganas’ populares mais
usadas pelos gadjé
costumam ser imaginárias vestimentas ciganas
ibéricas, tanto para os homens quanto para as mulheres.
Desnecessário dizer que nenhum cigano e nenhuma
cigana veste uma roupa desta na vida real.
Muitas
vezes mulheres gadjé
que se dedicam a atividades esotéricas costumam
fantasiar-se de “cigana” conforme os estereótipos
existentes na região, o que dá mais “status” e atrai
mais clientes. Já dissemos que o vestuário estereotipado
cigano em muitos países costuma ser uma popular
fantasia carnavalesca. O problema é que, às vezes,
os próprios ciganos passam a usar estas fantasias,
como se fosse seu vestuário tradicional, o que parece
ser o caso principalmente com artistas que apresentam
músicas e danças ditas ciganas, e que por isso não
apenas precisam ser,
mas também precisam parecer
ciganos, e de preferência Kalderash. E para parecer
um cigano, somente usando um estereotipado vestuário
cigano, nem que seja uma fantasia carnavalesca.
No Brasil, alguns ciganos, inclusive, adotaram nomes
artísticos ou fizeram retoques nos seus sobrenomes
portugueses ou italianos (que poderiam denunciar
uma descendência Calon ou Sinti, menos valorizada
pelos gadjé
e pelos próprios ciganos) e deram-lhes uma aparência
mais balcânica, mais “Kalderash”, substituindo,
por exemplo, os terminais -ite
e –ides
por –itch ou -icth, ou -ante
por -anov,
ou algo semelhante.
Já
vimos que este processo de ‘kalderashização’ também
foi observado por Okely na Suécia, entre ciganos
poloneses. É óbvio que, no Brasil, uma “Orquestra
Cigana Francisco Santana Filho”, vestindo roupas
de couro dos vaqueiros nordestinos, teria bem menos
chance de obter sucesso do que uma “Orquestra Cigana
Ferenc Santanovitch”, vestindo-se a
la gitane, com carnavalescas fantasias ciganas
(húngaras, russas ou espanholas), e as mulheres
dançando alegremente um csàrdás húngaro vestindo
roupas de bailarina flamenca espanhola. Trata-se
de uma estratégia artística legal, adotada mundialmente.
Uma
das características sempre atribuídas aos ciganos
tem sido seu nomadismo, sua vida errante, de modo
que muitas vezes ciganos são identificados como
nômades, e vice-versa. No Reino Unido, para fins
legais, os juizes da Suprema Côrte concluiram em
1967 que cigano era ‘uma pessoa que leva uma vida
nômade sem emprego fixo e sem domicílio fixo’. Logo
depois, a Caravan
Sites Act de 1968 definiu ciganos como “pessoas
com um modo de vida nômade, qualquer que seja sua
raça ou origem, excluindo artistas viajantes ou
pessoas que trabalham em circos viajantes”.
Ambas as definições jurídicas são totalmente errôneas,
porque na Europa, e inclusive no Reino Unido, vivem
centenas de milhares de nômades que não são ciganos,
não se identificam e nem querem ser identificados
como ciganos, e sabe-se que, por motivos diversos,
hoje apenas uma minoria cigana é nômade. Por isso,
para alguém ser um “verdadeiro” cigano, não há porque
exigir que ele tenha uma vida nômade. Ciganos nômades
ainda existem, mas muitos hoje são semi-nômades
ou sedentários: os nômades viajam regularmente,
os semi-nômades (ou semi-sedentários) viajam somente
durante parte do ano e ficam em acampamentos fixos
ou em casas e apartamentos durante o resto do tempo;
os sedentários deixaram de viajar por completo
ou viajam dificilmente, mas nem por isso deixaram
de ser ciganos.
Um
caso talvez raro, mas que certamente não será o
único no mundo, são os ciganos que a antropóloga
Kaprow encontrou em Zaragoza, na Espanha. Embora
auto-identificados e identificados pelos gadjé
como ciganos, não apresentavam nenhuma das características
normalmente atribuídas aos ciganos: viviam em casas,
frequentavam lojas, hospitais, cinemas, como os
outros espanhois, dos quais fisicamente em nada
se distinguiam; falavam apenas espanhol, e não tinham
atividades profissionais especiais, tipicamente
“ciganas”. Ou seja: nenhuma característica exterior
possibilitava a identificação destes “ciganos” de
Zaragoza, que não tinham tradições, valores, ideologias,
rituais, culinária, etc. próprias. Mesmo assim se
identificavam e eram identificados como ciganos.
Quem
é então cigano? Dizer, como faz Acton, que cigano
é “toda pessoa que sinceramente se identifica como
tal”
não é uma definição satisfatória, por ser unilateral,
porque a identidade étnica, da mesma forma como
a identidade nacional, é bilateral e exige também
que o grupo étnico, ou a nação, reconhece o indivíduo
como membro. A questão é bastante complexa porque,
como lembra Willems, “em princípio estão envolvidos
quatro partes: os definidos, isto é, os ‘ciganos’,
as autoridades (Igreja e Estado), os cientistas
e o povo”.
Cada uma destas partes pode ter opiniões e definições
diferentes sobre quem é ou não é cigano. Um bom
exemplo de confusão terminológica é oferecido pela
ex-Iugoslávia.
Naquele
país, em 1990 milhares de individuos tradicionalmente
identificados como “ciganos” passaram a auto-denominar-se
“egípcios” e exigiram ser reconhecidos como narodnosti
(nacionalidades, ou minorias nacionais, como os
albaneses e húngaros residentes no país) e não mais
como grupos étnicos, como os ciganos. Informaram,
ainda, terem sido os fundadores do “Pequeno Egito”,
na Grécia, quatro séculos antes de Cristo. Suas
atividades comerciais os teriam levado até a Macedônia
(na ex-Iugoslávia), onde fizeram florescer as cidades
de Ohrid e Bitola, nas quais vivem há séculos. Por
terem sempre adotado as línguas dos povos com os
quais faziam comércio, teriam esquecido por completo
a língua egípcia. Somente muitos séculos depois,
também outros imigrantes, os tais ‘ciganos’, teriam
chegado ao “Pequeno Egito”, de onde depois se espalharam
pelo resto da Europa e do Mundo. No censo anterior,
de 1981, quando este movimento ainda não tinha iniciado,
a maioria destes “iugo-egípcios” declarou ser “albanês”,
enquanto os albaneses legítimos os consideraram
“ciganos albanizados”.
Para
nós não interessa aqui discutir se esta história
sobre a origem egípcia, que se baseia numa mais
do que duvidosa história oral, é verdadeira ou apenas
mais uma lenda, uma fantasia. O que interessa é
saber que de repente milhares de indivíduos (eles
próprios calcularam que eram 100.000), tradicionalmente
denominados “ciganos”, de repente passaram a negar
esta identidade e assumiram outra, tirada de um
baú de lendas, estórias e fantasias, para a qual
reclamaram, inclusive, o status superior de narodnosti
(nacionalidade ou minoria nacional).
Apesar
de todas estas dificuldades, definimos aqui cigano
como cada
indivíduo que se considera membro de um grupo étnico
que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon,
ou um de seus inúmeros sub-grupos, e é por ele reconhecido
como membro. O tamanho deste grupo não importa;
pode ser até um grupo pequeno composto de uma única
família extensa; pode também ser um grupo composto
por milhares de ciganos; nem importa se este grupo
mantém reais ou supostas tradições ciganas, ou se
ainda fala fluentemente uma língua cigana, ou se
seus membros têm “cara” de cigano ou características
físicas supostamente “ciganas”.
A
identidade cigana é automaticamente transmitida
aos filhos quando ambos os pais são ciganos. No
caso de casamentos mistos, com gadjé
- que, embora exceção, sempre existiram – geralmente
os filhos só serão considerados ciganos se os pais
residam no grupo ou mantenham vínculos com o mesmo,
e desde que os filhos sejam educados na ‘tradição
cigana’, seja ela qual for. A identidade cigana
pode ser perdida, primeiro, por opção individual,
quando o indivíduo se desliga consciente e voluntariamente
do seu grupo e passa a viver no mundo dos gadjé,
assimilando seu modo de vida; segundo, pelo casamento
com gadjé e posterior opção pela vida fora do grupo, no mundo gadjé,
caso em que também os filhos não serão mais considerados
ciganos; e finalmente, por expulsão, quando o indivíduo,
por ter infringido certas normas grupais, deixa
de ser considerado membro da comunidade cigana.
Quanto
à suposta autenticidade e aristocracia dos Kalderash
ou Lowara, subscrevemos a afirmação de Williams
que considera inadmissível a distinção entre “verdadeiros”
ciganos, aos quais se atribue uma origem exôtica
e riqueza cultural, e “os outros”, que seriam apenas
marginais no mundo cigano.
Ou seja: não existem ciganos autênticos e ciganos
espúrios: existem apenas Rom, Sinti e Calon, que
possuem inúmeras auto-denominações, que falam centenas
de linguas ou dialetos, que têm os mais variados
costumes e valores culturais, que são diferentes
uns dos outros, mas que nem por isso são superiores
ou inferiores uns aos outros.
Em
comum todos eles têm apenas uma coisa: uma longa
História de ódio, de perseguição, de discriminação
pelos não-ciganos, em todos os países por onde passaram,
desde o seu aparecimento na Europa Ocidental, no
início do Século XV.
Capítulo
1
A
PRIMEIRA ONDA MIGRATÓRIA.
No
início do Século XV aparecem na Europa Ocidental
as primeiras notícias sobre viajantes exôticos,
indivíduos com uma pele escura ou ‘preta’ e, segundo
muitos cronistas, com uma “aparência horrível”,
e com alguns hábitos nada agradáveis.
Viajavam
em bandos de tamanho variável, de algumas dezenas
até centenas de pessoas. No início, cada bando era
liderado por alguém que se auto-intitulava “duque”,
“conde”, “voivode” etc., de acordo com os títulos
de nobreza usados nos países por onde passavam.
São estes exôticos viajantes estrangeiros, vindos
dos Balcãs, os antepassados dos indivíduos hoje,
no mundo todo, genericamente denominados “ciganos”
(ou gitanos, tsiganes, gypsies, zigeuner, etc.),
cuja pré-história e história antiga até hoje ainda
são praticamente incognitas. Não sabemos, por exemplo,
por quais motivos estes bandos ciganos, provavelmente
em épocas diferentes, resolveram migrar dos Balcãs
para a Europa Ocidental. Alguns autores afirmam
que foi por causa das guerras contra os turcos,
outros afirmam que foi por causa disto ou daquilo,
mas na realidade ninguém sabe nada com certeza.
O único fato devidamente comprovado é que, a partir
do início do Século XV, pequenos bandos "ciganos"
migraram para a Europa Ocidental.
As
primeiras notícias realmente fidedignas datam de
1417, quando várias vezes há registro de ciganos
na Alemanha. Primeiro em Hildesheim, onde consta
que duas pessoas foram pagas para limpar a casa
na qual ficou hospedado um grupo de “Tártaros do
Egito”. Já em Magdeburg informa-se que durante duas
semanas estiveram na cidade “os Tártaros, chamados
ciganos”, gente preta, horrível, tanto os homens
quanto as mulheres, com muitas crianças, que foram
expulsos de seu país e desde então vagavam pela
terra. Na feira, e depois diante dos Conselheiros,
se exibiram como acrobatas e saltimbancos: “um dançava
nos ombros do outro”, pelo que receberam um tonel
de cerveja, um boi e pão. Em outra cidade, os ciganos
tiveram entre si uma violenta briga que resultou
na morte de um deles; o cigano assassino foi preso
e decapitado pelas autoridades locais.
Um
cronista alemão da época, o frade dominicano Korner,
informa que veio do Leste um “grande número” de
indivíduos errantes (cerca de 300), antes nunca
vistos. Inicialmente apareceram em Lueneburg, visitando
depois as ricas cidades marítimas de Hamburg, Luebeck,
Rostock, além de outras. Segundo o frade, estes
indivíduos estranhos viajavam em bandos e pernoitavam
fora das cidades, ao ar livre; eram feios, pretos
como os Tártaros, e se chamavam Secani. Eram liderados
por um conde ou um duque, aos quais obedeciam; eram
grandes ladrões, em especial as mulheres, e vários
deles foram presos e mortos. Korner informa ainda
que eles portavam salvo-condutos fornecidos por
reis, principalmente de Sigismundo, rei da Hungria
e posterior Imperador do Santo Império Romano; os
ciganos explicaram que “os bispos do Leste” os condenaram
a peregrinar durante sete anos, como penitência
por terem abdicado a fé cristã e terem voltado ao
paganismo. Em novembro de 1417, um cronista anônimo
registra a presença de ciganos na Bavária e menciona
que eles tinham salvo-condutos nos quais constava
que eles podiam furtar de quem não lhes desse esmolas,
e por isso eles roubavam muito, e ninguém podia
impedir-lhes isto.
No
ano seguinte, a prefeitura da cidade de Munique
entregou aos ciganos uma boa soma em dinheiro, pão,
carne e vinho, como esmola em nome de Nossa Senhora.
Também a prefeitura de Frankfurt am Main registra
gastos com ciganos e a prefeitura de Basel, na Suiça,
faz o mesmo para o pagamento de seis carneiros e
uma meia carroça de vinho para os ciganos. Alguns
dias depois, estes ou outros ciganos estão em Zurich,
e nesta cidade as informações, de vários cronistas,
são bastante confusas. Certo é que na cidade estiveram
dois bandos ciganos ao mesmo tempo, mas cada um
com seu próprio líder, e que acamparam fora da cidade,
mas em dois lugares diferentes. Não consta que a
prefeitura de Zurich contribuiu para a manutenção
e alimentação destes dois bandos ciganos. Um cronista
informa que os ciganos “viviam como cristãos, portavam
muito ouro e prata, mas vestiam roupas pobres. Eles
recebiam manutenção e dinheiro dos seus de sua pátria,
não tinham falta de alimentação, pagavam suas comidas
e bebidas e após sete anos voltariam para casa”.
Por sinal, estes ciganos - nos documentos chamados
Zaginer ou Zingri
- diziam ser originários do Pequeno Egito e
de Igritz e que foram expulsos pelos turcos.
Um
bando cigano é mencionado por um cronista que, em
1419, fala de 200 “pagãos” batizados, em quatro
cidades suiças. Em Berna ficaram acampados ao ar
livre, fora da cidade, mas até isto lhes foi proibido
por causa dos furtos que cometiam. Os duques e condes
que lideravam estes “pagãos” (= ciganos) andavam
a cavalo e tinham cintos de prata, mas os outros,
os seus súditos, eram pobres; apresentavam cartas
do rei Sigismundo.
Nos
anos seguintes os ciganos ainda merecem várias menções:
em 1422 registra-se a chegada, em Basel, do conde
Miguel do Egito, com 50 cavalos; o documento fala
de “pagãos, chamados Sarracenos”; já estiveram várias
vezes antes em Basel e outros lugares; acampavam
ao ar livre e apresentavam cartas do papa Martinho
V, do rei Sigismundo e de ‘outros Senhores’, mas
mesmo assim ninguém gostava deles. E em 1424 um
cronista da Bavária fala de pequenos grupos de ciganos
(Cingari, ou Cigawnar), às vezes até 30 pessoas,
às vezes menos - ou seja, bandos muito pequenos
de apenas algumas poucas famílias, ou apenas uma
família extensa -, nas redondezas de Regensburg,
e que viviam em tendas. Não foi permitida sua entrada
na cidade, por causa de sua roubalheira. Ao que
tudo indica, eram originários da Hungria, mas o
povo acreditava que eram espiões. Em 1426, mais
uma vez aparecem ciganos (Gens
Ziganorum) em Regensburg, acampando em tendas,
fora da cidade.
Na
mesma época, a presença de ciganos é registrada
também na Holanda, na Bélgica e na França, onde
já são notícia pelo menos desde 1418, quando aparecem
em Colmar trinta “pagãos” com mulheres e crianças.
Três dias após este pequeno grupo ter saído, chegou
um grupo maior de cerca de cem “pagãos”, que se
diziam oriundos do Egito: eram pretos, e as mulheres,
vestindo uma espécie de cobertor, previam o futuro
lendo a mão, e ao mesmo tempo furtavam o dinheiro
dos bolsos dos clientes. No ano seguinte os ciganos
são várias vezes vistos em outras regiões do país,
e cada vez recebem comida e dinheiro. Em 1419 um
duque cigano viaja com 200 pessoas pela Savóia,
enquanto o duque André é acompanhado por "120
pessoas, ou talvez mais". Um grupo bem menor
de apenas 30 ciganos é observado em Arras em 1421,
onde ficam três dias, e em 1422 ciganos visitam
novamente a cidade de Colmar.
Na
França, alguns chefes ciganos apresentam-se como
“Conde do Egito Menor na Boêmia”, “Conde dos Boêmios
do Egito Menor”, ou “Duque da nação da Boêmia” (na
atual República Tcheca, então parte do Santo Império
Romano), pelo que na França os ciganos também passaram
a a ser chamados “boêmios”, ou seja, oriundos da
Boêmia.
A
travessia para as ilhas britânicas levou mais tempo
e somente a partir de 1505 há notícias sobre ciganos
na Escócia, na côrte do rei Jaime IV. Tratava-se
de um bando de cerca de 60 pessoas, gente pobre
e miserável, liderado por Antônio Gagino, “conde
do Pequeno Egito”, e que foi bem recebido. Mas após
alguns meses resolveram ir para a Dinamarca, para
o que o rei Jaime lhes forneceu uma carta de apresentação
para seu tio João, rei da Dinamarca. Na Inglaterra
há registro de ciganos a partir de 1513, mas logo
passam a ser perseguidos. Em 1540 há novamente registro
de ciganos na Escócia, mas já então não eram mais
bem-vindos e o rei Jaime V ordena a sua saída do
país. O conde cigano John Faw afirma então que pretende
sair do país e viajar para o Egito, mas treze anos
depois ainda se encontram ciganos na Escócia. Na
Dinamarca, a perseguição aos ciganos inicia a partir
de 1554: é proibido hospedar ciganos e quem matá-los
pode ficar com suas propriedades; as autoridades
locais que permitirem a presença de ciganos tornam-se
responsáveis pelos danos por eles causados.
Pelo
menos no início, os bandos ciganos oriundos do Leste
eram liderados por homens com algum real ou auto-atribuído
título de nobreza: conde, duque ou voivode, e há
notícia até de alguns “reis” ciganos. Apresentavam-se
como penitentes ou peregrinos, com cartas de apresentação
e salvo-condutos de reis, príncipes e nobres, e
até do papa, nas quais estes pediam que se fornecesse
aos ciganos a melhor acolhida possível, hospedagem,
alimentação e dinheiro.
Fraser
acredita que os ciganos aprenderam o valor destes
documentos observando peregrinos e viajantes europeus
nos portos de Constantinopla ou na Grécia, e resolveram
imitar este exemplo para obter uma fonte de renda
fácil quando decidiram migrar para a Europa Ocidental. E de fato, no ínicio do
Século XV os primeiros bandos ciganos foram bem
recebidos, com ou (depois sempre mais) contra a
vontade das autoridades locais.
Segundo
Van Kappen, uma das razões para esta boa recepção
era justamente o fato de estes primeiros grupos
ciganos serem liderados por homens que se apresentavam
com títulos da nobreza europeia, e que realmente
o eram ou pelo menos pareciam sê-lo. Consta que
os chefes ciganos montavam belos cavalos - na época
privilégio dos nobres europeus -, vestiam roupas
luxuosas, ostentavam grande riqueza em ouro, prata
e joías, hospedavam-se nos hoteis mais caros e realmente
se comportavam como “nobres”; o seu “séquito” era
formado por ciganos comuns, sujos e maltrapilhos,
que andavam a pé, passavam fome e dormiam ao ar
livre ou quando muito em algum miserável depósito,
armazem ou prédio público. Não há notícias sobre
tais “nobres” ciganos na Grécia ou em outros países,
em épocas anteriores. É possível que até esta aparente
divisão social, econômica e política tenha sido
uma estratégia dos ciganos, para obter mais facilmente
o sustento para todos.
