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 FRANS MOONEN

ROM, SINTI E CALON

OS ASSIM CHAMADOS CIGANOS

 

 

Introdução: Os assim chamados Ciganos 

1. A Primeira Onda Migratória

2. Políticas anti-ciganas

3. A Segunda Onda Migratória

4. O holocausto cigano

5. Os ciganos na Europa comunista

6. Os ciganos na Europa pós-comunista

7. Imagens anti-ciganas

8. Três imagens errôneas sobre os ciganos

Bibliografia Selecionada 

 

Núcleo de Estudos Ciganos

E-Texto no. 1

Recife, 2000

 

 

Introdução:

OS ASSIM CHAMADOS CIGANOS.

  

“Ciganos”. 

A História escrita dos hoje assim chamados “ciganos” não vai além de apenas um milênio. Um dos documentos mais antigos é o de um monge grego segundo o qual, no ano de 1050, o imperador de Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia), para matar uns animais ferozes, solicitou a ajuda de adivinhos e feiticeiros chamados Adsincani. No início do século seguinte, outro monge se refere a domadores de animais, em especial de ursos e cobras, e a indivíduos lendo a sorte e prevendo o futuro, que eram chamados Athinganoi. No Século XIII, o patriarca de Constantinopla adverte o clero contra adivinhos, domadores de ursos e encantadores de cobras e solicita não permitir a entrada destes Adingánous nas casas, ”porque eles ensinam coisas diabólicas”.[1] É possível que estes tenham sido antepassados (embora não necessariamente os únicos) dos indivíduos hoje genericamente chamados “ciganos”, e neste caso já estariam na Turquia pelo menos desde meados do Século XI.

Da Turquia para outros países balcânicos foi apenas um pequeno passo. Sabemos que vários grupos migraram para a Grécia. Em 1322 um frade franciscano, de passagem pela ilha de Creta, escreve sobre indivíduos que viviam em tendas ou em cavernas, chamados Atsinganoi, nome então dado aos membros de uma seita de músicos e adivinhadores, e que nunca paravam mais do que um mês num mesmo lugar. Depois disto, muitos outros viajantes europeus, mercadores ou peregrinos a caminho da Terra Santa, observaram a presença destes indivíduos nos arredores do porto marítimo grego de Modon (hoje Methoni), então colônia de Veneza, onde trabalhavam como ferreiros e sapateiros.[2]

A partir do início do Século XV, estes “ciganos” migraram também para a Europa Ocidental, onde quase sempre afirmavam que sua terra de origem era o “Pequeno Egito”. Hoje sabemos, com certeza, que esta era então a denominação de uma região da Grécia, mas que pelos europeus da época foi confundida com o Egito, na África. Por causa desta suposta origem egípcia passaram a ser chamados “egípcios” ou “egitanos”, ou gypsy (inglês), egyptier (holandês), gi­tan (francês), gita­no (espanhol), etc. Mas sabemos que alguns grupos se apresentaram também como gregos e atsinganos, pelo que também ficaram conhecidos como grecianos (espanhol), tsi­ganes (francês), ci­ganos (português), zingaros (italiano), etc.

Na literatura a seu respeito ainda existem outras denominações que em nada lembram a suposta origem egípcia ou comprovada origem grega. Na Holanda, p.ex., a denominação inicial de “egyptier” desaparece a partir do Século XVI e utiliza-se apenas a denominação “heiden” (pagão), denominação então comum também na Alemanha. Na França ficaram conhecidos também como romanichel, manouches ou boémiens. Em vários países foram confundidos com os tártaros, mongóis da [i]Sibéria e Ásia Central. Todos estes termos são denominações genéricas que os europeus naquele tempo de­ram a estes misteriosos e exôticos imigrantes. Não consta como os ciganos então se auto-identificavam.

Conforme se vê, a origem dos ciganos sempre foi um verdadeiro mistério, e por isso existem, ainda hoje, as mais diversas lendas e fantasias. Somente no Século XVIII o assunto começou a ser discutido com mais seriedade, quando os linguistas concluiram que os ciganos deveriam ser originários da Índia. As provas linguísticas surgiram por acaso em 1753 quando, numa universidade holandesa, um estudante húngaro descobriu semelhanças entre a língua cigana do seu país e a língua falada por três colegas estudantes indianos. Constatou-se assim um evidente parentesco entre as línguas ciganas e o sânskrito. A teoria da origem indiana das línguas ciganas seria divulgada somente anos depois na Alemanha, por Christian Buettner em 1771, por Johann Ruediger em 1782, e por Heinrich Grellmann em 1783, este o mais conhecido dos três.

Grellmann criticou primeiro as teorias linguísticas até então existentes sobre a origem das línguas ciganas, principalmente aquelas que falavam da origem egípcia. Depois fez uma análise sistemática de quase quatrocentas palavras e constatou que de cada trinta palavras ciganas, doze a treze eram de origem hindi, uma língua derivada do sânskrito. Apesar de reconhecer que ainda existiam falhas em seu trabalho, acreditou que a origem indiana tinha sido suficientemente comprovada. Na segunda edição de seu livro, Grellmann cita também outros cientistas que na mesma época tinham chegado a conclusões idênticas.

Desde então, a origem indiana nunca mais foi colocada em dúvida e linguistas posteriores apenas têm acrescentado mais dados comprobatórios, restando hoje apenas dúvidas sobre em que época ou épocas, e em que parte ou partes da Índia estas línguas eram faladas, admitindo-se em geral que tenha sido a região noroeste da Índia (atual Paquistão), por volta do ano 1000 da era cristã.[3] 

Fraser, no entanto, lembra que  a “linguística histórica não pode determinar a origem racial e étnica dos indivíduos que falavam Romani........ Não se pode ter certeza que grupos ou povos são racialmente aparentados apenas porque falam línguas aparentadas”.[4] Ou seja, estas semelhanças linguísticas podem significar também, e tão somente, que os assim chamados ciganos, durante muito tempo e por motivos ainda ignorados, viveram na Índia, sem serem e nunca terem sido indianos, ou que tiveram contato com indianos ou não-indianos que falavam o hindi, mas fora da Índia.

Por isso, as supostas ‘provas linguísticas’ acima citadas, precisam ainda de provas complementares, sejam elas culturais, raciais, ou de outra natureza. Não faltam autores que apresentam supostas provas culturais, citando semelhanças entre costumes ciganos e indianos, da mesma forma como outros autores, adeptos da origem egípcia, descobriram semelhanças com a antiga cultura egípcia da época dos faraós. Quem procura, sempre encontrará algumas semelhanças nas culturas de dois povos diferentes e geográficamente distantes. Elementos culturais, no entanto, podem ser transmitidos também por via indireta, sem contato direto com os povos que os inventaram, e também podem ter origens independentes.

Quanto a isto, Fraser cita o caso da Grécia onde, na década de 80, a TV apresentou um documentário em que era mostrada a origem indiana dos ciganos. Depois disto, jovens ciganas gregas passaram a vestir os longos e coloridos sáris indianos e introduziram elementos orientais nas suas danças. Ao que Fraser, maliciosamente (mas com toda razão), acrescenta: “Talvez daqui a uns 50 anos, etnomusicólogos apresentem estes elementos como um vestígio cultural de sua pátria original” (a Índia).[5]

Outro exemplo desta “indianização” artificial foi registrada também na ex-Iugoslávia, após o II Congresso da União Romani Internacional, no qual a primeira-ministra Indira Ghandi declarou (apenas simbolicamente, e até hoje sem quaisquer efeitos práticos!) que a Índia era a pátria-mãe de todos os ciganos. Não há registro de nenhuma família cigana européia que por causa disto tenha migrado para a Índia (ou seja: ninguém migrou do ruim para o pior), mas depois disto, pelo menos na ex-Iugoslávia, muitos ciganos começaram a ornamentar suas casas com estátuas e quadros de deuses indianos e bonecos em trajes indianos, jovens ciganas substituíram a calça turca pelo sári indiano, músicas e filmes indianos se tornaram de repente populares, e houve até quem trocasse a religião muçulmana pelo hinduismo.[6] 

Ainda menos sucesso tiveram, até hoje, aqueles que tentaram provar a origem indiana através de comparações biológicas, ou raciais. Já desde a chegada na Europa há notícias sobre a aparência física dos ciganos: pele escura, cabelos pretos e longos, olhos pretos e grandes, nariz aquilina, etc. Posteriormente alguns cientistas notariam semelhanças sanguíneas entre ciganos e indianos, mas nada disto seria suficiente para provar sua origem indiana, inclusive porque não existiam estudos suficientes sobre as características raciais dos indianos, e outros tantos povos tinham as mesmas características físicas ou predominância dos mesmos grupos sanguíneos. Além disto havia o problema da “mistura racial” que certamente ocorreu desde a saída da Índia há vários séculos.

Na realidade, todas as teorias (e inúmeras fantasias, mitos e lendas) sobre a origem dos ciganos não passam de mera especulação e não têm nenhuma comprovação empírica. Até hoje, apenas as semelhanças das línguas ciganas com o sânscrito parecem devidamente comprovadas, pelo que muitos ciganólogos costumam admitir que os ciganos são originários da Índia. Mas isto também é tudo e, como já dissemos acima, somente a semelhança linguística na realidade não comprova coisa alguma.

Existem as mais diversas teorias sobre quando saíram da Índia, mas em geral admite-se que foi somente a partir do Século X, ou seja, apenas uns mil anos atrás. Ou então, o que é bem mais provável, que ocorreram várias ondas migratórias, em épocas bem diferentes, talvez até de áreas geográficas diversas, e por motivos dos mais variados. Também não se sabe como eles então se identificavam a si mesmos, ou como eram identificados pelos outros, e provavelmente nunca o saberemos. Os próprios ciganos nunca deixaram documentos escritos sobre o seu passado e muitos ciganólogos informam que os ciganos, em geral, não têm a mínima idéia sobre suas origens e, o que é pior, nem demonstram interesse em saber de onde vieram os seus antepassados.

 

A diversidade entre os ciganos.

 

Conforme vimos acima, “cigano” é um termo genérico inventado na Europa do Século XV, e que ainda hoje é adotado, apenas por falta de um outro melhor. Os próprios ciganos, no entanto, costumam usar autodenominações completamente diferentes. Hoje, os ciganos e os ciganólogos não-ciganos costumam distinguir pelo menos três grandes grupos:

(1) os ROM, ou Roma[7], que falam a lín­gua roma­ni; são divididos em vários sub-grupos, com denominações próprias, como os Kalderash, Matchuaia, Lovara, Curara e.o.; são predominantes nos países balcânicos, mas a partir do Século XIX migraram também para outros países europeus e para as Américas;

(2) os SINTI, que falam a língua sintó e são mais encontrados na Alemanha, Itália e França, onde também são chamados Manouch;

(3) os CALON ou KALÉ, que falam a língua caló, os “ciganos ibéricos”, que vivem principalmente em Portugal e na Espanha, onde são mais conhecidos como Gitanos[8], mas que no decorrer dos tempos se espalharam também por outros países da Europa e foram deportados ou migraram inclusive para a América do Sul.

Estes grupos e dezenas de sub-grupos, cujos nomes muitas vezes derivam de antigas profissões (Kalderash = caldeireiros; Ursari = domadores de ursos, e.o.) ou procedência geográfica (Moldovaia, Piemontesi, e.o.), não apenas têm denominações diferentes, mas também falam línguas ou dialetos diferentes. Como já vimos acima, desde o Século XVIII costuma-se atribuir aos ciganos apenas uma única língua, comum a todos, a língua romani, parcialmente de origem indiana, embora esta tenha também inúmeras palavras de origem persa, turca, grega, romena e de outros países por onde passaram. Na realidade, já então os ciganos falavam várias línguas ou dialetos que, apesar de terem aparentemente uma origem em comum, hoje apresentam profundas variações regionais que tornam uma comunicação cigana internacional na prática impossível. Algo semelhante à atual comunicação entre franceses, italianos, espanhois, portugueses e brasileiros, que todos falam línguas derivadas do Latim: muitas palavras podem ser entendidas por todos, principalmente quando escritas, mas a comunicação verbal na maioria das vezes é difícil, quando não impossível. Segundo Fraser não existe um romani padronizado, único, mas somente na Europa os ciganos falariam cerca de 60 ou mais dialetos diferentes.[9]

De todos os ciganos, os Rom são os mais estudados e descritos. Isto porque estes ciganos, e entre eles principalmente os Kalderash e os Lovara - inclusive no Brasil - , costumam considerar-se a si próprios ‘ciganos autênticos’, ‘ciganos nobres’, e classificar os outros apenas como ‘ciganos espúrios’, de segunda ou terceira categoria. Como antropólogos e linguistas tendem a estudar de preferência povos “autênticos”, que ainda conservam sua cultura e língua tradicional, a quase totalidade dos estudos ciganos trata de ciganos Rom, e praticamente nada se sabe dos outros grupos.

O nomadismo, aparentemente  maior entre os Calon do que entre os Rom, pode ter dificultado pesquisas sobre sua língua e seus costumes, mas não explica, nem justifica, porque foram tão negligenciados pelos ciganólogos. Román, por exemplo, informa que na Espanha ainda não foram realizadas intensivas pesquisas históricas e antropológicas sobre os ciganos Calon, naquele país quase todos há muito tempo sedentários.[10] Na França a situação não é diferente: segundo Liégeois, o grupo Rom, naquele país com apenas alguns milhares de membros, é praticamente o único estudado, enquanto as dezenas de milhares de ciganos Sinti (Manouch) e Calon são ignoradas, fato que reforça ainda mais a imagem dos ciganos Rom da Europa Oriental como ciganos ‘autênticos’.[11] Praticamente nada, também, sabemos sobre os atuais ciganos Sinti e Calon no Brasil.

Este “rom-centrismo”, dos próprios ciganos e dos ciganólogos, faz Acton falar até de “romólogos” que, em lugar de analisarem as diferenças existentes entre os grupos ciganos, apresentam um modelo ideal como se os ciganos formassem uma totalidade homogênea. Segundo este sociólogo, “A grande falha da literatura sobre ciganos, oficial e acadêmica, é a supergeneralização; observadores têm sido levados a acreditar que práticas de grupos particulares são universais, com a concomitante sugestão que [os membros de] qualquer grupo que não têm estas práticas não são ‘verdadeiros ciganos’“.[12]  Ou seja: a cultura rom passa a ser considerada a “autêntica” cultura cigana, a cultura “modelo”, e quem não falar a língua como eles, quem não tiver os mesmos costumes e valores ..... , bem, estes só podem ser ciganos de segunda ou terceira categoria, ciganos espúrios, inautênticos, quando não falsos ciganos.

Entende-se assim porque a quase totalidade dos livros de ciganólogos que tratam genericamente da suposta “Cultura Cigana”, na realidade descrevem apenas ou quase exclusivamente a cultura dos ciganos Kalderash que durante séculos viveram nos Bálcãs - na atual Romênia na qualidade de escravos, libertos somente em meados do Século XIX - onde desenvolveram uma cultura fortemente influenciada pelas diversas culturas nacionais, em especial a romena. Um exemplo clássico, entre vários outros, é o kris romani, uma espécie de tribunal cigano, sempre apresentado como algo tipicamente “cigano”, quando, segundo Formoso, na realidade é um elemento cultural apenas dos Kalderash, que o tomaram emprestado da sociedade rural romena, e que não existiria nem entre os ciganos Rom Lovara e Curara e é desconhecido também entre os Sinti e Calon.[13] Outros dois exemplos seriam o marimé, as idéias sobre pureza / impureza, que na realidade são de origem árabe e turca, e a pomana, o ritual funerário, de origem romena. O kris, o marimé e a pomana costumam ser descritas por nove entre dez ciganólogos como se fossem comuns a todos os ciganos, quando se trata apenas de características culturais Kalderash.[14] A cultura Kalderash - praticamente a única conhecida do grande público não-cigano - é apenas uma das inúmeras sub-culturas ciganas hoje existentes em todo mundo, cada uma das quais com características próprias, resultantes de histórias diferenciadas de convivência, quase nunca pacífica, com as mais diversas sociedades e culturas.

Porém, os ciganos não se diferenciam entre si apenas linguistica e culturalmente, mas também econômica e socialmente. Como exemplo podem ser citados os ciganos espanhois, cuja população em 1993 deveria ultrapassar um total de 400 mil pessoas, ou seja, cerca de 1,1% da população nacional. Garcia distingue entre eles quatro categorias sociais bem distintas, a saber:[15]

(1) uma pequena elite com alto nível de instrução (diplomas e carreiras universitárias), geralmente indivíduos de famílias ‘integradas’ também com bom nível de instrução, e que têm empregos assalariados e muitas vezes casam com gadjé [denominação genérica usada pelos ciganos para os não-ciganos[16]]; entre eles encontram-se os ativistas políticos que, entre outras coisas, lutam pelo reconhecimento da identidade cigana;

(2) um grupo numericamente maior do que o anterior, mas ainda minoria entre os ciganos, de “tradicionalistas” geralmente economicamente bem sucedidos que vivem “à la gitane”, exercendo profissiões tradicionais (antiquários, comerciantes, artistas), casam entre si e dentre de sua categoria social, e gozam de prestígio e admiração entre os outros ciganos;

(3) o grupo maior é formado por ciganos em mutação que vivem em bairros periféricos ou marginais das cidades, muitos deles misturados com gadjé, o que exige adaptações nos seus valores tradicionais e nas relações sociais. As crianças frequentam a escola e a convivência com gadjé é constante no trabalho, na vizinhança, nos bairros, nas instituições públicas. Suas atividades econômicas - comércio ambulante, ferro velho, trabalhos temporários - estão em declínio e por isso muitas vezes passam a depender da assistência social. Para eles, hoje só há uma alternativa: ou eles se assimilam nas camadas mais baixas da população, ou então eles ficam à margem da sociedade como grupo, e com a marginalização individual de muitos deles;  

(4) um grupo desestruturado e marginal, o segundo em importância numérica, cujos membros vivem em favelas, não têm emprego permanente mas vivem de apanhar ferro ou papel velho, de vez em quando comércio ambulante, atividades sempre mais difíceis de exercer. Costumam ser analfabetos e seus filhos não frequentam a escola com regularidade. Em tudo dependem da assistência pública, e não há como sair desta situação. São considerados um grupo socialmente problemático, gerador de conflitos e responsável pelos estereótipos negativos sobre os ciganos. Sua cultura hoje é semelhante à de outros grupos sociais miseráveis. Para sobreviver dedicam-se também à mendicância e a praticas ilegais como o tráfico de drogas.

O sociólogo Acton, por sua vez, apresenta uma tipologia dos ciganos ingleses, de acordo com o seu grau de integração na sociedade gadjé, e que tem algumas semelhanças com a classificação citada acima: (1) ciganos conservadores, (2) ciganos em processo de desintegração cultural, (3) ciganos em fase de adaptação cultural e (4) ciganos assimilados ou em processo de assimilação.[17]

Inúmeras outras classificações são possíveis, de acordo com os interesses teóricos ou práticos de cada pesquisador. O que importa aqui, no caso, não são tanto as duas classificações acima, mas deixar bem clara a enorme diferenciação que existe entre os ciganos, mesmo entre os ciganos de um determinado país ou região, para que sejam evitadas levianas generalizações que normalmente são mais prejudicais do que benéficas para as minorias ciganas. Nas palavras de Acton: “[Os ciganos] são um povo extremamente desunido e mal-definido, possuindo uma continuidade, em vez de uma comunidade, de cultura. Indivíduos que compartilham a ascendência e a reputação de “cigano” podem ter quase nada em comum no seu modo de viver, na cultura visível ou na língua. Os ciganos provavelmente nunca foram um povo unido”.[18]

Desconhecemos estudos detalhados sobre as diferenciações entre ciganos em países específicos (por exemplo, entre Kalderash e Calon no Brasil), mas é mais do que provável que em todos os países existam ciganos ricos e pobres, conservadores e progressistas, analfabetos e outros com diplomas universitários, politicamente passivos ou ativos, nômades e sedentários. Cabe aos cientistas sociais documentar esta imensa variedade cultural e social, algo que até hoje ainda não foram capazes de fazer, nem na Europa, nem no Brasil, nem em outras partes do Mundo.

 

Ciganos 'verdadeiros' e 'outros' ciganos.

 

Muitos ciganólogos têm observado que os ciganos Rom, e entre eles em especial os Lovara e os Kalderash, costumam auto-classificar-se como ciganos “autênticos”, “verdadeiros”, “nobres”, “aristocratas”, de primeira categoria, sendo todos os outros apenas ciganos “espúrios” ou “falsos” ciganos. Infelizmente, esta atitude discriminatória (dos próprios ciganos) é assumida também por muitos gadjé que realizam estudos ou trabalhos práticos entre os ciganos, ou por legisladores ou membros de organizações ciganas e pró-ciganas. Sabendo disto, muitos ciganos se dizem Rom, ou Kalderash, embora sem nunca ter sido. Okely, por exemplo, informa que na Suécia 

“ciganos originários da Polônia, sem prévias pretensões de serem Kalderash, adotaram nomes Kalderash quando de sua chegada na Suécia porque a estas pessoas é atribuído um status exôtico e favorável pela sociedade dominante. De fato, Tattares [nômades não-ciganos] são excluídos de lucrativos programas sociais. Parece que também em outros países da Europa, por exemplo na Bélgica, França, Holanda e Alemanha, grupos ou ‘tribos’ que se apresentam como Rom, Kalderash ou Lovari têm mais probabilidade de serem considerados de origem oriental, indiana, e de receberem status ‘real’, mesmo que só por estudiosos e representantes políticos gadjé”.[19]

 

Mas como se isto não bastasse, os ciganos ainda se discriminam mutuamente também por outro motivo: os ciganos sedentários muitas vezes olham com desprezo para os ciganos nômades que persistem nesta vida “primitiva”, enquanto os nômades acusam os sedentários de terem abandonado as tradições, e com isto terem deixado de ser ciganos. E com isto surgem intermináveis debates, entre os ciganólogos, sobre quem é cigano autêntico e quem não é. Debates, por sinal, estéreis, porque definir quem é e quem não é cigano é, de fato, uma tarefa praticamente impossível porque não existem critérios objetivos universalmente aceitos ou aceitáveis.

Ao chegarem na Europa Ocidental, no início do Século XV, os ciganos ainda podiam facilmente ser identificados através de sua aparência física, sendo a característica mais marcante a sua pele escura. Hoje isto já não é mais possível. Apesar da ideologia da endogamia, casamentos com não-ciganos sempre ocorreram, de modo que em muitos países hoje os ciganos fisicamente não se distinguem da população gadjé nacional. Ciganos “racialmente puros” hoje não existem mais em canto algum do mundo, e nunca existiram, porque nunca existiu uma “raça” exclusivamente cigana. Impossível, portanto, identificar os ciganos através de características físicas peculiares ou estabelecer “critérios biológicos de ciganidade”.

Por sinal, já se tentou fazer isto no passado, mas sem êxito. Na Alemanha nazista, por exemplo, antropólogos físicos e biólogos tentaram descobrir, para fins práticos, quais as características raciais ciganas, já que na maioria dos casos era impossível distinguir os ciganos do resto da população, através de características físicas, culturais ou outras. Mas mesmo os nazistas nunca foram capazes de descrever estas características. Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era considerado “cigano” todo indivíduo com três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço em primeiro grau era quem tinha menos do que três avós “verdadeiros ciganos”; mestiço em segundo grau era quem tinha pelo menos dois avós “ciganos-mestiços”. Mas, acreditem se quiserem, para os ‘cientistas’ (antropólogos e biólogos) nazistas, avó ou avô “verdadeiro cigano” era aquele que sempre tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como “cigano”. Ou seja, no final das contas, quando da identificação ‘racial’ dos vovôs e das vovós, passavam a usar critérios subjetivos (sociais/culturais), e não objetivos critérios científicos (biológicos/raciais). Calcula-se que cerca de 500.000 ciganos europeus foram exterminados pelos nazistas antes e durante a II Guerra Mundial.

