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 4.   Defesa de direitos humanos no Brasil urbano: luta contra violência da polícia, crime organizado e corrupção

 

A estagnação econômica em toda a América Latina nos anos 80, combinada com a migração em massa das áreas rurais para os centros urbanos, detonou um aumento sem precedentes de crimes nas duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo a antropóloga e conhecida pesquisadora da violência urbana Alba Zaluar, de 1983 a 1990 a taxa de homicídios no Rio de janeiro cresceu de 23 mortes a cada 10.000 habitantes para 63,03 mortes a cada 10.000 habitantes, ou seja, triplicou.[1] Em São Paulo, um aumento similar de três vezes foi registrado de 1980 a 1994.

 

Neste contexto e enfrentando a resistência de um governo federal ainda controlado pelos militares, políticos da oposição se elegeram governadores em São Paulo e no Rio de Janeiro  após eleições no final de 1982. Nesses estados, administrações com um novo discurso sobre direitos humanos assumiram o poder precisamente durante o período marcado pelo aumento de crimes violentos jamais documentado no Brasil. Um dos resultados deste período que persiste até hoje tem sido a associação, por parte de uma significativa parcela da população, entre a defesa dos direitos humanos  o aumento de crimes violentos e a defesa de bandidos.

 

No Rio de Janeiro o governador, Leonel brizola (1983-1986 e 1987-1991) ao implementar uma política mais voltada ao respeito dos cidadãos, como por exemplo, reduzir incursões abusivas da polícia nas favelas,  foi visto em muitos setores da sociedade e da polícia como conivente com bandidos e traficantes. de forma crescente, os habitantes do Rio de Janeiro, particularmente aqueles das classes alta e média, vieram a entender segurança pública sob o prisma de uma falsa, embora largamente disseminada, dicotomia: a de que é preciso escolher entre forças policiais agressivas (com os abusos de direitos fundamentais) ou inação policial e submissão à criminalidade (com respeito pelos direitos humanos).

 

Sentimento semelhante se desenvolveu em São paulo, onde o aumento do crime nos anos 80 levou a segurança pública a ocupar um lugar central como assunto mais importante na política estadual. No curso dos anos 80, após o governo de Franco Montoro, autoridades políticas encorajaram a polícia a responder agressivamente à criminalidade. Muitos policiais entendiam este discurso, quase literalmente, como uma licença para matar. Entre 1988 e 1992, o número de civis mortos pela Polícia Militar de São Paulo cresceu cinco vezes, de 294 para pelo menos 1.470, [2] aproximadamente um terço de todos os homicídios no estado naquele ano.

 

Neste contexto polarizado, aqueles que defendem os direitos humanos nos principais centros urbanos no Brasil são largamente considerados aliados do crime e da criminalidade, o que complica mais sua já difícil missão. Essa visão popular, freqüentemente sustentada por autoridades irresponsáveis, permite que as forças policiais desacreditem as alegações e documentações dos defensores de direitos, apelando para a preocupação do público com sua segurança e invocando a falsa dicotomia que força uma escolha entre forças policiais vigorosas e respeito pelos direitos humanos.

 

A batalha contra a corrupção policial

 

No cenário urbano, uma área particularmente difícil na defesa de direitos destacados neste relatório tem sido a batalha contra a corrupção policial. Esta corrupção, que com freqüência anda lado a lado com a  violência policial, tem mostrado envolver uma larga série de autoridades, incluindo não apenas policiais de alto escalão, mas também promotores, juizes e funcionários eleitos. O desenvolvimento do papel do Brasil no tráfico internacional de narcóticos nas últimas décadas (primeiro como um ponto de trânsito e mais tarde também como mercado consumidor) tem garantido a presença de milhões, se não bilhões, de dólares em comércio ilegal. Este fato, combinado com as leis de sigilo bancário do país, tem feito do Brasil um importante centro de lavagem de dinheiro. Esta combinação tem promovido o crescimento de unidades de crime organizado que com freqüência contam com a cumplicidade ou assistência direta de autoridades do alto escalão.

 

Documentar e denunciar este tipo de corrupção é uma atividade extremamente perigosa, como os corajosos esforços do detetive da polícia civil Francisco Badenes, demonstram. Por uma década, Badenes tem investigado a Scuderie Le Cocq, uma organização legalmente constituída e profundamente envolvida nos assim chamados assassinatos de “limpeza social” (cujo alvo são adolescentes que vivem e trabalham nas ruas de Vitória, no Espírito Santo), extorsões e outras formas de corrupção.

A teia intrincada de policiais corruptos e assassinos que Badenes investigou tornou o sistema judiciário ineficaz para combater seus crimes: quando investigadores de polícia, promotores e juízes que não são parte da rede da Scuderie investigam os crimes do grupo, são induzidos a abandonar os casos contra os membros da Scuderie através de suborno ou intimidação.

 

A gravidade da investigação conduzida por Badenes requer menção especial. Os envolvidos na scuderie, segundo evidências colhidas e apresentadas por Badenes à Câmara dos Deputados, incluem o ex-governador do Espírito Santo e ex-ministro da defesa Élcio Álvares no vértice de um sindicato criminal com ligações com o Partido da Frente Liberal, PFL. O presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo, José Carlos Gratz, vem logo após Álvares, segundo Badenes.