Um
outro motivo seria que eles se apresentaram como
peregrinos (existem várias versões sobre a motivação),
categoria de pessoas que na época merecia a piedade
cristã, hospitalidade e assistência em alimentos,
bens ou dinheiro.
Mas
os "peregrinos" ciganos eram diferentes
dos outros peregrinos europeus em pelo menos três
aspectos: (a) eram estrangeiros exôticos, de outra
“raça” desconhecida, e de uma terra longuíngua e
misteriosa (“Pequeno Egito”); (b) não se dirigiam
a um santuário específico, ou à Terra Santa, mas
vagavam a esmo pelo Europa, aparentemente sem destino,
viajando de um santuário a outro, na medida em que
descrobiam a sua existência; (c) não se tratava
de penitentes ou peregrinos individuais, mas de
grupos grandes, de dezenas ou centenas de pessoas.
Fraser
levanta dúvidas sobre a identidade cigana destes
“duques” e ”condes”. Eles podem ter sido ciganos
de verdade, mas também podem ter sido não-ciganos
- eventualmente casados com ciganas - que na Grécia
e em outros países balcânicos foram nomeados para
cuidar da administração dos ciganos. O que explicaria
talvez o poder que, comprovadamente, eles tinham
sobre os outros ciganos, a sua boa aceitação por
altas autoridades da época e o seu comportamento
“nobre”, aparentemente bem diferente do resto do
grupo cigano. E daí também porque alguns salvo-condutos
e cartas de apresentação informavam que os ciganos
de mau comportamento só podiam ser julgados e punidos
por seus chefes, e não pelas autoridades locais.
No
início do Século XV era comum europeus fazerem peregrinações
para lugares onde viveram ou estavam enterrados
santos, ou se encontravam relíquias, como na Terra
Santa. Muitos deles eram penitentes que contavam
com o apoio da Igreja, e por extensão das autoridades
civis e dos cidadãos comuns. A caridade cristã praticamente
obrigava a todos hospedar, ou no mínimo dar assistência
alimentar e financeira a estes peregrinos e penitentes.
Daí porque em muitas cidades existiam até albergues
especialmente construídos para hospedá-los. Obviamente,
muitos vagabundos e mendigos comuns se aproveitavam
disto. Na maioria dos casos, os lugares de peregrinação
ficavam na Europa: Compostella, Roma e muitos outros
lugares hoje menos conhecidos. Porém, entre os peregrinos
andavam também muitos nobres abastados, dirigindo-se
à Terra Santa. Difícil, quase impossível, era as
autoridades e o povo em geral distinguirem entre
os verdadeiros e os falsos peregrinos e penitentes,
entre os plebeus e os nobres.
Talvez
por causa disto, já então nem todo mundo acreditava
nas estórias contadas pelos ciganos. Um cronista
alemão de 1439 informa que: “Eles contam falsamente
que são do Egito e que foram forçados ao exílio
pelos deuses, e sem vergonha nenhuma fingem estar
expiando, através de um banimento de sete anos,
os pecados dos seus antepassados que enxotaram a
Nossa Senhora com o Menino Jesus .....”. Ao que
Fraser acrescenta que, se foram os próprios ciganos
que inventaram esta estória, eles cometeram um ato
imprudente porque os europeus ainda não sabiam que
naquela época os ciganos ainda não tinham saído
da Índia, e com esta lenda forneceram aos europeus
mais uma razão para odiá-los, da mesma forma como
o anti-semitismo se baseava na acusação de os judeus
terem sido cúmplices na crucifixação de Jesus.
Outras estórias, por sinal, também falam da participação
dos ciganos na crucifixação de Jesus, seja como
fabricantes dos pregos usados na mesma, seja como
ladrões do quarto prego (pelo que só sobraram três
e os pés tiveram que ser pregados com um prego só).
A Bíblia, no entanto, em lugar algum faz referência
a ciganos. Por isso talvez seja mais provável que
estas estórias, lendas e fantasias, que ainda têm
várias outras versões, tenham sido inventadas por
não-ciganos.
Esta
primeira onda cigana na Europa Ocidental, aparentemente
era composta por indivíduos relativamente bem comportados,
e cujos líderes se apresentavam não apenas com títulos
de nobreza, mas também com nomes cristãos - André,
Antônio, Francisco, Miguel, Thomás etc. -, e que
por isso foram bem recebidos pelas autoridades civis
e eclesiásticas, das quais costumavam obter cartas
de apresentação e salvo-condutos (que correspondem
mais ou menos aos passaportes da atualidade), entre
os quais do rei e posterior imperador católico Sigismundo
(1410-1437) e do papa Martinho V (1417-1431).
Nos
arquivos do Vaticano nunca se encontrou referência
a uma carta de apresentação papal, pelo que muito
se tem duvidado de sua autenticidade. Mas quanto
a isto, Van Kappen apresenta uma explicação plausível:
tanto o rei Sigismundo quanto o recém-eleito papa
Martinho V encontravam-se em 1417-18 em Konstanz,
na Alemanha, onde participavam do Concílio que desde
1414 se realizava naquela cidade; o papa, eleito
neste Concílio, só chegou pela primeira vez em Roma
em 1420 e as cartas de apresentação teriam (ou poderiam
eventualmente ter) sido escritas não em Roma, mas
em Konstanz.
Também Gilsenbach fala amplamente deste Concílio,
realizado justamente na época em que aparecem as
primeiras notícias sobre ciganos nos países germânicos,
e acredita que os salvo-condutos de Sigismundo,
apresentados por muitos ciganos, sejam verdadeiros,
inclusive porque pelo menos um deles foi assinado
em Lindau, que fica perto de Konstanz, e porque
as experientes autoridades de Hamburgo e de outras
cidades hanseáticas, onde estas cartas foram apresentadas,
certamente logo teriam descoberto eventuais falsificações.
Uma carta papal foi exibida pela primeira vez pelo
duque cigano Miguel, em Basel, Suiça, em 1422.
Não
foram ainda descobertos documentos sobre a presença
de ciganos nas côrtes do rei e posterior imperador
Sigismundo, pelo que desconhecemos os motivos pelos
quais ele emitia tão generosamente estes documentos,
mas das duas uma: ou ele gostava muito dos ciganos,
ou então expedia estes salvo-condutos para se livrar
logo da presença deles. Gilsenbach apresenta uma
terceira hipótese, segundo a qual Sigismundo, por
volta de 1396, utilizou ciganos na sua Cruzada contra
os turcos - então uma ameaça para seu reino húngaro
- , e depois da vitória os gratificou regiamente
com salvo-condutos.
O
fato de pessoas nobres, em viagem, apresentarem
cartas de altas autoridades civis ou eclesiásticas
era comum na época, mas também existia uma florescente
indústria de falsificações. Hoje, salvo talvez em
alguns casos excepcionais, não há como saber quem
apresentava documentos autênticos ou falsificados.
O que também não importa tanto. O fato é que, por
via das dúvidas, quase sempre estes documentos eram
aceitos pelas autoridades locais que, na época,
não tinham meios para conferir de imediato a sua
autenticidade, e por isso atendiam aos desejos da
citada autoridade superior.
Muitas
cartas de apresentação parecem, de fato, ter sido
falsificações grosseiras. Algumas, como a carta
do rei Sigismundo apresentada pelos ciganos em Bolonha,
em 1422, autorizavam os ciganos a roubar impunemente!
Outras informavam que os ciganos só podiam ser punidos
por seus próprios chefes (condes, duques, voivodes
e.o.) e não pelas autoridades locais. Uma outra
carta, supostamente recebida do papa, informava
que os ciganos tinham obtido um meio-perdão dos
seus pecados e que a outra metade só conseguiriam
após sete anos de peregrinação; uma curiosa e incomum
meia-lavagem da alma! É difícil acreditar que alguma
alta autoridade política ou eclesiástica tenha expedida
cartas deste tipo.
Outro
problema é a grande quantidade de duques, condes
e voivodes ciganos perambulando pela Europa, todos
apresentando cartas de apresentação e salvo-condutos
idênticos ou semelhantes. Nos documentos dos séculos
XV-XVI, Gilsenbach descobriu os nomes de cerca de
cinquenta deles; alguns aparecem apenas uma única
vez, outros reaparecem em épocas e lugares diferentes.
Mas, explica ele, isto não quer dizer que sempre
se tratava da mesma pessoa porque, enquanto um bando
de ciganos possuía um salvo-conduto em nome de Tomás,
o seu chefe sempre seria chamado Tomás, seja qual
fosse seu nome verdadeiro.
A
rica cidade holandesa de Middelburg, por exemplo,
entre 1457 e 1476 foi visitada por no mínimo seis
“condes” ciganos diferentes: 1457 - conde Constantino,
com “grande séquito”, recebeu 16 florins e prometeu
não voltar mais; mesmo assim voltou em 1460 e o
documento informa que seu bando era formado por
“gregos”; 1458 - conde Nicolau com 60 seguidores
(recebeu dinheiro, igualmente sob condição de não
voltar mais);
1466 - conde João; 1473 - conde Antônio (sob
condição de não hospedar-se com os seus ciganos
na cidade); 1476 - sucessivamente os condes Filipe
e Simão. Antes disto a cidade já tinha sido visitado
por outros “condes” ciganos, mas cujos nomes não
são mencionados. Na década de 90, a cidade seria
visitada por ciganos nada menos do que sete vezes,
e que cada vez receberam uma soma em dinheiro sob
condição de não entrar na cidade e ir logo embora!
Não
resta dúvida que, por causa destas cartas e salvo-condutos,
os bandos ciganos foram bem recebidos na Europa
Ocidental no início do Século XV. Em janeiro de
1420, um certo “Duque André do Pequeno Egito”, chefe
de um bando cigano, recebeu da prefeitura de Bruxelas,
na Bélgica, alimentos, cerveja, vinho, uma vaca,
quatro carneiros e 25 moedas de ouro. Em março de
1420, o mesmo André - que estava viajando com cerca
de 100 pessoas e 40 cavalos - recebeu 25 florins
da prefeitura de Deventer, na Holanda, além de alimentos,
pão, peixes, cerveja, capim para os cavalos e hospedagem
no wanthuis,
uma espécie de armazem, ao lado da prefeitura, que
depois teve de passar por uma limpeza total.
O mesmo aconteceu em 1428 em Hildesheim, na Alemanha,
onde um grupo de ciganos ficou hospedado na casa
da família Mollemes; receberam uma pequena esmola
em dinheiro, mas a prefeitura contestou depois os
gastos com iluminação e cerveja; no entanto, concordou
em pagar as despesas para limpar a casa dos Mollemes,
porque a sujeira deixada pelos ciganos deve ter
sido mais do que comprovada.
Na
Alemanha estes salvo-condutos continuam sendo expedidos
pelo menos até meados do século XV: em 1442 Frederico
III, Rei do Santo Império Romano, fornece salvo-conduto
a Miguel, ‘conde dos Czygenier’, válido em todo
o território do reino. Um ano depois, este mesmo
“Miguel, Conde dos Ciganos” recebe outra carta de
apresentação do Conde Gerhard von Juelich und Berg,
com validade de um ano, na qual este autoriza os
ciganos a viajar por seu condado e comprar todas
as suas necessidades, desde que pagando em dinheiro,
e desde que se comportassem bem e não incomodassem
ninguém. Ou seja, já se trata de uma apresentação
com prazo de validade, limitações geográficas e
exigindo um comportamento adequado. Em 1448, e mais
uma vez em 1454, este Conde Gerhard fornece uma
carta de apresentação semelhante ao Conde “Dietrich
do Pequeno Egito”, sempre com validade de um ano.
Porém,
em muitas cidades estas cartas nada valiam. Entre
1448 e 1497 os ciganos aparecem pelo menos treze
vezes na cidade de Frankfurt am Main, e sempre são
logo expulsos. Em 1472 alguns ciganos são até presos
e somente libertos após terem devolvidos os objetos
furtados.
E não demoraria muito para surgirem dúvidas sobre
estas cartas de apresentação e as estórias contadas
pelos ciganos. O cronista Aventinus (nome latino
do alemão Johannes Thurmeyer), escrevendo no final
do século, informa que em 1439 estiveram na Bavária
ciganos liderados pelo “Rei Zundel”: afirmaram ser
originários do Egito e tinham que errar sete anos
pelo mundo porque, tempos atrás, não deram hospedagem
ao menino Jesus e à Nossa Senhora. Aventinus considera
isto uma mentira e acrescenta: “Mas o Mundo é cego
e quer ser enganado; acham que eles são santos e
que quem lhes fizer mal, terá azar; permitem que
eles furtam e roubam, mentem, enganam de várias
maneiras...... “.
Os
salvo-condutos e cartas de apresentação praticamente
deixam de existir ou de ter valor, em toda a Europa
Ocidental, a partir do final do século XVI, e com
eles desaparecem também – por serem agora inúteis
- os líderes ciganos com reais ou falsos títulos
de nobreza.
Os
viajantes exôticos que apareceram na Europa Ocidental
a partir de 1400 - depois chamados “ciganos”- ,
conforme inúmeros documentos históricos (e inclusive
muitas pinturas e peças teatrais) da época comprovam,
tinham também vários costumes um tanto exôticos,
e condenados na época (como, aliás, ainda hoje).
Quase todas estas fontes históricas apresentam queixas
sobre a mendicância - inicialmente ainda tolerada
nos países católicos, mas depois sempre mais severamente
condenada, principalmente nos países com predominância
da religião calvinista ou luterana, como no norte
da Holanda ou na Alemanha - ou sobre furtos ou outros
delitos.
Aliás,
as fontes históricas praticamente só tratam disto,
mas quase nada informam sobre a língua que os ciganos
falavam (a maioria dos cronistas nem sequer informa
que eles falavam entre si uma língua ‘diferente’),
sobre sua religião (parece que sempre adotaram logo
a religião do país no qual estavam viajando), sobre
sua cultura e valores culturais (a não ser que sempre
desrespeitavam escandalosamente a propriedade alheia),
sobre sua organização social (a não ser que eram
liderados por “nobres”) e econômica (a quiromancia
e a mendicância praticadas principalmente pelas
mulheres sempre são citadas, e há algumas referências
a ciganos artistas, músicos, médicos, ferreiros,
etc., mas tudo isto é insuficiente para escrever
um capítulo sobre a economia cigana de então), sobre
a educação dos seus filhos, e sobre outros tantos
assuntos mais. Por isso não há como estranhar a
aversão, e logo depois o ódio anti-cigano, em praticamente
todos os países da Europa.
O
ódio contra minorias nunca nasce do absolutamente
nada; sempre estas minorias - no nosso caso, as
minorias ciganas - apresentam reais ou supostos
motivos que para a maioria justifique o seu comportamento
anti-minoritário. No caso dos ciganos e do anti-ciganismo
europeu, alguns destes motivos são mais do que documentados:
a quiromancia (leitura das mãos) pelas mulheres,
e os eternos furtos, praticados principalmente por
mulheres e crianças.
Vejamos
inicialmente o caso do "duque" cigano
André - cujo nome reaparece em vários documentos
- que em 1422 visita a cidade de Bolonha, na Itália,
onde apresenta a mesma estória que, às vezes com
algumas variações, também contava em outros países:
tempos atrás tinham renegado a fé cristã, mas quando
foram vencidos pelo rei Sigismundo da Hungria, o
duque e seus súditos se converteram novamente à
fé e foram batizados; o rei então lhes ordenou para
errar pela Europa durante sete anos e visitar o
papa em Roma; somente depois disto poderiam voltar
à sua terra; ao chegar a Bolonha, já tinham viajado
cinco anos; diziam que em sua carta, o rei Sigismundo
os autorizava que, nestes sete anos, obtivessem
seu sustento roubando impunemente seja aonde estivessem.
Dito
e feito. Os ciganos ficaram duas semanas em Bolonha,
onde o duque se hospedou no luxuoso Albergue do
Rei; os outros ciganos ficaram debaixo de galerias
e pontes. Principalmente as mulheres ciganas, agindo
em grupos, roubaram tanto de casas e lojas que as
autoridades locais autorizaram aos cidadãos bolonheses
roubar de volta tudo que lhes foi roubado. Os bolonheses
roubaram então alguns dos mais belos cavalos dos
ciganos que só foram devolvidos após a a população
local ter recuperado grande quantidade dos objetos
roubados. Depois disto, os ciganos partiram em direção
a Roma.
Obviamente, um documento detalhado deste não nasceu
da fantasia de um cronista bêbado, mas relata fatos
que realmente aconteceram, como é o caso parisiense
a seguir, contado por um cronista anônimo que foi
excelente observador e que teve contato pessoal
com os ciganos.
Segundo
este cronista, a cidade de Paris foi pela primeira
vez visitado por ciganos em agosto de 1427 (quando
a cidade estava sob domínio inglês). Na vanguarda
vieram um duque, um conde e dez homens, todos a
cavalo, que se diziam procedentes do “Baixo Egito”.
O resto do grupo, cerca de 100 a 120 pessoas, chegou
alguns dias depois (mas disseram que quando saíram
do seu país, eram cerca de 1000 a 1200). Em Paris
contaram uma história confusa, sobre como no passado
tinham sido cristãos, mas que depois foram vencidos
pelos sarracenos e obrigados a renegar a fé, até
serem novamente vencidos pelo Imperador da Alemanha
(Sigismundo?), o rei da Polônia e outros, quando
voltaram a ser cristãos. Só que desta vez foram
proibidos de possuirem terras no seu próprio país,
até o papa concordar com isto. Por isso foram a
Roma, com grande sofrimento, confessaram-se ao papa
e este lhes ordenou que, como penitência, deveriam
andar sete anos consecutivos pelo mundo sem parar
[o cronista, na realidade diz: “sem dormirem em
camas”]. Traziam cartas do papa em que este pedia
ao clero que desse aos ciganos ajuda financeira
para eles continuarem sua viagem. Ao chegar em Paris
já teriam viajado durante cinco anos. Realmente,
uma estória comovente!
Como
não podia deixar de ser, também em Paris despertaram
grande curiosidade do público, em parte por causa
de sua aparência exótica. Mas isto demorou pouco.
Segundo o cronista, além de serem “as criaturas
mais pobres que já foram vistas na França”, causaram
alguns problemas matrimoniais porque, ao ler as
mãos, as ciganas informavam aos homens que “tua
mulher te botou chifre” (ta femme t’a fait coux), e às mulheres que “teu marido te foi infiel”
(ton mari
t’a fait coulpe) e enquanto isto “seja por magia
ou por outro procedimento, seja por obra do inimigo
que está no inferno ou por artifícios hábeis”, outros
esvaziavam os bolsos dos curiosos, “segundo se dizia”.
O cronista afirma categoricamente ter visitado os
ciganos três ou quatro vezes para falar com eles,
e nunca lhe furtaram uma moedinha sequer. Seja como
for, o então bispo de Paris não gostou nada da história
e excomungou sumariamente todos (os ciganos) que
praticaram e todos (os não-ciganos) que acreditaram
na “tal adivinhação”, e que não devem ter sido poucos.
Os ciganos partiram então para outra cidade.
Não
seria esta a única e última intervenção clerical
para expulsar os ciganos: em 1435, pela primeira
vez os ciganos aparecem na cidade de Meiningen,
na Alemanha, onde ganham seu sustento como artistas
e saltimbancos; a prefeitura lhes fornece vinho,
carne e pão, o que prova uma recepção inicial cordial,
mas após onze dias, o pároco manda expulsá-los da
cidade. Os motivos não são citados, mas também nesta
cidade a ira do pároco deve ter sido causada pelas
atividades adivinhatórias das mulheres ciganas.
