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Entrevista com Rose Nogueira
Membro do grupo Tortura Nunca Mais e presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana

Os pássaros gosta da casa de Rose Nogueira. As árvores, flores e plantas no quintal são um convite para as aves, que pousam nas mesas, sem medo da anfitriã. Esse ambiente de paz e tranqüilidade contrasta com o passado, e o presente, de muita luta dessa mulher que foi presa política aos 23 anos, enfrentou o Dops – o esquadrão da morte da ditadura militar –, dividiu a cela com a atual ministra Dilma Rousseff, é citada no livro Batismo de Sangue, do Frei Betto, e foi colega de profissão de Vladimir Herzog (morto em tortura).

Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e membro do grupo Tortura Nunca Mais (SP), Rose Nogueira é jornalista há 44 anos e já trabalhou na editora Abril, no jornal Folha de S. Paulo e nas emissoras Globo, Bandeirantes e Cultura. Os dez meses de prisão pela ditadura não tiraram suas características mais marcantes: sua doçura e sua vontade de melhorar o mundo.

No quintal de sua casa, Rose Nogueira criou a praça Che Guevara, onde cuida das mudas que, depois de crescidas, ela planta nas praças do bairro onde mora. Como se não bastasse, Rose ainda encontra tempo para ser roteirista e diretora. Conheça melhor essa lutadora na entrevista que ela deu ao VOX – Especial Mulher.

Por que a senhora decidiu fazer parte do grupo Tortura Nunca Mais?
Fui presa política. Em 1969, na ditadura, fui presa pelo “esquadrão da morte”, o DOPS, e fui muito torturada. Eu não pude mais ter filhos, por aí você imagina o que eu passei. Eu tinha 23 anos, meu bebê tinha um mês. Fiquei dez meses presa, dois anos e meio em liberdade vigiada e, depois disso tudo, fui absolvida. Então, eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei.
A senhora também é presidente do Condepe, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Quais são as ações dessa organização?
Defendemos os direitos humanos, que são a toda hora violados. Como nos casos de crianças em que não se respeita o Estatuto da Criança e do Adolescente, ou do cara que aparece morto na delegacia e alegam que ele se matou com uma faquinha de plástico. Isso ofende a nossa inteligência.
Esse espírito de luta vem desde sua juventude, já que a senhora faz parte de uma geração muito politizada, que lutou por muita coisa...

Acho linda aquela frase do Fórum Social Mundial: “Um outro mundo é possível”. Eu acredito que é possível melhorar o mundo, então vou batalhar até o último dia pra melhorá-lo. Você tem que ir até o fim, não pode perder a esperança de mudar o mundo. Tudo o que fazemos é político, da hora que acordamos até a hora de dormir. Mesmo quando você deixa de fazer algo, e isso é a pior coisa.

O cinema nacional tem abordado com mais freqüência o tema da ditadura, como podemos conferir em O ano em que meus pais saíram de férias, Batismo de sangue, Zuzu Angel e na minissérie televisiva Queridos amigos. É muito bom esse tema estar sempre em pauta, não?
Sim, mas a gente tem que ter muito mais. A censura caiu em 1982, a ditadura em 1985, já era pra se ter produzido e tratado muito mais sobre isso. Mas o brasileiro não gosta de falar sobre o passado, não quer saber o que aconteceu ontem, pensa que o “hoje” não tem nada a ver com o “ontem”. Porém, a história é um processo, não um evento.

Mas o entretenimento pode usar o tema como ideologia, como em Tropa de Elite ou a série 24 horas, que mostram o protagonista utilizando a tortura como forma de combate ao crime. O que achou do filme de José Padilha?

Um horror, Tropa de Elite tentar humanizar um assassino. Sei que o assassino é um ser humano, mas o filme tenta justificar o assassinato e a tortura. E contra pobre. Eu não defendo bandido, acho que todos os crimes devem ser julgados e cumpridos, mas aquele filme justifica o crime do Poder, em nome do Estado.