Classificar como “verdadeiros” ciganos todos aqueles que falam uma língua cigana também não adianta, porque muitos ciganos já não a falam mais e outros a dominam muito mal, ou até já a esqueram por completo. Muitos autores, de várias partes do mundo, afirmam que, mesmo entre si, os ciganos costumam falar a língua do país em que vivem e que a língua cigana, na maioria das vezes, costuma ser usada apenas ocasionalmente, quando necessário. San Román, por exemplo, informa que na Espanha, “excluindo os ciganos nômades, poucos conhecem [a língua] Caló, e recorrem a ela principalmente na presença de payos [a palavra espanhola para não-ciganos] que desejam enganar, e dos quais querem distinguir-se. (...) [A língua Caló] não é tanto um meio de comunicação, mas antes um meio para excluir os payos dos assuntos ciganos. Entre si falam espanhol”.[20]

Características culturais exôticas, visíveis externamente, também não servem mais para identificar os ciganos, pelo simples fato de que os ciganos não têm, e provavelmente nunca tiveram, uma cultura única. Um exemplo, entre muitos outros possíveis, é o vestuário.  Muitas mulheres ciganas ainda usam longas saias, além de jóias de ouro e prata, mas inúmeras outras não. Os homens ciganos, ao que tudo indica, nunca tiveram uma roupa “típica”, a não ser às vezes no meio artístico. Por isso, em quase todo mundo os ciganos usam a mesma roupa dos gadjé do país em que vivem, a não ser nas ocasiões em que é necessário ou útil ser reconhecido como cigano, o que pode ser o caso com mulheres que se dedicam à quiromancia, ou com homens que exercem atividades artísticas, p. ex. músicos das populares ‘orquestras ciganas’ européias, fantasiados com fardas de militares húngaros ou cossacos russos de séculos passados. No carnaval europeu (e parece que também brasileiro), no entanto, as fantasias ‘ciganas’ populares mais usadas pelos gadjé costumam ser imaginárias vestimentas ciganas ibéricas, tanto para os homens quanto para as mulheres. Desnecessário dizer que nenhum cigano e nenhuma cigana veste uma roupa desta na vida real.

Muitas vezes mulheres gadjé que se dedicam a atividades esotéricas costumam fantasiar-se de “cigana” conforme os estereótipos existentes na região, o que dá mais “status” e atrai mais clientes. Já dissemos que o vestuário estereotipado cigano em muitos países costuma ser uma popular fantasia carnavalesca. O problema é que, às vezes, os próprios ciganos passam a usar estas fantasias, como se fosse seu vestuário tradicional, o que parece ser o caso principalmente com artistas que apresentam músicas e danças ditas ciganas, e que por isso não apenas precisam ser, mas também precisam parecer ciganos, e de preferência Kalderash. E para parecer um cigano, somente usando um estereotipado vestuário cigano, nem que seja uma fantasia carnavalesca. No Brasil, alguns ciganos, inclusive, adotaram nomes artísticos ou fizeram retoques nos seus sobrenomes portugueses ou italianos (que poderiam denunciar uma descendência Calon ou Sinti, menos valorizada pelos gadjé e pelos próprios ciganos) e deram-lhes uma aparência mais balcânica, mais “Kalderash”, substituindo, por exemplo, os terminais -ite e –ides por –itch ou -icth, ou -ante por -anov, ou algo semelhante.

Já vimos que este processo de ‘kalderashização’ também foi observado por Okely na Suécia, entre ciganos poloneses. É óbvio que, no Brasil, uma “Orquestra Cigana Francisco Santana Filho”, vestindo roupas de couro dos vaqueiros nordestinos, teria bem menos chance de obter sucesso do que uma “Orquestra Cigana Ferenc Santanovitch”, vestindo-se a la gitane, com carnavalescas fantasias ciganas (húngaras, russas ou espanholas), e as mulheres dançando alegremente um csàrdás húngaro vestindo roupas de bailarina flamenca espanhola. Trata-se de uma estratégia artística legal, adotada mundialmente.

Uma das características sempre atribuídas aos ciganos tem sido seu nomadismo, sua vida errante, de modo que muitas vezes ciganos são identificados como nômades, e vice-versa. No Reino Unido, para fins legais, os juizes da Suprema Côrte concluiram em 1967 que cigano era ‘uma pessoa que leva uma vida nômade sem emprego fixo e sem domicílio fixo’. Logo depois, a Caravan Sites Act de 1968 definiu ciganos como “pessoas com um modo de vida nômade, qualquer que seja sua raça ou origem, excluindo artistas viajantes ou pessoas que trabalham em circos viajantes”.[21] Ambas as definições jurídicas são totalmente errôneas, porque na Europa, e inclusive no Reino Unido, vivem centenas de milhares de nômades que não são ciganos, não se identificam e nem querem ser identificados como ciganos, e sabe-se que, por motivos diversos, hoje apenas uma minoria cigana é nômade. Por isso, para alguém ser um “verdadeiro” cigano, não há porque exigir que ele tenha uma vida nômade. Ciganos nômades ainda existem, mas muitos hoje são semi-nômades ou sedentá­rios: os nômades viajam re­gularmente, os semi-nômades (ou semi-seden­tários) viajam so­mente durante parte do ano e ficam em acampamentos fixos ou em casas e apartamentos du­rante o resto do tempo; os sedentá­rios deixaram de viajar por comple­to ou via­jam dificil­mente, mas nem por isso deixaram de ser ciganos.

Um caso talvez raro, mas que certamente não será o único no mundo, são os ciganos que a antropóloga Kaprow encontrou em Zaragoza, na Espanha. Embora auto-identificados e identificados pelos gadjé como ciganos, não apresentavam nenhuma das características normalmente atribuídas aos ciganos: viviam em casas, frequentavam lojas, hospitais, cinemas, como os outros espanhois, dos quais fisicamente em nada se distinguiam; falavam apenas espanhol, e não tinham atividades profissionais especiais, tipicamente “ciganas”. Ou seja: nenhuma característica exterior possibilitava a identificação destes “ciganos” de Zaragoza, que não tinham tradições, valores, ideologias, rituais, culinária, etc. próprias. Mesmo assim se identificavam e eram identificados como ciganos.[22]

Quem é então cigano? Dizer, como faz Acton, que cigano é “toda pessoa que sinceramente se identifica como tal”[23] não é uma definição satisfatória, por ser unilateral, porque a identidade étnica, da mesma forma como a identidade nacional, é bilateral e exige também que o grupo étnico, ou a nação, reconhece o indivíduo como membro. A questão é bastante complexa porque, como lembra Willems, “em princípio estão envolvidos quatro partes: os definidos, isto é, os ‘ciganos’, as autoridades (Igreja e Estado), os cientistas e o povo”.[24] Cada uma destas partes pode ter opiniões e definições diferentes sobre quem é ou não é cigano. Um bom exemplo de confusão terminológica é oferecido pela ex-Iugoslávia.

Naquele país, em 1990 milhares de individuos tradicionalmente identificados como “ciganos” passaram a auto-denominar-se “egípcios” e exigiram ser reconhecidos como narodnosti (nacionalidades, ou minorias nacionais, como os albaneses e húngaros residentes no país) e não mais como grupos étnicos, como os ciganos. Informaram, ainda, terem sido os fundadores do “Pequeno Egito”, na Grécia, quatro séculos antes de Cristo. Suas atividades comerciais os teriam levado até a Macedônia (na ex-Iugoslávia), onde fizeram florescer as cidades de Ohrid e Bitola, nas quais vivem há séculos. Por terem sempre adotado as línguas dos povos com os quais faziam comércio, teriam esquecido por completo a língua egípcia. Somente muitos séculos depois, também outros imigrantes, os tais ‘ciganos’, teriam chegado ao “Pequeno Egito”, de onde depois se espalharam pelo resto da Europa e do Mundo. No censo anterior, de 1981, quando este movimento ainda não tinha iniciado, a maioria destes “iugo-egípcios” declarou ser “albanês”, enquanto os albaneses legítimos os consideraram “ciganos albanizados”.[25]

Para nós não interessa aqui discutir se esta história sobre a origem egípcia, que se baseia numa mais do que duvidosa história oral, é verdadeira ou apenas mais uma lenda, uma fantasia. O que interessa é saber que de repente milhares de indivíduos (eles próprios calcularam que eram 100.000), tradicionalmente denominados “ciganos”, de repente passaram a negar esta identidade e assumiram outra, tirada de um baú de lendas, estórias e fantasias, para a qual reclamaram, inclusive, o status superior de narodnosti (nacionalidade ou minoria nacional).

Apesar de todas estas dificuldades, definimos aqui cigano como cada indivíduo que se considera membro de um grupo étnico que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon, ou um de seus inúmeros sub-grupos, e é por ele reconhecido como membro. O tamanho deste grupo não importa; pode ser até um grupo pequeno composto de uma única família extensa; pode também ser um grupo composto por milhares de ciganos; nem importa se este grupo mantém reais ou supostas tradições ciganas, ou se ainda fala fluentemente uma língua cigana, ou se seus membros têm “cara” de cigano ou características físicas supostamente “ciganas”.

A identidade cigana é automaticamente transmitida aos filhos quando ambos os pais são ciganos. No caso de casamentos mistos, com gadjé - que, embora exceção, sempre existiram – geralmente os filhos só serão considerados ciganos se os pais residam no grupo ou mantenham vínculos com o mesmo, e desde que os filhos sejam educados na ‘tradição cigana’, seja ela qual for. A identidade cigana pode ser perdida, primeiro, por opção individual, quando o indivíduo se desliga consciente e voluntariamente do seu grupo e passa a viver no mundo dos gadjé, assimilando seu modo de vida; segundo, pelo casamento com gadjé e posterior opção pela vida fora do grupo, no mundo gadjé, caso em que também os filhos não serão mais considerados ciganos; e finalmente, por expulsão, quando o indivíduo, por ter infringido certas normas grupais, deixa de ser considerado membro da comunidade cigana.

Quanto à suposta autenticidade e aristocracia dos Kalderash ou Lowara, subscrevemos a afirmação de Williams que considera inadmissível a distinção entre “verdadeiros” ciganos, aos quais se atribue uma origem exôtica e riqueza cultural, e “os outros”, que seriam apenas marginais no mundo cigano.[26] Ou seja: não existem ciganos autênticos e ciganos espúrios: existem apenas Rom, Sinti e Calon, que possuem inúmeras auto-denominações, que falam centenas de linguas ou dialetos, que têm os mais variados costumes e valores culturais, que são diferentes uns dos outros, mas que nem por isso são superiores ou inferiores uns aos outros.

Em comum todos eles têm apenas uma coisa: uma longa História de ódio, de perseguição, de discriminação pelos não-ciganos, em todos os países por onde passaram, desde o seu aparecimento na Europa Ocidental, no início do Século XV.


[1].   Fraser, A . The Gypsies,  Oxford, Blackwell Publishers, 1992, pp.46-47

[2].   Foletier, F. de Vaux de, Le Monde des Tsiganes, Paris, Berger-Levrault, 1983, p.16;  Liégeois, J.P., Los Gitanos, México,  Fondo de Cultura Economica, 1988, p. 30; Fraser 1992, p.50.

[3].   Liégeois 1988, pp.35-39; Fraser 1992,  pp.10-22

[4].   Fraser 1992, p. 22

[5].   Fraser 1992, p. 311

[6].   Fonseca, I.,  Enterrem-me em pé: a longa viagem dos ciganos, São Paulo, Companhia das Letras, 1996, pp.129-131

[7].    Singular masculino “Rom”, plural “Roma”; feminino: “Romni” e “Romnia”. Apesar disto, como  fazem muitos outros autores europeus, a seguir sempre escreveremos “os Rom” e não “os Roma”; da mesma forma “os Calon”, “os Sinti”, etc. Até os ciganólogos brasileiros chegarem a um acordo sobre a grafia das (auto)denominações ciganas, aplicaremos também para elas a "Convenção para a grafia dos nomes tribais" (indígenas), aprovada na 1a. Reunião Brasileira de Antropologia, em 1953, e segunda a qual "Os nomes tribais se escreverão com letra maíuscula, facultando-se o uso de minúscula no seu emprego adjetival", e "Os nomes tribais não terão flexão portuguesa de número ou gênero, quer no uso substantival, quer no adjetival" (Revista de Antropologia, vol. 2, no. 2, 1954, p. 150-152).

[8].     Principalmente na bibliografia françesa (p. ex. em Martinez, N., Os Ciganos, Campinas,, Ed. Papirus, 1989), o leitor encontrará juntos, muitas vezes até numa mesma frase, os termos tsiganos e gitanos (ciganos), e neste caso o primeiro se refere aos Rom balcânicos, e o segundo aos Calon ibéricos.    

[9].     Fraser 1992, p.12

[10].   San Román, T. de,  “Kinship, marriage, law and leadership in two urban gypsy settlements in Spain”, IN: Alcock, A., Tayler, B. e Welton, J.  (eds.), The future of cultural minorities, London, 1979, p.169

[11].    Liégeois, J.P., Gypsies and Travellers, Strasbourg,  Council of Europe, 1987, p. 24

[12].   Acton, Th.,  “Oppositions théoriques entre ‘tsiganologues’ et distinctions entre groupes tsiganes”, IN: Williams, P. (ed.), Tsiganes: identité, évolution, Paris, Syros Alternatives, 1989, p.89; Acton, Th., Gypsy politics and social change, London, Routledge & Keagan Paul, 1974, p.3

[13].    Formoso, B., Tsiganes et sédentaires, Paris, L’Harmattan,  1986, p. 16-17

[14].   Martinez, N.,  “Aspects de la pensée tsigane”, IN: Jacobs, A. (ed.), Encyclopédie Philosophique Universelle, Vol. I, Paris, 1989, p.1562

[15].   Garcia, J. M.., “La communauté gitane en Espagne”, Ethnies: Droits de l’Homme et Peuples Autochtones, Vol. 8, no. 15, 1993, pp.70-74

[16].    Singular masculino: gadjó; singular feminino: gadjí. Existem ainda outras denominações, quase sempre com sentido pejorativo, como gorgio, na Inglaterra, ou payo, na Espanha.

[17].   Acton 1974, pp.35-36

[18] .  Acton 1974, p. 55

[19].   Okely, J., The Traveller-Gypsies, New York, University of Cambridge Press, 1983, pp.10-11

[20].  Román 1979, pp. 171 e 191

[21].  Fraser 1992, p.3

[22].  Willems, W., Op zoek naar de ware zigeuner, Utrecht, Van Arkel, 1995, p. 7

[23].  Acton 1974, p.59

[24].  Willems 1995, p. 9

[25].  Willems 1995, pp. 3-5. Também Fonseca 1996, pp.89-90, faz referência a estes supostos ‘egípcios’, conhecidos como Yevkos, e que não falam mais a língua romani.

[26].  Williams, P., “Introduction: dans le lieu et dans l’époque”, IN: Williams (ed.) 1989, p.28


 

Capítulo 1

A PRIMEIRA ONDA MIGRATÓRIA.

 

 

No início do Século XV aparecem na Europa Ocidental as primeiras notícias sobre viajantes exôticos, indivíduos com uma pele escura ou ‘preta’ e, segundo muitos cronistas, com uma “aparência horrível”, e com alguns hábitos nada agradáveis.

Viajavam em bandos de tamanho variável, de algumas dezenas até centenas de pessoas. No início, cada bando era liderado por alguém que se auto-intitulava “duque”, “conde”, “voivode” etc., de acordo com os títulos de nobreza usados nos países por onde passavam. São estes exôticos viajantes estrangeiros, vindos dos Balcãs, os antepassados dos indivíduos hoje, no mundo todo, genericamente denominados “ciganos” (ou gitanos, tsiganes, gypsies, zigeuner, etc.), cuja pré-história e história antiga até hoje ainda são praticamente incognitas. Não sabemos, por exemplo, por quais motivos estes bandos ciganos, provavelmente em épocas diferentes, resolveram migrar dos Balcãs para a Europa Ocidental. Alguns autores afirmam que foi por causa das guerras contra os turcos, outros afirmam que foi por causa disto ou daquilo, mas na realidade ninguém sabe nada com certeza. O único fato devidamente comprovado é que, a partir do início do Século XV, pequenos bandos "ciganos" migraram para a Europa Ocidental.

As primeiras notícias realmente fidedignas datam de 1417, quando várias vezes há registro de ciganos na Alemanha. Primeiro em Hildesheim, onde consta que duas pessoas foram pagas para limpar a casa na qual ficou hospedado um grupo de “Tártaros do Egito”. Já em Magdeburg informa-se que durante duas semanas estiveram na cidade “os Tártaros, chamados ciganos”, gente preta, horrível, tanto os homens quanto as mulheres, com muitas crianças, que foram expulsos de seu país e desde então vagavam pela terra. Na feira, e depois diante dos Conselheiros, se exibiram como acrobatas e saltimbancos: “um dançava nos ombros do outro”, pelo que receberam um tonel de cerveja, um boi e pão. Em outra cidade, os ciganos tiveram entre si uma violenta briga que resultou na morte de um deles; o cigano assassino foi preso e decapitado pelas autoridades locais.[1]

Um cronista alemão da época, o frade dominicano Korner, informa que veio do Leste um “grande número” de indivíduos errantes (cerca de 300), antes nunca vistos. Inicialmente apareceram em Lueneburg, visitando depois as ricas cidades marítimas de Hamburg, Luebeck, Rostock, além de outras. Segundo o frade, estes indivíduos estranhos viajavam em bandos e pernoitavam fora das cidades, ao ar livre; eram feios, pretos como os Tártaros, e se chamavam Secani. Eram liderados por um conde ou um duque, aos quais obedeciam; eram grandes ladrões, em especial as mulheres, e vários deles foram presos e mortos. Korner informa ainda que eles portavam salvo-condutos fornecidos por reis, principalmente de Sigismundo, rei da Hungria e posterior Imperador do Santo Império Romano; os ciganos explicaram que “os bispos do Leste” os condenaram a peregrinar durante sete anos, como penitência por terem abdicado a fé cristã e terem voltado ao paganismo. Em novembro de 1417, um cronista anônimo registra a presença de ciganos na Bavária e menciona que eles tinham salvo-condutos nos quais constava que eles podiam furtar de quem não lhes desse esmolas, e por isso eles roubavam muito, e ninguém podia impedir-lhes isto.[2]

No ano seguinte, a prefeitura da cidade de Munique entregou aos ciganos uma boa soma em dinheiro, pão, carne e vinho, como esmola em nome de Nossa Senhora. Também a prefeitura de Frankfurt am Main registra gastos com ciganos e a prefeitura de Basel, na Suiça, faz o mesmo para o pagamento de seis carneiros e uma meia carroça de vinho para os ciganos. Alguns dias depois, estes ou outros ciganos estão em Zurich, e nesta cidade as informações, de vários cronistas, são bastante confusas. Certo é que na cidade estiveram dois bandos ciganos ao mesmo tempo, mas cada um com seu próprio líder, e que acamparam fora da cidade, mas em dois lugares diferentes. Não consta que a prefeitura de Zurich contribuiu para a manutenção e alimentação destes dois bandos ciganos. Um cronista informa que os ciganos “viviam como cristãos, portavam muito ouro e prata, mas vestiam roupas pobres. Eles recebiam manutenção e dinheiro dos seus de sua pátria, não tinham falta de alimentação, pagavam suas comidas e bebidas e após sete anos voltariam para casa”. Por sinal, estes ciganos - nos documentos chamados Zaginer ou Zingri - diziam ser originários do Pequeno Egito e de Igritz e que foram expulsos pelos turcos.[3]

Um bando cigano é mencionado por um cronista que, em 1419, fala de 200 “pagãos” batizados, em quatro cidades suiças. Em Berna ficaram acampados ao ar livre, fora da cidade, mas até isto lhes foi proibido por causa dos furtos que cometiam. Os duques e condes que lideravam estes “pagãos” (= ciganos) andavam a cavalo e tinham cintos de prata, mas os outros, os seus súditos, eram pobres; apresentavam cartas do rei Sigismundo.[4]

Nos anos seguintes os ciganos ainda merecem várias menções: em 1422 registra-se a chegada, em Basel, do conde Miguel do Egito, com 50 cavalos; o documento fala de “pagãos, chamados Sarracenos”; já estiveram várias vezes antes em Basel e outros lugares; acampavam ao ar livre e apresentavam cartas do papa Martinho V, do rei Sigismundo e de ‘outros Senhores’, mas mesmo assim ninguém gostava deles. E em 1424 um cronista da Bavária fala de pequenos grupos de ciganos (Cingari, ou Cigawnar), às vezes até 30 pessoas, às vezes menos - ou seja, bandos muito pequenos de apenas algumas poucas famílias, ou apenas uma família extensa -, nas redondezas de Regensburg, e que viviam em tendas. Não foi permitida sua entrada na cidade, por causa de sua roubalheira. Ao que tudo indica, eram originários da Hungria, mas o povo acreditava que eram espiões. Em 1426, mais uma vez aparecem ciganos (Gens Ziganorum) em Regensburg, acampando em tendas, fora da cidade.[5]

Na mesma época, a presença de ciganos é registrada também na Holanda, na Bélgica e na França, onde já são notícia pelo menos desde 1418, quando aparecem em Colmar trinta “pagãos” com mulheres e crianças. Três dias após este pequeno grupo ter saído, chegou um grupo maior de cerca de cem “pagãos”, que se diziam oriundos do Egito: eram pretos, e as mulheres, vestindo uma espécie de cobertor, previam o futuro lendo a mão, e ao mesmo tempo furtavam o dinheiro dos bolsos dos clientes. No ano seguinte os ciganos são várias vezes vistos em outras regiões do país, e cada vez recebem comida e dinheiro. Em 1419 um duque cigano viaja com 200 pessoas pela Savóia, enquanto o duque André é acompanhado por "120 pessoas, ou talvez mais". Um grupo bem menor de apenas 30 ciganos é observado em Arras em 1421, onde ficam três dias, e em 1422 ciganos visitam novamente a cidade de Colmar.[6]

Na França, alguns chefes ciganos apresentam-se como “Conde do Egito Menor na Boêmia”, “Conde dos Boêmios do Egito Menor”, ou “Duque da nação da Boêmia” (na atual República Tcheca, então parte do Santo Império Romano), pelo que na França os ciganos também passaram a a ser chamados “boêmios”, ou seja, oriundos da Boêmia.[7]

A travessia para as ilhas britânicas levou mais tempo e somente a partir de 1505 há notícias sobre ciganos na Escócia, na côrte do rei Jaime IV. Tratava-se de um bando de cerca de 60 pessoas, gente pobre e miserável, liderado por Antônio Gagino, “conde do Pequeno Egito”, e que foi bem recebido. Mas após alguns meses resolveram ir para a Dinamarca, para o que o rei Jaime lhes forneceu uma carta de apresentação para seu tio João, rei da Dinamarca. Na Inglaterra há registro de ciganos a partir de 1513, mas logo passam a ser perseguidos. Em 1540 há novamente registro de ciganos na Escócia, mas já então não eram mais bem-vindos e o rei Jaime V ordena a sua saída do país. O conde cigano John Faw afirma então que pretende sair do país e viajar para o Egito, mas treze anos depois ainda se encontram ciganos na Escócia. Na Dinamarca, a perseguição aos ciganos inicia a partir de 1554: é proibido hospedar ciganos e quem matá-los pode ficar com suas propriedades; as autoridades locais que permitirem a presença de ciganos tornam-se responsáveis pelos danos por eles causados.[8]

Pelo menos no início, os bandos ciganos oriundos do Leste eram liderados por homens com algum real ou auto-atribuído título de nobreza: conde, duque ou voivode, e há notícia até de alguns “reis” ciganos. Apresentavam-se como penitentes ou peregrinos, com cartas de apresentação e salvo-condutos de reis, príncipes e nobres, e até do papa, nas quais estes pediam que se fornecesse aos ciganos a melhor acolhida possível, hospedagem, alimentação e dinheiro.

Fraser acredita que os ciganos aprenderam o valor destes documentos observando peregrinos e viajantes europeus nos portos de Constantinopla ou na Grécia, e resolveram imitar este exemplo para obter uma fonte de renda fácil quando decidiram migrar para a Europa Ocidental.[9] E de fato, no ínicio do Século XV os primeiros bandos ciganos foram bem recebidos, com ou (depois sempre mais) contra a vontade das autoridades locais.