Ainda
na Alemanha, o historiador Krantz, que em parte
repete informações do acima citado Korner de 1417,
acrescenta que os ciganos não têm pátria e vivem
dos furtos cometidos pelas mulheres; viajam de país
para país e após algum tempo voltam. Mas como se
dividiram em várias partes, dificilmente os mesmos
voltam para o mesmo lugar, a não ser após longos
intervalos. Por toda parte juntam-se a eles homens
e mulheres que desejam compartilhar sua vida nas
tendas; trata-se de uma estranha mistura de gente,
que fala todas as línguas, que fica importunando
os camponeses. Trata-se de um documento importante
porque, talvez pela primeira vez, há referência
a não-ciganos que se juntaram aos bandos ciganos.
Anos
depois, em 1430, na cidade de Konstanz, um cronista
culpa os ciganos - que furtaram, praticaram magias,
adivinharam e leram as mãos - de serem os responsáveis
também pela fome e por uma epidemia, mas que, conforme
o próprio cronista informa, só ocorreram oito anos
depois da visita destes ciganos. Ou seja, já então
os ciganos eram usados como bode expiatório para
qualquer desgraça, mesmo ocorrida muito tempo depois
de sua passagem pelo local. Alguns anos depois,
em 1436, registra-se a presença de cerca de 400
ciganos em Konstanz, onde um cigano ladrão ia ser
enforcado; os ciganos pedem clemência para o companheiro
e prometem levá-lo para o Egito (sic!); o pedido
foi deferido. Certamente as autoridades municipais
devem ter pensado bem as consequências de uma eventual
revolta generalizada de cerca de 400 ciganos!
Um
documento da Bavária, de 1439, chama os ciganos
uma “raça de ladrões, a escória e a ralé de vários
povos .... (que) procura sustentar-se impunemente
furtando, roubando e prevendo o futuro”. E outro
documento atesta que a fama de ladrão-de-galinha
persegue os ciganos já desde o Século XV: numa peça
teatral de um autor suiço, escrita por volta de
1475, um camponês pede à mulher para fechar as portas
do celeiro e prender as galinhas, porque os ciganos
estão chegando!
Salvo
um ou outro assassinato (várias vezes há registro
de um cigano assassinando outro cigano e, eventualmente,
toda a família do inimigo cigano, ou cometendo outro
crime grave), quase todos os "crimes"
cometidos pelos ciganos nesta época ainda são relativamente
“suaves” e não passam de delitos “leves”. Em geral
limitam-se ao furto de pequenos objetos – carteiras,
frutas e outros alimentos, ou então objetos domésticos
que costumavam ser vendidos a receptadores não-ciganos,
além de animais de pequeno porte, como galinhas,
gansos e patos, excepcionalmente um porco; ou então
tirar leite de vacas pastando no campo, tirar frutas
das árvores, apanhar batatas ou beterabas na roça,
cortar alguma lenha, caçar ou pescar ilegalmente,
etc. Mas tudo isto apenas para consumo próprio e
imediato. Consta, também, que as mulheres ciganas
às vezes exageravam um pouco na sua ânsia de furtar
ou enganar os não-ciganos.
No
norte da Holanda, a maioria dos processos citados
por Van Kappen envolve mulheres ciganas, apanhadas
em flagrante nas cidades, e quase nunca na área
rural. Uma das causas disto pode ter sido o fato
de as mulheres, quase sempre carregando crianças,
terem mais dificuldade para fugir do que os homens.
Muitas ciganas presas, por sinal, escaparam de serem
açoitadas pelo fato de estarem grávidas. Pelo menos
na Holanda, também não se aplicavam punições físicas
às crianças que, no máximo, tinham que presenciar
os castigos aplicados aos seus pais. Por outro lado,
também, tudo indica que eram principalmente as mulheres
que mendigavam e furtavam, com certeza porque elas
inspiravam maior compaixão. Os homens, por sua vez,
exerciam, na medida do possível, profissões honestas,
como artistas, músicos, domadores de animais, ferreiros,
sapateiros, tratadores de cavalos, veterinários
e, inclusive, médicos.
Mas
as ciganas não costumavam mendigar pura e simplesmente,
como os outros mendigos. Aproximavam-se das pessoas
prometendo ler a mão e prever o futuro (quiromancia),
exorcizar maus espíritos, ou então vendiam remédios
para os mais diversos males, o que em si não era
tão grave assim. O “crime” costumava ser cometido
depois. Encontrando donas de casa com problemas
domésticos, amorosos
ou de outra natureza, as ciganas ofereciam
sempre sua “ajuda”, que quase sempre resultava na
perda de uma considerável quantidade de dinheiro,
joias, ouro ou prata, ingenuamente entregue à cigana
para afastar “maus espíritos”, ou para multiplicá-la
milagrosamente, ou para recuperar um marido infiel.
Ou encontrando casas com portas ou janelas abertas,
aproveitavam para furtar alguns pequenos objetos.
Consta que uma cigana foi apanhada em flagrante
furtando na casa de um prefeito; outra cigana conseguiu
explorar divinamente a ganância financeira de uma
madre superiora que lhe entregou todos os objetos
de ouro e prata do convento, afim de milagrosamente
multiplicá-los!
Alguns
processos judiciais descrevem com detalhes vários
“truques” utilizados pelas ciganas para enganar
otários das mais variadas espécies, desde mulheres
ciumentas desejosas de “recuperar” seus maridos
infieis, indivíduos ansiosos de multiplicar sem
nenhum esforço a sua riqueza, mulheres estéreis
querendo engravidar, moças grávidas desejosas de
abortar, etc.
Seja qual fosse o problema - financeiro,
físico ou espiritual - , as ciganas sempre tinham
uma solução para o mesmo. Porém, às vezes também
os otários não-ciganos eram punidos. Um curioso
projeto de lei da municipalidade de Kampen (Holanda),
em meados do Século XVI, estabelece que se algum
otário deixasse se enganar por um cigano e se o
dinheiro ou os bens assim perdidos fossem recuperados,
estes passariam a pertencer ao município e seriam
vendidos em leilão público! Afinal de contas, a
pessoa foi enganada porque quis, e quem teve o trabalho
de recuperar o dinheiro ou os bens foi a prefeitura.
Queremos
chamar a atenção ainda para uma outra estratégia
para ganhar proteção e dinheiro de não-ciganos influentes
e ricos. Trata-se do batismo múltiplo das crianças
- quatro, cinco ou até mais batismos em lugares
diferentes -, escolhendo-se para padrinhos e madrinhas
pessoas ricas e influentes da sociedade não-cigana,
capazes de darem bons presentes e (talvez principalmente)
futura proteção para o afilhado e os compadres.
O batismo múltiplo para obter vantagens foi constatado
também pelo Sínodo da Igreja Reformada Holandesa,
em 1612, pelo que resolveram que crianças ciganas
só poderiam ser batizadas se os padrinhos também
fossem ciganos; proibiu-se o batismo se os padrinhos
fossem não-ciganos. Consta que depois disto o número
de batismos ciganos diminuiu consideravelmente.
O assunto voltou a ser discutido várias vezes em
outros sínodos.
Quase
nada sabemos dos ciganos honestos, mas que também
devem ter perambulado pela Europa naquela época.
As únicas fontes históricas sobre ciganos quase
sempre são processos judiciais que, por definição,
tratam exclusivamente de pessoas criminosas ou supostamente
criminosas e praticamente nada informam sobre as
atividades profissionais das pessoas honestas. Por
sinal, já então - pelo menos na Holanda, e provavelmente
também em outros países - os mascates e outros que
exerciam profissões ambulantes, como artistas, amoladores
de facas e tesouras, sapateiros e.o., precisavam
de uma licença municipal, renovável periodicamente.
E esta licença, da mesma forma como a licença para
mendigar, costumava ser dada apenas aos cidadãos
nativos e negada aos estrangeiros.
Dois
documentos suiços, de 1430 e 1444, falam da existência
de um sindicato (guilde) dos mendigos de Basel,
com suas próprias leis, e cita nada menos do que
26 modalidades de mendicância. Os ciganos não são
mencionados, mas estes documentos provam que até
a mendicância profissional e organizada já existia
na Europa daquele tempo.
Não
havia, portanto, como um cigano exercer legalmente
uma profissão honesta ou mais ou menos honesta -
nem sequer a de mendigo - pelo menos não nas cidades,
mesmo se o quisesse. Nos documentos holandeses existem
algumas poucas referências a comércio e tratamento
de cavalos, e várias vezes ciganos são citados como
curandeiros ou médicos que preparavam pomadas e
óleos para curar pessoas e animais. Na cidade de
Zwolle, em 1542, um cigano veterinário é remunerado
por ter curado um cavalo. Que gozavam certa fama
na área médica prova o fato de um médico não-cigano
ter resolvido fazer um estágio com os ciganos, para
aprender melhor com eles a arte médica. Preso, foi
absolvido, por não ser cigano; se tivesse sido cigano,
teria sido condenado, e talvez enforcado, o que
mostra que, já então, o que importava não era tanto
o “crime”, mas o fato de ser cigano. Consta que
outros ciganos serviram como tratadores de cavalos
(veterinários) e médicos no exército onde certamente
eram tolerados por causa de sua reconhecida perícia
nestas áreas.
Outro
caso amplamente documentado ocorreu na província
de Groningen (Holanda), onde em 1706 um grupo de
21 ciganos (“entre homens, mulheres e crianças”),
sob chefia de um certo Isaac, “conhecido como Doutor”,
ficou algum tempo em Doccum, vendendo remédios (vários
tipos de pó, pomadas e óleos, para cabelo, dor de
dente e febre) e praticando a medicina. O nome Isaac
sugere que talvez não tenha sido um cigano autêntico,
mas talvez um judeu casado com uma cigana, que vivia
e viajava junto com um bando cigano. Seja como for,
este Isaac era um competente chirurgião, e outro
cigano do grupo sabia curar epilepsia (vallende ziekte), fraturas e dores de cabeça. Um charlatão qualquer,
com xaropes e ervas medicinais pode até curar dores
de cabeça, mas certamente não fraturas. Ou seja,
tratava-se de uma equipe médica cigana ambulante,
mas competente. Em Doccum não surgiram problemas,
mas quando se mudaram para Emden foram logo expulsos
embora, como informa o documento, não tivessem praticado
nenhum furto, nem tivessem causado problemas para
a população. Pouco depois foram presos e expulsos
da cidade de Groningen, mais uma vez sem ter cometido
nenhum crime. Nestes casos já se evidencia a perseguição
aos ciganos pelo simples fato de serem ciganos.
Capítulo
2
POLÍTICAS
ANTI-CIGANAS.
Políticas
anti-ciganas na Europa do Norte.
Desde
o seu aparecimento na Europa Ocidental, os ciganos
nunca foram imigrantes bem-vindos e amados, mas
antes considerados um mal necessário, do qual cada
côrte, cada cidade ou cada convento tentava livrar-se
o mais cedo possível, inclusive pagando para isto.
Na maioria das vezes, as autoridades locais nada
podiam fazer, por causa das cartas de apresentação
e salvo-condutos de altas autoridades civis ou eclesiásticas.
Porém, a tolerância dos europeus teve limites e
as primeiras reações anti-ciganas não demoraram
a surgir. A tolerância inicial aos poucos se transformou
em aversão, e finalmente em ódio. Esta mudança de
atitude ocorreu, com maior ou menor intensidade,
em todos os países europeus, embora em épocas diferentes,
inclusive variando de acordo com a data da entrada
inicial dos ciganos, e o seu comportamento, em cada
país.
Na
Holanda, no início do Século XV, o comportamento
dos ciganos ainda é relativamente bom, mas por onde
passam deixam um rastro de sujeira: os prédios públicos
nos quais são hospedados, invariavelmente precisam
depois de uma limpeza geral. Os ciganos ainda não
constituem um perigo, porque não vivem assaltando
ou assassinando, mas de qualquer forma sempre mais
se tornam uma presença incômoda por causa dos pequenos
furtos que praticam. Inicialmente ainda são tolerados
dentro das cidades, mas logo lhes é proibida a entrada
e devem ficar fora das muralhas. As doações em dinheiro
e alimentos, inicialmente dadas de boa vontade,
por serem considerados peregrinos ou penitentes,
não somente vão diminuindo em quantidade, mas são
agora dadas para a cidade se livrar o mais cedo
possível destes visitantes sujos e maltrapilhos,
muitas vezes condicionando-se a doação à promessa
de nunca mais voltar.
A
atitude das autoridades municipais de Deventer é
um bom exemplo. Inicialmente, em 1420, os ciganos
recebem doações em dinheiro e alimentos e são hospedados
num prédio público. Aparentemente com fama de ser
generosa, a cidade foi novamente visitada por ciganos
em 1429, 1438, 1439 e 1441. Mas já em 1445 e 1447
os ciganos foram proibidos de entrar na cidade e
receberam dinheiro para ir embora, o que se repetiu
mais quatro vezes até 1465, diminuindo sempre mais
a quantia de dinheiro destinada a comprar o afastamento
dos ciganos. Já em 1454 dois ciganos foram presos,
acusados de roubo, e em 1505 colocaram na prisão
até o filho de um auto-intitulado “rei” cigano,
também por roubo. O que significa que estes ciganos
aparentemente não portavam salvo-condutos, ou que
as autoridades municipais não mais lhes davam valor,
e que os seus títulos de “nobreza” já eram considerados
piada de mau gosto.
Em
outras cidades da Holanda aconteceram fatos semelhantes.
Nijmegen hospedou bem os ciganos pela primeira vez
em 1429, mas em 1536 e 1543, foram sumariamente
expulsos da cidade. Em Zutphen os ciganos foram
bem recebidos em 1430, 1445, 1459 e três anos seguidos
na década de 90, mas em 1538 e 1542 foram expulsos.
O primeiro edital anti-cigano foi publicado em 1544
pela província de Gelderland. Neste edital consta
que perambulava um “grande número” de ciganos pela
região e que estes incomodavam a população, pelo
que todos deviam deixar a região dentro de dois
dias, sob pena de punição física e confisco de bens.
Foi proibido, ainda, fornecer salvo-condutos aos
ciganos e os títulos de nobreza deixaram de ser
reconhecidos.Consta que em 1551, na mesma província, duas
ciganas foram açoitadas e um cigano e três ciganas
foram banidas; nove anos depois, em 1560, quatro
ciganos foram marcados a ferro e depois banidos.
A partir de então, as condenações de ciganos não
param mais, em todas as províncias da Holanda. Van
Kappen cita dezenas de processos envolvendo ciganos
(alguns por ele transcritos, na íntegra, nos anexos).
As penas de morte ainda são raras nesta época, mas
acontecem. Numa pequena cidade da província de Overijsel,
em 1577 foram enforcados quatro ciganos pelos crimes
de terem assaltado muitas casas e, principalmente,
de terem falsificado moedas, coisa simples que,
conforme confessavam, qualquer cigano sabia fazer.
Suas mulheres e crianças foram banidas.
Falsificar dinheiro, aliás, parece ter sido uma
velha profissão cigana: já em 1442, cerca de cinquenta
homens ciganos foram presos em Konstanz, sob suspeita
de falsificar dinheiro. Um deles, de fato, confessou
ter falsificado algumas moedas. Por causa disto,
todos os ciganos foram expulsos da cidade e o falsificador
foi marcado a ferro.
Com
tudo isto, os bandos grandes se dividem em grupos
menores de uma ou algumas poucas famílias extensas.
Não há mais referências a “reis”, “duques” ou “condes”
ciganos e com eles desaparece também a ostentação
de riqueza: os documentos deixam claro que os ciganos
são pobres e passam a ser incluídos, daqui em diante,
na categoria geral de “mendigos e vagabundos”. E
de fato, desaparecendo as antigas generosas “doações”
de dinheiro e alimentos aos (supostos?) “nobres”
ciganos, os seus (também supostos?) súditos são
obrigados a obterem o seu sustento trabalhando,
mendigando ou praticando pequenos furtos de alimentos,
vestuário ou objetos. Antes, os ciganos com suas
autênticas ou falsificadas cartas papais e salvo-condutos
imperiais ou reais, incomodavam principalmente as
autoridades políticas (imperadores, reis, nobres,
prefeitos) e eclesiásticas (bispos, superiores de
conventos, vigários); a partir de agora passam a
incomodar a população civil em geral, nas cidades
e no campo.
Os
documentos não deixam dúvida que todos os ciganos
são pobres e vivem da mesma forma como os vagabundos
não-ciganos, mendigando, furtando, de vez em quando
assaltando. A criminalidade cigana aumenta sempre
mais e são publicados editais que punem os ciganos
apanhados em flagrante. Normalmente não se trata
de editais exclusivamente contra os ciganos, mas
de um modo geral contra “pagãos” (isto é: ciganos)
e outros vagabundos, vadios, mendigos, vigaristas
e bandidos. Só mais tarde surgem editais que permitem
punir os ciganos pelo simples fato de serem ciganos,
mesmo sem terem cometido crime algum. As punições,
no entanto, são pesadas: açoites em praça pública
(quase sempre “até sangrar”), marcação com ferro
quente (geralmente nas costas), corte de partes
do nariz ou das orelhas, para facilmente serem reconhecidos,
tudo isto sempre seguido pelo banimento perpétuo
da cidade ou província. Em casos de reincidência,
a pena de morte, principalmente para os homens,
através de enforcamento ou decapitação. As mulheres
em geral escapam da pena capital e são apenas banidas,
junto com os seus filhos, para evitar que as autoridades
tivessem que sustentar depois a quase sempre numerosa
prole cigana.
Cada
uma das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos
(Holanda) de então tinham autonomia política e jurídica,
pelo que não existia uma política anti-cigana unificada,
nacional. Cada província tinha sua própria legislação
mas, apesar disto, as legislações sempre eram semelhantes
e muitas vezes uma província copiava ou adotava
a legislação de outra. Os banimentos “perpétuos”
eram, portanto, sempre para a cidade ou a província
vizinha (às vezes até com direito à escolta até
a fronteira, para que se tivesse certeza do afastamento
da “praga” cigana). O que os vizinhos fariam com
os ciganos, era problema deles. Daí porque os ciganos,
para mais facilmente escapar das eternas perseguições,
preferencialmente se fixavam em regiões de fronteira,
para facilmente poderem fugir para outro município,
outra província ou até outro país.
Na
Holanda, a partir do final do Século XVII, sem poder
trabalhar, sem ter onde viver e perseguidos em todas
as províncias da Holanda, os ciganos voltam a reagrupar-se
em bandos maiores, muitas vezes misturados com vagabundos
e bandidos não-ciganos, e em desespero passam a
praticar assaltos a mão armada, principalmente no
campo, já que o acesso às cidades lhes é determinante
proibido. Tornam-se comuns notícias sobre assassinatos
de camponeses, incêndios de fazendas e outros crimes
pesados cometidos por ciganos, ou por supostos ciganos.
Diante disto, a perseguição também se torna mais
violenta ainda e a pena de morte torna-se comum,
após julgamentos sumários ou até sem julgamento
algum. São organizadas “caças-aos-pagãos”, permitindo-se
matar impunemente ciganos. Ou seja, é oficializado
o genocídio dos ciganos na Holanda, com apoio de
militares.
O
combate envolvia às vezes verdadeiros exércitos,
pelo menos para os padrões da época. Na província
holandesa de Braband foram, em 1723, mobilizados
500 soldados, à pé ou a cavalo, que atacaram um
acampamento cigano e prenderam 60 pessoas. E na
província de Gelderland, em 1725, foram presos cerca
de 50 ciganos, entre homens, mulheres e crianças;
14 mulheres foram açoitadas, marcadas a ferro e
depois banidas (certamente com seus filhos); dez
homens foram torturados e depois decapitados, sendo
suas cabeças espetadas em paus, para exibição pública.
Editais de 1725 e 1726 da província de Overijsel
se referiam aos ciganos como “inimigos da pátria”
e permitiam matar impunemente ciganos que andavam
com armas de fogo ou em bandos de mais de oito pessoas;
seus bens passariam a pertencer a quem os matasse;
os ciganos presos seriam imediatamente enforcados.
Em outras províncias foram publicados editais semelhantes.
O resultado final podia ser um só: a partir de meados
do Século XVIII praticamente não há mais notícias
de ciganos em processos judiciais ou em outros documentos
históricos holandeses: ao que tudo indica, todos
os ciganos tinham sido expulsos do país, ou então
tinham sido assassinados.