Ele (Capitão Nascimento) pensa estar defendendo a sociedade, mas, na verdade, está matando uma parte dela. A classe média acha que um crime é só roubar relógio.
Como no caso do Luciano Huck...
Que ridículo aquilo, né? Fiquei com vergonha de ler ele falar que o relógio custava 48 mil dólares. Então eu li alguém dizer: “com 48 mil dólares eu compro quatro casas populares e salvo quatro famílias da marginalidade”. O país parou pra discutir o relógio do Luciano Huck. Ele deveria discutir a fome, a pobreza, e não cometer a ofensa de sair com um relógio de 48 mil dólares.

E o Estado sempre combate o crime com mais força e mais violência na população de baixa renda.
Eu participei do prêmio Vladimir Herzog, de 2007, e votei no filme Falcão – Meninos do Tráfico, porque mostra uma realidade terrível de grande parte da sociedade brasileira. E o que me surpreendeu muito ali foram os meninos de 11 anos falando “eu sei que minha vida é curta”. Onde já se viu um adolescente achar que a vida é curta! É terrível isso. Um menino de 14 anos que não tem o que comer, os pais desempregados; ele trabalhando pro tráfico ganhava dinheiro e sustentava a casa. Era o soldadinho do tráfico, mas na hora da repressão é o primeiro a morrer se tiver confronto. Agora, num país com a diferença social que tem, onde grande parte da população não ganha nem um salário mínimo, quem é o bandido? É isso que é preciso se perguntar.

Quando falamos em “massacres”, sempre é citado o episódio de Carandiru (1992) ou o do Eldorado dos Carajás (1996). Porém, é preciso lembrar que há fatos recentes, como a execução de centenas de pessoas por parte da PM para reprimir os ataques do PCC, em 2006.

Sobre a retaliação da polícia, fiz o livro Crimes de maio. Foram 493 pessoas só em uma semana! Teve toque de recolher, todos os que estavam na rua morreram, diziam “ah, fulano tinha passagem na polícia”. Não, ninguém pode morrer assim, nem quem tem passagem, nem quem não tem. Em Santos morreram umas 50 pessoas, sendo que umas 20 eram rapazes e moças que estavam pelo bairro. Mataram uma moça grávida de nove meses. O que se imagina, porque não se sabe direito, é que isso aconteceu porque ela estava passando por um posto e teria visto uma execução.

De que forma a comunidade internacional deve interferir em situações evidentes de abuso de poder, como as torturas realizadas por soldados norte-americanos na prisão de Guantánamo, ou a repressão aos protestos realizados por monges budistas, em Mianmar e no Tibet?
Sou contra qualquer tipo de repressão e acho um absurdo bater num monge budista. Agora, por que a ONU não interfere? Eu não sei mais qual é o papel da ONU: antes ela promovia a amizade entre os povos, agora fica vistoriando guerras... Guantánamo é outra vergonha pra humanidade. E o engraçado é que o pessoal fica falando de Cuba sem nem saber como é o país, mas não falam de Guantánamo, que fica lá, no território cubano. É o fim da picada.

Este ano comemoram-se 40 anos do revolucionário “1968”. Como foi esse ano para a senhora?
Eu já era jornalista, e foi um ano especial, teve muita coisa no mundo inteiro. Nós, brasileiros, estávamos lutando contra a ditadura. Não tivemos um “Maio de 68”, como os franceses, tivemos um “Dezembro de 68”, com o AI-5 (Ato Institucional Número Cinco), em 13 de dezembro. Teve, também, a invasão do Crusp, a prisão dos congressistas da UNE, em Ibiúna. Em 1968, os totalitarismos foram questionados. Teve a Primavera de Praga, quando a Tchecoslováquia lutou contra a União Soviética, o massacre de estudantes manifestantes, no México, a Teologia da Libertação, no encontro de Medellín, na Colômbia. Isso tudo tem a ver com as idéias revolucionárias, foi um ano especial. Concordo com Zuenir Ventura: é um ano que não terminou.

Para entrar em contato com o grupo Tortura Nunca Mais, ligue
(11) 3283-3082
www.cursinhodapoli.org.br
Nº 08 - Março / Abril 2008

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