Segundo Van Kappen, uma das razões para esta boa recepção era justamente o fato de estes primeiros grupos ciganos serem liderados por homens que se apresentavam com títulos da nobreza europeia, e que realmente o eram ou pelo menos pareciam sê-lo. Consta que os chefes ciganos montavam belos cavalos - na época privilégio dos nobres europeus -, vestiam roupas luxuosas, ostentavam grande riqueza em ouro, prata e joías, hospedavam-se nos hoteis mais caros e realmente se comportavam como “nobres”; o seu “séquito” era formado por ciganos comuns, sujos e maltrapilhos, que andavam a pé, passavam fome e dormiam ao ar livre ou quando muito em algum miserável depósito, armazem ou prédio público. Não há notícias sobre tais “nobres” ciganos na Grécia ou em outros países, em épocas anteriores. É possível que até esta aparente divisão social, econômica e política tenha sido uma estratégia dos ciganos, para obter mais facilmente o sustento para todos.

Um outro motivo seria que eles se apresentaram como peregrinos (existem várias versões sobre a motivação), categoria de pessoas que na época merecia a piedade cristã, hospitalidade e assistência em alimentos, bens ou dinheiro.

Mas os "peregrinos" ciganos eram diferentes dos outros peregrinos europeus em pelo menos três aspectos: (a) eram estrangeiros exôticos, de outra “raça” desconhecida, e de uma terra longuíngua e misteriosa (“Pequeno Egito”); (b) não se dirigiam a um santuário específico, ou à Terra Santa, mas vagavam a esmo pelo Europa, aparentemente sem destino, viajando de um santuário a outro, na medida em que descrobiam a sua existência; (c) não se tratava de penitentes ou peregrinos individuais, mas de grupos grandes, de dezenas ou centenas de pessoas.[10]

Fraser levanta dúvidas sobre a identidade cigana destes “duques” e ”condes”. Eles podem ter sido ciganos de verdade, mas também podem ter sido não-ciganos - eventualmente casados com ciganas - que na Grécia e em outros países balcânicos foram nomeados para cuidar da administração dos ciganos. O que explicaria talvez o poder que, comprovadamente, eles tinham sobre os outros ciganos, a sua boa aceitação por altas autoridades da época e o seu comportamento “nobre”, aparentemente bem diferente do resto do grupo cigano. E daí também porque alguns salvo-condutos e cartas de apresentação informavam que os ciganos de mau comportamento só podiam ser julgados e punidos por seus chefes, e não pelas autoridades locais.[11]

No início do Século XV era comum europeus fazerem peregrinações para lugares onde viveram ou estavam enterrados santos, ou se encontravam relíquias, como na Terra Santa. Muitos deles eram penitentes que contavam com o apoio da Igreja, e por extensão das autoridades civis e dos cidadãos comuns. A caridade cristã praticamente obrigava a todos hospedar, ou no mínimo dar assistência alimentar e financeira a estes peregrinos e penitentes. Daí porque em muitas cidades existiam até albergues especialmente construídos para hospedá-los. Obviamente, muitos vagabundos e mendigos comuns se aproveitavam disto. Na maioria dos casos, os lugares de peregrinação ficavam na Europa: Compostella, Roma e muitos outros lugares hoje menos conhecidos. Porém, entre os peregrinos andavam também muitos nobres abastados, dirigindo-se à Terra Santa. Difícil, quase impossível, era as autoridades e o povo em geral distinguirem entre os verdadeiros e os falsos peregrinos e penitentes, entre os plebeus e os nobres.

Talvez por causa disto, já então nem todo mundo acreditava nas estórias contadas pelos ciganos. Um cronista alemão de 1439 informa que: “Eles contam falsamente que são do Egito e que foram forçados ao exílio pelos deuses, e sem vergonha nenhuma fingem estar expiando, através de um banimento de sete anos, os pecados dos seus antepassados que enxotaram a Nossa Senhora com o Menino Jesus .....”. Ao que Fraser acrescenta que, se foram os próprios ciganos que inventaram esta estória, eles cometeram um ato imprudente porque os europeus ainda não sabiam que naquela época os ciganos ainda não tinham saído da Índia, e com esta lenda forneceram aos europeus mais uma razão para odiá-los, da mesma forma como o anti-semitismo se baseava na acusação de os judeus terem sido cúmplices na crucifixação de Jesus.[12] Outras estórias, por sinal, também falam da participação dos ciganos na crucifixação de Jesus, seja como fabricantes dos pregos usados na mesma, seja como ladrões do quarto prego (pelo que só sobraram três e os pés tiveram que ser pregados com um prego só). A Bíblia, no entanto, em lugar algum faz referência a ciganos. Por isso talvez seja mais provável que estas estórias, lendas e fantasias, que ainda têm várias outras versões, tenham sido inventadas por não-ciganos.

Esta primeira onda cigana na Europa Ocidental, aparentemente era composta por indivíduos relativamente bem comportados, e cujos líderes se apresentavam não apenas com títulos de nobreza, mas também com nomes cristãos - André, Antônio, Francisco, Miguel, Thomás etc. -, e que por isso foram bem recebidos pelas autoridades civis e eclesiásticas, das quais costumavam obter cartas de apresentação e salvo-condutos (que correspondem mais ou menos aos passaportes da atualidade), entre os quais do rei e posterior imperador católico Sigismundo (1410-1437) e do papa Martinho V (1417-1431).

Nos arquivos do Vaticano nunca se encontrou referência a uma carta de apresentação papal, pelo que muito se tem duvidado de sua autenticidade. Mas quanto a isto, Van Kappen apresenta uma explicação plausível: tanto o rei Sigismundo quanto o recém-eleito papa Martinho V encontravam-se em 1417-18 em Konstanz, na Alemanha, onde participavam do Concílio que desde 1414 se realizava naquela cidade; o papa, eleito neste Concílio, só chegou pela primeira vez em Roma em 1420 e as cartas de apresentação teriam (ou poderiam eventualmente ter) sido escritas não em Roma, mas em Konstanz.[13] Também Gilsenbach fala amplamente deste Concílio, realizado justamente na época em que aparecem as primeiras notícias sobre ciganos nos países germânicos, e acredita que os salvo-condutos de Sigismundo, apresentados por muitos ciganos, sejam verdadeiros, inclusive porque pelo menos um deles foi assinado em Lindau, que fica perto de Konstanz, e porque as experientes autoridades de Hamburgo e de outras cidades hanseáticas, onde estas cartas foram apresentadas, certamente logo teriam descoberto eventuais falsificações. Uma carta papal foi exibida pela primeira vez pelo duque cigano Miguel, em Basel, Suiça, em 1422.[14]

Não foram ainda descobertos documentos sobre a presença de ciganos nas côrtes do rei e posterior imperador Sigismundo, pelo que desconhecemos os motivos pelos quais ele emitia tão generosamente estes documentos, mas das duas uma: ou ele gostava muito dos ciganos, ou então expedia estes salvo-condutos para se livrar logo da presença deles. Gilsenbach apresenta uma terceira hipótese, segundo a qual Sigismundo, por volta de 1396, utilizou ciganos na sua Cruzada contra os turcos - então uma ameaça para seu reino húngaro - , e depois da vitória os gratificou regiamente com salvo-condutos.[15]

O fato de pessoas nobres, em viagem, apresentarem cartas de altas autoridades civis ou eclesiásticas era comum na época, mas também existia uma florescente indústria de falsificações. Hoje, salvo talvez em alguns casos excepcionais, não há como saber quem apresentava documentos autênticos ou falsificados. O que também não importa tanto. O fato é que, por via das dúvidas, quase sempre estes documentos eram aceitos pelas autoridades locais que, na época, não tinham meios para conferir de imediato a sua autenticidade, e por isso atendiam aos desejos da citada autoridade superior.

Muitas cartas de apresentação parecem, de fato, ter sido falsificações grosseiras. Algumas, como a carta do rei Sigismundo apresentada pelos ciganos em Bolonha, em 1422, autorizavam os ciganos a roubar impunemente! Outras informavam que os ciganos só podiam ser punidos por seus próprios chefes (condes, duques, voivodes e.o.) e não pelas autoridades locais. Uma outra carta, supostamente recebida do papa, informava que os ciganos tinham obtido um meio-perdão dos seus pecados e que a outra metade só conseguiriam após sete anos de peregrinação; uma curiosa e incomum meia-lavagem da alma! É difícil acreditar que alguma alta autoridade política ou eclesiástica tenha expedida cartas deste tipo.[16]

Outro problema é a grande quantidade de duques, condes e voivodes ciganos perambulando pela Europa, todos apresentando cartas de apresentação e salvo-condutos idênticos ou semelhantes. Nos documentos dos séculos XV-XVI, Gilsenbach descobriu os nomes de cerca de cinquenta deles; alguns aparecem apenas uma única vez, outros reaparecem em épocas e lugares diferentes. Mas, explica ele, isto não quer dizer que sempre se tratava da mesma pessoa porque, enquanto um bando de ciganos possuía um salvo-conduto em nome de Tomás, o seu chefe sempre seria chamado Tomás, seja qual fosse seu nome verdadeiro.[17]

A rica cidade holandesa de Middelburg, por exemplo, entre 1457 e 1476 foi visitada por no mínimo seis “condes” ciganos diferentes: 1457 - conde Constantino, com “grande séquito”, recebeu 16 florins e prometeu não voltar mais; mesmo assim voltou em 1460 e o documento informa que seu bando era formado por “gregos”; 1458 - conde Nicolau com 60 seguidores (recebeu dinheiro, igualmente sob condição de não voltar mais);  1466 - conde João; 1473 - conde Antônio (sob condição de não hospedar-se com os seus ciganos na cidade); 1476 - sucessivamente os condes Filipe e Simão. Antes disto a cidade já tinha sido visitado por outros “condes” ciganos, mas cujos nomes não são mencionados. Na década de 90, a cidade seria visitada por ciganos nada menos do que sete vezes, e que cada vez receberam uma soma em dinheiro sob condição de não entrar na cidade e ir logo embora! [18]

Não resta dúvida que, por causa destas cartas e salvo-condutos, os bandos ciganos foram bem recebidos na Europa Ocidental no início do Século XV. Em janeiro de 1420, um certo “Duque André do Pequeno Egito”, chefe de um bando cigano, recebeu da prefeitura de Bruxelas, na Bélgica, alimentos, cerveja, vinho, uma vaca, quatro carneiros e 25 moedas de ouro. Em março de 1420, o mesmo André - que estava viajando com cerca de 100 pessoas e 40 cavalos - recebeu 25 florins da prefeitura de Deventer, na Holanda, além de alimentos, pão, peixes, cerveja, capim para os cavalos e hospedagem no wanthuis, uma espécie de armazem, ao lado da prefeitura, que depois teve de passar por uma limpeza total.[19] O mesmo aconteceu em 1428 em Hildesheim, na Alemanha, onde um grupo de ciganos ficou hospedado na casa da família Mollemes; receberam uma pequena esmola em dinheiro, mas a prefeitura contestou depois os gastos com iluminação e cerveja; no entanto, concordou em pagar as despesas para limpar a casa dos Mollemes, porque a sujeira deixada pelos ciganos deve ter sido mais do que comprovada.[20]

Na Alemanha estes salvo-condutos continuam sendo expedidos pelo menos até meados do século XV: em 1442 Frederico III, Rei do Santo Império Romano, fornece salvo-conduto a Miguel, ‘conde dos Czygenier’, válido em todo o território do reino. Um ano depois, este mesmo “Miguel, Conde dos Ciganos” recebe outra carta de apresentação do Conde Gerhard von Juelich und Berg, com validade de um ano, na qual este autoriza os ciganos a viajar por seu condado e comprar todas as suas necessidades, desde que pagando em dinheiro, e desde que se comportassem bem e não incomodassem ninguém. Ou seja, já se trata de uma apresentação com prazo de validade, limitações geográficas e exigindo um comportamento adequado. Em 1448, e mais uma vez em 1454, este Conde Gerhard fornece uma carta de apresentação semelhante ao Conde “Dietrich do Pequeno Egito”, sempre com validade de um ano.[21]

Porém, em muitas cidades estas cartas nada valiam. Entre 1448 e 1497 os ciganos aparecem pelo menos treze vezes na cidade de Frankfurt am Main, e sempre são logo expulsos. Em 1472 alguns ciganos são até presos e somente libertos após terem devolvidos os objetos furtados.[22] E não demoraria muito para surgirem dúvidas sobre estas cartas de apresentação e as estórias contadas pelos ciganos. O cronista Aventinus (nome latino do alemão Johannes Thurmeyer), escrevendo no final do século, informa que em 1439 estiveram na Bavária ciganos liderados pelo “Rei Zundel”: afirmaram ser originários do Egito e tinham que errar sete anos pelo mundo porque, tempos atrás, não deram hospedagem ao menino Jesus e à Nossa Senhora. Aventinus considera isto uma mentira e acrescenta: “Mas o Mundo é cego e quer ser enganado; acham que eles são santos e que quem lhes fizer mal, terá azar; permitem que eles furtam e roubam, mentem, enganam de várias maneiras...... “. [23]

Os salvo-condutos e cartas de apresentação praticamente deixam de existir ou de ter valor, em toda a Europa Ocidental, a partir do final do século XVI, e com eles desaparecem também – por serem agora inúteis - os líderes ciganos com reais ou falsos títulos de nobreza.

Os viajantes exôticos que apareceram na Europa Ocidental a partir de 1400 - depois chamados “ciganos”- , conforme inúmeros documentos históricos (e inclusive muitas pinturas e peças teatrais) da época comprovam, tinham também vários costumes um tanto exôticos, e condenados na época (como, aliás, ainda hoje). Quase todas estas fontes históricas apresentam queixas sobre a mendicância - inicialmente ainda tolerada nos países católicos, mas depois sempre mais severamente condenada, principalmente nos países com predominância da religião calvinista ou luterana, como no norte da Holanda ou na Alemanha - ou sobre furtos ou outros delitos.

Aliás, as fontes históricas praticamente só tratam disto, mas quase nada informam sobre a língua que os ciganos falavam (a maioria dos cronistas nem sequer informa que eles falavam entre si uma língua ‘diferente’), sobre sua religião (parece que sempre adotaram logo a religião do país no qual estavam viajando), sobre sua cultura e valores culturais (a não ser que sempre desrespeitavam escandalosamente a propriedade alheia), sobre sua organização social (a não ser que eram liderados por “nobres”) e econômica (a quiromancia e a mendicância praticadas principalmente pelas mulheres sempre são citadas, e há algumas referências a ciganos artistas, músicos, médicos, ferreiros, etc., mas tudo isto é insuficiente para escrever um capítulo sobre a economia cigana de então), sobre a educação dos seus filhos, e sobre outros tantos assuntos mais. Por isso não há como estranhar a aversão, e logo depois o ódio anti-cigano, em praticamente todos os países da Europa.

O ódio contra minorias nunca nasce do absolutamente nada; sempre estas minorias - no nosso caso, as minorias ciganas - apresentam reais ou supostos motivos que para a maioria justifique o seu comportamento anti-minoritário. No caso dos ciganos e do anti-ciganismo europeu, alguns destes motivos são mais do que documentados: a quiromancia (leitura das mãos) pelas mulheres, e os eternos furtos, praticados principalmente por mulheres e crianças.

Vejamos inicialmente o caso do "duque" cigano André - cujo nome reaparece em vários documentos - que em 1422 visita a cidade de Bolonha, na Itália, onde apresenta a mesma estória que, às vezes com algumas variações, também contava em outros países: tempos atrás tinham renegado a fé cristã, mas quando foram vencidos pelo rei Sigismundo da Hungria, o duque e seus súditos se converteram novamente à fé e foram batizados; o rei então lhes ordenou para errar pela Europa durante sete anos e visitar o papa em Roma; somente depois disto poderiam voltar à sua terra; ao chegar a Bolonha, já tinham viajado cinco anos; diziam que em sua carta, o rei Sigismundo os autorizava que, nestes sete anos, obtivessem seu sustento roubando impunemente seja aonde estivessem.

Dito e feito. Os ciganos ficaram duas semanas em Bolonha, onde o duque se hospedou no luxuoso Albergue do Rei; os outros ciganos ficaram debaixo de galerias e pontes. Principalmente as mulheres ciganas, agindo em grupos, roubaram tanto de casas e lojas que as autoridades locais autorizaram aos cidadãos bolonheses roubar de volta tudo que lhes foi roubado. Os bolonheses roubaram então alguns dos mais belos cavalos dos ciganos que só foram devolvidos após a a população local ter recuperado grande quantidade dos objetos roubados. Depois disto, os ciganos partiram em direção a Roma.[24] Obviamente, um documento detalhado deste não nasceu da fantasia de um cronista bêbado, mas relata fatos que realmente aconteceram, como é o caso parisiense a seguir, contado por um cronista anônimo que foi excelente observador e que teve contato pessoal com os ciganos.

Segundo este cronista, a cidade de Paris foi pela primeira vez visitado por ciganos em agosto de 1427 (quando a cidade estava sob domínio inglês). Na vanguarda vieram um duque, um conde e dez homens, todos a cavalo, que se diziam procedentes do “Baixo Egito”. O resto do grupo, cerca de 100 a 120 pessoas, chegou alguns dias depois (mas disseram que quando saíram do seu país, eram cerca de 1000 a 1200). Em Paris contaram uma história confusa, sobre como no passado tinham sido cristãos, mas que depois foram vencidos pelos sarracenos e obrigados a renegar a fé, até serem novamente vencidos pelo Imperador da Alemanha (Sigismundo?), o rei da Polônia e outros, quando voltaram a ser cristãos. Só que desta vez foram proibidos de possuirem terras no seu próprio país, até o papa concordar com isto. Por isso foram a Roma, com grande sofrimento, confessaram-se ao papa e este lhes ordenou que, como penitência, deveriam andar sete anos consecutivos pelo mundo sem parar [o cronista, na realidade diz: “sem dormirem em camas”]. Traziam cartas do papa em que este pedia ao clero que desse aos ciganos ajuda financeira para eles continuarem sua viagem. Ao chegar em Paris já teriam viajado durante cinco anos. Realmente, uma estória comovente!

Como não podia deixar de ser, também em Paris despertaram grande curiosidade do público, em parte por causa de sua aparência exótica. Mas isto demorou pouco. Segundo o cronista, além de serem “as criaturas mais pobres que já foram vistas na França”, causaram alguns problemas matrimoniais porque, ao ler as mãos, as ciganas informavam aos homens que “tua mulher te botou chifre” (ta femme t’a fait coux), e às mulheres que “teu marido te foi infiel” (ton mari t’a fait coulpe) e enquanto isto “seja por magia ou por outro procedimento, seja por obra do inimigo que está no inferno ou por artifícios hábeis”, outros esvaziavam os bolsos dos curiosos, “segundo se dizia”. O cronista afirma categoricamente ter visitado os ciganos três ou quatro vezes para falar com eles, e nunca lhe furtaram uma moedinha sequer. Seja como for, o então bispo de Paris não gostou nada da história e excomungou sumariamente todos (os ciganos) que praticaram e todos (os não-ciganos) que acreditaram na “tal adivinhação”, e que não devem ter sido poucos. Os ciganos partiram então para outra cidade.[25]

Não seria esta a única e última intervenção clerical para expulsar os ciganos: em 1435, pela primeira vez os ciganos aparecem na cidade de Meiningen, na Alemanha, onde ganham seu sustento como artistas e saltimbancos; a prefeitura lhes fornece vinho, carne e pão, o que prova uma recepção inicial cordial, mas após onze dias, o pároco manda expulsá-los da cidade. Os motivos não são citados, mas também nesta cidade a ira do pároco deve ter sido causada pelas atividades adivinhatórias das mulheres ciganas.[26]

Ainda na Alemanha, o historiador Krantz, que em parte repete informações do acima citado Korner de 1417, acrescenta que os ciganos não têm pátria e vivem dos furtos cometidos pelas mulheres; viajam de país para país e após algum tempo voltam. Mas como se dividiram em várias partes, dificilmente os mesmos voltam para o mesmo lugar, a não ser após longos intervalos. Por toda parte juntam-se a eles homens e mulheres que desejam compartilhar sua vida nas tendas; trata-se de uma estranha mistura de gente, que fala todas as línguas, que fica importunando os camponeses. Trata-se de um documento importante porque, talvez pela primeira vez, há referência a não-ciganos que se juntaram aos bandos ciganos.[27]

Anos depois, em 1430, na cidade de Konstanz, um cronista culpa os ciganos - que furtaram, praticaram magias, adivinharam e leram as mãos - de serem os responsáveis também pela fome e por uma epidemia, mas que, conforme o próprio cronista informa, só ocorreram oito anos depois da visita destes ciganos. Ou seja, já então os ciganos eram usados como bode expiatório para qualquer desgraça, mesmo ocorrida muito tempo depois de sua passagem pelo local. Alguns anos depois, em 1436, registra-se a presença de cerca de 400 ciganos em Konstanz, onde um cigano ladrão ia ser enforcado; os ciganos pedem clemência para o companheiro e prometem levá-lo para o Egito (sic!); o pedido foi deferido. Certamente as autoridades municipais devem ter pensado bem as consequências de uma eventual revolta generalizada de cerca de 400 ciganos![28]

Um documento da Bavária, de 1439, chama os ciganos uma “raça de ladrões, a escória e a ralé de vários povos .... (que) procura sustentar-se impunemente furtando, roubando e prevendo o futuro”. E outro documento atesta que a fama de ladrão-de-galinha persegue os ciganos já desde o Século XV: numa peça teatral de um autor suiço, escrita por volta de 1475, um camponês pede à mulher para fechar as portas do celeiro e prender as galinhas, porque os ciganos estão chegando![29]

Salvo um ou outro assassinato (várias vezes há registro de um cigano assassinando outro cigano e, eventualmente, toda a família do inimigo cigano, ou cometendo outro crime grave), quase todos os "crimes" cometidos pelos ciganos nesta época ainda são relativamente “suaves” e não passam de delitos “leves”. Em geral limitam-se ao furto de pequenos objetos – carteiras, frutas e outros alimentos, ou então objetos domésticos que costumavam ser vendidos a receptadores não-ciganos, além de animais de pequeno porte, como galinhas, gansos e patos, excepcionalmente um porco; ou então tirar leite de vacas pastando no campo, tirar frutas das árvores, apanhar batatas ou beterabas na roça, cortar alguma lenha, caçar ou pescar ilegalmente, etc. Mas tudo isto apenas para consumo próprio e imediato. Consta, também, que as mulheres ciganas às vezes exageravam um pouco na sua ânsia de furtar ou enganar os não-ciganos.

No norte da Holanda, a maioria dos processos citados por Van Kappen envolve mulheres ciganas, apanhadas em flagrante nas cidades, e quase nunca na área rural. Uma das causas disto pode ter sido o fato de as mulheres, quase sempre carregando crianças, terem mais dificuldade para fugir do que os homens. Muitas ciganas presas, por sinal, escaparam de serem açoitadas pelo fato de estarem grávidas. Pelo menos na Holanda, também não se aplicavam punições físicas às crianças que, no máximo, tinham que presenciar os castigos aplicados aos seus pais. Por outro lado, também, tudo indica que eram principalmente as mulheres que mendigavam e furtavam, com certeza porque elas inspiravam maior compaixão. Os homens, por sua vez, exerciam, na medida do possível, profissões honestas, como artistas, músicos, domadores de animais, ferreiros, sapateiros, tratadores de cavalos, veterinários  e, inclusive, médicos.

Mas as ciganas não costumavam mendigar pura e simplesmente, como os outros mendigos. Aproximavam-se das pessoas prometendo ler a mão e prever o futuro (quiromancia), exorcizar maus espíritos, ou então vendiam remédios para os mais diversos males, o que em si não era tão grave assim. O “crime” costumava ser cometido depois. Encontrando donas de casa com problemas domésticos, amorosos  ou de outra natureza, as ciganas ofereciam sempre sua “ajuda”, que quase sempre resultava na perda de uma considerável quantidade de dinheiro, joias, ouro ou prata, ingenuamente entregue à cigana para afastar “maus espíritos”, ou para multiplicá-la milagrosamente, ou para recuperar um marido infiel. Ou encontrando casas com portas ou janelas abertas, aproveitavam para furtar alguns pequenos objetos. Consta que uma cigana foi apanhada em flagrante furtando na casa de um prefeito; outra cigana conseguiu explorar divinamente a ganância financeira de uma madre superiora que lhe entregou todos os objetos de ouro e prata do convento, afim de milagrosamente multiplicá-los!