Em
outros países, a perseguição aos ciganos foi quase
idêntica. Na Suiça os ciganos já podiam ser caçados
legalmente pelo menos desde 1580 e um decreto da
cidade de Berna, de 1646, autorizava qualquer pessoa
matar ciganos. Na Alemanha (ou melhor, no Santo
Império Romano Germânico), entre 1551 e 1774, foram
decretadas nada menos do que 133 legislações anti-ciganas,
sendo 68 leis no período de 1701-50, e apenas oito
no período 1751-74, quando a ‘praga cigana’, aparentemente,
em boa parte já tinha deixado de existir, ou seja,
quando já sobreviviam bem menos ciganos do que antes.
A
seguir, apenas alguns exemplos de legislações anti-ciganas:
1711 - na Saxônia foi autorizado matar ciganos se
eles resistissem à prisão; 1714 – em Mainz, todos
os ciganos (homens adultos) podiam ser executados
sem julgamento, apenas pelo fato de serem ciganos,
e suas mulheres e seus filhos deviam ser marcados
a ferro e banidos, ou então realizar trabalhos forçados;
1725 – Frederico I, rei da Prússia, decreta que
ciganos - homens e mulheres – maiores de 18 anos
podem ser enforcados sem julgamento;
1734 – o duque de Hesse-Darmstadt dá um mês
para os ciganos deixarem suas terras; depois disto
podem ser aprisionados ou caçados, oferecendo-se
6 Reichsthaler para cada cigano vivo, e 3 para cada
cigano morto. Consta ainda que o imperador Carlos
VI ordenou em 1721 a execução sumária dos homens
ciganos e em 1737 há registro de caças aos ciganos
na Austria. Ou seja, não apenas na Holanda mas em
muitos outros países existia uma política de extermínio
dos ciganos.
Alguns
países introduziram a pena de morte já bastante
tempo antes. Nas ilhas britânicas, por exemplo,
já em 1541 todos os ciganos deviam deixar a Escócia
dentro de 30 dias, sob pena de morte; na Inglaterra
já em 1530 é promulgado o primeiro decreto anti-cigano
e outros decretos ainda mais rigorosos seguem em
1554 e em 1562, este um decreto
válido para a Inglaterra e o País de Gales,
e que ficou em vigor até 1783: os ciganos devem
logo abandonar o país e a imigração de novos ciganos
é proibida; as punições são severas e incluem castigos
corporais, prisão, banimento e em último caso até
a pena de morte.
Na
Alemanha, Áustria, Suiça e França, bem maiores do
que a Holanda e com melhores áreas de refúgio (montanhas
e florestas), os ciganos nunca chegaram a ser exterminados
por completo, mas é mais do que provável que, por
causa destas severas legislações anti-ciganas, o
seu número tenha sido reduzido drásticamente.
Políticas
anti-ciganas na Península Ibérica.
Na
Espanha, já em 1425 um cigano intitulado “Dom João
do Egito Menor” apresenta um salvo-conduto expedido
pelo rei Afonso V de Aragón; em Barcelona aparecem
em 1447 um ‘duque’ e um ‘conde’ cigano com seus
séquitos; em Castellón de la Plana são registrados
em 1460, 1471 e 1472. Todos apresentam salvo-condutos
de Afonso V ou do seu sucessor João II de Aragón,
além de outros escritos por Henrique IV de Castilha.
Como sempre os ciganos se apresentam como peregrinos,
mencionam a penitência imposta pelo papa, etc.,
como já fizeram também na Europa do Norte. Estes
primeiros ciganos na Espanha eram comprovadamente
oriundos do norte da Europa, e antes já tinham viajado
pela Alemanha, Holanda e França, atravessando depois
os Pirinéus em direção à Espanha. Mas segundo Fraser,
a partir de 1470, teria havido ainda uma outra imigração
de bandos ciganos para a Espanha, diretamente da
Grécia via o Mar Mediterrâneo, cujos membros se
apresentaram como fugitivos dos turcos, e que não
eram liderados por “duques” e “condes”, mas por
homens que eram chamados “mestre”, “chefe”, ou “capitão”.
Em
vários documentos espanhois e portugueses há referência
à origem grega dos ciganos. Na Farsa
das Ciganas, do escritor portugues Gil Vicente,
de 1521, as ciganas dizem que são gregas e falam
com forte sotaque espanhol, o que reforça a hipótese
de uma migração mediterrânea de ciganos gregos diretamente
para o sul da Espanha, e que de lá teriam viajado
para Portugal.
Também
Torrione se refere a estes ciganos gregos, que falavam
o grego vulgar, e cuja migração para o oeste teria
iniciado a partir de 1463, quando Veneza, que então
colonizava partes da Grécia, entrou em guerra aberta
contra os turcos otomanos. A autora cita, inclusive,
versos de meados do Século XVI que falam da “vida
de unos Griegos ó Gitanos que van vagando por la
vida humana temidos de los pobres aldeanos”. Outro
documento espanhol de 1618 diferencia claramente
os dois tipos de ciganos e informa que “alguns são
do Egito e outros da Grécia ... Os Grecianos, em
sua maior parte, são ferreiros, e usam mais o enganar
com palavras, e fraudes, do que os furtos. Os Egipcianos
são vadios, e amigos de andar a cavalo, e usam mais
o furto do que os enganos e embustes”.
Também
na Espanha os ciganos apresentavam salvo-condutos,
mas pelo menos um destes documentos, de 1476, é
diferente pois além de informar que o conde cigano
João se encontrava em peregrinação a Compostella
e Roma, acrescenta que ele era inimigo mortal dos
condes ciganos Martinho, Miguel e Jaime.
Conforme
já vimos, os ciganos chegaram à Espanha já na primeira
metade do Século XV, vindos da França, e inicialmente
foram bem recebidos, participando inclusive de banquetes
reais e recebendo dinheiro, roupas e alimentos.
As fofoqueiras palacianas de então informam que
isto se devia “às qualidades sedutivas das mulheres
ciganas e ao talento dos homens na procura de cavalos
bonitos para os estábulos dos seus amigos.....”.
Mas também naquele país não demoraria muito para
eles serem perseguidos, já a partir do final daquele
século. As medidas legislativas anti-ciganas visavam
principalmente a integração dos ciganos à sociedade
espanhola, ou então a sua expulsão do país, quando
não o extermínio puro e simples.
Entre
1499 e 1534 ordena-se várias vezes que os ciganos,
dentro de 60 dias, obtenham uma profissão ou um
patrão e é lhes proibido viajarem juntos, sob punição
de cem açoites e banimento; os reincidentes serão
marcados com um corte nas orelhas, ficarão 60 dias
encarcerados e serão depois banidos; no caso de
nova reincidência serão escravos de quem os capturou.
Em 1539 a ordem é repetida sendo que o prazo é de
três meses; são probidos os deslocamentos de mais
de três pessoas e às punições acrescentam-se seis
anos de trabalhos forçados como remadores nas galés.
A
partir de 1560 são proibidos os deslocamentos de
mais de duas pessoas, ou seja, um casal cigano nem
sequer podia andar na rua ou viajar junto com seus
filhos; os ciganos são proibidos de usarem suas
roupas tradicionais; punição: até dezoito anos de
galés para os ciganos a partir de 14 anos de idade
(dificilmente alguém sobreviveria a dezoito anos
de galés); em caso de reincidência: pena de morte
para os nômades e as galés para os sedentários.
Em
momento algum a Igreja Católica se opôs a esta perseguição
cruel aos ciganos, antes pelo contrário, era justamente
ela que talvez mais instigasse os governos a punir
os ciganos. Pabanó informa que no Concílio de Tarracón,
de 1591, a Igreja pediu aos poderes públicos que
castigassem os ciganos “dos quais apenas consta
que são cristãos, mas que na realidade são uns embusteiros,
ladrões, vigaristas e viciosos”. E no Século XVII
o teólogo Sancho de Moncada enviou ao rei um amplo
documento em que solicita severa repressão aos ciganos,
sua deportação do país, e defende a pena de morte,
inclusive para as mulheres e crianças ciganas,
“porque não há lei que nos obrigue a criar
filhotes de lobos”. Neste texto do então famoso
teólogo, os ciganos são ainda chamados: patifes,
uma ralé muito perniciosa, espiões e traidores da
corôa, um povo vagabundo e preguiçoso, prostitutas,
vadios, bisbilhoteiros, ladrões, ladrões de crianças,
ladrões de cavalos e gado, encantadores, feiticeiros,
adivinhos, mágicos, quiromantes, heréticos, idólatras,
ateistas. O padre certamente expressava os estereótipos
dos seus conterrâneos. E ele não era o único que,
citando a bíblia, defendia a pena de morte para
os ciganos ou então o seu banimento perpétuo.
Em
1611 ordena-se aos ciganos que trabalhem como servos
para os latifundiários, em atividades agrícolas,
uma mudança profissional radical que obviamente
não teve muito êxito. Daí porque em 1619 novamente
é ordenada a expulsão de todos os ciganos do reino,
num prazo de seis mêses, ou então eles têm que fixar
residência em vilas ou cidades com mais de mil habitantes;
são proibidos o vestuário, a língua e os nomes ciganos;
punição: pena da morte.
O
resultado parece ter sido nulo, porque em 1633 as
ordens são bem mais rigorosas: o nome “cigano” deve
desaparecer do vocabulário e fica proibido alguém
chamar-se ou ser chamado cigano, ou seja, uma espécie
de genocídio linguístico: proibindo-se o termo “cigano”,
acreditam ingenuamente acabar assim com os ciganos.
Mais uma vez os ciganos foram proibidos de realizar
encontros, de usar seu vestuário tradicional, de
falar sua língua, de morar juntos em determinados
bairros, mas deviam misturar-se com os outros cidadãos.
Ciganos nômades podiam ser escravizados e há notícias
de caças a ciganos que vagavam pelos campos. Como
na Holanda, também na Espanha somente os homens
ciganos eram condenados, às galés ou à morte, enquanto
as mulheres eram apenas açoitadas e depois banidas,
junto com seus filhos.
Entre
1633 e 1692 as ordens continuam praticamente as
mesmas: são proibidas as reuniões públicas ou privadas;
os ciganos devem misturar-se ao resto da população
e nada deve distinguí-los; são proibidos o nome
de cigano como também o vestuário; as punições são,
para os homens 200 açoites e seis anos de galés,
para as mulheres o desterro e multa financeira;
encontrando-se um cigano fora do local que lhe foi
designado, será escravo de quem o encontrar; se
for encontrado com uma arma de fogo, oito anos de
galés.
Em
1695 é realizado o talvez primeiro censo (ou melhor:
tentativa de censo) cigano no mundo: todos os ciganos,
num prazo de 30 dias, devem declarar sua profissão,
seu modo de vida, armas, cavalos, etc. ....
A seguir têm 30 dias para sair do reino ou
fixar residência num local com mais de 200 habitantes;
devem dedicar-se a trabalhos agrícolas e são proibidos
de ter cavalos, ou de frequentar feiras e mercados;
os ciganos não podem portar armas e mais uma vez
são proibidos o vestuário e a língua; aos espanhois
é proibido dar proteção aos ciganos. As punições
são: para os homens seis ou oito anos de galés,
e para as mulheres cem ou duzentos açoites e degredo;
para os espanhois nobres que protegem os ciganos
uma multa de 6.000 ducados e para os outros (não-nobres)
dez anos de galés, e para as mulheres cem ou duzentos
açoites e degredo. No final a Lei acrescenta a talvez
primeira definição de ciganos: são aqueles que se
vestem como tais e falam sua língua.
Em
1717 indicam-se 41 cidades para os ciganos fixarem
residência, em 1726 os ciganos são proibidos de
apelarem a um tribunal superior e em 1731 começa
a inspeção das residências ciganas para verificar
se obedecem às ordens e é proibido o comércio com
os ciganos; falta de zelo na aplicação das leis
pode custar uma multa de 200 ducados. Em 1745 as
ordens são mais violentas: dentro de quinze dias
os ciganos têm que fixar residência nos lugares
indicados, é permitido disparar contra os ciganos
e matá-los, e as igrejas não podem mais dar asilo
a ciganos. No ano seguinte são acrescentadas outras
35 cidadas às 41 que já foram indicadas para residência
dos ciganos, mas as famílias ciganas serão distribuídas
na proporção de uma para cada cem habitantes e somente
uma família cigana para cada rua. Mais uma vez lhes
é proibido o uso da roupa tradicional e de sua língua.
Porém, nada disto foi suficiente para acabar com
a ‘praga cigana’ na Espanha.
Para
a perseguição aos ciganos, a Corôa espanhola sempre
pôde contar com o apoio da Igreja Católica, inclusive
quando se tratava da elaboração de estratégias genocidas.
E assim, em 1746, o Bispo de Oviedo propôs a primeira
razia cigana a nível nacional de que se tem notícia:
numa determinada noite, todos os ciganos, em toda
a Espanha, seriam presos e depois usados em trabalhos
forçados e seus bens vendidos. O rei aceitou o conselho
do bispo e o ataque foi realizado no fim de junho
de 1749, com apoio militar. Cerca de nove a doze
mil ciganos foram presos; muitos deles foram assassinados. O que a Igreja e a Corôa
não previram era o que fazer com tantos milhares
de ciganos presos. Houve quem propusesse a deportação
dos ciganos para as colônias, mas esta idéia não
chegou a ser aprovada. E assim, em pouco tempo,
tudo voltou ao “normal” e não restou outra alternativa
a não ser soltar a quase totalidade das famílias
ciganas.
Existia,
portanto, uma desesparada e, diga-se de passagem,
infrutífera, política de integrar os ciganos na
sociedade espanhola, através da eliminação de todas
as diferenças culturais (vestuário, língua, nome,
identidade, etc.). Os que não se transformassem
em bons cidadãos espanhois sedentários, eram expulsos
do país ou, em último caso, eliminados fisicamente.
Daí porque ainda em 1783 uma ordem repete apenas
textos anteriores: o vestuário, o modo de vida e
a língua são proibidos; todos os ciganos devem fixar
residência dentro de noventa dias; o nome ‘cigano’
é proibido e deve ser tirado dos documentos; punição
para os reincidentes: a morte.
Como
não podia deixar de ser, muitos ciganos fixaram,
compulsoriamente, residência nas cidades e passaram
a exercer outras atividades profissionais. Muitos,
também, devem ter sido condenados às galés ou à
morte. Mas os documentos deixam claro que muitos
ciganos se refugiaram em regiões inóspitas da Espanha,
ou então em outros países, como o vizinho Portugal.
No entanto, a Espanha não chegou a deportar ciganos
para suas colônias americanas, embora haja notícia
de ciganos deportados para a África. Antes pelo
contrário, em 1570 chegou-se até a proibir a entrada
de ciganos nas Américas, e em 1581, tendo notícia
que alguns ciganos secretamente tinham conseguido
emigrar e estavam perturbando os índios, o rei mandou
repatriá-los. Só que não conseguiram mais encontrar
os ciganos.
Em
Portugal as primeiras referências a ciganos aparecem
no final do Século XV e logo começa também a perseguição
aos ciganos. Em 1526 é proibida a entrada de ciganos
em Portugal e é decretada a expulsão daqueles que
já se encontravam no país. Em 1538, o rei, “Vendo
eu o prejuízo que se segue de virem a meus reinos
e senhorios ciganos, e neles andarem vagando pelos
furtos e outros malefícios que cometem e fazem em
muito dano dos moradores...”, proibe a entrada de
ciganos, devendo os transgressores serem presos,
publicamente açoitados e depois expulsos. Quem voltar,
deve ser novamente açoitado e “perderá tudo que
tiver e lhe for achado: a metade para quem o acusar,
e a outra metade para a Misericórdia (uma instituição
de, real ou virtual, “caridade” da Igreja Católica)
do lugar onde for preso”. Em 1557 é novamente proibida
a entrada de ciganos em Portugal e às penas já existentes
acrescenta-se a pena às galés para os homens ciganos.
Em
1579, num alvará sobre os ciganos, o rei novamente
ordena que os ciganos devem sair do país num prazo
de trinta dias, “e acabados os ditos trinta dias
qualquer cigano que for achado nos ditos meus reinos
por esse mesmo feito será logo preso e açoitado
publicamente no lugar onde for achado e degradado
para sempre para as galés posto que tenha provisão
do dito senhor Rei meu avo ou minha para poder estar
ou andar nestes reinos...”. Conforme se vê, havia
exceções e a alguns ciganos era permitido permanecer
no país, inclusive àqueles “que vivem bem e que
trabalham e não são prejudiciais, lhe poderão dar
licença, não permitindo que vivam juntamente em
um bairro, senão em bairros apartados [separados],
e que andem vestidos ao modo português...”. Em 1592,
sob pena de morte, os ciganos recebem um prazo de
quatro meses para sedentarizar-se ou então abandonar
o país.
Apesar
disto, havia ciganos que continuaram a perambular
pelo país, conforme prova um documento da Câmara
Municipal de Elvas, de 1597, que também mostra que
muitos crimes cometidos por portugueses eram atribuídos
aos ciganos:
“...
foi acordado que comvinha ao bem pubrico e quietaçã
desta cidade nã se comsemtirem nella os siganos
que os dias pasados se vierã avisinar com precatorio
do corregedor do crime da Sidade de Lisboa, por
quanto desde dito tempo pera ca se tinha feito muitos
furtos de bestas e outras coizas e amdava a gente
da sidade tã escamdalizada que se temia hum mutim
comtra elles, maiormente depois que ouve alguns
furtos que conhesidamente se soube serem feitos
por elles; posto que as testemunhas nã sabem expesificaidamente
quais dos ditos siganos o fizesse; e alem diso por
esta cidade ser de gemte belicoza e da raia e acim
de comtino acomtesem muitos crimes de diverças maneiras,
os quais se emcobrem dibaicho desta capa de diserem
que os fiserã os siganos, pello que determinarã
que fossem noteficados que demtro em tres dias se
saicem desta cidade....”.
Uma
ordenação de 1603, com o título: “Que não entrem
no Reino Ciganos, Armenios, Arabios, Persas, nem
Mouriscos de Granada”, proibe novamente a entrada
de ciganos e prevê pena de açoites e sua posterior
expulsão, independente de terem cometido algum crime
ou não. E se não sairem, ou voltarem, como já foi
dito em 1538, serão outra vez açoitados e perderão
seus bens (metade para o acusador e metade para
a Misericórdia). A mesma punição valia também para
os portugueses que andavam com os ciganos, e que
além disto seriam degredados dois anos para a África.
Num
documento de janeiro de 1613, o rei Dom Philipe
lembra a existência de um alvará de 1606, contra
os ciganos, e que não estava sendo cumprido, da
mesma forma como outras ordenações, “nem as penas
que nelas se declaram são bastantes para eles sairem
fora do Reino, antes continuam em roubos e danos,
que fazem a meus vassalos com geral escândalo, sendo
tudo em grande prejuízo seu, e dano do Reino....”.
Diante disto, o rei edita um novo álvará, em que
solicita que suas ordens sejam rigorosamente cumpridas,
e aumenta as penas para os ciganos: se presos pela
primeira vez, açoites e três anos de galés; na segunda
vez, açoites e seis anos de galés; na terceira vez,
açoites e dez anos de galés. O número de açoites
aparentemente ficava a critério dos juizes que “darão
[aos ciganos] tempo conveniente (que não passará
de um mês) para que se saiam do Reino”.
Parece
que, mais uma vez, pouco adiantou, porque já em
setembro do mesmo ano acrescenta-se: “E porque sou
informado, que o dito Alvará se não cumpre e executa,
e que andam muitos ciganos por este Reino vagando
em quadrilhas cometendo muitos excessos e desordens
...”. E mais uma vez o Rei solicita que suas ordens
sejam cumpridas, dando-se aos ciganos um prazo de
quinze dias para deixar o país, “sem embargo de
quaisquer licenças que tenham para nele residirem,
posto que sejam por mim assinadas, ou que lhes fossem
passadas cartas de vizinhança, as quais todas anulo
e as hei por de nenhum efeito. E passado o dito
termo de quinze dias se executará em quaisquer ciganos,
que forem achados, a pena de açoites e galés, pela
maneira que no dito alvará se declara; e nas mulheres
a pena de açoites somente”.
