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HINO À DIGNIDADE HUMANA      

 

Conheci Paulo Freire pessoalmente em 1987, levado à sua casa por Margarida Genevois e Marco Antonio Barbosa. Iniciávamos o Projeto Educação em Direitos Humanos, da Comissão Justiça e Paz, e ele, juntamente com a Teologia da Libertação, era o nosso ponto de referência. Surpreendeu-me a sua simplicidade, calor humano e capacidade de ouvir, dialogar.

Quando assumiu a Secretaria Municipal da Educação, em São Paulo, seguiram-se quatro anos de trabalho intenso, o mais realizador de minha vida. Tive a ventura de coordenar o Projeto da Comissão na sua Secretaria, integrando-o ao Projeto de Reforma Curricular, ao da Formação Permanente de Professores, além de outras atividades em função da educação em direitos humanos e dos projetos de Paulo Freire.

Conhecedor do magistério municipal desde a infância - minha mãe é educadora, agora aposentada, daquela rede de ensino -, tive gratas surpresas. Entre elas, a de um professorado, inicialmente na defensiva, a seguir entusiasmado e sedento de ética, justiça, de uma educação voltada para a igualdade e dignidade de todo e qualquer indivíduo. Assisti, mais surpreso ainda, a encontros do Secretário com professores, com uma autenticidade, sinceridade e empenho, para mim inéditos, no relato dos trabalhos, sucessos e fracassos. Emocionou-me a postura do Educador dos Oprimidos, no momento em que os professores hesitavam e ele agradecia-lhes por estarem reformulando alguns de seus conceitos práticos-teóricos-práticos, por estarem reescrevendo-o, reiventando-o, na medida em que algumas de suas idéias haviam sido elaboradas há tempos e devem ser sempre resultado da construção coletiva e permanente do conhecimento.

Infelizmente, este trabalho institucional não teve continuidade, mas prossegue através de todos os que se dedicam às suas idéias, à educação popular, à educação libertadora e, inclusive, através da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, ora presidida por Margarida Genevois, nesta semana realizando seu I Congresso.

Há pouco, na última vez em que o visitamos, Margarida e eu, Paulo Freire aceitou integrar o Conselho da Rede e deu-me, como sempre, pelo menos duas grandes lições. Contou-nos como, jovem recém chegado ao Rio, procurara Gustavo Corção por telefone e sendo destratado, desistira de procurá-lo, prometendo-se jamais fazer algo análogo se algum dia se tornasse um notável. E acrescentou que, anos depois, Corção enveredaria pelo facismo. Interrompi-o, dizendo que então ele não perdera  nada por deixar de conhecer Corção. Paulo Freire olhou-me bem nos olhos e tranquilamente respondeu : “Você está enganado, Antonio Carlos, a gente sempre perde muito quando deixa de conhecer alguém.”

A conversa prosseguiu e não resisti a elogiá-lo por ser sempre o mesmo, em qualquer situação, cargo ou lugar. Com a mesma tranquilidade, disse-me que isto não era mérito nenhum, apenas fruto do seu respeito pela própria identidade. Entendia fonte de sua reverência a todo e qualquer ser humano e saí de lá, como sempre, edificado, sem imaginar que não nos veríamos mais.

A justa expressão sobre Paulo Freire foi proferida pelo padre Júlio Lancellotti, na belíssima missa de corpo presente concelebrada por diversos sacerdotes, no dia 3 de maio último: Paulo Freire é um hino à dignidade humana.

Entretanto, como qualquer ser humano, Paulo Freire extrapola conceitos, faz parte do mistério de Deus. Mal conhecemos a nós mesmos, menos ainda os nossos semelhantes : só podemos amá-los, testemunhá-los, partilhar com eles. E com Paulo Freire, nas vezes em que nos vimos, nem tantas, nem tão poucas, pude partilhar os melhores dos meus sonhos, especialmente o do diálogo.

Como era homem íntegro, sem dissociação entre discurso e prática, tornava-se transparente. O colóquio que se estabelecia era, de fato, dialogicidade, no sentido mais profundo da palavra, como também comentou, no cemitério, José Carlos Barreto. Convivemos pouco, mas dialogamos de fato, e é isto o que conforta a tantos de nós que tivemos o privilégio de querê-lo bem.  Tenho a certeza de que sempre aprenderemos com ele.  Hoje, Paulo Freire está na Vida Plena.

Antonio Carlos Ribeiro Fester

- educador em direitos humanos -

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