Alguns processos judiciais descrevem com detalhes vários “truques” utilizados pelas ciganas para enganar otários das mais variadas espécies, desde mulheres ciumentas desejosas de “recuperar” seus maridos infieis, indivíduos ansiosos de multiplicar sem nenhum esforço a sua riqueza, mulheres estéreis querendo engravidar, moças grávidas desejosas de abortar, etc.  Seja qual fosse o problema - financeiro, físico ou espiritual - , as ciganas sempre tinham uma solução para o mesmo. Porém, às vezes também os otários não-ciganos eram punidos. Um curioso projeto de lei da municipalidade de Kampen (Holanda), em meados do Século XVI, estabelece que se algum otário deixasse se enganar por um cigano e se o dinheiro ou os bens assim perdidos fossem recuperados, estes passariam a pertencer ao município e seriam vendidos em leilão público! Afinal de contas, a pessoa foi enganada porque quis, e quem teve o trabalho de recuperar o dinheiro ou os bens foi a prefeitura.

Queremos chamar a atenção ainda para uma outra estratégia para ganhar proteção e dinheiro de não-ciganos influentes e ricos. Trata-se do batismo múltiplo das crianças - quatro, cinco ou até mais batismos em lugares diferentes -, escolhendo-se para padrinhos e madrinhas pessoas ricas e influentes da sociedade não-cigana, capazes de darem bons presentes e (talvez principalmente) futura proteção para o afilhado e os compadres. O batismo múltiplo para obter vantagens foi constatado também pelo Sínodo da Igreja Reformada Holandesa, em 1612, pelo que resolveram que crianças ciganas só poderiam ser batizadas se os padrinhos também fossem ciganos; proibiu-se o batismo se os padrinhos fossem não-ciganos. Consta que depois disto o número de batismos ciganos diminuiu consideravelmente. O assunto voltou a ser discutido várias vezes em outros sínodos.[30]

Quase nada sabemos dos ciganos honestos, mas que também devem ter perambulado pela Europa naquela época. As únicas fontes históricas sobre ciganos quase sempre são processos judiciais que, por definição, tratam exclusivamente de pessoas criminosas ou supostamente criminosas e praticamente nada informam sobre as atividades profissionais das pessoas honestas. Por sinal, já então - pelo menos na Holanda, e provavelmente também em outros países - os mascates e outros que exerciam profissões ambulantes, como artistas, amoladores de facas e tesouras, sapateiros e.o., precisavam de uma licença municipal, renovável periodicamente. E esta licença, da mesma forma como a licença para mendigar, costumava ser dada apenas aos cidadãos nativos e negada aos estrangeiros.

Dois documentos suiços, de 1430 e 1444, falam da existência de um sindicato (guilde) dos mendigos de Basel, com suas próprias leis, e cita nada menos do que 26 modalidades de mendicância. Os ciganos não são mencionados, mas estes documentos provam que até a mendicância profissional e organizada já existia na Europa daquele tempo.[31]

Não havia, portanto, como um cigano exercer legalmente uma profissão honesta ou mais ou menos honesta - nem sequer a de mendigo - pelo menos não nas cidades, mesmo se o quisesse. Nos documentos holandeses existem algumas poucas referências a comércio e tratamento de cavalos, e várias vezes ciganos são citados como curandeiros ou médicos que preparavam pomadas e óleos para curar pessoas e animais. Na cidade de Zwolle, em 1542, um cigano veterinário é remunerado por ter curado um cavalo. Que gozavam certa fama na área médica prova o fato de um médico não-cigano ter resolvido fazer um estágio com os ciganos, para aprender melhor com eles a arte médica. Preso, foi absolvido, por não ser cigano; se tivesse sido cigano, teria sido condenado, e talvez enforcado, o que mostra que, já então, o que importava não era tanto o “crime”, mas o fato de ser cigano. Consta que outros ciganos serviram como tratadores de cavalos (veterinários) e médicos no exército onde certamente eram tolerados por causa de sua reconhecida perícia nestas áreas.

Outro caso amplamente documentado ocorreu na província de Groningen (Holanda), onde em 1706 um grupo de 21 ciganos (“entre homens, mulheres e crianças”), sob chefia de um certo Isaac, “conhecido como Doutor”, ficou algum tempo em Doccum, vendendo remédios (vários tipos de pó, pomadas e óleos, para cabelo, dor de dente e febre) e praticando a medicina. O nome Isaac sugere que talvez não tenha sido um cigano autêntico, mas talvez um judeu casado com uma cigana, que vivia e viajava junto com um bando cigano. Seja como for, este Isaac era um competente chirurgião, e outro cigano do grupo sabia curar epilepsia (vallende ziekte), fraturas e dores de cabeça. Um charlatão qualquer, com xaropes e ervas medicinais pode até curar dores de cabeça, mas certamente não fraturas. Ou seja, tratava-se de uma equipe médica cigana ambulante, mas competente. Em Doccum não surgiram problemas, mas quando se mudaram para Emden foram logo expulsos embora, como informa o documento, não tivessem praticado nenhum furto, nem tivessem causado problemas para a população. Pouco depois foram presos e expulsos da cidade de Groningen, mais uma vez sem ter cometido nenhum crime. Nestes casos já se evidencia a perseguição aos ciganos pelo simples fato de serem ciganos.[32]

 

Capítulo 2

POLÍTICAS ANTI-CIGANAS.

 

Políticas anti-ciganas na Europa do Norte. 

Desde o seu aparecimento na Europa Ocidental, os ciganos nunca foram imigrantes bem-vindos e amados, mas antes considerados um mal necessário, do qual cada côrte, cada cidade ou cada convento tentava livrar-se o mais cedo possível, inclusive pagando para isto. Na maioria das vezes, as autoridades locais nada podiam fazer, por causa das cartas de apresentação e salvo-condutos de altas autoridades civis ou eclesiásticas. Porém, a tolerância dos europeus teve limites e as primeiras reações anti-ciganas não demoraram a surgir. A tolerância inicial aos poucos se transformou em aversão, e finalmente em ódio. Esta mudança de atitude ocorreu, com maior ou menor intensidade, em todos os países europeus, embora em épocas diferentes, inclusive variando de acordo com a data da entrada inicial dos ciganos, e o seu comportamento, em cada país.

Na Holanda, no início do Século XV, o comportamento dos ciganos ainda é relativamente bom, mas por onde passam deixam um rastro de sujeira: os prédios públicos nos quais são hospedados, invariavelmente precisam depois de uma limpeza geral. Os ciganos ainda não constituem um perigo, porque não vivem assaltando ou assassinando, mas de qualquer forma sempre mais se tornam uma presença incômoda por causa dos pequenos furtos que praticam. Inicialmente ainda são tolerados dentro das cidades, mas logo lhes é proibida a entrada e devem ficar fora das muralhas. As doações em dinheiro e alimentos, inicialmente dadas de boa vontade, por serem considerados peregrinos ou penitentes, não somente vão diminuindo em quantidade, mas são agora dadas para a cidade se livrar o mais cedo possível destes visitantes sujos e maltrapilhos, muitas vezes condicionando-se a doação à promessa de nunca mais voltar.

A atitude das autoridades municipais de Deventer é um bom exemplo. Inicialmente, em 1420, os ciganos recebem doações em dinheiro e alimentos e são hospedados num prédio público. Aparentemente com fama de ser generosa, a cidade foi novamente visitada por ciganos em 1429, 1438, 1439 e 1441. Mas já em 1445 e 1447 os ciganos foram proibidos de entrar na cidade e receberam dinheiro para ir embora, o que se repetiu mais quatro vezes até 1465, diminuindo sempre mais a quantia de dinheiro destinada a comprar o afastamento dos ciganos. Já em 1454 dois ciganos foram presos, acusados de roubo, e em 1505 colocaram na prisão até o filho de um auto-intitulado “rei” cigano, também por roubo. O que significa que estes ciganos aparentemente não portavam salvo-condutos, ou que as autoridades municipais não mais lhes davam valor, e que os seus títulos de “nobreza” já eram considerados piada de mau gosto.

Em outras cidades da Holanda aconteceram fatos semelhantes. Nijmegen hospedou bem os ciganos pela primeira vez em 1429, mas em 1536 e 1543, foram sumariamente expulsos da cidade. Em Zutphen os ciganos foram bem recebidos em 1430, 1445, 1459 e três anos seguidos na década de 90, mas em 1538 e 1542 foram expulsos. O primeiro edital anti-cigano foi publicado em 1544 pela província de Gelderland. Neste edital consta que perambulava um “grande número” de ciganos pela região e que estes incomodavam a população, pelo que todos deviam deixar a região dentro de dois dias, sob pena de punição física e confisco de bens. Foi proibido, ainda, fornecer salvo-condutos aos ciganos e os títulos de nobreza deixaram de ser reconhecidos. Consta que em 1551, na mesma província, duas ciganas foram açoitadas e um cigano e três ciganas foram banidas; nove anos depois, em 1560, quatro ciganos foram marcados a ferro e depois banidos. A partir de então, as condenações de ciganos não param mais, em todas as províncias da Holanda. Van Kappen cita dezenas de processos envolvendo ciganos (alguns por ele transcritos, na íntegra, nos anexos). As penas de morte ainda são raras nesta época, mas acontecem. Numa pequena cidade da província de Overijsel, em 1577 foram enforcados quatro ciganos pelos crimes de terem assaltado muitas casas e, principalmente, de terem falsificado moedas, coisa simples que, conforme confessavam, qualquer cigano sabia fazer. Suas mulheres e crianças foram banidas.[33] Falsificar dinheiro, aliás, parece ter sido uma velha profissão cigana: já em 1442, cerca de cinquenta homens ciganos foram presos em Konstanz, sob suspeita de falsificar dinheiro. Um deles, de fato, confessou ter falsificado algumas moedas. Por causa disto, todos os ciganos foram expulsos da cidade e o falsificador foi marcado a ferro.[34]

Com tudo isto, os bandos grandes se dividem em grupos menores de uma ou algumas poucas famílias extensas. Não há mais referências a “reis”, “duques” ou “condes” ciganos e com eles desaparece também a ostentação de riqueza: os documentos deixam claro que os ciganos são pobres e passam a ser incluídos, daqui em diante, na categoria geral de “mendigos e vagabundos”. E de fato, desaparecendo as antigas generosas “doações” de dinheiro e alimentos aos (supostos?) “nobres” ciganos, os seus (também supostos?) súditos são obrigados a obterem o seu sustento trabalhando, mendigando ou praticando pequenos furtos de alimentos, vestuário ou objetos. Antes, os ciganos com suas autênticas ou falsificadas cartas papais e salvo-condutos imperiais ou reais, incomodavam principalmente as autoridades políticas (imperadores, reis, nobres, prefeitos) e eclesiásticas (bispos, superiores de conventos, vigários); a partir de agora passam a incomodar a população civil em geral, nas cidades e no campo.

Os documentos não deixam dúvida que todos os ciganos são pobres e vivem da mesma forma como os vagabundos não-ciganos, mendigando, furtando, de vez em quando assaltando. A criminalidade cigana aumenta sempre mais e são publicados editais que punem os ciganos apanhados em flagrante. Normalmente não se trata de editais exclusivamente contra os ciganos, mas de um modo geral contra “pagãos” (isto é: ciganos) e outros vagabundos, vadios, mendigos, vigaristas e bandidos. Só mais tarde surgem editais que permitem punir os ciganos pelo simples fato de serem ciganos, mesmo sem terem cometido crime algum. As punições, no entanto, são pesadas: açoites em praça pública (quase sempre “até sangrar”), marcação com ferro quente (geralmente nas costas), corte de partes do nariz ou das orelhas, para facilmente serem reconhecidos, tudo isto sempre seguido pelo banimento perpétuo da cidade ou província. Em casos de reincidência, a pena de morte, principalmente para os homens, através de enforcamento ou decapitação. As mulheres em geral escapam da pena capital e são apenas banidas, junto com os seus filhos, para evitar que as autoridades tivessem que sustentar depois a quase sempre numerosa prole cigana.

Cada uma das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos (Holanda) de então tinham autonomia política e jurídica, pelo que não existia uma política anti-cigana unificada, nacional. Cada província tinha sua própria legislação mas, apesar disto, as legislações sempre eram semelhantes e muitas vezes uma província copiava ou adotava a legislação de outra. Os banimentos “perpétuos” eram, portanto, sempre para a cidade ou a província vizinha (às vezes até com direito à escolta até a fronteira, para que se tivesse certeza do afastamento da “praga” cigana). O que os vizinhos fariam com os ciganos, era problema deles. Daí porque os ciganos, para mais facilmente escapar das eternas perseguições, preferencialmente se fixavam em regiões de fronteira, para facilmente poderem fugir para outro município, outra província ou até outro país.

Na Holanda, a partir do final do Século XVII, sem poder trabalhar, sem ter onde viver e perseguidos em todas as províncias da Holanda, os ciganos voltam a reagrupar-se em bandos maiores, muitas vezes misturados com vagabundos e bandidos não-ciganos, e em desespero passam a praticar assaltos a mão armada, principalmente no campo, já que o acesso às cidades lhes é determinante proibido. Tornam-se comuns notícias sobre assassinatos de camponeses, incêndios de fazendas e outros crimes pesados cometidos por ciganos, ou por supostos ciganos. Diante disto, a perseguição também se torna mais violenta ainda e a pena de morte torna-se comum, após julgamentos sumários ou até sem julgamento algum. São organizadas “caças-aos-pagãos”, permitindo-se matar impunemente ciganos. Ou seja, é oficializado o genocídio dos ciganos na Holanda, com apoio de militares.

O combate envolvia às vezes verdadeiros exércitos, pelo menos para os padrões da época. Na província holandesa de Braband foram, em 1723, mobilizados 500 soldados, à pé ou a cavalo, que atacaram um acampamento cigano e prenderam 60 pessoas. E na província de Gelderland, em 1725, foram presos cerca de 50 ciganos, entre homens, mulheres e crianças; 14 mulheres foram açoitadas, marcadas a ferro e depois banidas (certamente com seus filhos); dez homens foram torturados e depois decapitados, sendo suas cabeças espetadas em paus, para exibição pública. Editais de 1725 e 1726 da província de Overijsel se referiam aos ciganos como “inimigos da pátria” e permitiam matar impunemente ciganos que andavam com armas de fogo ou em bandos de mais de oito pessoas; seus bens passariam a pertencer a quem os matasse; os ciganos presos seriam imediatamente enforcados. Em outras províncias foram publicados editais semelhantes. O resultado final podia ser um só: a partir de meados do Século XVIII praticamente não há mais notícias de ciganos em processos judiciais ou em outros documentos históricos holandeses: ao que tudo indica, todos os ciganos tinham sido expulsos do país, ou então tinham sido assassinados. [35]

Em outros países, a perseguição aos ciganos foi quase idêntica. Na Suiça os ciganos já podiam ser caçados legalmente pelo menos desde 1580 e um decreto da cidade de Berna, de 1646, autorizava qualquer pessoa matar ciganos. Na Alemanha (ou melhor, no Santo Império Romano Germânico), entre 1551 e 1774, foram decretadas nada menos do que 133 legislações anti-ciganas, sendo 68 leis no período de 1701-50, e apenas oito no período 1751-74, quando a ‘praga cigana’, aparentemente, em boa parte já tinha deixado de existir, ou seja, quando já sobreviviam bem menos ciganos do que antes.

A seguir, apenas alguns exemplos de legislações anti-ciganas: 1711 - na Saxônia foi autorizado matar ciganos se eles resistissem à prisão; 1714 – em Mainz, todos os ciganos (homens adultos) podiam ser executados sem julgamento, apenas pelo fato de serem ciganos, e suas mulheres e seus filhos deviam ser marcados a ferro e banidos, ou então realizar trabalhos forçados; 1725 – Frederico I, rei da Prússia, decreta que ciganos - homens e mulheres – maiores de 18 anos podem ser enforcados sem julgamento;  1734 – o duque de Hesse-Darmstadt dá um mês para os ciganos deixarem suas terras; depois disto podem ser aprisionados ou caçados, oferecendo-se 6 Reichsthaler para cada cigano vivo, e 3 para cada cigano morto. Consta ainda que o imperador Carlos VI ordenou em 1721 a execução sumária dos homens ciganos e em 1737 há registro de caças aos ciganos na Austria. Ou seja, não apenas na Holanda mas em muitos outros países existia uma política de extermínio dos ciganos. [36]

Alguns países introduziram a pena de morte já bastante tempo antes. Nas ilhas britânicas, por exemplo, já em 1541 todos os ciganos deviam deixar a Escócia dentro de 30 dias, sob pena de morte; na Inglaterra já em 1530 é promulgado o primeiro decreto anti-cigano e outros decretos ainda mais rigorosos seguem em 1554 e em 1562, este um decreto  válido para a Inglaterra e o País de Gales, e que ficou em vigor até 1783: os ciganos devem logo abandonar o país e a imigração de novos ciganos é proibida; as punições são severas e incluem castigos corporais, prisão, banimento e em último caso até a pena de morte.[37]



[1].  Gilsenbach, R., Weltchronik der Zigeuner, Teil I: Von den Anfaengen bis 1599, Frankfurt am Main, Peter Lang, 1994, pp. 47-48

[2].   Gilsenbach 1994, pp. 49-52

[3].   Gilsenbach 1994, pp. 53-56; de fato existe hoje uma aldeia Igritz, na Hungria, e que já foi ocupada pelos turcos.

[4].   Gilsenbach 1994, pp. 56-57

[5].   Gilsenbach 1994, pp. 61-62, 66-68

[6].   Gilsenbach 1994, pp. 54, 57-58. 60

[7].   Fraser, A., The Gypsies, Oxford, Blackwell Publishers, 1992, pp. 94-95

[8].   Fraser 1992, pp. 112-121; Gilsenbach 1994, passim.

[9].   Fraser 1992, p. 56

[10].  Van Kappen, O., Geschiedenis der zigeuners in Nederland: de ontwikkeling van de rechtspositie der heidens of egyptenaren in de noordelijke Nederlanden (1420-1750), Assen, Van Gorcum, 1965, passim 

[11].   Fraser 1992, p. 80

[12]. Fraser 1992, pp. 85-87 

[13]. Van Kappen 1965, pp. 89-90; Fraser 1992, p. 63

[14]. Gilsenbach 1994, pp. 48-52

[15]. Gilsenbach 1994, pp. 48-49

[16]. Van Kappen 1965, pp. 93-94; Fraser 1992, pp. 64 e segs.

[17]. Gilsenbach 1994, pp. 266-267

[18]. Van Kappen 1965, pp. 424-427

[19]. Van Kappen 1965, p. 211

[20]. Gilsenbach 1994, p. 71

[21]. Gilsenbach 1994, pp. 79-82, 85, 88

[22]. Gilsenbach 1994, p. 84

[23]. Gilsenbach 1994, p. 78

[24].   Van Kappen 1965, pp. 43-44

[25].   Van Kappen 1965, pp. 49-50; para a versão original deste documento em língua francesa, veja Van Kappen 1965, pp. 561-62; tradução espanhola em Liégeois, J.P., Los Gitanos, Mexico, Fondo de Cultura Economica, 1988, pp. 42-3; também em Bloch, J., Los Gitanos, Buenos Aires, Editorial Universitária,  1962, pp. 7-8.

[26].   Gilsenbach 1994, p. 76

[27].  Gilsenbach 1994, pp. 51-52

[28].  Gilsenbach 1994, pp. 73 e 76

[29].  Fraser 1992, 85 e 126

[30]. Van Kappen 1965, passim

[31]. Gilsenbach 1994, p. 74

[32]. Van Kappen 1965, pp. 271-276

[33].  Van Kappen, O., Geschiedenis der zigeuners in Nederland: de ontwikkeling van de rechtspositie der heidens of egyptenaren in de noordelijke Nederlanden (1420-1750), Assen, Van Gorcum, 1965, passim

[34].   Gilsenbach, R., Weltchronik der Zigeuner, Teil I: Von den Anfaengen bis 1599, Frankfurt am Main, Peter Lang,  1994, p. 80

[35].   Van  Kappen 1965, passim

[36].  Fraser, A., The Gypsies, Oxford, Blackwell Publishers, 1992, pp. 150-154; Liégeois, J.P., Gypsies and Travellers, Strasbourg, Council of Europe, 1987, pp.90 e 93

[37].   Fraser 1992, pp. 112-121, 131 e segs.

 

Na Alemanha, Áustria, Suiça e França, bem maiores do que a Holanda e com melhores áreas de refúgio (montanhas e florestas), os ciganos nunca chegaram a ser exterminados por completo, mas é mais do que provável que, por causa destas severas legislações anti-ciganas, o seu número tenha sido reduzido drásticamente.

 

Políticas anti-ciganas na Península Ibérica.[1]

 

Na Espanha, já em 1425 um cigano intitulado “Dom João do Egito Menor” apresenta um salvo-conduto expedido pelo rei Afonso V de Aragón; em Barcelona aparecem em 1447 um ‘duque’ e um ‘conde’ cigano com seus séquitos; em Castellón de la Plana são registrados em 1460, 1471 e 1472. Todos apresentam salvo-condutos de Afonso V ou do seu sucessor João II de Aragón, além de outros escritos por Henrique IV de Castilha. Como sempre os ciganos se apresentam como peregrinos, mencionam a penitência imposta pelo papa, etc., como já fizeram também na Europa do Norte. Estes primeiros ciganos na Espanha eram comprovadamente oriundos do norte da Europa, e antes já tinham viajado pela Alemanha, Holanda e França, atravessando depois os Pirinéus em direção à Espanha. Mas segundo Fraser, a partir de 1470, teria havido ainda uma outra imigração de bandos ciganos para a Espanha, diretamente da Grécia via o Mar Mediterrâneo, cujos membros se apresentaram como fugitivos dos turcos, e que não eram liderados por “duques” e “condes”, mas por homens que eram chamados “mestre”, “chefe”, ou “capitão”.[2]

Em vários documentos espanhois e portugueses há referência à origem grega dos ciganos. Na Farsa das Ciganas, do escritor portugues Gil Vicente, de 1521, as ciganas dizem que são gregas e falam com forte sotaque espanhol, o que reforça a hipótese de uma migração mediterrânea de ciganos gregos diretamente para o sul da Espanha, e que de lá teriam viajado para Portugal.[3]

Também Torrione se refere a estes ciganos gregos, que falavam o grego vulgar, e cuja migração para o oeste teria iniciado a partir de 1463, quando Veneza, que então colonizava partes da Grécia, entrou em guerra aberta contra os turcos otomanos. A autora cita, inclusive, versos de meados do Século XVI que falam da “vida de unos Griegos ó Gitanos que van vagando por la vida humana temidos de los pobres aldeanos”. Outro documento espanhol de 1618 diferencia claramente os dois tipos de ciganos e informa que “alguns são do Egito e outros da Grécia ... Os Grecianos, em sua maior parte, são ferreiros, e usam mais o enganar com palavras, e fraudes, do que os furtos. Os Egipcianos são vadios, e amigos de andar a cavalo, e usam mais o furto do que os enganos e embustes”.[4]

Também na Espanha os ciganos apresentavam salvo-condutos, mas pelo menos um destes documentos, de 1476, é diferente pois além de informar que o conde cigano João se encontrava em peregrinação a Compostella e Roma, acrescenta que ele era inimigo mortal dos condes ciganos Martinho, Miguel e Jaime. [5]

Conforme já vimos, os ciganos chegaram à Espanha já na primeira metade do Século XV, vindos da França, e inicialmente foram bem recebidos, participando inclusive de banquetes reais e recebendo dinheiro, roupas e alimentos. As fofoqueiras palacianas de então informam que isto se devia “às qualidades sedutivas das mulheres ciganas e ao talento dos homens na procura de cavalos bonitos para os estábulos dos seus amigos.....”. Mas também naquele país não demoraria muito para eles serem perseguidos, já a partir do final daquele século. As medidas legislativas anti-ciganas visavam principalmente a integração dos ciganos à sociedade espanhola, ou então a sua expulsão do país, quando não o extermínio puro e simples.

Entre 1499 e 1534 ordena-se várias vezes que os ciganos, dentro de 60 dias, obtenham uma profissão ou um patrão e é lhes proibido viajarem juntos, sob punição de cem açoites e banimento; os reincidentes serão marcados com um corte nas orelhas, ficarão 60 dias encarcerados e serão depois banidos; no caso de nova reincidência serão escravos de quem os capturou. Em 1539 a ordem é repetida sendo que o prazo é de três meses; são probidos os deslocamentos de mais de três pessoas e às punições acrescentam-se seis anos de trabalhos forçados como remadores nas galés.