Conforme
se vê, todos os documentos oficiais portugueses
ordenavam aos ciganos sair do país. Mas abandonar
o país como, se Portugal só tem limites terrestres
com um único país, a Espanha, onde os ciganos também
eram perseguidos? Os ciganos portugueses simplesmente
não tinham para onde fugir, e o governo português
não tinha para onde expulsá-los na Europa. Daí talvez
porque em 1649 seria ordenada a deportação dos ciganos
para as colônias ultramarinas. Num alvará daquele
ano, o Rei reconhece o fracasso das leis anteriores,
pelo que manda prender os ciganos e deportá-los
para as colônias:
“Eu
El Rey ..... por se ter entendido o grande prejuizo
e inquietação que se padece no Reino com huma gente
vagamunda que cõ o nome de siganos andam em quadrilhas
vivendo de roubos enganos e imbustes contra o serviço
de Deus e meu. Demais das ordenações do Reino, por
muitas leis e provisões se precurou extinguir este
nome e modo de gente vadia de siganos com prizoens
e penas de asoutes, degredos e galés, sem acabar
de conseguir; e ultimamente querendo Eu desterrar
de todo o modo de vida e memoria desta gente vadia,
sem asento, nem foro nem Parochia, sem vivenda propria,
nem officio mais que os latrocinios de que vivem,
mandey que em todo Reino fossem prezos e trazidos
a esta cidade [Lisboa], onde serião embarcados e
levados para servirem nas comquistas divididos.....”
.
Exceção
feita apenas para os mais de 250 ciganos que estavam
servindo no exército português, nas fronteiras,
e um dos quais um documento de 1646 elogia bastante:
“[O cigano] Jeronimo da Costa..... serviu a V. Majestade
três anos contínuos nas fronteiras do Alentejo,
com suas armas e cavalo, tudo às suas custas, sem
levar soldo algum, franca e fidalgamente ..... até
que na Batalha do Campo de Montijo foi morto com
muitas feridas, pelejando sempre mui esforçadamente”
.
Infelizmente, o abnegado heroismo deste e de outras
centenas de ciganos em defesa da ingrata pátria
portuguesa - por ser uma característica positiva
- nunca passou a ser um estereótipo sobre os ciganos
lusitanos ou os ciganos em geral. Já naquele tempo,
como ainda hoje, os estereótipos costumavam lembrar
apenas a qualidades negativas: quando um cigano
faz algo positivo, ele é citado nominalmente, como
caso único, como exceção; quando algum cigano comete
um crime, seu nome não costuma ser citado e trata-se
apenas de “um cigano”, que apenas confirma a suposta
regra de que todos os ciganos são criminosos, e
nunca será considerado uma exceção entre outros
tantos ciganos honestos.
Inicialmente
os ciganos eram deportados para as colônias africanas,
principalmente para Angola e Cabo Verde, talvez
por estarem geograficamente mais próximas, mas em
1686 uma Provisão muda o degredo da África também
para o Maranhão, no Brasil:
“E
quanto aos que já são naturais, filhos e netos de
portugueses (porém com hábito, genero e vida de
ciganos), os obrigareis a tomarem domicilio certo,
donde não poderão sair nem mudar sem minha especial
licença, nem possam andar vagabundos em quadrilhas
pelo reino ..... e em aqueles que encontrarem a
Lei sobre eles estabelecida a fareis executar na
forma que nela se contém, com declaração que a dita
Lei dá para África sejam para o Maranhão” .
A
ordem é repetida em outro decreto do mesmo ano:
“Tenho resoluto que com os ciganos e ciganas se
pratique a Lei, assim nesta Corte, como nas mais
terras do reino; com declaração que os anos que
a mesma Lei lhes impõem para África, seja para o
Maranhão”. Mais uma vez, aparentemente tudo em vão,
porque num documento de 1694 o Rei informa “....
que os ciganos nascidos neste Reino continuam em
seus excessos e delitos, sem tomarem genero de vida
nem ofício de possam sustentar-se, vivendo arranchados
e juntos em quadrilhas, trazendo os mesmos hábitos
e trajes de ciganos, sem terem domicílio certo ...”.
Ordena então que os ciganos saiam de Portugal dentro
de dois meses, “com pena de morte e passado o dito
termo serão havidos por banidos, e se praticará
com eles a pena do banimento na forma da lei, assim
e do mesmo modo que tenho resoluto com os ciganos
castelhanos que entraram neste Reino...”.
Ainda
no mesmo ano, em outro documento, o rei Dom Pedro
volta a falar da imigração de ciganos espanhois,
e repete praticamente as mesmas ordens do documento
anterior:
“...
por quanto sou informado que pelas raias deste Reino
tem entrado muitos ciganos castelhanos, os quais
haviam cometido muitos e vários crimes, e porque
convém evitar o grande prejuizo que de homens tão
licenciosos e criminosos se pode seguir aos meus
vassalos. Hei por bem e vos mando que ..... todos
que tiverem entrado neste Reino saiam dele em termo
de dois meses, com pena de morte, e passado o dito
termo serão havidos e banidos e se praticará com
eles a pena de banimento na forma da lei...” .
Em
1708, mais uma vez é dito que os ciganos que se
recusassem a obedecer às ordens seriam punidos com
açoites e degredados pelo tempo de dez anos:
“Hei
por bem, e mando que não haja neste Reino pessoa
alguma de um, ou de outro sexo, que use de traje,
língua, ou giringonça [dialeto] de ciganos, nem
de impostura das suas chamadas buenas dichas;
e outrosim, que os chamados Ciganos, ou pessoas
que como tais se tratarem, não morem juntos mais,
que até duas casas em cada rua, nem andarão juntos
pelas estradas, nem pousarão juntos, por elas, ou
pelos campos, nem tratarão em vendas, e compras,
ou troca de bestas, senão que no traje, língua e
modo de viver usem do costume da outra gente das
Terras; e o que contrário fizer, por este mesmo
fato, ainda que outro delito não tenha, incorrerá
na pena de açoites, e será degradado por tempo de
dez anos; o qual degredo para os homens será de
galés, e para as mulheres, para o Brasil” .
Ou
seja, pelo menos segundo este documento de 1708,
apenas as mulheres ciganas (talvez com seus filhos
menores, mas certamente sem os seus maridos e filhos
maiores, condenados às galés), eram deportadas para
o Brasil, onde comprovadamente existia uma enorme
escassez de mulheres “brancas” para os colonizadores
portugueses que não quisessem ou, dependendo de
sua posição social, não pudessem “casar” com uma
índia ou com uma escrava negra africana, por sinal,
um “casamento” durante muito tempo proibido.
Em
vários documentos citados acima há referência à
pena de morte. No entanto, ao contrário da Espanha
e de outros países europeus, Portugal parece ter
evitado ao máximo a pena da morte, preferindo o
banimento dos ciganos para suas colônias ultramarinas,
na África ou no Brasil.
Capítulo
3
A SEGUNDA ONDA MIGRATÓRIA.
A
Segunda Onda Migratória de ciganos para o Ocidente
ocorreu a partir de meados do Século XIX, após a
abolição da escravidão cigana na atual Romênia (então
Moldávia e Waláquia). No entanto, esta não pode
ser considerada a única causa desta nova onda migratória,
inclusive porque muitos ex-escravos ciganos continuaram
trabalhando para seus antigos proprietários, em
condições não muito diferentes das anteriores. Ainda
hoje a população cigana romena é uma das maiores
da Europa.
Outros
fatores que certamente também influenciaram, foram
a miséria em que viviam enormes parcelas da população
rural e urbana européia no final do Século XIX e
início do Século XX, além das duas Guerras Mundiais
que provocarem enormes migrações internas e externas,
e que fizeram com que milhões de europeus procurassem
melhores condições de vida em outros países, ou
até em outros continentes. Entre estes migrantes
com certeza encontravam-se também ciganos Rom, embora
nunca (auto) identificados como tais, porque apresentavam
passaportes alemães, italianos, romenos ou de outras
nações, pelo que hoje é impossível saber quantos
ciganos entraram num determinado país examinando
os registros de entrada de "imigrantes estrangeiros".
A declarada (suposta ou real) identidade nacional
de origem é uma coisa; outra coisa bem diferente
é a identidade étnica, nunca declarada porque nunca
solicitada a ser declarada.
Na
Europa Ocidental, a chegada destes milhares de novos
migrantes ciganos oriundos do Leste fez com que
alguns países criassem ou repensassem suas políticas
ciganas. De um modo geral, estas políticas serão
anti-ciganas, culminando na Alemanha nazista com
o holocausto cigano. E mesmo após a II Guerra Mundial
as minorias ciganas continuaram sendo discriminadas,
apesar de inúmeras recomendações bem intencionadas
a favor dos ciganos feitas por órgãos internacionais
como a Organização das Nações Unidas ou o Conselho
da Europa.
A
Terceira Onda Migratória inicia a partir do colapso
dos regimes comunistas na Europa do Leste, a partir
de 1989, quando novamente dezenas de milhares de
ciganos migram ou se refugiam na Europa Ocidental
ou nas Américas. E mais uma vez, na mesma proporção
crescerá também o anti-ciganismo.
Sobre
o total da atual população cigana na Europa Ocidental
existem apenas estimativas. Isto em parte porque
os censos demográficos não costumam incluir perguntas
sobre a identidade étnica das pessoas. E mesmo
se o fizessem, com certeza muitos ciganos negariam
sua identidade, com medo de posteriores discriminações
e perseguições.
Acrescenta-se
ainda um outro problema: em muitos países os censos
incluem os ciganos numa categoria mais ampla de
indivíduos, existentes há séculos e inclusive antes
da chegada dos assim chamados ciganos, que também
têm uma vida nômade, mas que não são ciganos.
Na Inglaterra estas pessoas são denominadas "viajantes",
na França "gente de viagem" ou "pessoas
sem domicílio fixo", na Holanda
"moradores de trailers". Outras
minorias nômades não-ciganas, existentes na Europa
há séculos e que falam línguas próprias, são os
Tynker irlandeses, e os Jenisch, de origem alemã,
mas hoje encontrados também na França e na Itália.
Na
França calculou-se, em 1991, a existência de cerca
de 250.000 "gens du voyage" (gente de
viagem), termo que inclue ciganos e não-ciganos
sem residência fixa. Mas, apesar do nome, apenas
70.000 eram realmente nômades, 70.000 eram semi-nômades
e cerca de 110.000 eram sedentários.
Não se sabe quantos deles são ciganos e quantos
são não-ciganos. Segundo Delamon: "Não existem
dados cientificamente levantados e suficientemente
detalhados sobre os ciganos. Isto, porque a sociedade
cigana não se apresenta de maneira homogênea e
não é fácil determinar seus limites". Daí talvez porque na França
não existem leis específicas para os ciganos, mas
apenas uma ampla legislação para gente de viagem
e pessoas sem domicílio fixo, legislação esta válida
também para os ciganos.
Também
na Holanda, os números oficiais incluem, além dos
ciganos, ainda outras pessoas que levam ou levavam
uma vida nômade (atualmente a quase totalidade delas
é sedentarizada). São os "habitantes-de-trailers"
(woonwagenbewoners),
pessoas de nacionalidade holandesa, que têm ou
tinham uma vida nômade, geralmente devido às suas
atividades econômicas (artesões, circos, parques
de diversões etc.), ou que apenas moram em trailers,
quase sempre por motivos econômicos (não têm casa
própria e não podem ou não querem pagar aluguel).
Não constituem, portanto, um grupo étnico diferenciado,
mas apenas um grupo social com características
próprias. A partir do início do Século XX foram-lhes
indicados locais especiais para acampamento
na periferia das cidades e vilas, o que aumentou
ainda mais a sua marginalidade. Muitas vezes são
confundidos com ciganos, já que seu estilo de
vida é praticamente idêntico. Apesar disto, não
se consideram ciganos, nem são considerados
ciganos pelos ciganos autênticos ou pelos holandeses
em geral. A população nômade total é avaliada em
cerca de 20.000 a 35.000 pessoas, das quais apenas
umas 4.000 são ciganos. Os “ciganos holandeses”
(com nacionalidade holandesa) estão sujeitos às
leis comuns que valem para qualquer cidadão holandês;
para os “ciganos estrangeiros” vale a legislação
sobre estrangeiros; não existe uma legislação
específica para ciganos.
Na
Grã-Bretanha, Acton
distingue nada menos do que dezoito denominações
usadas para designar ciganos e nômades, mas que
hoje preferem auto-denominar-se ‘romani’, no caso
dos ciganos, ou ‘viajantes’ (travellers),
no caso de nômades ciganos e não-ciganos, por causa
da imagem negativa atribuída ao termo ‘cigano’,
e a discriminação decorrente disto.
E
para completar as incertezas demográficas: todos
estes cálculos sobre ciganos não costumam incluir
os ciganos que residem em casas ou apartamentos,
porque não há como obter informações confiáveis
sobre eles, nem sequer em censos oficiais, pelo
que normalmente se conta apenas o número de trailers
estacionados nos acampamentos, e estima-se 3 a 5
habitantes por trailer.
Uma
recente estimativa é a de Liégeois que obteve seus
dados através de renomados ciganólogos europeus.
Mesmo assim, os números por ele apresentados incluem
viajantes ciganos e não-ciganos porque, como
ele informa: "a distinção entre ciganos e
viajantes nem sempre é clara, e a pergunta quem
é cigano e quem é viajante não encontra resposta
e em certos contextos é de nenhuma importância:
grupos intermediários podem ter-se formado há
muito tempo e continuam a ser formados".
Segundo
Liégeois, em 1994 a população nômade cigana e não-cigana
na Europa Ocidental seria: Alemanha 110 a 130.000;
Aústria 20 a 25.000; Bélgica 10 a 15.000; Dinamarca
1.500 a 2.000;
Espanha 650 a 800.000; França 280 a 340.000;
Holanda 35 a 40.000; Irlanda 22 a 28.000; Itália
90 a 110.000; Noruega 500 a 1.000; Portugal 40 a
50.000; Reino Unido 90 a 120.000; Suécia 15 a 20.000;
Suiça 30 a 35.000.
Repetimos
mais uma vez: todos estes números se referem não
à população cigana, mas apenas e tão somente à população
nômade cigana e não-cigana! Sobre o total da população
cigana nômade, semi-sedentária e sedentária, na
realidade ninguém sabe absolutamente nada com certeza
e muitos "ciganólogos" europeus apresentam
números completamente diferentes, maiores ou menores.
Por isso, também as estimativas da população cigana
européia (incluindo a Europa Oriental) variam enormemente,
de 2 a 15 milhões de pessoas. Para o desespero dos
demógrafos, ainda hoje os ciganos são um verdadeiro
enigma, uma população na realidade impossível de
ser contada em qualquer país do mundo. Mesmo na
Europa, quase sempre as estimativas sobre a população
cigana são feitas apenas na base do 'chutômetro',
adivinhando-se ou fantasiando-se um número qualquer,
sem qualquer base empírica, sem que tenha sido realizada
qualquer pesquisa demográfica séria e confiável.
Na maioria das vezes, as informações demográficas
ciganas não passam de mera fantasia, quando não
de mentiras ou dados propositalmente falsificados.
Difícil,
praticamente impossível, é generalizar sobre o anti-ciganismo
na Europa Ocidental a partir de meados do Século
XIX, porque as políticas e legislações anti-ciganas
diferem consideravelmente de um país para outro.
Sobre vários países praticamente não existem informações.
Diante da impossibilidade prática de tratarmos aqui
de todos os países da Europa Ocidental, vejamos
sumariamente o anti-ciganismo apenas na Holanda
e na França, de meados do século XIX até os dias
de hoje. O
anti-ciganismo alemão será visto num capítulo separado.
Ciganos
na Holanda.
Somente
em 1868 apareceram novamente notícias sobre “ciganos”
na Holanda, a saber, sobre caldeireiros húngaros
(Kalderash) e domadores de ursos (Ursari) da Bósnia
que logo passaram a ser chamados “ciganos”.
Viajavam em grupos familiares; os Kalderash
dormiam em tendas, os Ursari ao ar livre. O governo
central logo os classificou como indesejáveis, mas
as autoridades locais - prefeitos e delegados policiais
- não registraram queixas, porque estes ciganos
trabalhavam honestamente para ganhar o seu sustento
e viviam até numa situação econômica razoavelmente
boa. A maioria destes Kalderash e Ursari não se
fixou na Holanda; ao que tudo indica, pelo menos
uma parte deles tentou migrar para a Inglaterra
(e de lá certamente para os Estados Unidos), onde
também não foram bem recebidos, pelos próprios ciganos
ingleses.
No
início do Século XX registra-se na Holanda a presença
de comerciantes de cavalos (Lovara), músicos e artistas
(Sinti) que, como possuíam passaportes de outros
países europeus, inicialmente não foram identificados
como ciganos e por isso também não foram perseguidos.
Isto porque a Lei dos Estrangeiros de 1849 permitia
a entrada de estrangeiros com passaportes e meios
de sobrevivência. O fato de sua entrada no país
ter sido permitida, prova que estes ciganos possuíam
meios honestos de subsistência, provavelmente como
comerciantes, artesões ou artistas. Em 1904, no
entanto, o Ministério responsável por este assunto,
numa circular secreta, pediu aos prefeitos para
ignorar esta lei quando se tratasse de ciganos,
e de expulsá-los de qualquer forma do país. A Polícia
de Fronteira, subordinada ao Ministério, recebeu
ordens para agir com mais rigor contra os ciganos,
que passaram a ser considerados “estrangeiros indesejados”.
Consta que a polícia de fronteira de fato agia com
rigor, muitas vezes até excessivo, mas as prefeituras
e suas polícias locais, de um modo geral, ignoraram
a circular.
No
Século XIX, na medida em que melhoram suas condições
de vida, os vendedores e artesões ambulantes não-ciganos,
como também os ciganos, começam a usar carroças
puxadas por cavalos para transportar suas mercadorias
ou ferramentas de trabalho. Aos poucos estas carroças
passam a ser cobertas com lona e usadas também para
dormir, e finalmente para morar. Estas casas-sobre-rodas
(woonwagens) são inicialmente bem precárias, e os ciganos e viajantes
costumam estacioná-las em qualquer lugar, de acordo
com suas necessidades, o que leva o governo holandes
a editar uma lei, a Woonwagenwet
de 1918, que, entre outras coisas, exige o emplacamento
e licenciamento das carroças, regulamenta seu tamanho,
divisões internas, materiais de construção, etc.
Mas também não permite mais a expulsão dos viajantes
e ciganos pelas autoridades municipais, como estas
costumavam fazer antes, e obriga as prefeituras
a indicar lugares de estacionamento fixos e a construir
acampamentos devidamente equipados com energia elétrica,
água e instalações sanitárias, escola, igreja, casa
comunitária etc.
A
situação piorou a partir de 1928, quando um funcionário
do Ministério de Relações Exteriores observou uma
cigana viajando num bonde numa cidade no sul do
país, na fronteira com a Alemanha. Irritado, solicitou
explicações às polícias local e regional e exigiu
a deportação da cigana e de sua família. Ficou então
sabendo que não havia como nem por quê expulsar
estes ciganos, porque eram pacatos cidadãos holandeses
e pertenciam a uma família sedentária bem conhecida
e ordeira que vivia há muito tempo na região, com
todos os documentos e licenças em ordem.
Inconformado,
o funcionário iniciou então, no Serviço de Estrangeiros,
o fichamento de todos os ciganos na Holanda, mesmo
daqueles que tinham comprovada nacionalidade holandesa.
Nasceu assim a Central Cigana que nos anos 30 reunia
dados pessoais, impressões digitais e retratos de
todos os ciganos conhecidos na Holanda.