A partir de 1560 são proibidos os deslocamentos de mais de duas pessoas, ou seja, um casal cigano nem sequer podia andar na rua ou viajar junto com seus filhos; os ciganos são proibidos de usarem suas roupas tradicionais; punição: até dezoito anos de galés para os ciganos a partir de 14 anos de idade (dificilmente alguém sobreviveria a dezoito anos de galés); em caso de reincidência: pena de morte para os nômades e as galés para os sedentários.

Em momento algum a Igreja Católica se opôs a esta perseguição cruel aos ciganos, antes pelo contrário, era justamente ela que talvez mais instigasse os governos a punir os ciganos. Pabanó informa que no Concílio de Tarracón, de 1591, a Igreja pediu aos poderes públicos que castigassem os ciganos “dos quais apenas consta que são cristãos, mas que na realidade são uns embusteiros, ladrões, vigaristas e viciosos”. E no Século XVII o teólogo Sancho de Moncada enviou ao rei um amplo documento em que solicita severa repressão aos ciganos, sua deportação do país, e defende a pena de morte, inclusive para as mulheres e crianças ciganas,  “porque não há lei que nos obrigue a criar filhotes de lobos”. Neste texto do então famoso teólogo, os ciganos são ainda chamados: patifes, uma ralé muito perniciosa, espiões e traidores da corôa, um povo vagabundo e preguiçoso, prostitutas, vadios, bisbilhoteiros, ladrões, ladrões de crianças, ladrões de cavalos e gado, encantadores, feiticeiros, adivinhos, mágicos, quiromantes, heréticos, idólatras, ateistas. O padre certamente expressava os estereótipos dos seus conterrâneos. E ele não era o único que, citando a bíblia, defendia a pena de morte para os ciganos ou então o seu banimento perpétuo.[6]

Em 1611 ordena-se aos ciganos que trabalhem como servos para os latifundiários, em atividades agrícolas, uma mudança profissional radical que obviamente não teve muito êxito. Daí porque em 1619 novamente é ordenada a expulsão de todos os ciganos do reino, num prazo de seis mêses, ou então eles têm que fixar residência em vilas ou cidades com mais de mil habitantes; são proibidos o vestuário, a língua e os nomes ciganos; punição: pena da morte.

O resultado parece ter sido nulo, porque em 1633 as ordens são bem mais rigorosas: o nome “cigano” deve desaparecer do vocabulário e fica proibido alguém chamar-se ou ser chamado cigano, ou seja, uma espécie de genocídio linguístico: proibindo-se o termo “cigano”, acreditam ingenuamente acabar assim com os ciganos. Mais uma vez os ciganos foram proibidos de realizar encontros, de usar seu vestuário tradicional, de falar sua língua, de morar juntos em determinados bairros, mas deviam misturar-se com os outros cidadãos. Ciganos nômades podiam ser escravizados e há notícias de caças a ciganos que vagavam pelos campos. Como na Holanda, também na Espanha somente os homens ciganos eram condenados, às galés ou à morte, enquanto as mulheres eram apenas açoitadas e depois banidas, junto com seus filhos.

Entre 1633 e 1692 as ordens continuam praticamente as mesmas: são proibidas as reuniões públicas ou privadas; os ciganos devem misturar-se ao resto da população e nada deve distinguí-los; são proibidos o nome de cigano como também o vestuário; as punições são, para os homens 200 açoites e seis anos de galés, para as mulheres o desterro e multa financeira; encontrando-se um cigano fora do local que lhe foi designado, será escravo de quem o encontrar; se for encontrado com uma arma de fogo, oito anos de galés.

Em 1695 é realizado o talvez primeiro censo (ou melhor: tentativa de censo) cigano no mundo: todos os ciganos, num prazo de 30 dias, devem declarar sua profissão, seu modo de vida, armas, cavalos, etc. ....  A seguir têm 30 dias para sair do reino ou fixar residência num local com mais de 200 habitantes; devem dedicar-se a trabalhos agrícolas e são proibidos de ter cavalos, ou de frequentar feiras e mercados; os ciganos não podem portar armas e mais uma vez são proibidos o vestuário e a língua; aos espanhois é proibido dar proteção aos ciganos. As punições são: para os homens seis ou oito anos de galés, e para as mulheres cem ou duzentos açoites e degredo; para os espanhois nobres que protegem os ciganos uma multa de 6.000 ducados e para os outros (não-nobres) dez anos de galés, e para as mulheres cem ou duzentos açoites e degredo. No final a Lei acrescenta a talvez primeira definição de ciganos: são aqueles que se vestem como tais e falam sua língua.

Em 1717 indicam-se 41 cidades para os ciganos fixarem residência, em 1726 os ciganos são proibidos de apelarem a um tribunal superior e em 1731 começa a inspeção das residências ciganas para verificar se obedecem às ordens e é proibido o comércio com os ciganos; falta de zelo na aplicação das leis pode custar uma multa de 200 ducados. Em 1745 as ordens são mais violentas: dentro de quinze dias os ciganos têm que fixar residência nos lugares indicados, é permitido disparar contra os ciganos e matá-los, e as igrejas não podem mais dar asilo a ciganos. No ano seguinte são acrescentadas outras 35 cidadas às 41 que já foram indicadas para residência dos ciganos, mas as famílias ciganas serão distribuídas na proporção de uma para cada cem habitantes e somente uma família cigana para cada rua. Mais uma vez lhes é proibido o uso da roupa tradicional e de sua língua. Porém, nada disto foi suficiente para acabar com a ‘praga cigana’ na Espanha.

Para a perseguição aos ciganos, a Corôa espanhola sempre pôde contar com o apoio da Igreja Católica, inclusive quando se tratava da elaboração de estratégias genocidas. E assim, em 1746, o Bispo de Oviedo propôs a primeira razia cigana a nível nacional de que se tem notícia: numa determinada noite, todos os ciganos, em toda a Espanha, seriam presos e depois usados em trabalhos forçados e seus bens vendidos. O rei aceitou o conselho do bispo e o ataque foi realizado no fim de junho de 1749, com apoio militar. Cerca de nove a doze mil ciganos foram presos; muitos deles foram assassinados.[7] O que a Igreja e a Corôa não previram era o que fazer com tantos milhares de ciganos presos. Houve quem propusesse a deportação dos ciganos para as colônias, mas esta idéia não chegou a ser aprovada. E assim, em pouco tempo, tudo voltou ao “normal” e não restou outra alternativa a não ser soltar a quase totalidade das famílias ciganas.[8]

Existia, portanto, uma desesparada e, diga-se de passagem, infrutífera, política de integrar os ciganos na sociedade espanhola, através da eliminação de todas as diferenças culturais (vestuário, língua, nome, identidade, etc.). Os que não se transformassem em bons cidadãos espanhois sedentários, eram expulsos do país ou, em último caso, eliminados fisicamente. Daí porque ainda em 1783 uma ordem repete apenas textos anteriores: o vestuário, o modo de vida e a língua são proibidos; todos os ciganos devem fixar residência dentro de noventa dias; o nome ‘cigano’ é proibido e deve ser tirado dos documentos; punição para os reincidentes: a morte.

Como não podia deixar de ser, muitos ciganos fixaram, compulsoriamente, residência nas cidades e passaram a exercer outras atividades profissionais. Muitos, também, devem ter sido condenados às galés ou à morte. Mas os documentos deixam claro que muitos ciganos se refugiaram em regiões inóspitas da Espanha, ou então em outros países, como o vizinho Portugal. No entanto, a Espanha não chegou a deportar ciganos para suas colônias americanas, embora haja notícia de ciganos deportados para a África. Antes pelo contrário, em 1570 chegou-se até a proibir a entrada de ciganos nas Américas, e em 1581, tendo notícia que alguns ciganos secretamente tinham conseguido emigrar e estavam perturbando os índios, o rei mandou repatriá-los. Só que não conseguiram mais encontrar os ciganos.[9]

Em Portugal as primeiras referências a ciganos aparecem no final do Século XV e logo começa também a perseguição aos ciganos. Em 1526 é proibida a entrada de ciganos em Portugal e é decretada a expulsão daqueles que já se encontravam no país. Em 1538, o rei, “Vendo eu o prejuízo que se segue de virem a meus reinos e senhorios ciganos, e neles andarem vagando pelos furtos e outros malefícios que cometem e fazem em muito dano dos moradores...”, proibe a entrada de ciganos, devendo os transgressores serem presos, publicamente açoitados e depois expulsos. Quem voltar, deve ser novamente açoitado e “perderá tudo que tiver e lhe for achado: a metade para quem o acusar, e a outra metade para a Misericórdia (uma instituição de, real ou virtual, “caridade” da Igreja Católica) do lugar onde for preso”. Em 1557 é novamente proibida a entrada de ciganos em Portugal e às penas já existentes acrescenta-se a pena às galés para os homens ciganos.[10]

Em 1579, num alvará sobre os ciganos, o rei novamente ordena que os ciganos devem sair do país num prazo de trinta dias, “e acabados os ditos trinta dias qualquer cigano que for achado nos ditos meus reinos por esse mesmo feito será logo preso e açoitado publicamente no lugar onde for achado e degradado para sempre para as galés posto que tenha provisão do dito senhor Rei meu avo ou minha para poder estar ou andar nestes reinos...”. Conforme se vê, havia exceções e a alguns ciganos era permitido permanecer no país, inclusive àqueles “que vivem bem e que trabalham e não são prejudiciais, lhe poderão dar licença, não permitindo que vivam juntamente em um bairro, senão em bairros apartados [separados], e que andem vestidos ao modo português...”. Em 1592, sob pena de morte, os ciganos recebem um prazo de quatro meses para sedentarizar-se ou então abandonar o país.[11]

Apesar disto, havia ciganos que continuaram a perambular pelo país, conforme prova um documento da Câmara Municipal de Elvas, de 1597, que também mostra que muitos crimes cometidos por portugueses eram atribuídos aos ciganos:

 

“... foi acordado que comvinha ao bem pubrico e quietaçã desta cidade nã se comsemtirem nella os siganos que os dias pasados se vierã avisinar com precatorio do corregedor do crime da Sidade de Lisboa, por quanto desde dito tempo pera ca se tinha feito muitos furtos de bestas e outras coizas e amdava a gente da sidade tã escamdalizada que se temia hum mutim comtra elles, maiormente depois que ouve alguns furtos que conhesidamente se soube serem feitos por elles; posto que as testemunhas nã sabem expesificaidamente quais dos ditos siganos o fizesse; e alem diso por esta cidade ser de gemte belicoza e da raia e acim de comtino acomtesem muitos crimes de diverças maneiras, os quais se emcobrem dibaicho desta capa de diserem que os fiserã os siganos, pello que determinarã que fossem noteficados que demtro em tres dias se saicem desta cidade....”. [12]

 

Uma ordenação de 1603, com o título: “Que não entrem no Reino Ciganos, Armenios, Arabios, Persas, nem Mouriscos de Granada”, proibe novamente a entrada de ciganos e prevê pena de açoites e sua posterior expulsão, independente de terem cometido algum crime ou não. E se não sairem, ou voltarem, como já foi dito em 1538, serão outra vez açoitados e perderão seus bens (metade para o acusador e metade para a Misericórdia). A mesma punição valia também para os portugueses que andavam com os ciganos, e que além disto seriam degredados dois anos para a África.[13]

Num documento de janeiro de 1613, o rei Dom Philipe lembra a existência de um alvará de 1606, contra os ciganos, e que não estava sendo cumprido, da mesma forma como outras ordenações, “nem as penas que nelas se declaram são bastantes para eles sairem fora do Reino, antes continuam em roubos e danos, que fazem a meus vassalos com geral escândalo, sendo tudo em grande prejuízo seu, e dano do Reino....”. Diante disto, o rei edita um novo álvará, em que solicita que suas ordens sejam rigorosamente cumpridas, e aumenta as penas para os ciganos: se presos pela primeira vez, açoites e três anos de galés; na segunda vez, açoites e seis anos de galés; na terceira vez, açoites e dez anos de galés. O número de açoites aparentemente ficava a critério dos juizes que “darão [aos ciganos] tempo conveniente (que não passará de um mês) para que se saiam do Reino”.[14]

Parece que, mais uma vez, pouco adiantou, porque já em setembro do mesmo ano acrescenta-se: “E porque sou informado, que o dito Alvará se não cumpre e executa, e que andam muitos ciganos por este Reino vagando em quadrilhas cometendo muitos excessos e desordens ...”. E mais uma vez o Rei solicita que suas ordens sejam cumpridas, dando-se aos ciganos um prazo de quinze dias para deixar o país, “sem embargo de quaisquer licenças que tenham para nele residirem, posto que sejam por mim assinadas, ou que lhes fossem passadas cartas de vizinhança, as quais todas anulo e as hei por de nenhum efeito. E passado o dito termo de quinze dias se executará em quaisquer ciganos, que forem achados, a pena de açoites e galés, pela maneira que no dito alvará se declara; e nas mulheres a pena de açoites somente”.[15]

Conforme se vê, todos os documentos oficiais portugueses ordenavam aos ciganos sair do país. Mas abandonar o país como, se Portugal só tem limites terrestres com um único país, a Espanha, onde os ciganos também eram perseguidos? Os ciganos portugueses simplesmente não tinham para onde fugir, e o governo português não tinha para onde expulsá-los na Europa. Daí talvez porque em 1649 seria ordenada a deportação dos ciganos para as colônias ultramarinas. Num alvará daquele ano, o Rei reconhece o fracasso das leis anteriores, pelo que manda prender os ciganos e deportá-los para as colônias:

 

“Eu El Rey ..... por se ter entendido o grande prejuizo e inquietação que se padece no Reino com huma gente vagamunda que cõ o nome de siganos andam em quadrilhas vivendo de roubos enganos e imbustes contra o serviço de Deus e meu. Demais das ordenações do Reino, por muitas leis e provisões se precurou extinguir este nome e modo de gente vadia de siganos com prizoens e penas de asoutes, degredos e galés, sem acabar de conseguir; e ultimamente querendo Eu desterrar de todo o modo de vida e memoria desta gente vadia, sem asento, nem foro nem Parochia, sem vivenda propria, nem officio mais que os latrocinios de que vivem, mandey que em todo Reino fossem prezos e trazidos a esta cidade [Lisboa], onde serião embarcados e levados para servirem nas comquistas divididos.....” . [16]

 

Exceção feita apenas para os mais de 250 ciganos que estavam servindo no exército português, nas fronteiras, e um dos quais um documento de 1646 elogia bastante: “[O cigano] Jeronimo da Costa..... serviu a V. Majestade três anos contínuos nas fronteiras do Alentejo, com suas armas e cavalo, tudo às suas custas, sem levar soldo algum, franca e fidalgamente ..... até que na Batalha do Campo de Montijo foi morto com muitas feridas, pelejando sempre mui esforçadamente” .[17] Infelizmente, o abnegado heroismo deste e de outras centenas de ciganos em defesa da ingrata pátria portuguesa - por ser uma característica positiva - nunca passou a ser um estereótipo sobre os ciganos lusitanos ou os ciganos em geral. Já naquele tempo, como ainda hoje, os estereótipos costumavam lembrar apenas a qualidades negativas: quando um cigano faz algo positivo, ele é citado nominalmente, como caso único, como exceção; quando algum cigano comete um crime, seu nome não costuma ser citado e trata-se apenas de “um cigano”, que apenas confirma a suposta regra de que todos os ciganos são criminosos, e nunca será considerado uma exceção entre outros tantos ciganos honestos.

Inicialmente os ciganos eram deportados para as colônias africanas, principalmente para Angola e Cabo Verde, talvez por estarem geograficamente mais próximas, mas em 1686 uma Provisão muda o degredo da África também para o Maranhão, no Brasil:

 

 “E quanto aos que já são naturais, filhos e netos de portugueses (porém com hábito, genero e vida de ciganos), os obrigareis a tomarem domicilio certo, donde não poderão sair nem mudar sem minha especial licença, nem possam andar vagabundos em quadrilhas pelo reino ..... e em aqueles que encontrarem a Lei sobre eles estabelecida a fareis executar na forma que nela se contém, com declaração que a dita Lei dá para África sejam para o Maranhão” .[18]

 

A ordem é repetida em outro decreto do mesmo ano: “Tenho resoluto que com os ciganos e ciganas se pratique a Lei, assim nesta Corte, como nas mais terras do reino; com declaração que os anos que a mesma Lei lhes impõem para África, seja para o Maranhão”. Mais uma vez, aparentemente tudo em vão, porque num documento de 1694 o Rei informa “.... que os ciganos nascidos neste Reino continuam em seus excessos e delitos, sem tomarem genero de vida nem ofício de possam sustentar-se, vivendo arranchados e juntos em quadrilhas, trazendo os mesmos hábitos e trajes de ciganos, sem terem domicílio certo ...”. Ordena então que os ciganos saiam de Portugal dentro de dois meses, “com pena de morte e passado o dito termo serão havidos por banidos, e se praticará com eles a pena do banimento na forma da lei, assim e do mesmo modo que tenho resoluto com os ciganos castelhanos que entraram neste Reino...”. [19]

Ainda no mesmo ano, em outro documento, o rei Dom Pedro volta a falar da imigração de ciganos espanhois, e repete praticamente as mesmas ordens do documento anterior:

 

 “... por quanto sou informado que pelas raias deste Reino tem entrado muitos ciganos castelhanos, os quais haviam cometido muitos e vários crimes, e porque convém evitar o grande prejuizo que de homens tão licenciosos e criminosos se pode seguir aos meus vassalos. Hei por bem e vos mando que ..... todos que tiverem entrado neste Reino saiam dele em termo de dois meses, com pena de morte, e passado o dito termo serão havidos e banidos e se praticará com eles a pena de banimento na forma da lei...” .[20]

 

Em 1708, mais uma vez é dito que os ciganos que se recusassem a obedecer às ordens seriam punidos com açoites e degredados pelo tempo de dez anos:

 

“Hei por bem, e mando que não haja neste Reino pessoa alguma de um, ou de outro sexo, que use de traje, língua, ou giringonça [dialeto] de ciganos, nem de impostura das suas chamadas buenas dichas;  e outrosim, que os chamados Ciganos, ou pessoas que como tais se tratarem, não morem juntos mais, que até duas casas em cada rua, nem andarão juntos pelas estradas, nem pousarão juntos, por elas, ou pelos campos, nem tratarão em vendas, e compras, ou troca de bestas, senão que no traje, língua e modo de viver usem do costume da outra gente das Terras; e o que contrário fizer, por este mesmo fato, ainda que outro delito não tenha, incorrerá na pena de açoites, e será degradado por tempo de dez anos; o qual degredo para os homens será de galés, e para as mulheres, para o Brasil” . [21]

 

Ou seja, pelo menos segundo este documento de 1708, apenas as mulheres ciganas (talvez com seus filhos menores, mas certamente sem os seus maridos e filhos maiores, condenados às galés), eram deportadas para o Brasil, onde comprovadamente existia uma enorme escassez de mulheres “brancas” para os colonizadores portugueses que não quisessem ou, dependendo de sua posição social, não pudessem “casar” com uma índia ou com uma escrava negra africana, por sinal, um “casamento” durante muito tempo proibido.

Em vários documentos citados acima há referência à pena de morte. No entanto, ao contrário da Espanha e de outros países europeus, Portugal parece ter evitado ao máximo a pena da morte, preferindo o banimento dos ciganos para suas colônias ultramarinas, na África ou no Brasil.

 

 

Capítulo 3

A SEGUNDA ONDA MIGRATÓRIA.

 

A Segunda Onda Migratória de ciganos para o Ocidente ocorreu a partir de meados do Século XIX, após a abolição da escravidão cigana na atual Romênia (então Moldávia e Waláquia). No entanto, esta não pode ser considerada a única causa desta nova onda migratória, inclusive porque muitos ex-escravos ciganos continuaram trabalhando para seus antigos proprietários, em condições não muito diferentes das anteriores. Ainda hoje a população cigana romena é uma das maiores da Europa.

Outros fatores que certamente também influenciaram, foram a miséria em que viviam enormes parcelas da população rural e urbana européia no final do Século XIX e início do Século XX, além das duas Guerras Mundiais que provocarem enormes migrações internas e externas, e que fizeram com que milhões de europeus procurassem melhores condições de vida em outros países, ou até em outros continentes. Entre estes migrantes com certeza encontravam-se também ciganos Rom, embora nunca (auto) identificados como tais, porque apresentavam passaportes alemães, italianos, romenos ou de outras nações, pelo que hoje é impossível saber quantos ciganos entraram num determinado país examinando os registros de entrada de "imigrantes estrangeiros". A declarada (suposta ou real) identidade nacional de origem é uma coisa; outra coisa bem diferente é a identidade étnica, nunca declarada porque nunca solicitada a ser declarada.

Na Europa Ocidental, a chegada destes milhares de novos migrantes ciganos oriundos do Leste fez com que alguns países criassem ou repensassem suas políticas ciganas. De um modo geral, estas políticas serão anti-ciganas, culminando na Alemanha nazista com o holocausto cigano. E mesmo após a II Guerra Mundial as minorias ciganas continuaram sendo discriminadas, apesar de inúmeras recomendações bem intencionadas a favor dos ciganos feitas por órgãos internacionais como a Organização das Nações Unidas ou o Conselho da Europa.

A Terceira Onda Migratória inicia a partir do colapso dos regimes comunistas na Europa do Leste, a partir de 1989, quando novamente dezenas de milhares de ciganos migram ou se refugiam na Europa Ocidental ou nas Américas. E mais uma vez, na mesma proporção crescerá também o anti-ciganismo.

Sobre o total da atual população cigana na Europa Ocidental existem apenas estimativas. Isto em parte porque os cen­sos demográficos não costumam in­cluir per­guntas sobre a identi­dade étnica das pes­soas. E mesmo se o fizessem, com certeza muitos ciganos negariam sua identidade, com medo de posteriores discriminações e perseguições.

Acrescenta-se ainda um ou­tro pro­blema: em muitos países os censos in­cluem os ciganos numa categoria mais ampla de indivíduos, existentes há séculos e inclusive antes da chegada dos assim chamados ciganos, que também têm uma vida nô­made, mas que não são ci­ga­nos. Na Inglaterra es­tas pessoas são denomi­nadas "viajantes", na França "gente de viagem" ou "pessoas sem domicí­lio fixo", na Holanda  "moradores de trailers". Outras minorias nômades não-ciganas, existentes na Europa há séculos e que falam línguas próprias, são os Tynker irlandeses, e os Je­nisch, de origem alemã, mas hoje encontrados também na França e na Itália.

Na França calculou-se, em 1991, a existência de cerca de 250.000 "gens du voya­ge" (gente de viagem), termo que inclue ci­ganos e não-ciga­nos sem resi­dência fixa. Mas, apesar do nome, apenas 70.000 eram real­mente nô­ma­des, 70.000 eram semi-nômades e cerca de 110.000 eram sedentários.[22] Não se sabe quantos de­les são ci­ganos e quan­tos são não-ciganos. Se­gundo Delamon: "Não existem da­dos ci­entifica­mente le­van­ta­dos e suficientemente deta­lhados sobre os ciga­nos. Isto, porque a socie­dade ciga­na não se apre­senta de maneira homogênea e não é fácil de­terminar seus limites".[23] Daí talvez porque na França não existem leis específi­cas para os ciganos, mas apenas uma am­pla legisla­ção para gente de via­gem e pes­soas sem domicílio fixo, legislação esta válida tam­bém para os ciganos.[24]

Também na Holanda, os números oficiais incluem, além dos ci­ga­nos, ainda outras pes­soas que levam ou le­vavam uma vida nômade (atualmente a quase totalidade delas é sedentari­zada). São os "habitantes-de-trailers" (woonwagenbewoners), pessoas de nacio­nali­dade holan­desa, que têm ou tinham uma vida nômade, geralmente devido às suas ativi­dades econômi­cas (artesões, cir­cos, parques de diversões etc.), ou que ape­nas moram em trailers, quase sempre por motivos econômicos (não têm casa própria e não podem ou não querem pa­gar alu­guel). Não constituem, portanto, um grupo étnico diferen­ciado, mas apenas um grupo so­cial com carac­terísticas pró­prias. A partir do início do Século XX fo­ram-lhes indica­dos locais es­peci­ais para acampa­mento na peri­feria das ci­da­des e vilas, o que aumen­tou ainda mais a sua margi­nali­dade. Muitas vezes são con­fundidos com ciga­nos, já que seu estilo de vida é praticamente idênti­co. Apesar disto, não se consi­deram ci­ga­nos, nem são con­side­rados ci­ganos pelos ciganos au­tênti­cos ou pelos holande­ses em geral. A popula­ção nômade total é avaliada em cerca de 20.000 a 35.000 pessoas, das quais apenas umas 4.000 são ciganos. Os “ciganos holandeses” (com nacionalidade holandesa) estão sujeitos às leis co­muns que valem para qual­quer ci­dadão holandês; para os “ciganos estrangeiros” vale a legis­lação so­bre es­trangei­ros; não existe uma legisla­ção específica para ciga­nos.[25]

Na Grã-Bretanha, Acton  distingue nada menos do que dezoito denominações usadas para designar ciganos e nômades, mas que hoje preferem auto-denominar-se ‘romani’, no caso dos ciganos, ou ‘viajantes’ (travellers), no caso de nômades ciganos e não-ciganos, por causa da imagem negativa atribuída ao termo ‘cigano’, e a discriminação decorrente disto.[26]

E para completar as incertezas demográficas: todos estes cálculos sobre ciganos não costumam incluir os ciganos que residem em casas ou apartamentos, porque não há como obter informações confiáveis sobre eles, nem sequer em censos oficiais, pelo que normalmente se conta apenas o número de trailers estacionados nos acampamentos, e estima-se 3 a 5 habitantes por trailer.

Uma recente estimativa é a de Liégeois que obteve seus dados através de re­no­mados ciganólogos euro­peus. Mesmo assim, os números por ele apresentados incluem viajantes ciga­nos e não-ci­ga­nos porque, como ele informa: "a distinção entre ci­ganos e via­jantes nem sempre é clara, e a pergun­ta quem é cigano e quem é via­jante não en­contra res­posta e em certos contex­tos é de ne­nhuma impor­tância: grupos in­ter­mediá­rios podem ter-se for­mado há muito tempo e continuam a ser forma­dos".[27]

Segundo Liégeois, em 1994 a população nômade cigana e não-cigana na Europa Ocidental seria: Alemanha 110 a 130.000; Aústria 20 a 25.000; Bélgica 10 a 15.000; Dinamarca 1.500 a 2.000;  Espanha 650 a 800.000; França 280 a 340.000; Holanda 35 a 40.000; Irlanda 22 a 28.000; Itália 90 a 110.000; Noruega 500 a 1.000; Portugal 40 a 50.000; Reino Unido 90 a 120.000; Suécia 15 a 20.000; Suiça 30 a 35.000.[28]

Repetimos mais uma vez: todos estes números se referem não à população cigana, mas apenas e tão somente à população nômade cigana e não-cigana! Sobre o total da população cigana nômade, semi-sedentária e sedentária, na realidade ninguém sabe absolutamente nada com certeza e muitos "ciganólogos" europeus apresentam números completamente diferentes, maiores ou menores. Por isso, também as estimativas da população cigana européia (incluindo a Europa Oriental) variam enormemente, de 2 a 15 milhões de pessoas. Para o desespero dos demógrafos, ainda hoje os ciganos são um verdadeiro enigma, uma população na realidade impossível de ser contada em qualquer país do mundo. Mesmo na Europa, quase sempre as estimativas sobre a população cigana são feitas apenas na base do 'chutômetro', adivinhando-se ou fantasiando-se um número qualquer, sem qualquer base empírica, sem que tenha sido realizada qualquer pesquisa demográfica séria e confiável. Na maioria das vezes, as informações demográficas ciganas não passam de mera fantasia, quando não de mentiras ou dados propositalmente falsificados.

Difícil, praticamente impossível, é generalizar sobre o anti-ciganismo na Europa Ocidental a partir de meados do Século XIX, porque as políticas e legislações anti-ciganas diferem consideravelmente de um país para outro. Sobre vários países praticamente não existem informações. Diante da impossibilidade prática de tratarmos aqui de todos os países da Europa Ocidental, vejamos sumariamente o anti-ciganismo apenas na Holanda e na França, de meados do século XIX até os dias de hoje.  O anti-ciganismo alemão será visto num capítulo separado.



[1].   A parte sobre a Espanha se baseia principalmente em Borrow, G., The Zincali: an account of the gypsies of Spain, Illinois, Project Gutenberg Etext 565, 1996 (1ª edição 1841);  Pabanó, F. M.,  História y costumbres de los gitanos, Barcelona, Montaner y Simon, 1915; Liégeois, J. P. Gypsies and Travellers, Strasbourg, Council of Europe, 1987; Liégeois, J. P., Los Gitanos, México, Fondo de Cultura Economica, 1988; Fraser, A., The Gypsies, Oxford, Blackwell Publishers,  1992; Alfaro, A. Gomez, “Espanholes gitanos: una história de amores y desamores”, I Tchatchipen 4/1993, pp.29-37; “La redución de los nìños gitanos”, I Tchatchipen 8/1994, pp.27-42; Martinez, M. Martinez, “Marginacion institucional de los primeros austrias sobre los gitanos del sureste peninsular”, I Tchatchipen 15/1996, pp. 6-20; Gonzalez, A. Vargas, “La legislacion sobre gitanos en la España de los Austrias”, I Tchatchipen 17/1997, pp.9-14; “La legislación sobre gitanos en la España de los Borbones”, I Tchatchipen 23/1998, pp. 35-40. Muitos destes autores citam documentos e fatos idênticos.

[2].    Fraser 1992, pp. 97-101

[3].   Coelho, A., Os ciganos de Portugal,  Lisboa, Dom Quixote, 1995 [1ª ed. 1892], pp. 150-151

[4].   Torrione, M., “El traje antiguo de los gitanos: alteridad y castigo”, Cuadernos Hispanoamericanos, n. 536, 1995, pp. 22-24 e 31

[5].    Fraser 1992, pp. 76 e 98

[6].  Este longo documento foi transcrito na íntegra por Borrow  1841/1996, Parte I, Cap. X.

[7].   Alfaro, A. , The great gypsy round-up, Madrid, Editorial Presencia Gitana, 1993, passim

[8].   Alfaro, A. , “La polemica sobre la deportación de los gitanos a las colonias de America”, Cuadernos Hispanoamericanos, n. 36, 1992, pp. 308 e segs. 

[9].   Fraser 1992, p. 170

[10].  Coelho 1995, pp. 197-199

[11].  Coelho 1995, pp. 200-202

[12].  Coelho 1995, pp. 202-203

[13].  Coelho 1995, p. 204

[14].  Coelho 1995, pp. 204-205

[15].  Coelho 1995, pp. 205-206

[16].  Coelho 1995, pp. 211-212

[17].  Coelho 1995, pp. 207-208

[18].  Coelho 1995, pp. 218-219

[19].  Coelho 1995, pp. 219-220

[20].  Coelho 1995, p. 221

[21].  Coelho 1995, p. 223

[22].  Prevot, H., Faciliter l’insertion des gens du voyage: un programme d’actions prioritaires, Paris, 1991 (ms)

[23].   Delamon, A., La situation des ‘gens du voyage’ et les mesures proposées pour l’améliorer: rapport de mission, s.l., 1990, p.8 (ms)

[24].   Charlemagne, J. e Pigault, G. (eds.), Répertoire des textes législatifs et rélementaires concernant les Personnes Sans Domicile Fixe, Paris, UNISAT, 1980 

[25].   Willems, W. e Lucassen, L., Ongewenste vreemdelingen: buitenlandse zigeuners en de nederlandse overheid 1969-1989, Den Haag, SDU, 1990; Cottaar, A ., Lucassen, L e Willems, W., Mensen van de reis: woonwagenbewoners en zigeuners in Nederland 1868-1995, Zwolle, Waanders, 1995

[26].   Acton, Th., Gypsy politics and social change, London, Routledge & Kegan Paul, 1974, pp. 60 e segs.

[27].   Liégeois, J. P., Gypsies and Travellers, Strasbourg, Council of Europe, 1987, pp. 23-25

[28].   Liégeois, J. P., Roma, tsiganes, voyageurs, Strasbourg, Conseil de l’Europe, 1994, p. 34

 

Ciganos na Holanda.

 

Somente em 1868 apareceram novamente notícias sobre “ciganos” na Holanda, a saber, sobre caldeireiros húngaros (Kalderash) e domadores de ursos (Ursari) da Bósnia que logo passaram a ser chamados “ciganos”. [1]  Viajavam em grupos familiares; os Kalderash dormiam em tendas, os Ursari ao ar livre. O governo central logo os classificou como indesejáveis, mas as autoridades locais - prefeitos e delegados policiais - não registraram queixas, porque estes ciganos trabalhavam honestamente para ganhar o seu sustento e viviam até numa situação econômica razoavelmente boa. A maioria destes Kalderash e Ursari não se fixou na Holanda; ao que tudo indica, pelo menos uma parte deles tentou migrar para a Inglaterra (e de lá certamente para os Estados Unidos), onde também não foram bem recebidos, pelos próprios ciganos ingleses. [2]

No início do Século XX registra-se na Holanda a presença de comerciantes de cavalos (Lovara), músicos e artistas (Sinti) que, como possuíam passaportes de outros países europeus, inicialmente não foram identificados como ciganos e por isso também não foram perseguidos. Isto porque a Lei dos Estrangeiros de 1849 permitia a entrada de estrangeiros com passaportes e meios de sobrevivência. O fato de sua entrada no país ter sido permitida, prova que estes ciganos possuíam meios honestos de subsistência, provavelmente como comerciantes, artesões ou artistas. Em 1904, no entanto, o Ministério responsável por este assunto, numa circular secreta, pediu aos prefeitos para ignorar esta lei quando se tratasse de ciganos, e de expulsá-los de qualquer forma do país. A Polícia de Fronteira, subordinada ao Ministério, recebeu ordens para agir com mais rigor contra os ciganos, que passaram a ser considerados “estrangeiros indesejados”. Consta que a polícia de fronteira de fato agia com rigor, muitas vezes até excessivo, mas as prefeituras e suas polícias locais, de um modo geral, ignoraram a circular.

No Século XIX, na medida em que melhoram suas condições de vida, os vendedores e artesões ambulantes não-ciganos, como também os ciganos, começam a usar carroças puxadas por cavalos para transportar suas mercadorias ou ferramentas de trabalho. Aos poucos estas carroças passam a ser cobertas com lona e usadas também para dormir, e finalmente para morar. Estas casas-sobre-rodas (woonwagens) são inicialmente bem precárias, e os ciganos e viajantes costumam estacioná-las em qualquer lugar, de acordo com suas necessidades, o que leva o governo holandes a editar uma lei, a Woonwagenwet de 1918, que, entre outras coisas, exige o emplacamento e licenciamento das carroças, regulamenta seu tamanho, divisões internas, materiais de construção, etc. Mas também não permite mais a expulsão dos viajantes e ciganos pelas autoridades municipais, como estas costumavam fazer antes, e obriga as prefeituras a indicar lugares de estacionamento fixos e a construir acampamentos devidamente equipados com energia elétrica, água e instalações sanitárias, escola, igreja, casa comunitária etc.

A situação piorou a partir de 1928, quando um funcionário do Ministério de Relações Exteriores observou uma cigana viajando num bonde numa cidade no sul do país, na fronteira com a Alemanha. Irritado, solicitou explicações às polícias local e regional e exigiu a deportação da cigana e de sua família. Ficou então sabendo que não havia como nem por quê expulsar estes ciganos, porque eram pacatos cidadãos holandeses e pertenciam a uma família sedentária bem conhecida e ordeira que vivia há muito tempo na região, com todos os documentos e licenças em ordem.

Inconformado, o funcionário iniciou então, no Serviço de Estrangeiros, o fichamento de todos os ciganos na Holanda, mesmo daqueles que tinham comprovada nacionalidade holandesa. Nasceu assim a Central Cigana que nos anos 30 reunia dados pessoais, impressões digitais e retratos de todos os ciganos conhecidos na Holanda.

Durante a II Guerra Mundial, os ciganos e viajantes foram proibidos de circular livremente pelo país e deviam estacionar seus woonwagens em grandes acampamentos em municípios indicados pelo governo. Temendo perseguições, muitos ciganos e viajantes abandonaram por isso seus woonwagens e foram morar em casas, pelo menos temporariamente. Por causa disto, muitos ciganos escaparam da deportação para os campos de concentração. Outros não tiveram a mesma sorte: em maio de 1944, 245 ciganos foram deportados para o campo de extermínio em Auschwitz-Birkenau; somente 31 voltaram vivos.

Terminada a guerra, estes ciganos sobreviventes do holocausto e as poucas centenas de outros ciganos ainda residentes na Holanda receberam, como uma espécie de prêmio de consolação, a nacionalidade holandesa. Seus descendentes, cujo número em meados da década de 90 tinha aumentado para quase uns três mil, ficaram conhecidos como “ciganos holandeses”, em oposição aos “ciganos estrangeiros”, ciganos do Leste que vieram a partir da década de 70, e principalmente na década de 90.

Na Holanda, na década de 70 há registro de ciganos oriundos da Iugoslávia, Hungria e Tchecoslováquia. A partir de então evidencia-se uma clara política anti-cigana do governo holandês que fará todo o possível para expulsá-los do país e evitar a entrada de outros ciganos. O maior medo das autoridades holandesas era que, se tratasse bem os ciganos, logo a notícia se espalharia pela Europa e o país seria inundado por hordas ciganas de outros países. Por isso a política geral será tratar os ciganos apenas suficientemente bem para não causar escândalos na imprensa nacional e internacional, e suficiente mal para não transformar o país num paraíso para ciganos das origens mais diversas. Um exemplo seguido depois por muitos outros países europeus.

Inicialmente, em novembro de 1971, há notícia de uns oitenta ciganos da família Hopic, em Amsterdam. Antes já tinham viajado pela Italia, França e Bélgica, de onde sempre foram expulsos. Só não foram expulsos logo de Amsterdam, porque muitos deles estavam doentes, mas já em março de 1972 foram colocados num avião e repatriados (deportados) compulsoriamente para a Iugoslávia, seu país de origem.

Mas a família Hopic deve ter gostado de Amsterdam, porque em outubro de 1973, cerca de trinta deles estão novamente na cidade e inicia-se então uma longa discussão sobre o que fazer com estes "ciganos estrangeiros". Os Hopic recebem uma licença para permanência temporária e são colocados num dos acampamentos fixos para ciganos e viajantes holandeses. E enquanto os burocratas holandeses, em intermináveis reuniões, discutem o que fazer, os "ciganos estrangeiros" têm um conflito armado com "ciganos holandeses" e em 1974 deixam o país, para grande alívio das autoridades holandesas.

A tranquilidade não duraria muito. Já no ano seguinte registra-se em Amsterdam uma nova (assim chamada) “praga cigana”, a saber 42 trailers com ciganos oriundos da Europa Oriental, aos quais depois se juntariam ainda outros, totalizando cerca de 400 pessoas. Queixas sobre sua conduta criminosa fazem com que um delegado da polícia de Amsterdam invente um método mais rápido e menos burocrático para livrar a cidade dos ciganos: aqueles ciganos contra os quais existem queixas, mesmo sem processo ou julgamento algum, são simplesmente colocados num caminhão, junto com suas famílias e seus trailers, e transportados até a fronteira onde ingressaram no país e, como estrangeiros ilegais, são expulsos para o pais vizinho.

Outra família cigana, os Romanov, com cerca de 70 pessoas, oriundos da Europa Oriental mas viajando com documentos italianos falsos, decide abandonar a Holanda por livre e espontânea vontade, e em 1976 atravessa a fronteira com a Alemanha, ao que tudo indica clandestinamente. Logo são presos como imigrantes ilegais e o governo alemão inicia um processo para devolvê-los para a Holanda, que se recusa a recebê-los de volta, alegando que os Romanov não possuem nacionalidade holandesa. Entretanto, devido a um acordo internacional entre ambos os países, a Holanda, depois de muita relutância, é obrigada a receber os Romanov de volta. Era somente isto que os Romanov queriam e conseguiram![3]

Organizações Não-Governamentais pró-ciganas solicitam então ao governo holandes a legalização da situação não somente dos Romanov, mas ainda de outras cinquenta famílias ciganas estrangeiras, e fornecer-lhes licenças de permanência. A proposta não agrada às autoridades que, mais uma vez, temem que isto estimularia a imigração de outros milhares de ciganos estrangeiros. Por isso, em agosto de 1977, o governo holandes tenta ainda deportar um outro grupo de 73 ciganos para a França., porque a vizinha Bélgica também não quer receber estes ciganos, mas se prontifica, gentilmente, a escoltá-los até a fronteira francesa (apenas para ter certeza que nenhum deles ficaria na Bélgica). Na fronteira ocorre uma violenta briga com a polícia francesa, e todos os ciganos são obrigados a voltar para a Holanda.

Não sabemos por quê, mas de repente o governo holandês tem então uma crise de consciência, lembra a perseguição dos ciganos durante a II Guerra Mundial e invoca motivos humanitários. E assim, no final de 1977, 450 ciganos estrangeiros são “legalizados” e recebem licença de permanência. Mas, acrescenta o Governo, esta seria também a última vez e daqui em diante não seriam mais admitidos ciganos estrangeiros no país, nem sequer os parentes dos agora legalizados, e todos os ciganos que daqui em diante conseguissem ilegalmente entrar no país seriam imediatamente deportados. 

Nada é mais fácil do que entrar ilegalmente na Holanda, pelo que em 1980 registra-se mais uma vez a presença de cerca de 300 ciganos “ilegais” em Amsterdam. Diante das ameaças de deportação, os próprios ciganos resolvem dirigir-se até a fronteira com a Alemanha e a Bélgica, sabendo que lá também serão rejeitados, como de fato aconteceu. E assim a Holanda vê-se mais uma vez às voltas com sua “praga cigana”.

Impossibilitado de deportar os ciganos por vias legais, já que nenhum país vizinho quer recebê-los, o governo holandês apela então para os serviços de uma conhecida Organização Não-Governamental cigana que, entre outras coisas, é especializada em contrabandear ciganos para dentro ou para fora do país. Por intermédio desta organização, composta de tradicionais “ciganos holandeses”, pouco solidários com, ou até inimigos dos novos “ciganos estrangeiros” da Europa Oriental, e com conhecimento do Ministério da Justiça, o governo holandês consegue assim deportar (contrabandear) ilegalmente pequenos grupos ciganos para a Bélgica. Muitos ciganos ilegais saem por conta própria; e outros simplesmente continuam na Holanda.

Desde então, a política governamental não sofreu grandes modificações. Após a II Guerra Mundial voltou a vigorar a Woonwagenwet de 1918 que ainda permitia viajar livremente. Mas por causa das reclamações da população, resolveu-se criar uma nova lei para limitar a liberdade de movimento dos ciganos e viajantes, o que resultou na nova Woonwagenwet de 1968, que reintroduziu os acampamentos obrigatórios (conforme ex-modelo nazista, embora agora em menor escala e com alguns benefícios adicionais). Ao todo foram planejados 50 acampamentos para 50 a 80 trailers cada, com escola própria, assistência médica e social, água e energia elétrica. Viajar ainda era permitido, mas para mudar de um acampamento para outro era necessário obter uma licença. A concentração de muitas pessoas que se dedicavam à mesma profissão, as inúmeras restrições legais ao comércio ambulante e às outras tradicionais atividades dos nômades, e a localização em áreas periféricas, distantes dos centros urbanos, levou ao empobrecimento dos ciganos e viajantes.

Por isso, na década de 70, a Woonwagenwet sofreu várias modificações e iniciou-se a política da criação de acampamentos menores para 10 a 15 trailers, mais perto ou até dentro dos centros urbanos, com o que, inclusive, se tornaria desnecessário ter serviços especiais (escolas, igrejas, postos de saúde etc.) só para os ciganos e viajantes, já que estes agora poderiam usufruir dos serviços gerais. Como em 1968, os interessados - ciganos e viajantes - não foram consultados e mais uma vez reclamaram, exigindo o direito de eles próprios decidirem sobre a localização e o tamanho dos acampamentos, já que nem para todos estes pequenos acampamentos eram os mais adequados. Nos pequenos acampamentos não havia, por exemplo, possibilidade alguma de receber visitas mais prolongadas de parentes e amigos por ocasião de enterros, batizados, casamentos ou festas. E principalmente queriam receber de volta o direito de circular livremente pelo país, algo até hoje proibido.

Nestes acampamentos holandeses - que se destinam a cerca de 4.000 ciganos e cerca de 25.000 a 30.000 viajantes não-ciganos - os ciganos costumam ser discriminados pelos viajantes e por isso acampar juntos, num canto do acampamento, separados dos não-ciganos. Para a população holandesa, no entanto, que observa os acampamentos apenas de longe (porque poucos holandeses têm coragem de entrar num acampamento deste), é tudo as mesma coisa porque de longe, e também de perto, não há como saber quem é cigano ou não-cigano; os trailers são idênticos e ciganos e não-ciganos têm hábitos praticamente idênticos.

Idênticas são, por exemplo, também as idéias que ambos os grupos têm sobre a propriedade alheia. O motivo é simples: ao proibir a livre circulação, o governo acabou praticamente com a economia dos ciganos e viajantes, que já não ia tão bem por vários outros motivos, como a crescente industrialização e a mecanização das atividades agrícolas. Hoje a quase totalidade dos ciganos e viajantes na Holanda é pobre e vive pendurada na assistência social que, apesar de ser eficiente, nem sempre é suficiente para satisfazer as sempre crescentes necessidades.  Umas e outras levam a um maior índice de pequenos furtos, ou "ladroagem de subsistência", uma prática pela qual principalmente os ciganos são famosos e temidos há séculos. E assim, mais uma vez reforça-se a imagem do cigano ladrão, embora seja ladrão por necessidade. Da "ladroagem de subsistência" ao tráfico de drogas ou outras atividades ilegais, é apenas um pequeno passo, entre ciganos e não-ciganos.

Entende-se assim porque os municípios que aceitam criar acampamentos, sempre solicitam ao governo central verbas especiais para equipar melhor suas polícias. Ou seja, cigano (e viajante) continua, por definição, sendo caso de polícia, e queixas sobre sua criminalidade são constantes. Por outro lado, quando se trata de ciganos, classifica-se como “crime” qualquer infração de menor importância. Um dos municípios, para justificar a contratação de mais policiais, informava que nos primeiros dez meses de 1985 os ciganos foram 122 vezes condenados por crimes. Só que uma análise destes “crimes” mostrou que em quase todos os casos se tratava de simples brigas por causa de embriaguez, dirigir sem carteira de motorista, não ter atualizado os documentos do carro ou não respeitar as leis do trânsito, infrações simples normalmente punidas com uma multa financeira, mas nunca classificadas como “crime”, a não ser e exclusivamente quando se trata de ciganos.

Por isso, na Holanda, quem cuida dos ciganos é a polícia, e não educadores ou assistentes sociais porque, para o governo, cigano é um criminoso confesso ou em potencial, que precisa ser constantemente vigiado; cigano é uma praga cuja entrada no país deve ser impedida ao máximo; cigano é um mal necessário que, se possível, deve ser expulso para os países vizinhos. Só que os países vizinhos têm exatamente a mesma política anti-cigana, pelo que fazem todo o possível para expulsar os seus ciganos para a Holanda e não aceitam que ciganos holandeses ultrapassam suas fronteiras.

Até hoje, os ciganos continuam párias indesejados e odiados na Holanda. Basta ler a carta que a prefeitura de Amsterdam em 1994 enviou a cerca de oitenta ciganos recém chegados da ex-Iugoslávia, e na qual se informava que eles estavam na cidade temporariamente como hóspedes do povo holandês, e que por isso deviam ter um “comportamento adequado”: não era permitido furtar, bater carteiras ou cometer outros crimes, mendigar, torturar ou matar animais, destruir objetos ou jogar pedras; também era proibido vender mercadorias e usar o terreno para exercer atividades profissionais. Por causa dos protestos de uma organização anti-racista, o prefeito foi obrigado a pedir desculpas aos ciganos. Mesmo assim, seis meses depois a polícia começou a repatriação destes ciganos para a Macedônia e a Croácia, negando-lhes o status de refugiados, conforme as convenções da Comunidade Européia, válidas apenas para não-ciganos.[4]

Apesar de tudo isto, vários autores não-holandeses costumam citar a Holanda, junto com a Suécia, como o país que na atualidade trata melhor os seus ciganos e cujos acampamentos fixos costumam ser apresentados como modelo para os outros países da Europa.[5] O que prova, apenas, que a situação dos ciganos em outros países é pior ainda.