Durante
a II Guerra Mundial, os ciganos e viajantes foram
proibidos de circular livremente pelo país e deviam
estacionar seus woonwagens
em grandes acampamentos em municípios indicados
pelo governo. Temendo perseguições, muitos ciganos
e viajantes abandonaram por isso seus woonwagens
e foram morar em casas, pelo menos temporariamente.
Por causa disto, muitos ciganos escaparam da deportação
para os campos de concentração. Outros não tiveram
a mesma sorte: em maio de 1944, 245 ciganos foram
deportados para o campo de extermínio em Auschwitz-Birkenau;
somente 31 voltaram vivos.
Terminada
a guerra, estes ciganos sobreviventes do holocausto
e as poucas centenas de outros ciganos ainda residentes
na Holanda receberam, como uma espécie de prêmio
de consolação, a nacionalidade holandesa. Seus descendentes,
cujo número em meados da década de 90 tinha aumentado
para quase uns três mil, ficaram conhecidos como
“ciganos holandeses”, em oposição aos “ciganos estrangeiros”,
ciganos do Leste que vieram a partir da década de
70, e principalmente na década de 90.
Na
Holanda, na década de 70 há registro de ciganos
oriundos da Iugoslávia, Hungria e Tchecoslováquia.
A partir de então evidencia-se uma clara política
anti-cigana do governo holandês que fará todo o
possível para expulsá-los do país e evitar a entrada
de outros ciganos. O maior medo das autoridades
holandesas era que, se tratasse bem os ciganos,
logo a notícia se espalharia pela Europa e o país
seria inundado por hordas ciganas de outros países.
Por isso a política geral será tratar os ciganos
apenas suficientemente bem para não causar escândalos
na imprensa nacional e internacional, e suficiente
mal para não transformar o país num paraíso para
ciganos das origens mais diversas. Um exemplo seguido
depois por muitos outros países europeus.
Inicialmente,
em novembro de 1971, há notícia de uns oitenta ciganos
da família Hopic, em Amsterdam. Antes já tinham
viajado pela Italia, França e Bélgica, de onde sempre
foram expulsos. Só não foram expulsos logo de Amsterdam,
porque muitos deles estavam doentes, mas já em março
de 1972 foram colocados num avião e repatriados
(deportados) compulsoriamente para a Iugoslávia,
seu país de origem.
Mas
a família Hopic deve ter gostado de Amsterdam, porque
em outubro de 1973, cerca de trinta deles estão
novamente na cidade e inicia-se então uma longa
discussão sobre o que fazer com estes "ciganos
estrangeiros". Os Hopic recebem uma licença
para permanência temporária e são colocados num
dos acampamentos fixos para ciganos e viajantes
holandeses. E enquanto os burocratas holandeses,
em intermináveis reuniões, discutem o que fazer,
os "ciganos estrangeiros" têm um conflito
armado com "ciganos holandeses" e em 1974
deixam o país, para grande alívio das autoridades
holandesas.
A
tranquilidade não duraria muito. Já no ano seguinte
registra-se em Amsterdam uma nova (assim chamada)
“praga cigana”, a saber 42 trailers com ciganos
oriundos da Europa Oriental, aos quais depois se
juntariam ainda outros, totalizando cerca de 400
pessoas. Queixas sobre sua conduta criminosa fazem
com que um delegado da polícia de Amsterdam invente
um método mais rápido e menos burocrático para livrar
a cidade dos ciganos: aqueles ciganos contra os
quais existem queixas, mesmo sem processo ou julgamento
algum, são simplesmente colocados num caminhão,
junto com suas famílias e seus trailers, e transportados
até a fronteira onde ingressaram no país e, como
estrangeiros ilegais, são expulsos para o pais vizinho.
Outra
família cigana, os Romanov, com cerca de 70 pessoas,
oriundos da Europa Oriental mas viajando com documentos
italianos falsos, decide abandonar a Holanda por
livre e espontânea vontade, e em 1976 atravessa
a fronteira com a Alemanha, ao que tudo indica clandestinamente.
Logo são presos como imigrantes ilegais e o governo
alemão inicia um processo para devolvê-los para
a Holanda, que se recusa a recebê-los de volta,
alegando que os Romanov não possuem nacionalidade
holandesa. Entretanto, devido a um acordo internacional
entre ambos os países, a Holanda, depois de muita
relutância, é obrigada a receber os Romanov de volta.
Era somente isto que os Romanov queriam e conseguiram!
Organizações
Não-Governamentais pró-ciganas solicitam então ao
governo holandes a legalização da situação não somente
dos Romanov, mas ainda de outras cinquenta famílias
ciganas estrangeiras, e fornecer-lhes licenças de
permanência. A proposta não agrada às autoridades
que, mais uma vez, temem que isto estimularia a
imigração de outros milhares de ciganos estrangeiros.
Por isso, em agosto de 1977, o governo holandes
tenta ainda deportar um outro grupo de 73 ciganos
para a França., porque a vizinha Bélgica também
não quer receber estes ciganos, mas se prontifica,
gentilmente, a escoltá-los até a fronteira francesa
(apenas para ter certeza que nenhum deles ficaria
na Bélgica). Na fronteira ocorre uma violenta briga
com a polícia francesa, e todos os ciganos são obrigados
a voltar para a Holanda.
Não
sabemos por quê, mas de repente o governo holandês
tem então uma crise de consciência, lembra a perseguição
dos ciganos durante a II Guerra Mundial e invoca
motivos humanitários. E assim, no final de 1977,
450 ciganos estrangeiros são “legalizados” e recebem
licença de permanência. Mas, acrescenta o Governo,
esta seria também a última vez e daqui em diante
não seriam mais admitidos ciganos estrangeiros no
país, nem sequer os parentes dos agora legalizados,
e todos os ciganos que daqui em diante conseguissem
ilegalmente entrar no país seriam imediatamente
deportados.
Nada
é mais fácil do que entrar ilegalmente na Holanda,
pelo que em 1980 registra-se mais uma vez a presença
de cerca de 300 ciganos “ilegais” em Amsterdam.
Diante das ameaças de deportação, os próprios ciganos
resolvem dirigir-se até a fronteira com a Alemanha
e a Bélgica, sabendo que lá também serão rejeitados,
como de fato aconteceu. E assim a Holanda vê-se
mais uma vez às voltas com sua “praga cigana”.
Impossibilitado
de deportar os ciganos por vias legais, já que nenhum
país vizinho quer recebê-los, o governo holandês
apela então para os serviços de uma conhecida Organização
Não-Governamental cigana que, entre outras coisas,
é especializada em contrabandear ciganos para dentro
ou para fora do país. Por intermédio desta organização,
composta de tradicionais “ciganos holandeses”, pouco
solidários com, ou até inimigos dos novos “ciganos
estrangeiros” da Europa Oriental, e com conhecimento
do Ministério da Justiça, o governo holandês consegue
assim deportar (contrabandear) ilegalmente pequenos
grupos ciganos para a Bélgica. Muitos ciganos ilegais
saem por conta própria; e outros simplesmente continuam
na Holanda.
Desde
então, a política governamental não sofreu grandes
modificações. Após a II Guerra Mundial voltou a
vigorar a Woonwagenwet
de 1918 que ainda permitia viajar livremente.
Mas por causa das reclamações da população, resolveu-se
criar uma nova lei para limitar a liberdade de movimento
dos ciganos e viajantes, o que resultou na nova
Woonwagenwet
de 1968, que reintroduziu os acampamentos obrigatórios
(conforme ex-modelo nazista, embora agora em menor
escala e com alguns benefícios adicionais). Ao todo
foram planejados 50 acampamentos para 50 a 80 trailers
cada, com escola própria, assistência médica e social,
água e energia elétrica. Viajar ainda era permitido,
mas para mudar de um acampamento para outro era
necessário obter uma licença. A concentração de
muitas pessoas que se dedicavam à mesma profissão,
as inúmeras restrições legais ao comércio ambulante
e às outras tradicionais atividades dos nômades,
e a localização em áreas periféricas, distantes
dos centros urbanos, levou ao empobrecimento dos
ciganos e viajantes.
Por
isso, na década de 70, a Woonwagenwet
sofreu várias modificações e iniciou-se a política
da criação de acampamentos menores para 10 a 15
trailers, mais perto ou até dentro dos centros urbanos,
com o que, inclusive, se tornaria desnecessário
ter serviços especiais (escolas, igrejas, postos
de saúde etc.) só para os ciganos e viajantes, já
que estes agora poderiam usufruir dos serviços gerais.
Como em 1968, os interessados - ciganos e viajantes
- não foram consultados e mais uma vez reclamaram,
exigindo o direito de eles próprios decidirem sobre
a localização e o tamanho dos acampamentos, já que
nem para todos estes pequenos acampamentos eram
os mais adequados. Nos pequenos acampamentos não
havia, por exemplo, possibilidade alguma de receber
visitas mais prolongadas de parentes e amigos por
ocasião de enterros, batizados, casamentos ou festas.
E principalmente queriam receber de volta o direito
de circular livremente pelo país, algo até hoje
proibido.
Nestes
acampamentos holandeses - que se destinam a cerca
de 4.000 ciganos e cerca de 25.000 a 30.000 viajantes
não-ciganos - os ciganos costumam ser discriminados
pelos viajantes e por isso acampar juntos, num canto
do acampamento, separados dos não-ciganos. Para
a população holandesa, no entanto, que observa os
acampamentos apenas de longe (porque poucos holandeses
têm coragem de entrar num acampamento deste), é
tudo as mesma coisa porque de longe, e também de
perto, não há como saber quem é cigano ou não-cigano;
os trailers são idênticos e ciganos e não-ciganos
têm hábitos praticamente idênticos.
Idênticas
são, por exemplo, também as idéias que ambos os
grupos têm sobre a propriedade alheia. O motivo
é simples: ao proibir a livre circulação, o governo
acabou praticamente com a economia dos ciganos e
viajantes, que já não ia tão bem por vários outros
motivos, como a crescente industrialização e a mecanização
das atividades agrícolas. Hoje a quase totalidade
dos ciganos e viajantes na Holanda é pobre e vive
pendurada na assistência social que, apesar de ser
eficiente, nem sempre é suficiente para satisfazer
as sempre crescentes necessidades.
Umas e outras levam a um maior índice de
pequenos furtos, ou "ladroagem de subsistência",
uma prática pela qual principalmente os ciganos
são famosos e temidos há séculos. E assim, mais
uma vez reforça-se a imagem do cigano ladrão, embora
seja ladrão por necessidade. Da "ladroagem
de subsistência" ao tráfico de drogas ou outras
atividades ilegais, é apenas um pequeno passo, entre
ciganos e não-ciganos.
Entende-se
assim porque os municípios que aceitam criar acampamentos,
sempre solicitam ao governo central verbas especiais
para equipar melhor suas polícias. Ou seja, cigano
(e viajante) continua, por definição, sendo caso
de polícia, e queixas sobre sua criminalidade são
constantes. Por outro lado, quando se trata de ciganos,
classifica-se como “crime” qualquer infração de
menor importância. Um dos municípios, para justificar
a contratação de mais policiais, informava que nos
primeiros dez meses de 1985 os ciganos foram 122
vezes condenados por crimes. Só que uma análise
destes “crimes” mostrou que em quase todos os casos
se tratava de simples brigas por causa de embriaguez,
dirigir sem carteira de motorista, não ter atualizado
os documentos do carro ou não respeitar as leis
do trânsito, infrações simples normalmente punidas
com uma multa financeira, mas nunca classificadas
como “crime”, a não ser e exclusivamente quando
se trata de ciganos.
Por
isso, na Holanda, quem cuida dos ciganos é a polícia,
e não educadores ou assistentes sociais porque,
para o governo, cigano é um criminoso confesso ou
em potencial, que precisa ser constantemente vigiado;
cigano é uma praga cuja entrada no país deve ser
impedida ao máximo; cigano é um mal necessário que,
se possível, deve ser expulso para os países vizinhos.
Só que os países vizinhos têm exatamente a mesma
política anti-cigana, pelo que fazem todo o possível
para expulsar os seus ciganos para a Holanda e não
aceitam que ciganos holandeses ultrapassam suas
fronteiras.
Até
hoje, os ciganos continuam párias indesejados e
odiados na Holanda. Basta ler a carta que a prefeitura
de Amsterdam em 1994 enviou a cerca de oitenta ciganos
recém chegados da ex-Iugoslávia, e na qual se informava
que eles estavam na cidade temporariamente como
hóspedes do povo holandês, e que por isso deviam
ter um “comportamento adequado”: não era permitido
furtar, bater carteiras ou cometer outros crimes,
mendigar, torturar ou matar animais, destruir objetos
ou jogar pedras; também era proibido vender mercadorias
e usar o terreno para exercer atividades profissionais.
Por causa dos protestos de uma organização anti-racista,
o prefeito foi obrigado a pedir desculpas aos ciganos.
Mesmo assim, seis meses depois a polícia começou
a repatriação destes ciganos para a Macedônia e
a Croácia, negando-lhes o status de refugiados,
conforme as convenções da Comunidade Européia, válidas
apenas para não-ciganos.
Apesar
de tudo isto, vários autores não-holandeses costumam
citar a Holanda, junto com a Suécia, como o país
que na atualidade trata melhor os seus ciganos e
cujos acampamentos fixos costumam ser apresentados
como modelo para os outros países da Europa.
O que prova, apenas, que a situação dos ciganos
em outros países é pior ainda.
Ciganos
na França.
Numa
volumosa coletânea, Charlemagne e Pigault reuniram,
em 1990, 164 leis, decretos, circulares, portarias
e outros documentos editados, a partir de 1912,
a respeito dos ciganos e outros viajantes franceses
- naquele país mais conhecidos como “os SDF”, ou
seja, os “Sans Domicile Fixe” - , além de alguns
documentos da então Comunidade Européia (hoje União
Européia).
E embora na França não exista uma legislação
cigana propriamente dita, todos estes documentos
tratam direta- ou indiretamente de assuntos de interesse
cigano. Nada menos do que 27 documentos regulamentam
as atividades ambulantes (e muitos ciganos são vendedores
ambulantes); 22 documentos legislam sobre áreas
de estacionamento (frequentadas também por ciganos);
16 documentos regulamentam a carteira de circulação
para as pessoas sem residência fixa (entre as quais
muitos ciganos); 15 documentos falam da escolarização
de crianças nômades (de interesse também para as
crianças ciganas). Somente estes quatro itens já
perfazem 80 documentos, quase a metade do total
de 164. Existem ainda documentos sobre o código
de urbanismo, o funcionamento de ‘ferros-velhos’,
trailers, estrangeiros, etc., ou seja, todos documentos
que também dizem respeito a muitos ciganos, mas
que não foram feitos exclusivamente para os ciganos.
Não há como acusar o governo francês de discriminar
os ciganos mais do que os outros viajantes; as leis
parecem ser feitas para dificultar ao máximo a vida
dos cidadãos nomades “sem domicílio fixo”, ciganos
e não-ciganos, mas todos são igualmente maltratados,
sem distinção.
A
primeira Lei citada é de 1912 que regulamenta o
exercício de profissões ambulantes e a circulação
dos nômades e cria o odiado “carnet anthropometrique
d’identité”, uma espécie de carteira de identidade
ou passaporte com dados pessoais, descrição detalhada
de características físicas, retrato, impressões
digitais etc. que devia ser apresentado e carimbado
ao chegar num novo município. As carteiras eram
individuais, mas o chefe da família devia ter ainda
uma carteira coletiva para todos os membros de sua
família. Este “carnet” só seria abolido em 1969.
Como
os ciganos, na opinião dos burocratas franceses,
eram um perigo para os não-ciganos, foi criada,
em 1949, uma Comissão Interministerial com a “missão
especial de procurar os meios que permitam o desenvolvimento
humano dos ciganos e de fazer desaparecer, para
as populações no meio dos quais eles vivem, os inconvenientes
inerentes à sua presença”. Ou seja, a intenção não
era tanto a de beneficiar os ciganos, mas antes
a população não-cigana. A Comissão sugere então
as seguintes medidas, obviamente sem consultar os
interessados: assegurar aos nômades locais sadios
de estacionamento; com a ajuda de assistentes sociais
especializados integrar os ciganos ao regime da
Seguridade Social; procurar-lhes um trabalho regular,
que lhes permite viver normalmente (‘regular’ e
‘normal’, naturalmente, segundo os valores dos burocratas
franceses); dar-lhes uma instrução geral mínima
e alguma formação profissional (mas aparentemente
nada mais além disto), visando principalmente as
novas gerações.
A
Comissão recomenda ainda que a polícia de fronteira
se esforça para “através de conselhos sensatos,
vencer entre os nômades este instinto de indolência,
que apresenta graves inconveniências para a sociedade
e para eles próprios.....”. Mas, por outro lado,
os policiais não devem ser bonzinhos demais porque
“certos nômades, às vezes até certos grupos pouco
evoluídos [leia-se: ciganos - FM], manifestam instintos
associais muito graves, que devem ser severamente
reprimidos...”. A Instrução termina dizendo que
os nômades e ciganos receberão ajuda e assistência
das autoridades públicas, mas somente e na medida
em que eles se submetam às leis gerais válidas para
toda a sociedade nacional. Ou seja, ajuda só após
a integração na sociedade francêsa.
No
ano seguinte, em 1950, uma Instrução do Ministério
de Defesa Nacional à polícia de fronteira, menciona
específicamente os ciganos. Por incrível que hoje
possa parecer, esta Instrução informa que os ciganos
representam raças diferentes, “caracterizadas por
um instinto comum de nomadismo.... instinto racial
e que apresenta efetivamente um perigo para a sociedade”.
Os antropólogos francêses ficaram em silêncio porque
nenhum deles tinha qualquer interesse em ciganos
europeus, e menos ainda em ciganos franceses.
Depois
disto há um longo período de silêncio, até a publicação
da Circular 154, de 1964, dirigida aos Chefes de
Polícia e aos Prefeitos, e que também cita especificamente
ciganos: “O analfabetismo, a ausência de formação
profissional, o apêgo a tradições de uma outra era,
a frequente hostilidade da população sedentária,
impedem praticamente que os ciganos ... se reclassifiquem
porque eles são abandonados a sua própria sorte.
Quando eles se fixam, geralmente é para continuar
a levar, sem contatos com o resto da população,
uma existência miserável em casabres na periferia
das grandes cidades”.
A
Circular fala da já citada Comissão Interministerial
de 1949 e de sua política integracionista e sugere
algumas mudanças na ótica e na metodologia daqueles
que estão em contato com ciganos: os policiais não
devem se limitar à repressão pura, mas também devem
ajudar e aconselhar. Por isso, devem levar em consideração
que os ciganos ainda mantêm certos costumes ancestrais,
que devem ser tolerados, desde que não sejam ilegais.
Seguem ainda vários outros conselhos para o tratamento
policial dos ciganos. Não sabemos se algum policial,
cujo nível de instrução, também na Europa, costuma
ser baixo, entendeu os conselhos, e chegou a "ajudar
e aconselhar" algum cigano.
Seja
como for, pouco depois os ciganos deixam de ser
preocupação de segurança nacional e passam a ser
considerados um problema interno. Em 1966, o Ministério
do Interior envia aos Prefeitos a Circular 128,
na qual informa ter conhecimento que alguns municípios
proibem de forma permanente e absoluta o estacionamento
dos nômades, e que muitas vezes os lugares indicados
são insalubres ou praticamente inutilizáveis (terrenos
perto de ‘lixões’) ou sujeitos a inundações, ou
então distantes de água potável. Por isso informa
aos prefeitos que é ilegal proibir de maneira geral
o estacionamento de nômades em território municipal,
e que para estes estacionamentos devem providenciar
locais com suficiente salubridade.