 

Ciganos na França.

 

Numa volumosa coletânea, Charlemagne e Pigault reuniram, em 1990, 164 leis, decretos, circulares, portarias e outros documentos editados, a partir de 1912, a respeito dos ciganos e outros viajantes franceses - naquele país mais conhecidos como “os SDF”, ou seja, os “Sans Domicile Fixe” - , além de alguns documentos da então Comunidade Européia (hoje União Européia).  E embora na França não exista uma legislação cigana propriamente dita, todos estes documentos tratam direta- ou indiretamente de assuntos de interesse cigano. Nada menos do que 27 documentos regulamentam as atividades ambulantes (e muitos ciganos são vendedores ambulantes); 22 documentos legislam sobre áreas de estacionamento (frequentadas também por ciganos); 16 documentos regulamentam a carteira de circulação para as pessoas sem residência fixa (entre as quais muitos ciganos); 15 documentos falam da escolarização de crianças nômades (de interesse também para as crianças ciganas). Somente estes quatro itens já perfazem 80 documentos, quase a metade do total de 164. Existem ainda documentos sobre o código de urbanismo, o funcionamento de ‘ferros-velhos’, trailers, estrangeiros, etc., ou seja, todos documentos que também dizem respeito a muitos ciganos, mas que não foram feitos exclusivamente para os ciganos. Não há como acusar o governo francês de discriminar os ciganos mais do que os outros viajantes; as leis parecem ser feitas para dificultar ao máximo a vida dos cidadãos nomades “sem domicílio fixo”, ciganos e não-ciganos, mas todos são igualmente maltratados, sem distinção.

A primeira Lei citada é de 1912 que regulamenta o exercício de profissões ambulantes e a circulação dos nômades e cria o odiado “carnet anthropometrique d’identité”, uma espécie de carteira de identidade ou passaporte com dados pessoais, descrição detalhada de características físicas, retrato, impressões digitais etc. que devia ser apresentado e carimbado ao chegar num novo município. As carteiras eram individuais, mas o chefe da família devia ter ainda uma carteira coletiva para todos os membros de sua família. Este “carnet” só seria abolido em 1969.[6]

Como os ciganos, na opinião dos burocratas franceses, eram um perigo para os não-ciganos, foi criada, em 1949, uma Comissão Interministerial com a “missão especial de procurar os meios que permitam o desenvolvimento humano dos ciganos e de fazer desaparecer, para as populações no meio dos quais eles vivem, os inconvenientes inerentes à sua presença”. Ou seja, a intenção não era tanto a de beneficiar os ciganos, mas antes a população não-cigana. A Comissão sugere então as seguintes medidas, obviamente sem consultar os interessados: assegurar aos nômades locais sadios de estacionamento; com a ajuda de assistentes sociais especializados integrar os ciganos ao regime da Seguridade Social; procurar-lhes um trabalho regular, que lhes permite viver normalmente (‘regular’ e ‘normal’, naturalmente, segundo os valores dos burocratas franceses); dar-lhes uma instrução geral mínima e alguma formação profissional (mas aparentemente nada mais além disto), visando principalmente as novas gerações.

A Comissão recomenda ainda que a polícia de fronteira se esforça para “através de conselhos sensatos, vencer entre os nômades este instinto de indolência, que apresenta graves inconveniências para a sociedade e para eles próprios.....”. Mas, por outro lado, os policiais não devem ser bonzinhos demais porque “certos nômades, às vezes até certos grupos pouco evoluídos [leia-se: ciganos - FM], manifestam instintos associais muito graves, que devem ser severamente reprimidos...”. A Instrução termina dizendo que os nômades e ciganos receberão ajuda e assistência das autoridades públicas, mas somente e na medida em que eles se submetam às leis gerais válidas para toda a sociedade nacional. Ou seja, ajuda só após a integração na sociedade francêsa.

No ano seguinte, em 1950, uma Instrução do Ministério de Defesa Nacional à polícia de fronteira, menciona específicamente os ciganos. Por incrível que hoje possa parecer, esta Instrução informa que os ciganos representam raças diferentes, “caracterizadas por um instinto comum de nomadismo.... instinto racial e que apresenta efetivamente um perigo para a sociedade”. Os antropólogos francêses ficaram em silêncio porque nenhum deles tinha qualquer interesse em ciganos europeus, e menos ainda em ciganos franceses.

Depois disto há um longo período de silêncio, até a publicação da Circular 154, de 1964, dirigida aos Chefes de Polícia e aos Prefeitos, e que também cita especificamente ciganos: “O analfabetismo, a ausência de formação profissional, o apêgo a tradições de uma outra era, a frequente hostilidade da população sedentária, impedem praticamente que os ciganos ... se reclassifiquem porque eles são abandonados a sua própria sorte. Quando eles se fixam, geralmente é para continuar a levar, sem contatos com o resto da população, uma existência miserável em casabres na periferia das grandes cidades”.

A Circular fala da já citada Comissão Interministerial de 1949 e de sua política integracionista e sugere algumas mudanças na ótica e na metodologia daqueles que estão em contato com ciganos: os policiais não devem se limitar à repressão pura, mas também devem ajudar e aconselhar. Por isso, devem levar em consideração que os ciganos ainda mantêm certos costumes ancestrais, que devem ser tolerados, desde que não sejam ilegais. Seguem ainda vários outros conselhos para o tratamento policial dos ciganos. Não sabemos se algum policial, cujo nível de instrução, também na Europa, costuma ser baixo, entendeu os conselhos, e chegou a "ajudar e aconselhar" algum cigano.

Seja como for, pouco depois os ciganos deixam de ser preocupação de segurança nacional e passam a ser considerados um problema interno. Em 1966, o Ministério do Interior envia aos Prefeitos a Circular 128, na qual informa ter conhecimento que alguns municípios proibem de forma permanente e absoluta o estacionamento dos nômades, e que muitas vezes os lugares indicados são insalubres ou praticamente inutilizáveis (terrenos perto de ‘lixões’) ou sujeitos a inundações, ou então distantes de água potável. Por isso informa aos prefeitos que é ilegal proibir de maneira geral o estacionamento de nômades em território municipal, e que para estes estacionamentos devem providenciar locais com suficiente salubridade. 

Esta Circular é complementada pela Circular 546, também de 1966, na qual o Ministério do Interior solicita aos prefeitos que estes locais sejam não apenas salubres e providos, se possível, de um mínimo de equipamentos, mas também situados perto de escolas públicas. Além disto, a Circular solicita que a Polícia seja instruída sobre a necessidade da escolarização das crianças, pelo que “uma família de forasteiros ou de nômades nunca deve ser expulsa do território de um município no horário escolar, quando as crianças desta família se encontram na escola”. O fato de o Ministro mencionar este fato, e ainda grifar no texto, mostra que casos de expulsões semelhantes devem ter de fato ocorrido. Porém, aparentemente, conforme a Circular, a mesma família cigana podia ser expulsa do município logo após as crianças terem voltado da escola! Algo que muitos prefeitos franceses devem ter ordenado a seus comissários de polícia.

Numa Circular de 1968, o Ministério do Interior trata dos acampamentos para pessoas que vivem em trailers. Todas as prefeituras devem criar dois tipos de acampamentos: (1) acampamentos ‘de passagem’, para estadias curtas, mas nunca inferiores a 24 horas; estes acampamentos devem ser localizados perto de uma escola, deve ter abastecimento de água e recolhimento de lixo; os municípios pobres podem cobrar uma pequena taxa de estacionamento; (2) acampamentos para morada (terrain de sejour), para estadias mais longas, de ‘algumas semanas ou meses’, geralmente no inverno quando na Europa as condições para viajar são péssimas. No final a Circular adverte as prefeituras de que elas não têm poderes para regulamentar o estacionamento em terrenos privados cedidos, arrendados ou adquiridos pelos próprios viajantes, salvo em caso de ameaça à saúde pública. E lembra que uma Lei de 1963, sobre o uso do solo, foi feita para evitar o surgimento de favelas e por isso não pode ser usada para impedir o estacionamento de ciganos e outros viajantes, como acontecia em vários municípios.

No ano seguinte, o Ministério do Interior volta a tratar deste assunto na Circular 69/58. Nesta o ministro informa ter tomado conhecimento da expulsão injusta de nômades de terrenos privados pelo que insiste que os nômades não podem ser obrigados a deixar o município, a não ser no caso excepcional de ameaça para a saúde pública ou de atentados extremamente graves contra a ordem pública. Fora disto, eles têm o direito de ficar o tempo que o proprietário lhes ceder o usufruto do terreno.

O governo francês, talvez pressionado pelas autoridades municipais, resolve em 1972 editar uma circular, com nada menos do que dez páginas, e que limita drasticamente as áreas de estacionamento para os nômades. Esta circular enumera várias zonas interditadas para estacionamento, tais como reservas naturais, terrenos em redor de monumentos históricos, zonas “sensibles et pittoresques” (não se explica o que é uma “zona sensível e pitoresca”) e todos os lugares onde o camping constituiria um atentado à paisagem: zonas de ecologia fraca e florestas, dunas litorâneas, zonas com espécies de flora e fauna ameaçadas, etc. Além disto, os projetos para zonas de estacionamento devem ser aprovados pelos Departamentos de Turismo, ou seja, não devem incomodar os turistas! Resta então saber quais lugares sobram para os estacionamentos dos ciganos e viajantes: provavelmente apenas os lixões, pântanos, desertos, etc. No final, a circular trata até da permissão para as pessoas guardarem seus trailers no quintal ou na garagem da própria casa. Com uma circular desta, qualquer prefeito ou comissário de polícia, na prática, poderia expulsar os ciganos e viajantes de qualquer lugar do município, menos do depósito do lixo municipal.

Em 1978 o Ministério do Interior volta a solicitar, mais uma vez, a construção de áreas de estacionamento para nômades, mas desta vez menores, com capacidade para até 15 trailers, e não mais 60 como antes. De nada adiantou, conforme provam documentos publicados na década seguinte, alegando os municípios quase sempre falta de recursos. Mas o que não os impedia de construirem ou autorizar a construção de luxuosos campings turísticos para não-ciganos, de preferência em áreas “pittoresques”, por exemplo nas montanhas, em florestas, junto a cachoeiras ou nas margens de lagoas, ou seja campings luxuosos para o estacionamento de trailers, mobil-homes  e barracas dos turistas e que, como os hotéis, são classificados em campings de 1 a 4 estrelas, conforme os atrativos ecológicos, equipamentos e confortos que oferecem, mas todos determinantemente interditados aos ciganos. Os regulamentos internos destes campings turísticos costumam ser elaborados de tal forma que impedem, legalmente, a entrada de ciganos e outros viajantes.

Esta resumida análise de apenas alguns documentos governamentais prova, portanto, que na França os famosos ideais [ou apenas idéias?] da “liberdade, igualdade e fraternidade” existem apenas para os cidadãos franceses sedentários, mas nunca para os ciganos e outros nômades que preferem viver de acordo com valores culturais próprios.

Boas intenções e sugestões, por sinal, não faltam. Num documento oficial de 1990, Delamon destaca a necessidade de melhorar as comunicações entre os próprios ciganos, e sugere quatro medidas práticas: (1) instalação de telefones públicos nos acampamentos ciganos; (2) identificação exata dos acampamentos pelos Correios, para que os ciganos possam receber correspondência; (3) uma espécie de "Disque Cigano" com informações variadas; (4)  programas de rádio especialmente para os ciganos; (5) sinalização e indicação de acampamentos ciganos nas rodovias. Nào sabemos, mas duvidamos muito, que alguma destas sugestões tenha se tornado realidade.[7]

E no ano seguinte, Prevot, por sua vez, cita como seis objetivos prioritários: "1) melhorar o status específico dos viajantes; 2) assegurar uma política efetiva de habitação; 3) garantir o direito ao ensino e à formação profissional; 4) reforçar a proteção social por medidas apropriadas; 5) estimular que sejam levadas em conta as diferenças linguísticas e culturais; 6) desenvolver a qualidade das relações dos viajantes com os poderes públicos e o conjunto dos habitantes". Obviamente, nada disto se tornou realidade. A seguir Prevot fala vagamente de algumas medidas que estão sendo tomadas ou que serão tomadas, e que tratam de assuntos fiscais (pagamento de impostos, taxas, emplacamento dos carros e trailers), licenças de circulação, estacionamentos e acampamentos ciganos, serviços telefônicos e postais para nômades, assistência social, escolarização de crianças nômades.[8]

No final, o bem intencionado Prevot afirma que é essential esclarecer melhor os cidadãos franceses sobre a realidade dos viajantes, para que substituam sua desconfiança, abstenção e indiferença por acolhimento, compreensão e solidariedade. Belíssimas palavras, e nada mais, porque em momento algum explica como tornar isto realidade. Porém, dirigindo-se aos jornalistas, acrescenta que estes: "podem, a este respeito, ter uma ação determinante na sensibilização da comunidade nacional, para que ela se conscientize da presença no território nacional de uma comunidade igualmente de nacionalidade françesa, mas com uma cultura diferente”[9]. Parece que os jornalistas franceses não entenderam, ou não quiseram entender, o recado.

Por causa disto, entende-se porque, apesar de todas estas belas palavras, até hoje a França não resolveu satisfatoriamente a questão dos ciganos e de outros viajantes, que continuam sendo enxotados de um lugar para outro, de um município para outro, de uma favela para outra, como cidadãos indesejáveis de quinta categoria. Nestas condições, falar de direitos culturais, políticos, econômicos ou educacionais para ciganos e outros viajantes, como fazem outros documentos, é apenas piada de mau gosto. Para os turistas europeus o luxo; para os ciganos franceses o lixo.

 

 

Capítulo 4

O HOLOCAUSTO CIGANO.

 

A mais selvagem e bárbara perseguição aos ciganos de que se tem notícia, em toda a História da Humanidade, ocorreu não em séculos passados, entre povos então ditos “primitivos” ou “selvagens”, ou no Brasil, mas em pleno Século XX, na Alemanha, país (pelo menos até então) considerado “civilizado”.  As únicas vítimas do terror nazista que costumam ser lembradas, no entanto, são apenas os judeus, e quase nunca os ciganos. Enquanto hoje a bibliografia sobre o holocausto judeu é imensa, não faltando inclusive museus e memoriais especialmente construídos para lembrar este triste genocídio, o holocausto cigano sempre foi considerado um fato de menor importância. Os documentos históricos provam que não foi bem assim e que, lamentavelmente, ao lado de cerca de seis milhões de judeus, nos mesmos campos de concentração, nas mesmas câmaras de gás, nos mesmos crematórios, ou então fora deles num lugar qualquer da Europa, foram massacrados também cerca de 250 a 500 mil ciganos.  Só recentemente começaram a ser publicados ensaios, inclusive por autores alemães da geração pós-guerra, sobre este “holocausto esquecido”, o holocausto cigano, que os intelectuais ciganos de hoje preferem chamar de ‘poraimos’, para diferenciá-lo do holocausto judeu.[10]

Gilsenbach cita três fatores que facilitaram a perseguição aos ciganos na Alemanha antes e durante a II Guerra Mundial: (1) o já tradicional ódio dos alemães e de outros europeus aos ciganos, existente já desde o Século XV; (2) os arquivos desde o final do Século XIX existentes sobre ciganos na polícia criminal e (3) as teorias de antropólogos, psiquiatras e médicos sobre “higiene racial” e “biologia criminal”. O tradicional ódio aos ciganos já foi visto anteriormente; os outros dois fatores, e principalmente o último, precisam de alguns comentários. [11]

No início do Século XX, as políticas (anti)ciganas alemãs não foram idênticas em todo o país, mas cada Estado ou Província [Land] inventava as suas. Em Munique, na Bavária, já em 1899 criou-se um Serviço de Informação Cigana que registrava todos os ciganos do Estado. Em 1905 o seu diretor, Alfred Dillmann, publicou os primeiros resultados no Zigeunerbuch [O Livro Cigano, também vendido nas livrarias] que continha o registro, com uma dezena de dados pessoais, de 3.350 ciganos e que se destinava a ajudar a polícia na ‘erradicação da praga cigana’.

Em 1925/26 a Bavária editou uma lei que tornou obrigatória a vida sedentária e condenou a dois anos de trabalhos forçados ciganos não regularmente empregados, lei que em 1929 passou a ser válida na Alemanha toda. Mas já em 1927, todos os ciganos alemães foram obrigados a andarem sempre com um documento de identidade, com retrato, impressões digitais e outros dados pessoais.[12] Alguns anos depois foi criado o Serviço Central de Combate à Praga Cigana, órgão nacional que incorporou o Serviço de Munique e outros semelhantes então existentes, e passou a ser dirigido pelo mesmo Dillmann, que em pouco tempo reuniu informações sobre mais de trinta mil ciganos alemães. Este Serviço anti-cigano foi extinto em 1947, mas recriado em 1953, embora com outro nome; definitivamente extinto foi somente em 1970, vinte e cinco anos após o término da II Guerra Mundial! [13]

O Serviço alemão de Combate à Praga Cigana, sem dúvida alguma, foi o mais eficiente do mundo e poucos ciganos devem ter escapado de seus registros. No entanto, também em outros países foram realizados recenseamentos ciganos, foram criados cadastros permanentes da população cigana e criadas leis para evitar ou, pelo menos, controlar a sua presença no país. Até a famosa Interpol (na época chamada Comissão Internacional de Polícia Criminal) criou em 1936, em Viena, um Centro Internacional para a Luta contra a Praga Cigana, cujos arquivos foram destruídos em 1945.[14] Ou seja, quando em 1933 os nazistas chegaram ao poder, tanto na Alemanha quanto em vários países vizinhos (p.ex. França e Holanda) que depois seriam ocupados, a maioria dos ciganos já estava devidamente registrada e identificada, e já existiam políticas anti-ciganas.

A diferença era que agora os ciganos passaram a ser perseguidos - e depois exterminados - também por motivos raciais, e não apenas por serem considerados associais ou criminosos natos. Embora os alemães tenham negado isto após a II Guerra Mundial, quando foram obrigados a pagar indenizações às vítimas perseguidas por motivos raciais (admitindo-se como caso único os judeus), e embora tenham sempre afirmado que os ciganos foram perseguidos por serem “associais”, e não por serem de uma raça diferente, não resta a menor dúvida que ambos os fatores pesaram na perseguição. Muitos documentos e ensaios “científicos” da época comprovam, sem sombra de dúvida, que não somente os judeus, mas também os ciganos eram considerados membros de “raças” diferentes consideradas perigosas, porque poderiam contaminar a pureza racial ‘ariana’. Para esta justificativa “racial”, a Alemanha pôde contar com vários médicos, biólogos e antropólogos.[15]

Já em 1904 o antropólogo Alfred Ploetz fundou um “Arquivo para Raciologia e Biologia Social”, que no ano seguinte virou “Sociedade para Higiene Racial”. Anos depois, os antropólogos Bauer, Fischer e Lenz publicaram um manual sobre Genética Humana e Higiene Racial, que foi lido por Hitler quando, prisioneiro em 1924, escreveu Mein Kampf, a futura biblia nazista.[16] Não pretendemos citar aqui todos os institutos alemães na época considerados ‘científicos’, ou todos os biologos, antropólogos e outros cientistas que na época se dedicaram a pesquisas raciais, eugenéticas e ciganas, porque estes dados encheriam algumas dezenas de páginas. Dois nomes, no entanto, merecem destaque, porque são citados por praticamente todos os autores que tratam desta época: o médico psiquiatra Robert Ritter e sua assistente, a enfermeira Eva Dustin, entre os ciganos Sinti mais conhecida como Lolitschai, “a moça ruiva”. [17]

Em 1937 Ritter se tornou diretor do Centro de Pesquisa para Higiene Racial e Biologia Populacional, com sede em Berlim, onde se dedicou intensivamente às pesquisas ciganas. Somente o nome deste Centro já é suficiente para provar que os ciganos eram considerados uma “raça’ diferente. Neste Centro, entre outras coisas, Ritter investigava uma suposta relação entre hereditariedade e criminalidade, elaborando complicadas árvores genealógicas de ciganos para medir o grau de ‘mistura racial’, para o que utilizava inclusive os dados do já citado Serviço de Informação Cigana de Munique, que foram transferidos para Berlim.

Ritter e os membros de sua equipe eram defensores da “eugenética”, ou “higiene racial”, segundo a qual devia ser evitada a procriação de elementos nocivos à sociedade. Entre as pessoas nocivas estavam não apenas os deficientes físicos e mentais, mas também os “associais hereditários” (mendigos, vagabundos, prostitutas, alcoólatras, homosexuais, desempregados crônicos, e.o., como se estas características fossem transmissíveis hereditariamente!), e as minorias raciais nocivas, como os ciganos e os judeus. Para “limpar” a raça humana, Ritter e outros tantos “eugenéticos” da época inicialmente propunham a esterilização destas pessoas (a total eliminação física só seria proposta alguns anos depois). Estima-se que na Alemanha nazista cerca de 400.000 pessoas foram esterilizadas, entre as quais muitos ciganos.

O mesmo aconteceu, por sinal, também em outros países, inclusive nos Estados Unidos, onde até 1939 comprovadamente cerca de 30.000 pessoas “indesejáveis” foram contra a sua vontade esterilizadas.[18] Mas estes tristes episódios, como também os vergonhosos campos de concentração para japoneses e seus descendentes nos Estados Unidos, durante a II Guerra Mundial, os historiadores americanos preferem ‘esquecer’, principalmente nos livros didáticos e, oficialmente, ‘nunca aconteceram’.

Foi nesta época que os biólogos alemães tentaram deseperadamente descobrir, com fins práticos, quais eram as características “raciais” ciganas, já que na maioria dos casos era impossível distinguir os ciganos do resto da população alemã através de características físicas específicas. Mas mesmo Ritter e seus colegas nunca foram capazes de descrever estas características. Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era classificado como “Z” (de “Zigeuner”), ou seja “cigano puro” todo indivíduo com quatro ou três avós “verdadeiros ciganos”; como “ZM+” ou mestiço em primeiro grau era classificado quem tinha menos do que três avós “verdadeiros ciganos”; “ZM-” era o mestiço em segundo grau que tinha pelo menos dois avós “ciganos-mestiços”; avó ou avô “verdadeiro cigano” era aquele que sempre tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como “cigano”. Ou seja, no final das contas tratava-se de critérios subjetivos, e não científicos. Ritter chegou a classificar “racialmente” cerca de 25 a 30 mil ciganos alemães, mas a quase totalidade era, segundo ele, formada por mestiços, ou seja, eram candidatos à esterilização, confinamento em campos de concentração e, finalmente, extermínio.

No início dos anos 40 alguns nazistas intencionavam ainda conservar para a posterioridade uma “amostra” de Sinti “puros”, melhor dito, oito famílias Sinti e uma família Lalleri, que seriam confinadas numa espécie de “reserva cigana” a ser criada na Hungria e administrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico. Esta “reserva cigana” nunca chegou a se tornar realidade; no final, também estes ciganos “puros” terminaram nos campos de concentração ou de extermínio.[19]  Em 1940, Ritter escreveu num relatório:

 

 “Fomos capazes de provar que mais do que 90% dos assim chamados ciganos nativos são mestiços...... Outros resultados de nossas investigações permitem-nos caracterizar os ciganos como um povo de origens etnológicas totalmente primitivas, cujo atraso mental os torna incapazes de uma real adaptação social..... A questão cigana só pode ser resolvida reunindo o grosso dos mestiços ciganos associais e imprestáveis em grandes campos de trabalho e mantendo-os trabalhando, e parando para sempre a futura procriação desta população mestiça”.[20]



[1].   Salvo indicação ao contrário, todas as informações sobre os ciganos na Holanda a partir de 1868 baseiam-se em Willems & Lucassen 1990 e Cottaar, Lucassen & Willems 1995.  Sobre os "woonwagenbewoners" não-ciganos, veja também Cottaar, A ., Kooplui, kermisklanten en andere woonwagenbewoners, Amsterdam, Het Spinnehuis, 1996 e Wernink, J., Woonwagenbewoners: sociologisch onderzoek van een marginale groep, Assen, Van Gorcum,1959.

[2].   Fraser, A ., The Gypsies, Oxford, Blackwell Publishers, 1992, pp. 229-231

[3]. Willems e Lucassen 1990, pp.23-46

[4].  Brabants Dagblad/Eindhovens Dagblad de 17.08.94 e 03.02.95 (via Internet)  

[5].  Fraser 1992, p. 288

[6].  Sobre este ‘carnet’, veja também Cannizo, M., D’ou viens-tu gitan? Ou vas-tu?, s.l., s.ed., 1988, pp. 71-84

[7].  Delamon 1990, passim

[8].   Prevot 1991, passim

[9]. Prevot 1991, passim

[10].  Sobre o poraimos cigano, veja, entre outros: Reemtsma, K. , Sinti und Roma: Geschichte, Kultur, Gegenwart, Muenchen, Beck, 1996;  Ayass, W. et alii, Feinderklaerung und Praevention: Kriminalbiologie, Zigeunerforschung und Asozialenpolitiek, Berlin, Rotbuch Verlag, 1988, pp. 16 e segs.; Schenk, M., Rassismus gegen Sinti und Roma, Frankfurt am Main, Peter Lang, 1994;  Wippermann, W., Wie die Zigeuner: Antisemitismus und Antociganismus im Vergleich, Berlin,. Elefanten Press, 1997.

[11].  Gilsenbach, R., “Die Verfolgung der Sinti – ein weg der nach Auschwitz fuerte”, IN: Ayass, W. et alii, Feinderklaerung und Praevention: Kriminalbiologie, Zigeunerforschung und Asozialenpolitiek, Berlin, Rotbuch Verlag, 1988, pp. 16 e segs.

[12].  Gilsenbach 1988, p. 20

[13].  Winter, M., “Kontinuitaeten in der deutschen Zigeunerforschung und Zigeunerpolitik”, IN: Ayass et alii, 1988, p. 145

[14].  Kenrick, D. e Puxon, G., The destiny of Europe’s gypsies,  London, Sussex University Press, 1972, p. 70

[15].  Lembramos que na Alemanha de então, como muitas vezes ainda hoje, o termo ‘antropólogo’ significava ‘antropólogo físico’, e não antropólogo cultural ou social, então chamado ‘etnógrafo’ ou ‘etnólogo’.

[16].  Gilsenbach 1988, p. 21

[17].  Para maiores informações sobre Robert Ritter, veja Schenk 1994, pp. 39-62; Willems, W., Op zoek naar de ware zigeuner: zigeuners als studieobject tijdens de Verlichting, de Romantiek en het Nazisme, Utrecht, Van Arkel,  1995, pp. 191-285.  Sobre Eva Justin, veja Schenk 1994, pp. 77-84, Willems 1995, passim e Gilsenbach, R.,” Wie Lolitschai zur Doktorwuerde kam”, IN: Ayass e alii 1988, pp. 101-134. Sobre as pesquisas ‘raciais’ em geral na Alemanha nazista, veja Schenk 1994, pp. 37-106.

[18].  Willems 1995, p. 214

[19].  Gilsenbach 1988, pp. 32 e segs.

[20].  Fraser, A., The Gypsies, Oxford, Blackwell Publishers,  1992, p. 260

Para cada cigano, Ritter emitia então um “Certificado”, assinado por ele pessoalmente ou por sua assistente Eva Justin, no qual constavam além do nome e dados pessoais, o grau de ciganidade. Quase sempre o diagnóstico era: “mestiço cigano”, o que na prática correspondia a uma condenação à esterilização ou à deportação e internação (e posterior extermínio) em campos de concentração.

Eva Justin, na época, era apenas uma simples enfermeira, sem qualquer formação acadêmica, mas que apesar disto sonhava com o título de Doutor, e para obtê-lo escreveu uma ‘tese’ sobre a suposta inadaptabilidade social de crianças ciganas, estudando durante apenas seis semanas um grupo de crianças ciganas internadas numa espécie de orfanato, sem contato com seus pais ou outros ciganos adultos. Obviamente chegou à conclusão que a boa educação recebida neste internato de nada adiantou e que as crianças continuaram tão associais como antes; para ela, crianças ciganas eram simplesmente incorrigíveis, eram associais e criminosos natos.

A “tese” foi defendida em 1943, na Universidade de Berlim. Poucos dias após a obtenção do diploma, as 39 crianças ciganas do orfanato, as cobaias de sua pesquisa e que até então tinham sido poupadas, foram deportadas para Auschwitz; somente quatro sobreviveram.[1]

A partir de 1942 os métodos eugenéticos (esterilização e confinamento) foram substituídos por outro, considerado mais eficiente: o genocídio, ou seja a eliminação física destas pessoas, nos campos de concentração e fora deles. Em dezembro de 1942, Himmler ordena enviar todos os ciganos alemães para Auschwitz-Birkenau, então dirigida por Josef Mengele, onde foi instalada uma seção com 40 barracas só para ciganos, ordem depois repetida nos territórios ocupados. Dos 23.000 ciganos internados no campo de extermínio de Auschwitz, cerca de 20.000 morreram e uns 3.000 foram transferidos para outros campos. Os últimos ciganos de Auschwitz, conforme a metódica contabilidade alemã exatamente 2.897, foram todos enviados para as câmaras de gás na noite de 2 de agosto de 1944.[2]

Também outros campos de concentração receberam ciganos, embora em número menor do que Auschwitz. Bernadac publica quase três centenas de páginas com testemunhos de ciganos internados em vários destes campos de concentração.[3] Nem todos eram campos de extermínio e possuíam câmaras de gás e crematórios, mas nem por isto eram menos desumanos. Em Bergen-Belsen, por exemplo, os internos, entre os quais muitos ciganos, eram lentamente assassinados por inanição, sendo os mortos enterrados em enormes valas perto do campo. Quando Bergen-Belsen foi tomado pelos ingleses, em 1945, encontraram cerca de 10.000 corpos ainda insepultos, e cerca de 40.000 pessoas ainda vivas, das quais pouco depois ainda morreram umas 13.000, em parte por causa dos maus tratos e doenças anteriores (em especial o tifo), em parte também por causa da super-alimentação logo dada pelos bem intencionados ingleses, mas que muitos dos subnutridos já não conseguiram mais digerir.[4] Fatos semelhantes foram registrados também em outros campos de concentração. Exércitos não costumam levar também nutricionistas, e por isso, na época, ainda não se sabia – ou pelo menos os soldados e oficiais ainda não sabiam - que pessoas altamente subnutridas também podem morrer por causa de repentina super-alimentação.

Na França existiam até campos de concentração somente para ciganos, administrados pelas próprias autoridades francesas. Não se tratava de campos de extermínio, mas quase sempre de campos de trabalhos forçados e por serem campos em geral pequenos, para uma centena até alguns poucos milhares de pessoas, as condições de vida eram, em geral, melhores do que nos campos administrados pelos alemães. Bernadac chama estes campos, apropriadamente, “as antecâmaras francesas de Auschwitz”, porque principalmente no final da guerra, muitos dos 30 mil ciganos internados nestes campos franceses foram deportados para os campos de extermínio existentes na Alemanha e em outros países.[5]

O tratamento desumano, as terríveis experiências médicas, as câmaras de gás e os crematórios, e outros tantos horrores cometidos pelos alemães nestes campos de concentração, supomos suficientemente conhecidos por todos. Estima-se que 250 a 500 mil de ciganos foram assassinados pelos nazistas. Os números exatos nunca serão conhecidos, mas todos os documentos provam que os judeus não foram as únicas vítimas da perseguição racista pelos nazistas. A única diferença é que o holocausto judeu, e com justa razão, até hoje sempre costuma ser relembrado e não faltam memoriais para lembrar isto, inclusive em Auschwitz. O holocausto cigano, no entanto, costuma ser varrido debaixo do tapete, costuma ser simplesmente ignorado ou esquecido, como algo de menor importância, ou pior ainda como algo que nunca aconteceu, e praticamente não existem monumentos que lembram o holocausto cigano.

A II Guerra Mundial terminou há pouco mais de meio século. Centenas de milhares de judeus receberam indenizações do governo alemão, e o povo judeu recebeu uma Pátria nova (Israel 1948). Os ciganos nunca foram indenizados e nunca receberam nada, sob a alegação de que foram perseguidos e exterminados não por motivos “raciais”, mas por serem associais e criminosos comuns; outros tiveram seus pedidos de indenização negados porque não conseguiram apresentar os testemunhos necessários.

Todas as pesquisas de Ritter e outros sobre as características raciais dos ciganos, suas medições físicas, suas amostras de sangue, as crueis experiências biológicas de Mengele com ciganos em Auschwitz, foram de repente esquecidas. Preferiu-se esquecer ainda circulares oficiais como uma já de 1938, sobre “O combate à praga cigana”, que afirmava:  “A experiência até agora acumulada no combate à praga cigana e os resultados da pesquisa biológica-racial mostram que é recomendável abordar a regulamentação da questão cigana do ponto de vista racial”, como de fato aconteceu depois.[6]

O famoso Tribunal de Nuremberg, instituído pelos ‘aliados’ logo após a II Guerra Mundial para condenar europeus que cometeram crimes contra a Humanidade, concentrou suas atividades em crimes contra judeus, mas não há registro de criminosos de guerra condenados por crimes cometidos contra ciganos. Inúmeros judeus – e com toda a razão – tiveram oportunidade para apresentar seus depoimentos e suas denúncias, mas nenhum cigano foi convocado ou aceito para depor ou para denunciar.

Antes pelo contrário, alguns conhecidos e comprovados criminosos anti-ciganos (mas não anti-judeus!) foram até promovidos: Robert Ritter e Eva Justin, por exemplo, foram considerados inocentes e após a guerra viveram ainda um bom tempo exercendo tranquilamente a profissão! Em sua defesa foi alegado que os dois nunca mataram pessoalmente um cigano! Que comprovadamente mandaram dezenas de milhares de ciganos para a morte com seus pseudo-científicos “Certificados de Ciganidade”, não foi levado em consideração. Em 1947 a prefeitura de Frankfurt contratou Ritter como psiquiatra infantil, e no ano seguinte Eva Justin foi contratada como psicóloga criminal e infantil, para cuidar - imaginem só! - da re-educação de crianças associais e desajustadas, muitas das quais certamente vítimas da guerra.[7]

Ainda hoje o holocausto cigano é pouco conhecido do grande público.[8] Também em documentários e em comemorações das vítimas do holocausto nazista, ou em monumentos construídos em sua homenagem, sempre são lembrados apenas os judeus, e nunca os ciganos. Pelo contrário, mesmo depois da guerra os ciganos continuaram sendo discriminados da mesma forma, ou talvez até pior do que antes. Atualmente, no entanto, em livros e revistas que tratam do holocausto, está se tornando ‘politicamente correto’ falar não apenas dos judeus, mas também dos ciganos, enquanto também o número de livros e artigos que tratam do assunto está aumentando sempre mais.[9]

Mesmo depois da guerra, os ciganos continuaram sendo discriminados da mesma forma, ou talvez até pior do que antes. Principalmente nos círculos policiais, todas as antigas ideologias e imagens anti-ciganas continuaram existindo, pelo que nada mudou também nas atitudes anti-ciganas, excluindo-se apenas o genocídio. Os ciganos continuaram pessoas indesejadas e odiadas em toda a Alemanha.[10] Até vários dos assim chamados ‘ciganólogos’ alemães continuaram publicando ensaios nitidamente anti-ciganos.[11]

Ainda hoje, mais de cinquenta anos depois da II Guerra Mundial, pouca coisa mudou. Na decada de 90, após a reunificação das duas Alemanhas (Ocidental e Oriental) e o fim da União Soviética, a Alemanha se tornou o país preferido por dezenas de milhares de refugiados e migrantes do Leste, entre os quais muitos ciganos, principalmente da Romênia e da ex-Iugoslávia. Jansen informa que: "de 1989 a 1990, o número de refugiados vindos da Romênia cresceu mais de dez vezes, de cerca de 3.000 para 35.000. Dois terços deles são Roma. Somente no mês de outubro de 1992, foram registrados na Alemanha 15.000 refugiados da Romênia".[12] Em 1992/93 o governo alemão pagou ao governo romeno mais de 25 milhões de marcos para receber de volta cerca de 50.000 cidadãos romenos, a maioria dos quais Rom. Ninguém perguntou aos Rom se eles realmente queriam voltar, e a sua ‘repatriação’ foi compulsória.

Diga-se de passagem que esta repatriação teve a aprovação também de muitos Sinti, ciganos com nacionalidade alemã e há muito tempo residindo no país e quase todos bem integrados na sociedade nacional, porque temeram que a população os identificasse com os Rom do Leste, segundo eles responsáveis por todos os estereótipos e preconceitos anti-ciganos. Já vimos anteriormente que também na Holanda os ciganos holandeses tradicionais (com nacionalidade holandesa) não gostaram nada da repentina imigração de Rom do Leste, pelo que inclusive ajudaram o Governo a contrabandear ilegalmente muitos destes ciganos “estrangeiros” de volta para algum país vizinho. Comprovadamente, pelo menos na Europa, os ciganos não somente são odiados pelos não-ciganos, mas também – e o que é bem mais grave - se odeiam mutuamente.

Inclusive na Europa do Leste. Segundo Gozdziak, após 1989 muitos Rom romenos migraram também para a Polônia, um país no qual também, há muito tempo, existe uma forte discriminação anti-cigana, apesar da qual muitos antigos ciganos poloneses conseguiram integrar-se no país. Para estes tradicionais ciganos polonêses, a chegada de milhares de ciganos romenos apenas piorou ainda mais a situação: "Os Rom poloneses não se relacionam com os ciganos romenos..... ‘Eles não são meus irmãos’, diz um rom polonês, ‘... nós somos muito diferentes deles, nós não pedimos esmolas nas ruas. Nós não somos dependentes de nínguém, Nós conquistamos aqui nosso espaço. Nossas mulheres são limpas, e as crianças tomam banho. Nós construimos casas e não dormimos no chão. Os ciganos romenos nos envergonham’ ".[13]  O fato de este Rom identificar os ciganos poloneses como 'Rom', e os ciganos romenos - sem dúvida alguma Rom - apenas como 'ciganos', é apenas mais uma manifestação de discriminação cigana anti-cigana, e que, lamentavelmente, existe e foi registrada em praticamente todos os países.

Vergonha: talvez seja esta a palavra chave que explique o anti-ciganismo dos próprios ciganos em países nos quais há séculos residem e que, bem ou mal, já conseguiram integrar-se na sociedade nacional, que são sedentários, exercem alguma profissão perfeitamente legal, cujos filhos estudam, e que não são identificados ou identificáveis como 'ciganos', e por isso também não são perseguidos e discriminados.

Entende-se que a chegada repentina de centenas ou milhares de rom orientais maltrapilhos, famintos, imundos, analfabetos e que, para sobreviver, vivem mendigando, enganando ou furtando, ou até envolvendo-se em atividades ilegais como contrabando e o tráfico de drogas, é um pesadelo e uma ameaça para os tradicionais ciganos não somente na Europa Ocidental, mas também em alguns países da Europa Oriental, como a Polônia.

Se até os próprios Rom pensam assim sobre os imigrantes e refugiados Rom romenos, (ex) iugoslavos, (ex) tchecoslovacos, albaneses ou outros, não se pode estranhar opiniões e atitudes ainda piores entre a população não-cigana. Numa pesquisa de opinião pública realizada na Alemanha em 1992, os ciganos obtiveram o mais alto índice de rejeição: 64%. A rejeição de outras conhecidas minorias era: muçulmanos 17%, indianos 14% e judeus 7%.[14]

Grande também é o número de imigrantes e refugiados da ex-Iugoslávia. Milhares de ciganos iugoslavos, que desde 1989 tentaram em vão obter asilo na Alemanha, foram depois compulsoriamente "repatriados" - eufemismo para "deportados" [15]

É compreensível que estas massas de refugiados não sejam bem-vindas na Alemanha, como aliás em nenhum outro país europeu. Afinal de contas, por causa de tratados internacionais, todos eles devem receber alimentação, hospedagem, assistência social, assistência médica, etc., ou seja, devem ser mantidos às custas dos contribuintes não-ciganos. E tudo isto justamente numa época em que também a quase totalidade dos países europeus passa por profundas crises econômicas e têm altos índices de desemprego.

Além disto, por causa dos preconceitos já existentes, os ciganos migrantes ou refugiados do Leste quase nunca recebem a devida assistência, e por isso são obrigados a mendigar, furtar, vender drogas, etc. pelo que os preconceitos aumentam mais ainda. Porque, obviamente, muitos deles são presos e terminam nas páginas policiais dos jornais, nas quais costumam ser identificados como 'ciganos', embora os jornalistas não costumem informar nada sobre a nacionalidade ou identidade étnica dos outros milhares de criminosos presos por causa de 'crimes' idênticos ou semelhantes. 

Daí porque a imprensa não se cansa de noticiar incêndios de residências ciganas e outras violências contra ciganos e contra outras minorias étnicas na Alemanha (e em vários outros países europeus), cometidas por neo-nazistas, skinheads e outros grupos ultra-direitistas, ou a repatriação forçada, pelo Governo, de milhares de ciganos para seus países de origem. Na Alemanha de hoje, apesar das belas recomendações pró-ciganas da União Européia, da qual o país faz parte, a vida dos ciganos ainda é difícil, e os tradicionais preconceitos e as centenares discriminações continuam existindo, como antes.  


Capítulo 5.

CIGANOS NA EUROPA OMUNISTA.

 

População cigana na Europa do Leste.

 

Já a partir do Século XII muitos ciganos migraram da Turquia em direção ao norte. Principalmente aqueles que migraram para a Transilvânia, Valáquia e Moldávia (nas atuais Romênia e Moldávia) tiveram um destino nada agradável: dezenas de milhares deles foram capturados e escravizados, e isto até meados do Século XIX .

A origem desta escravidão cigana nos Bálcãs ainda não está devidamente esclarecida: podem ter sido prisioneiros de guerra, ou servos que se transformaram em escravos, ou pessoas famintas que se venderam para sobreviver. Seja como for, já desde o Século XIV há notícias nestes principados de escravos ciganos, a serviço da Corôa, de mosteiros, nobres, fazendeiros ou cidadãos abastados.[16]

Consta que os escravos domésticos viviam em condições melhores do que os escravos do campo, mas mesmo assim, em 1839, um jornalista francês escreveu: “A miséria está tão claramente estampada nos seus rostos que, se avistar um, você perde o apetite”. Os proprietários costumavam abusar sexualmente das jovens ciganas e os filhos resultantes disto também eram considerados escravos.[17] E naturalmente, sendo escravos, podiam ser vendidos. Um anúncio num jornal de 1845 informa que os filhos e herdeiros de N.N., de Bucarest, vendiam 200 famílias ciganas, em lotes de no mínimo cinco famílias de cada vez; facilitava-se o pagamento.[18] E em 1852 anuncia-se a venda, pelo mosteiro de Santo Elias, de um lote de escravos ciganos, a saber 18 homens, 10 rapazes, 7 mulheres e 3 moças, todos “em boas condições”, in conditie fina.[19]

O movimento abolicionista que surgiu na Europa do Século XIX preocupava-se antes de tudo com a abolição da escravidão negra nas Américas, porque sempre é mais cômodo preocupar-se com problemas ecológicos, sociais, de direitos humanos, de violência urbana, de torturas, fome, etc. em continentes e países distantes, e esquecer problemas idênticos existentes no próprio continente ou até no próprio país como, por sinal, acontece ainda hoje. Por isso ninguém deve estranhar que a escravidão cigana na própria Europa só era lembrada por alguns poucos autores. Segundo um deles, o abolicionista Kogalniceanu: “Os europeus estão organizando sociedades filantrópicas para a abolição da escravidão na América, mas no seio do próprio continente da Europa, existem 400.000 ciganos que são escravos, e outros 200.000 que são igualmente vítimas de barbaridades”.[20]

Mas aos poucos as idéias abolicionistas penetraram também na Romênia. A primeira libertação em massa de escravos ciganos ocorreu na Valáquia, em 1837, quando a Corôa libertou quatro mil famílias, seguindo-se a libertação de escravos ciganos da Igreja (dos mosteiros), em 1842 na Moldávia e em 1847 na Valáquia. Na década de 40, escravos ciganos da Corôa, e depois também de mosteiros, foram libertados na Moldávia. A escravidão cigana foi declarada ilegal, em 1855 na Moldávia e em 1856 na Valáquia. Por completo a escravidão cigana seria abolida somente em 1864, quando os dois principados foram unidos e passaram a constituir a então Romênia (em 1944 a Moldávia passou a pertencer à União Soviética e atualmente é um país independente).[21]

Quase todos estes escravos ciganos eram Kalderash, cujos descendentes hoje, compreensivelmente, tentam de qualquer forma esconder e esquecer (ou esqueceram de fato) este seu comprovado e bem documentado passado de 500 anos de escravidão. Os ciganos escravos conseguiram conservar - mais do que os ciganos livres em outros países - alguns poucos elementos culturais, e principalmente sua língua, em parte porque eram escravos e portanto sedentários, em parte também porque casamentos e relações sexuais entre livres e escravos eram proibidas (o que não significa que não tenham ocorrido).

Mas outros tantos elementos e valores culturais - hoje considerados tipicamente 'ciganos', ‘rom’ ou 'kalderash' – os escravos ciganos assimilaram da população rural romena, como o 'kris' (uma espécie de tribunal cigano) ou a 'pomana' (ritual funerário) que na realidade não são de origem ‘cigana’, mas comprovadamente de origem balcânica.

A partir de meados do Século XVIII, milhares de Rom migraram para a Europa Ocidental e para as Américas, mas a maioria deles ficou morando na Europa Oriental e Central. 

Após a II Guerra Mundial forma-se na Europa do Leste o assim chamado "bloco dos estados socialistas", composto pela União Soviética e seus países satélites: Albânia, Bulgária, Hungria, Iugoslávia, Polônia, Romênia, Tchecoslováquia e a República Democrática Alemã (Alemanha Oriental). Já em 1948 a Iugoslávia se separa deste bloco e a Albânia faz o mesmo em 1961; as tentativas de separação da Hungria em 1956, e da Tchecoslováquia em 1968, foram frustradas pelas tropas soviéticas.

Com o fim da União Soviética, simbolizado pela destruição do Muro de Berlim em 1989, o mapa político da Europa do Leste muda novamente. Os países bálticos recuperam sua independência e renascem a Lituânia, a Letônia e a Estônia. A Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária dissolvem seus partidos comunistas e realizam eleições democráticas; a Tchecoslováquia se divide na República Tcheca e a Eslováquia; a Iugoslávia, que unia artificialmente sete povos diferentes, após uma sangrenta guerra civil, se divide na nova Iugoslávia (Sérvia, Montenegro e Kossovo), a Bósnia-Herzegóvina, a Eslovênia, a Croácia e a Macedônia. 

É na Europa Central e Oriental que, ainda hoje, reside a maioria da população cigana mundial. Segundo Liégeois, em 1994 a população cigana nestes países seria: Albânia 90 a 100.000; Belarússia 10 a 15.000; Bosnia-Herzegovina 40 a 50.000; Bulgária 700 a 800.000; Croátia 30 a 40.000; Eslováquia 480 a 520.000; Eslovênia 8 a 10.000; Estônia 1.000 a 1.500; [Grécia 120 a 140.000]; Hungria 550 a 600.000; Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) 400 a 450.000; Letônia 2 a 3.500; Lituânia 3 a 4.000; Macedônia 220 a 260.000; Moldávia 20 a 25.000; Polônia 40 a 50.000; República Tcheca 250 a 300.000; Romênia 1.800.000 a 2.500.000; Rússia 220 a 400.000; Turquia 300 a 500.000; Ucrânia 50 a 60.000.[22]

Como sempre, estes números são apenas aproximados. Druker, falando dos ciganos na Europa do Leste, informa que é quase impossível saber com certeza quantos ciganos vivem nestes países pelos seguintes motivos: a) a inexistência ou inconfiabilidade de censos oficiais; quando existem, a população rom (cigana) geralmente é subestimada; durante o período comunista os ciganos nem sequer eram reconhecidos como minorias étnicas; b) muitos ciganos têm mêdo de se identificarem como tais, por causa da secular discriminação e