Esta
Circular é complementada pela Circular 546, também
de 1966, na qual o Ministério do Interior solicita
aos prefeitos que estes locais sejam não apenas
salubres e providos, se possível, de um mínimo de
equipamentos, mas também situados perto de escolas
públicas. Além disto, a Circular solicita que a
Polícia seja instruída sobre a necessidade da escolarização
das crianças, pelo que “uma família de forasteiros
ou de nômades nunca deve ser expulsa do território
de um município no horário escolar, quando as crianças
desta família se encontram na escola”. O fato de
o Ministro mencionar este fato, e ainda grifar no
texto, mostra que casos de expulsões semelhantes
devem ter de fato ocorrido. Porém, aparentemente,
conforme a Circular, a mesma família cigana podia
ser expulsa do município logo após as crianças terem
voltado da escola! Algo que muitos prefeitos franceses
devem ter ordenado a seus comissários de polícia.
Numa
Circular de 1968, o Ministério do Interior trata
dos acampamentos para pessoas que vivem em trailers.
Todas as prefeituras devem criar dois tipos de acampamentos:
(1) acampamentos ‘de passagem’, para estadias curtas,
mas nunca inferiores a 24 horas; estes acampamentos
devem ser localizados perto de uma escola, deve
ter abastecimento de água e recolhimento de lixo;
os municípios pobres podem cobrar uma pequena taxa
de estacionamento; (2) acampamentos para morada
(terrain de
sejour), para estadias mais longas, de ‘algumas
semanas ou meses’, geralmente no inverno quando
na Europa as condições para viajar são péssimas.
No final a Circular adverte as prefeituras de que
elas não têm poderes para regulamentar o estacionamento
em terrenos privados cedidos, arrendados ou adquiridos
pelos próprios viajantes, salvo em caso de ameaça
à saúde pública. E lembra que uma Lei de 1963, sobre
o uso do solo, foi feita para evitar o surgimento
de favelas e por isso não pode ser usada para impedir
o estacionamento de ciganos e outros viajantes,
como acontecia em vários municípios.
No
ano seguinte, o Ministério do Interior volta a tratar
deste assunto na Circular 69/58. Nesta o ministro
informa ter tomado conhecimento da expulsão injusta
de nômades de terrenos privados pelo que insiste
que os nômades não podem ser obrigados a deixar
o município, a não ser no caso excepcional de ameaça
para a saúde pública ou de atentados extremamente
graves contra a ordem pública. Fora disto, eles
têm o direito de ficar o tempo que o proprietário
lhes ceder o usufruto do terreno.
O
governo francês, talvez pressionado pelas autoridades
municipais, resolve em 1972 editar uma circular,
com nada menos do que dez páginas, e que limita
drasticamente as áreas de estacionamento para os
nômades. Esta circular enumera várias zonas interditadas
para estacionamento, tais como reservas naturais,
terrenos em redor de monumentos históricos, zonas
“sensibles
et pittoresques” (não se explica o que é uma
“zona sensível e pitoresca”) e todos os lugares
onde o camping constituiria um atentado à paisagem:
zonas de ecologia fraca e florestas, dunas litorâneas,
zonas com espécies de flora e fauna ameaçadas, etc.
Além disto, os projetos para zonas de estacionamento
devem ser aprovados pelos Departamentos de Turismo,
ou seja, não devem incomodar os turistas! Resta
então saber quais lugares sobram para os estacionamentos
dos ciganos e viajantes: provavelmente apenas os
lixões, pântanos, desertos, etc. No final, a circular
trata até da permissão para as pessoas guardarem
seus trailers no quintal ou na garagem da própria
casa. Com uma circular desta, qualquer prefeito
ou comissário de polícia, na prática, poderia expulsar
os ciganos e viajantes de qualquer lugar do município,
menos do depósito do lixo municipal.
Em
1978 o Ministério do Interior volta a solicitar,
mais uma vez, a construção de áreas de estacionamento
para nômades, mas desta vez menores, com capacidade
para até 15 trailers, e não mais 60 como antes.
De nada adiantou, conforme provam documentos publicados
na década seguinte, alegando os municípios quase
sempre falta de recursos. Mas o que não os impedia
de construirem ou autorizar a construção de luxuosos
campings turísticos para não-ciganos, de preferência
em áreas “pittoresques”, por exemplo nas montanhas,
em florestas, junto a cachoeiras ou nas margens
de lagoas, ou seja campings luxuosos para o estacionamento
de trailers, mobil-homes
e barracas dos turistas e que, como os hotéis,
são classificados em campings de 1 a 4 estrelas,
conforme os atrativos ecológicos, equipamentos e
confortos que oferecem, mas todos determinantemente
interditados aos ciganos. Os regulamentos internos
destes campings turísticos costumam ser elaborados
de tal forma que impedem, legalmente, a entrada
de ciganos e outros viajantes.
Esta
resumida análise de apenas alguns documentos governamentais
prova, portanto, que na França os famosos ideais
[ou apenas idéias?] da “liberdade, igualdade e fraternidade”
existem apenas para os cidadãos franceses sedentários,
mas nunca para os ciganos e outros nômades que preferem
viver de acordo com valores culturais próprios.
Boas
intenções e sugestões, por sinal, não faltam. Num
documento oficial de 1990, Delamon destaca a necessidade
de melhorar as comunicações entre os próprios ciganos,
e sugere quatro medidas práticas: (1) instalação
de telefones públicos nos acampamentos ciganos;
(2) identificação exata dos acampamentos pelos Correios,
para que os ciganos possam receber correspondência;
(3) uma espécie de "Disque Cigano" com
informações variadas; (4)
programas de rádio especialmente para os
ciganos; (5) sinalização e indicação de acampamentos
ciganos nas rodovias. Nào sabemos, mas duvidamos
muito, que alguma destas sugestões tenha se tornado
realidade.
E
no ano seguinte, Prevot, por sua vez, cita como
seis objetivos prioritários: "1) melhorar o
status específico dos viajantes; 2) assegurar uma
política efetiva de habitação; 3) garantir o direito
ao ensino e à formação profissional; 4) reforçar
a proteção social por medidas apropriadas; 5) estimular
que sejam levadas em conta as diferenças linguísticas
e culturais; 6) desenvolver a qualidade das relações
dos viajantes com os poderes públicos e o conjunto
dos habitantes". Obviamente, nada disto se
tornou realidade. A seguir Prevot fala vagamente
de algumas medidas que estão sendo tomadas ou que
serão tomadas, e que tratam de assuntos fiscais
(pagamento de impostos, taxas, emplacamento dos
carros e trailers), licenças de circulação, estacionamentos
e acampamentos ciganos, serviços telefônicos e postais
para nômades, assistência social, escolarização
de crianças nômades.
No
final, o bem intencionado Prevot afirma que é essential
esclarecer melhor os cidadãos franceses sobre a
realidade dos viajantes, para que substituam sua
desconfiança, abstenção e indiferença por acolhimento,
compreensão e solidariedade. Belíssimas palavras,
e nada mais, porque em momento algum explica como
tornar isto realidade. Porém, dirigindo-se aos jornalistas,
acrescenta que estes: "podem, a este respeito,
ter uma ação determinante na sensibilização da comunidade
nacional, para que ela se conscientize da presença
no território nacional de uma comunidade igualmente
de nacionalidade françesa, mas com uma cultura diferente”.
Parece que os jornalistas franceses não entenderam,
ou não quiseram entender, o recado.
Por
causa disto, entende-se porque, apesar de todas
estas belas palavras, até hoje a França não resolveu
satisfatoriamente a questão dos ciganos e de outros
viajantes, que continuam sendo enxotados de um lugar
para outro, de um município para outro, de uma favela
para outra, como cidadãos indesejáveis de quinta
categoria. Nestas condições, falar de direitos culturais,
políticos, econômicos ou educacionais para ciganos
e outros viajantes, como fazem outros documentos,
é apenas piada de mau gosto. Para os turistas europeus
o luxo; para os ciganos franceses o lixo.
Capítulo
4
O
HOLOCAUSTO CIGANO.
A
mais selvagem e bárbara perseguição aos ciganos
de que se tem notícia, em toda a História da Humanidade,
ocorreu não em séculos passados, entre povos então
ditos “primitivos” ou “selvagens”, ou no Brasil,
mas em pleno Século XX, na Alemanha, país (pelo
menos até então) considerado “civilizado”. As
únicas vítimas do terror nazista que costumam ser
lembradas, no entanto, são apenas os judeus, e quase
nunca os ciganos. Enquanto hoje a bibliografia sobre
o holocausto judeu é imensa, não faltando inclusive
museus e memoriais especialmente construídos para
lembrar este triste genocídio, o holocausto cigano
sempre foi considerado um fato de menor importância.
Os documentos históricos provam que não foi bem
assim e que, lamentavelmente, ao lado de cerca de
seis milhões de judeus, nos mesmos campos de concentração,
nas mesmas câmaras de gás, nos mesmos crematórios,
ou então fora deles num lugar qualquer da Europa,
foram massacrados também cerca de 250 a 500 mil
ciganos. Só
recentemente começaram a ser publicados ensaios,
inclusive por autores alemães da geração pós-guerra,
sobre este “holocausto esquecido”, o holocausto
cigano, que os intelectuais ciganos de hoje preferem
chamar de ‘poraimos’, para diferenciá-lo do holocausto
judeu.
Gilsenbach
cita três fatores que facilitaram a perseguição
aos ciganos na Alemanha antes e durante a II Guerra
Mundial: (1) o já tradicional ódio dos alemães e
de outros europeus aos ciganos, existente já desde
o Século XV; (2) os arquivos desde o final do Século
XIX existentes sobre ciganos na polícia criminal
e (3) as teorias de antropólogos, psiquiatras e
médicos sobre “higiene racial” e “biologia criminal”.
O tradicional ódio aos ciganos já foi visto anteriormente;
os outros dois fatores, e principalmente o último,
precisam de alguns comentários.
No
início do Século XX, as políticas (anti)ciganas
alemãs não foram idênticas em todo o país, mas cada
Estado ou Província [Land]
inventava as suas. Em Munique, na Bavária, já em
1899 criou-se um Serviço de Informação Cigana que
registrava todos os ciganos do Estado.Em 1905 o seu diretor, Alfred Dillmann, publicou
os primeiros resultados no Zigeunerbuch
[O Livro Cigano,
também vendido nas livrarias] que continha o registro,
com uma dezena de dados pessoais, de 3.350 ciganos
e que se destinava a ajudar a polícia na ‘erradicação
da praga cigana’.
Em
1925/26 a Bavária editou uma lei que tornou obrigatória
a vida sedentária e condenou a dois anos de trabalhos
forçados ciganos não regularmente empregados, lei
que em 1929 passou a ser válida na Alemanha toda.
Mas já em 1927, todos os ciganos alemães foram obrigados
a andarem sempre com um documento de identidade,
com retrato, impressões digitais e outros dados
pessoais.
Alguns anos depois foi criado o Serviço Central
de Combate à Praga Cigana, órgão nacional que incorporou
o Serviço de Munique e outros semelhantes então
existentes, e passou a ser dirigido pelo mesmo Dillmann,
que em pouco tempo reuniu informações sobre mais
de trinta mil ciganos alemães. Este Serviço anti-cigano
foi extinto em 1947, mas recriado em 1953, embora
com outro nome; definitivamente extinto foi somente
em 1970, vinte e cinco anos após o término da II
Guerra Mundial!
O
Serviço alemão de Combate à Praga Cigana, sem dúvida
alguma, foi o mais eficiente do mundo e poucos ciganos
devem ter escapado de seus registros. No entanto,
também em outros países foram realizados recenseamentos
ciganos, foram criados cadastros permanentes da
população cigana e criadas leis para evitar ou,
pelo menos, controlar a sua presença no país. Até
a famosa Interpol (na época chamada Comissão Internacional
de Polícia Criminal) criou em 1936, em Viena, um
Centro Internacional para a Luta contra a Praga
Cigana, cujos arquivos foram destruídos em 1945.
Ou seja, quando em 1933 os nazistas chegaram ao
poder, tanto na Alemanha quanto em vários países
vizinhos (p.ex. França e Holanda) que depois seriam
ocupados, a maioria dos ciganos já estava devidamente
registrada e identificada, e já existiam políticas
anti-ciganas.
A
diferença era que agora os ciganos passaram a ser
perseguidos - e depois exterminados - também por
motivos raciais, e não apenas por serem considerados
associais ou criminosos natos. Embora os alemães
tenham negado isto após a II Guerra Mundial, quando
foram obrigados a pagar indenizações às vítimas
perseguidas por motivos raciais (admitindo-se como
caso único os judeus), e embora tenham sempre afirmado
que os ciganos foram perseguidos por serem “associais”,
e não por serem de uma raça diferente, não resta
a menor dúvida que ambos os fatores pesaram na perseguição.
Muitos documentos e ensaios “científicos” da época
comprovam, sem sombra de dúvida, que não somente
os judeus, mas também os ciganos eram considerados
membros de “raças” diferentes consideradas perigosas,
porque poderiam contaminar a pureza racial ‘ariana’.
Para esta justificativa “racial”, a Alemanha pôde
contar com vários médicos, biólogos e antropólogos.
Já
em 1904 o antropólogo Alfred Ploetz fundou um “Arquivo
para Raciologia e Biologia Social”, que no ano seguinte
virou “Sociedade para Higiene Racial”. Anos depois,
os antropólogos Bauer, Fischer e Lenz publicaram
um manual sobre Genética Humana e Higiene Racial,
que foi lido por Hitler quando, prisioneiro em 1924,
escreveu Mein
Kampf, a futura biblia nazista.
Não pretendemos citar aqui todos os institutos alemães
na época considerados ‘científicos’, ou todos os
biologos, antropólogos e outros cientistas que na
época se dedicaram a pesquisas raciais, eugenéticas
e ciganas, porque estes dados encheriam algumas
dezenas de páginas. Dois nomes, no entanto, merecem
destaque, porque são citados por praticamente todos
os autores que tratam desta época: o médico psiquiatra
Robert Ritter e sua assistente, a enfermeira Eva
Dustin, entre os ciganos Sinti mais conhecida como
Lolitschai, “a moça ruiva”.
Em
1937 Ritter se tornou diretor do Centro de Pesquisa
para Higiene Racial e Biologia Populacional, com
sede em Berlim, onde se dedicou intensivamente às
pesquisas ciganas. Somente o nome deste Centro já
é suficiente para provar que os ciganos eram considerados
uma “raça’ diferente. Neste Centro, entre outras
coisas, Ritter investigava uma suposta relação entre
hereditariedade e criminalidade, elaborando complicadas
árvores genealógicas de ciganos para medir o grau
de ‘mistura racial’, para o que utilizava inclusive
os dados do já citado Serviço de Informação Cigana
de Munique, que foram transferidos para Berlim.
Ritter
e os membros de sua equipe eram defensores da “eugenética”,
ou “higiene racial”, segundo a qual devia ser evitada
a procriação de elementos nocivos à sociedade. Entre
as pessoas nocivas estavam não apenas os deficientes
físicos e mentais, mas também os “associais hereditários”
(mendigos, vagabundos, prostitutas, alcoólatras,
homosexuais, desempregados crônicos, e.o., como
se estas características fossem transmissíveis hereditariamente!),
e as minorias raciais nocivas, como os ciganos e
os judeus. Para “limpar” a raça humana, Ritter e
outros tantos “eugenéticos” da época inicialmente
propunham a esterilização destas pessoas (a total
eliminação física só seria proposta alguns anos
depois). Estima-se que na Alemanha nazista cerca
de 400.000 pessoas foram esterilizadas, entre as
quais muitos ciganos.
O
mesmo aconteceu, por sinal, também em outros países,
inclusive nos Estados Unidos, onde até 1939 comprovadamente
cerca de 30.000 pessoas “indesejáveis” foram contra
a sua vontade esterilizadas.
Mas estes tristes episódios, como também os vergonhosos
campos de concentração para japoneses e seus descendentes
nos Estados Unidos, durante a II Guerra Mundial,
os historiadores americanos preferem ‘esquecer’,
principalmente nos livros didáticos e, oficialmente,
‘nunca aconteceram’.
Foi
nesta época que os biólogos alemães tentaram deseperadamente
descobrir, com fins práticos, quais eram as características
“raciais” ciganas, já que na maioria dos casos era
impossível distinguir os ciganos do resto da população
alemã através de características físicas específicas.
Mas mesmo Ritter e seus colegas nunca foram capazes
de descrever estas características. Daí porque,
na Alemanha daquele tempo, era classificado como
“Z” (de “Zigeuner”), ou seja “cigano puro” todo
indivíduo com quatro ou três avós “verdadeiros ciganos”;
como “ZM+” ou mestiço em primeiro grau era classificado
quem tinha menos do que três avós “verdadeiros ciganos”;
“ZM-” era o mestiço em segundo grau que tinha pelo
menos dois avós “ciganos-mestiços”; avó ou avô “verdadeiro
cigano” era aquele que sempre tinha sido reconhecido,
pela opinião pública, como “cigano”. Ou seja, no
final das contas tratava-se de critérios subjetivos,
e não científicos. Ritter chegou a classificar “racialmente”
cerca de 25 a 30 mil ciganos alemães, mas a quase
totalidade era, segundo ele, formada por mestiços,
ou seja, eram candidatos à esterilização, confinamento
em campos de concentração e, finalmente, extermínio.
No
início dos anos 40 alguns nazistas intencionavam
ainda conservar para a posterioridade uma “amostra”
de Sinti “puros”, melhor dito, oito famílias Sinti
e uma família Lalleri, que seriam confinadas numa
espécie de “reserva cigana” a ser criada na Hungria
e administrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico.
Esta “reserva cigana” nunca chegou a se tornar realidade;
no final, também estes ciganos “puros” terminaram
nos campos de concentração ou de extermínio.
Em 1940, Ritter escreveu num relatório:
“Fomos capazes de provar que mais do que 90% dos assim chamados
ciganos nativos são mestiços...... Outros resultados
de nossas investigações permitem-nos caracterizar
os ciganos como um povo de origens etnológicas totalmente
primitivas, cujo atraso mental os torna incapazes
de uma real adaptação social..... A questão cigana
só pode ser resolvida reunindo o grosso dos mestiços
ciganos associais e imprestáveis em grandes campos
de trabalho e mantendo-os trabalhando, e parando
para sempre a futura procriação desta população
mestiça”.
Para
cada cigano, Ritter emitia então um “Certificado”,
assinado por ele pessoalmente ou por sua assistente
Eva Justin, no qual constavam além do nome e dados
pessoais, o grau de ciganidade. Quase sempre o diagnóstico
era: “mestiço cigano”, o que na prática correspondia
a uma condenação à esterilização ou à deportação
e internação (e posterior extermínio) em campos
de concentração.
Eva
Justin, na época, era apenas uma simples enfermeira,
sem qualquer formação acadêmica, mas que apesar
disto sonhava com o título de Doutor, e para obtê-lo
escreveu uma ‘tese’ sobre a suposta inadaptabilidade
social de crianças ciganas, estudando durante apenas
seis semanas um grupo de crianças ciganas internadas
numa espécie de orfanato, sem contato com seus pais
ou outros ciganos adultos. Obviamente chegou à conclusão
que a boa educação recebida neste internato de nada
adiantou e que as crianças continuaram tão associais
como antes; para ela, crianças ciganas eram simplesmente
incorrigíveis, eram associais e criminosos natos.
A
“tese” foi defendida em 1943, na Universidade de
Berlim. Poucos dias após a obtenção do diploma,
as 39 crianças ciganas do orfanato, as cobaias de
sua pesquisa e que até então tinham sido poupadas,
foram deportadas para Auschwitz; somente quatro
sobreviveram.
A
partir de 1942 os métodos eugenéticos (esterilização
e confinamento) foram substituídos por outro, considerado
mais eficiente: o genocídio, ou seja a eliminação
física destas pessoas, nos campos de concentração
e fora deles. Em dezembro de 1942, Himmler ordena
enviar todos os ciganos alemães para Auschwitz-Birkenau,
então dirigida por Josef Mengele, onde foi instalada
uma seção com 40 barracas só para ciganos, ordem
depois repetida nos territórios ocupados. Dos 23.000
ciganos internados no campo de extermínio de Auschwitz,
cerca de 20.000 morreram e uns 3.000 foram transferidos
para outros campos. Os últimos ciganos de Auschwitz,
conforme a metódica contabilidade alemã exatamente
2.897, foram todos enviados para as câmaras de gás
na noite de 2 de agosto de 1944.
Também
outros campos de concentração receberam ciganos,
embora em número menor do que Auschwitz. Bernadac
publica quase três centenas de páginas com testemunhos
de ciganos internados em vários destes campos de
concentração.
Nem todos eram campos de extermínio e possuíam câmaras
de gás e crematórios, mas nem por isto eram menos
desumanos. Em Bergen-Belsen, por exemplo, os internos,
entre os quais muitos ciganos, eram lentamente assassinados
por inanição, sendo os mortos enterrados em enormes
valas perto do campo. Quando Bergen-Belsen foi tomado
pelos ingleses, em 1945, encontraram cerca de 10.000
corpos ainda insepultos, e cerca de 40.000 pessoas
ainda vivas, das quais pouco depois ainda morreram
umas 13.000, em parte por causa dos maus tratos
e doenças anteriores (em especial o tifo), em parte
também por causa da super-alimentação logo dada
pelos bem intencionados ingleses, mas que muitos
dos subnutridos já não conseguiram mais digerir.
Fatos semelhantes foram registrados também em outros
campos de concentração. Exércitos não costumam levar
também nutricionistas, e por isso, na época, ainda
não se sabia – ou pelo menos os soldados e oficiais
ainda não sabiam - que pessoas altamente subnutridas
também podem morrer por causa de repentina super-alimentação.
Na
França existiam até campos de concentração somente
para ciganos, administrados pelas próprias autoridades
francesas. Não se tratava de campos de extermínio,
mas quase sempre de campos de trabalhos forçados
e por serem campos em geral pequenos, para uma centena
até alguns poucos milhares de pessoas, as condições
de vida eram, em geral, melhores do que nos campos
administrados pelos alemães. Bernadac chama estes
campos, apropriadamente, “as antecâmaras francesas
de Auschwitz”, porque principalmente no final da
guerra, muitos dos 30 mil ciganos internados nestes
campos franceses foram deportados para os campos
de extermínio existentes na Alemanha e em outros
países.
O
tratamento desumano, as terríveis experiências médicas,
as câmaras de gás e os crematórios, e outros tantos
horrores cometidos pelos alemães nestes campos de
concentração, supomos suficientemente conhecidos
por todos. Estima-se que 250 a 500 mil de ciganos
foram assassinados pelos nazistas. Os números exatos
nunca serão conhecidos, mas todos os documentos
provam que os judeus não foram as únicas vítimas
da perseguição racista pelos nazistas. A única diferença
é que o holocausto judeu, e com justa razão, até
hoje sempre costuma ser relembrado e não faltam
memoriais para lembrar isto, inclusive em Auschwitz.
O holocausto cigano, no entanto, costuma ser varrido
debaixo do tapete, costuma ser simplesmente ignorado
ou esquecido, como algo de menor importância, ou
pior ainda como algo que nunca aconteceu, e praticamente
não existem monumentos que lembram o holocausto
cigano.
A
II Guerra Mundial terminou há pouco mais de meio
século. Centenas de milhares de judeus receberam
indenizações do governo alemão, e o povo judeu recebeu
uma Pátria nova (Israel 1948). Os ciganos nunca
foram indenizados e nunca receberam nada, sob a
alegação de que foram perseguidos e exterminados
não por motivos “raciais”, mas por serem associais
e criminosos comuns; outros tiveram seus pedidos
de indenização negados porque não conseguiram apresentar
os testemunhos necessários.
Todas
as pesquisas de Ritter e outros sobre as características
raciais dos ciganos, suas medições físicas, suas
amostras de sangue, as crueis experiências biológicas
de Mengele com ciganos em Auschwitz, foram de repente
esquecidas. Preferiu-se esquecer ainda circulares
oficiais como uma já de 1938, sobre “O combate à
praga cigana”, que afirmava:
“A experiência até agora acumulada no combate
à praga cigana e os resultados da pesquisa biológica-racial
mostram que é recomendável abordar a regulamentação
da questão cigana do ponto de vista racial”, como
de fato aconteceu depois.
O
famoso Tribunal de Nuremberg, instituído pelos ‘aliados’
logo após a II Guerra Mundial para condenar europeus
que cometeram crimes contra a Humanidade, concentrou
suas atividades em crimes contra judeus, mas não
há registro de criminosos de guerra condenados por
crimes cometidos contra ciganos. Inúmeros judeus
– e com toda a razão – tiveram oportunidade para
apresentar seus depoimentos e suas denúncias, mas
nenhum cigano foi convocado ou aceito para depor
ou para denunciar.
Antes
pelo contrário, alguns conhecidos e comprovados
criminosos anti-ciganos (mas não anti-judeus!) foram
até promovidos: Robert Ritter e Eva Justin, por
exemplo, foram considerados inocentes e após a guerra
viveram ainda um bom tempo exercendo tranquilamente
a profissão! Em sua defesa foi alegado que os dois
nunca mataram pessoalmente um cigano! Que comprovadamente
mandaram dezenas de milhares de ciganos para a morte
com seus pseudo-científicos “Certificados de Ciganidade”,
não foi levado em consideração. Em 1947 a prefeitura
de Frankfurt contratou Ritter como psiquiatra infantil,
e no ano seguinte Eva Justin foi contratada como
psicóloga criminal e infantil, para cuidar - imaginem
só! - da re-educação de crianças associais e desajustadas,
muitas das quais certamente vítimas da guerra.
Ainda
hoje o holocausto cigano é pouco conhecido do grande
público.
Também em documentários e em comemorações das vítimas
do holocausto nazista, ou em monumentos construídos
em sua homenagem, sempre são lembrados apenas os
judeus, e nunca os ciganos. Pelo contrário, mesmo
depois da guerra os ciganos continuaram sendo discriminados
da mesma forma, ou talvez até pior do que antes.
Atualmente, no entanto, em livros e revistas que
tratam do holocausto, está se tornando ‘politicamente
correto’ falar não apenas dos judeus, mas também
dos ciganos, enquanto também o número de livros
e artigos que tratam do assunto está aumentando
sempre mais.
Mesmo
depois da guerra, os ciganos continuaram sendo discriminados
da mesma forma, ou talvez até pior do que antes.
Principalmente nos círculos policiais, todas as
antigas ideologias e imagens anti-ciganas continuaram
existindo, pelo que nada mudou também nas atitudes
anti-ciganas, excluindo-se apenas o genocídio. Os
ciganos continuaram pessoas indesejadas e odiadas
em toda a Alemanha.
Até vários dos assim chamados ‘ciganólogos’ alemães
continuaram publicando ensaios nitidamente anti-ciganos.
Ainda
hoje, mais de cinquenta anos depois da II Guerra
Mundial, pouca coisa mudou. Na decada de 90, após
a reunificação das duas Alemanhas (Ocidental e Oriental)
e o fim da União Soviética, a Alemanha se tornou
o país preferido por dezenas de milhares de refugiados
e migrantes do Leste, entre os quais muitos ciganos,
principalmente da Romênia e da ex-Iugoslávia. Jansen
informa que: "de 1989 a 1990, o número de refugiados
vindos da Romênia cresceu mais de dez vezes, de
cerca de 3.000 para 35.000. Dois terços deles são
Roma. Somente no mês de outubro de 1992, foram registrados
na Alemanha 15.000 refugiados da Romênia".
Em 1992/93 o governo alemão pagou ao governo romeno
mais de 25 milhões de marcos para receber de volta
cerca de 50.000 cidadãos romenos, a maioria dos
quais Rom. Ninguém perguntou aos Rom se eles realmente
queriam voltar, e a sua ‘repatriação’ foi compulsória.
Diga-se
de passagem que esta repatriação teve a aprovação
também de muitos Sinti, ciganos com nacionalidade
alemã e há muito tempo residindo no país e quase
todos bem integrados na sociedade nacional, porque
temeram que a população os identificasse com os
Rom do Leste, segundo eles responsáveis por todos
os estereótipos e preconceitos anti-ciganos. Já
vimos anteriormente que também na Holanda os ciganos
holandeses tradicionais (com nacionalidade holandesa)
não gostaram nada da repentina imigração de Rom
do Leste, pelo que inclusive ajudaram o Governo
a contrabandear ilegalmente muitos destes ciganos
“estrangeiros” de volta para algum país vizinho.
Comprovadamente, pelo menos na Europa, os ciganos
não somente são odiados pelos não-ciganos, mas também
– e o que é bem mais grave - se odeiam mutuamente.
Inclusive
na Europa do Leste. Segundo Gozdziak, após 1989
muitos Rom romenos migraram também para a Polônia,
um país no qual também, há muito tempo, existe uma
forte discriminação anti-cigana, apesar da qual
muitos antigos ciganos poloneses conseguiram integrar-se
no país. Para estes tradicionais ciganos polonêses,
a chegada de milhares de ciganos romenos apenas
piorou ainda mais a situação: "Os Rom poloneses
não se relacionam com os ciganos romenos..... ‘Eles
não são meus irmãos’, diz um rom polonês, ‘... nós
somos muito diferentes deles, nós não pedimos esmolas
nas ruas. Nós não somos dependentes de nínguém,
Nós conquistamos aqui nosso espaço. Nossas mulheres
são limpas, e as crianças tomam banho. Nós construimos
casas e não dormimos no chão. Os ciganos romenos
nos envergonham’ ".
O fato de este Rom identificar os ciganos
poloneses como 'Rom', e os ciganos romenos - sem
dúvida alguma Rom - apenas como 'ciganos', é apenas
mais uma manifestação de discriminação cigana anti-cigana,
e que, lamentavelmente, existe e foi registrada
em praticamente todos os países.
Vergonha:
talvez seja esta a palavra chave que explique o
anti-ciganismo dos próprios ciganos em países nos
quais há séculos residem e que, bem ou mal, já conseguiram
integrar-se na sociedade nacional, que são sedentários,
exercem alguma profissão perfeitamente legal, cujos
filhos estudam, e que não são identificados ou identificáveis
como 'ciganos', e por isso também não são perseguidos
e discriminados.
Entende-se
que a chegada repentina de centenas ou milhares
de rom orientais maltrapilhos, famintos, imundos,
analfabetos e que, para sobreviver, vivem mendigando,
enganando ou furtando, ou até envolvendo-se em atividades
ilegais como contrabando e o tráfico de drogas,
é um pesadelo e uma ameaça para os tradicionais
ciganos não somente na Europa Ocidental, mas também
em alguns países da Europa Oriental, como a Polônia.
Se
até os próprios Rom pensam assim sobre os imigrantes
e refugiados Rom romenos, (ex) iugoslavos, (ex)
tchecoslovacos, albaneses ou outros, não se pode
estranhar opiniões e atitudes ainda piores entre
a população não-cigana. Numa pesquisa de opinião
pública realizada na Alemanha em 1992, os ciganos
obtiveram o mais alto índice de rejeição: 64%. A
rejeição de outras conhecidas minorias era: muçulmanos
17%, indianos 14% e judeus 7%.
Grande
também é o número de imigrantes e refugiados da
ex-Iugoslávia. Milhares de ciganos iugoslavos, que
desde 1989 tentaram em vão obter asilo na Alemanha,
foram depois compulsoriamente "repatriados"
- eufemismo para "deportados"
É
compreensível que estas massas de refugiados não
sejam bem-vindas na Alemanha, como aliás em nenhum
outro país europeu. Afinal de contas, por causa
de tratados internacionais, todos eles devem receber
alimentação, hospedagem, assistência social, assistência
médica, etc., ou seja, devem ser mantidos às custas
dos contribuintes não-ciganos. E tudo isto justamente
numa época em que também a quase totalidade dos
países europeus passa por profundas crises econômicas
e têm altos índices de desemprego.
Além
disto, por causa dos preconceitos já existentes,
os ciganos migrantes ou refugiados do Leste quase
nunca recebem a devida assistência, e por isso são
obrigados a mendigar, furtar, vender drogas, etc.
pelo que os preconceitos aumentam mais ainda. Porque,
obviamente, muitos deles são presos e terminam nas
páginas policiais dos jornais, nas quais costumam
ser identificados como 'ciganos', embora os jornalistas
não costumem informar nada sobre a nacionalidade
ou identidade étnica dos outros milhares de criminosos
presos por causa de 'crimes' idênticos ou semelhantes.
Daí
porque a imprensa não se cansa de noticiar incêndios
de residências ciganas e outras violências contra
ciganos e contra outras minorias étnicas na Alemanha
(e em vários outros países europeus), cometidas
por neo-nazistas, skinheads e outros grupos ultra-direitistas,
ou a repatriação forçada, pelo Governo, de milhares
de ciganos para seus países de origem. Na Alemanha
de hoje, apesar das belas recomendações pró-ciganas
da União Européia, da qual o país faz parte, a vida
dos ciganos ainda é difícil, e os tradicionais preconceitos
e as centenares discriminações continuam existindo,
como antes.
Capítulo
5.
CIGANOS NA EUROPA OMUNISTA.
População
cigana na Europa do Leste.
Já
a partir do Século XII muitos ciganos migraram da
Turquia em direção ao norte. Principalmente aqueles
que migraram para a Transilvânia, Valáquia e Moldávia
(nas atuais Romênia e Moldávia) tiveram um destino
nada agradável: dezenas de milhares deles foram
capturados e escravizados, e isto até meados do
Século XIX .
A
origem desta escravidão cigana nos Bálcãs ainda
não está devidamente esclarecida: podem ter sido
prisioneiros de guerra, ou servos que se transformaram
em escravos, ou pessoas famintas que se venderam
para sobreviver. Seja como for, já desde o Século
XIV há notícias nestes principados de escravos ciganos,
a serviço da Corôa, de mosteiros, nobres, fazendeiros
ou cidadãos abastados.
Consta
que os escravos domésticos viviam em condições melhores
do que os escravos do campo, mas mesmo assim, em
1839, um jornalista francês escreveu: “A miséria
está tão claramente estampada nos seus rostos que,
se avistar um, você perde o apetite”. Os proprietários
costumavam abusar sexualmente das jovens ciganas
e os filhos resultantes disto também eram considerados
escravos.
E naturalmente, sendo escravos, podiam ser vendidos.
Um anúncio num jornal de 1845 informa que os filhos
e herdeiros de N.N., de Bucarest, vendiam 200 famílias
ciganas, em lotes de no mínimo cinco famílias de
cada vez; facilitava-se o pagamento.
E em 1852 anuncia-se a venda, pelo mosteiro de Santo
Elias, de um lote de escravos ciganos, a saber 18
homens, 10 rapazes, 7 mulheres e 3 moças, todos
“em boas condições”, in
conditie fina.
O
movimento abolicionista que surgiu na Europa do
Século XIX preocupava-se antes de tudo com a abolição
da escravidão negra nas Américas, porque sempre
é mais cômodo preocupar-se com problemas ecológicos,
sociais, de direitos humanos, de violência urbana,
de torturas, fome, etc. em continentes e países
distantes, e esquecer problemas idênticos existentes
no próprio continente ou até no próprio país como,
por sinal, acontece ainda hoje. Por isso ninguém
deve estranhar que a escravidão cigana na própria
Europa só era lembrada por alguns poucos autores.
Segundo um deles, o abolicionista Kogalniceanu:
“Os europeus estão organizando sociedades filantrópicas
para a abolição da escravidão na América, mas no
seio do próprio continente da Europa, existem 400.000
ciganos que são escravos, e outros 200.000 que são
igualmente vítimas de barbaridades”.
Mas
aos poucos as idéias abolicionistas penetraram também
na Romênia. A primeira libertação em massa de escravos
ciganos ocorreu na Valáquia, em 1837, quando a Corôa
libertou quatro mil famílias, seguindo-se a libertação
de escravos ciganos da Igreja (dos mosteiros), em
1842 na Moldávia e em 1847 na Valáquia. Na década
de 40, escravos ciganos da Corôa, e depois também
de mosteiros, foram libertados na Moldávia. A escravidão
cigana foi declarada ilegal, em 1855 na Moldávia
e em 1856 na Valáquia. Por completo a escravidão
cigana seria abolida somente em 1864, quando os
dois principados foram unidos e passaram a constituir
a então Romênia (em 1944 a Moldávia passou a pertencer
à União Soviética e atualmente é um país independente).
Quase
todos estes escravos ciganos eram Kalderash, cujos
descendentes hoje, compreensivelmente, tentam de
qualquer forma esconder e esquecer (ou esqueceram
de fato) este seu comprovado e bem documentado passado
de 500 anos de escravidão. Os ciganos escravos conseguiram
conservar - mais do que os ciganos livres em outros
países - alguns poucos elementos culturais, e principalmente
sua língua, em parte porque eram escravos e portanto
sedentários, em parte também porque casamentos e
relações sexuais entre livres e escravos eram proibidas
(o que não significa que não tenham ocorrido).
Mas
outros tantos elementos e valores culturais - hoje
considerados tipicamente 'ciganos', ‘rom’ ou 'kalderash'
– os escravos ciganos assimilaram da população rural
romena, como o 'kris' (uma espécie de tribunal cigano)
ou a 'pomana' (ritual funerário) que na realidade
não são de origem ‘cigana’, mas comprovadamente
de origem balcânica.
A
partir de meados do Século XVIII, milhares de Rom
migraram para a Europa Ocidental e para as Américas,
mas a maioria deles ficou morando na Europa Oriental
e Central.
Após
a II Guerra Mundial forma-se na Europa do Leste
o assim chamado "bloco dos estados socialistas",
composto pela União Soviética e seus países satélites:
Albânia, Bulgária, Hungria, Iugoslávia, Polônia,
Romênia, Tchecoslováquia e a República Democrática
Alemã (Alemanha Oriental). Já em 1948 a Iugoslávia
se separa deste bloco e a Albânia faz o mesmo em
1961; as tentativas de separação da Hungria em 1956,
e da Tchecoslováquia em 1968, foram frustradas pelas
tropas soviéticas.
Com
o fim da União Soviética, simbolizado pela destruição
do Muro de Berlim em 1989, o mapa político da Europa
do Leste muda novamente. Os países bálticos recuperam
sua independência e renascem a Lituânia, a Letônia
e a Estônia. A Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária
dissolvem seus partidos comunistas e realizam eleições
democráticas; a Tchecoslováquia se divide na República
Tcheca e a Eslováquia; a Iugoslávia, que unia artificialmente
sete povos diferentes, após uma sangrenta guerra
civil, se divide na nova Iugoslávia (Sérvia, Montenegro
e Kossovo), a Bósnia-Herzegóvina, a Eslovênia, a
Croácia e a Macedônia.
É
na Europa Central e Oriental que, ainda hoje, reside
a maioria da população cigana mundial. Segundo Liégeois,
em 1994 a população cigana nestes países seria:
Albânia 90 a 100.000; Belarússia 10 a 15.000; Bosnia-Herzegovina
40 a 50.000; Bulgária 700 a 800.000; Croátia 30
a 40.000; Eslováquia 480 a 520.000; Eslovênia 8
a 10.000; Estônia 1.000 a 1.500; [Grécia 120 a 140.000];
Hungria 550 a 600.000; Iugoslávia (Sérvia e Montenegro)
400 a 450.000; Letônia 2 a 3.500; Lituânia 3 a 4.000;
Macedônia 220 a 260.000; Moldávia 20 a 25.000; Polônia
40 a 50.000; República Tcheca 250 a 300.000; Romênia
1.800.000 a 2.500.000; Rússia 220 a 400.000; Turquia
300 a 500.000; Ucrânia 50 a 60.000.
Como
sempre, estes números são apenas aproximados. Druker,
falando dos ciganos na Europa do Leste, informa
que é quase impossível saber com certeza quantos
ciganos vivem nestes países pelos seguintes motivos:
a) a inexistência ou inconfiabilidade de censos
oficiais; quando existem, a população rom (cigana)
geralmente é subestimada; durante o período comunista
os ciganos nem sequer eram reconhecidos como minorias
étnicas; b) muitos ciganos têm mêdo de se identificarem
como tais, por causa da secular discriminação e