 

Ameaças de morte a Regino Antônio de Pinho Filho, Fortaleza, Ceará

 

Em 8 de outubro de 2001, Regino Antônio de Pinho Filho (Pinho), um representante da Associação dos Parentes e Amigos das Vítimas de Violência (APAVV) em Fortaleza, estado do Ceará, começou a receber ameaças de morte. Quatro dias antes, através da APAVV, Pinho havia submetido um relatório sobre crimes de matadores profissionais no estado do Ceará entre 1997 e 2001. Tendo apresentado suas denúncias , pinho concedeu várias entrevistas à mídia, e declarou publicamente que as cidades de Tabuleiro do Norte e São João do Jaguaripe registravam a maior incidência de atividade de pistolagem no Ceará. Logo depois, em 8 de outubro de 2001, um telefonema anônimo para a casa de Pinho disse o ameaçou dizendo que ele era “muito novinho para morrer”. Em 10 de outubro de 2001, Pinho recebeu uma carta afirmando “Justiça ajuste de conta é um erro a saída é o fim sem a vida. P. de T. N. Cuidado”[3] O texto era escrito com letras recortadas de revistas.

 

Em 12 de outubro de 2001,  pPinho registrou um boletim de ocorrência na delegacia local sobre as ameaças.[4] Para acelerar a investigação, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados requisitou informações e assistência do secretário Freire.[5] Em resposta, o general Gal.Vargas Freire disse à Comissão que havia designado o investigador da Polícia Civil Lauro da Costa Leite Sobrinho para o caso.[6]

 

Em 14 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça  Global enviou Ofício JG/RJ no 059/02 para Secretário o general Gal. Cândido Vargas Freire, secretário de Segurança Pública do estado do Ceará, requisitando maiores informações sobre os recentes progressos deste caso.

Até o momento de finalização deste relatório, o Centro de Justiça Global não havia recebido uma resposta.

 

 

 

 

 

Ameaças de morte, processos judiciais de intimidação e difamação contra o detetive Francisco Vicente Badenes Júnior, Espírito santo

 

No curso de quase dez anos de investigação do crime organizado no estado do Espírito santo, o nacionalmente elogiado detetive da Polícia Civil Francisco Vicente Badenes Júnior tem sido sujeito a várias formas de intimidação. Desde 1991, Badenes tem investigado a Scuderie Detetive Le Cocq (S.D.L.C), um grupo de vigilância paramilitar com ligações com o crime organizado e com membros do alto escalão da política e da  polícia.

 

Em 1996, o governo brasileiro conferiu a Badenes o Prêmio Nacional de Direitos Humanos por suas investigações sobre a S.D.L.C, e Badenes desde então adquiriu uma reputação entre as organizações brasileiras e internacionais de direitos humanos como um tenaz combatente do crime.[7] Entretanto, o trabalho de Badenes causou retaliações por parte de membros e simpatizantes da S.D.L.C, na forma de ameaças de morte e ações judiciais infundadas. Além disso, em pelo menos uma ocasião, segundo fontes da imprensa, um pistoleiro teria sido contratado para matar badenes, embora, felizmente, esse crime não tenha se concretizado. badenes está atualmente sob proteção do Programa Nacional de Proteção Às Vítimas e Testemunhas do Governo federal.

 

Badenes começou a investigar a S.D.L.C em 1991, quando o governador do Espírito santo Albuíno Azeredo criou um órgão especial para investigar o envolvimento da organização  no assassinato de crianças de rua no Espírito santo.[8] Badenes foi nomeado investigador-chefe do órgão, conhecido como Comissão de Investigações Administrativas Especiais.

 

Fundada em 1964, sob a ditadura militar brasileira, em homenagem ao detetive assassinado Milton Le Cocq D’Oliveira, a S.D.L.C teve mais de 3.800 membros no começo dos anos 90, e teve filiais em todo o Brasil e América latina.[9] O aparato sofisticado da S.D.L.C incluiu departamentos de Assuntos especiais, serviços de inteligência e contra-inteligência, e a S.D.L.C operava sua própria estação de rádio e revista.[10]  A Scuderie Detetive Le Cocq, é formalmente reconhecida através de Registro Civil no Estado do Espírito santo, sob a égide de "Uma instituição benemérita e filantrópica, sem fins lucrativos, com o objetivo de servir à comunidade”.[11] Segundo investigações realizadas sobre a S.D.L.C, o “serviço” prestado era vigilância, incluindo execuções extrajudiciais de suspeitos de crimes de rua comuns, freqüentemente adolescentes de rua. José Guilherme Godinho Ferreira, um dos fundadores do grupo, criou o slogan mais conhecido do grupo: “Bandido bom é bandido morto”.[12] A partir de 1996, os membros do grupo incluíam juízes, promotores, policiais, militares, fiscais do estado, vereadores, um deputado e um magnata do jogo do bicho, todos distinguidos por um adesivo de pára-brisas com o logotipo da S.D.L.C, uma caveira com as iniciais E.M. Publicações do grupo afirmavam que estas letras vinham de Esquadrão Motorizado, embora muitos leiam nas iniciais Esquadrão da Morte, uma interpretação bem mais condizente com a imagem mórbida que as letras acompanham.[13] Além dos membros oficiais do grupo, a S.D.L.C tinha muitos simpatizantes em todo Brasil, devido à infeliz, porém largamente difundida crença de que as principais vítimas da S.D.L.C, crianças de rua, deveriam ser eliminadas. Como resultado das atividades de grupos como a S.D.L.C, os assassinatos de crianças e jovens subiram muito em 1992 e 1993, sendo que trinta e quatro foram registrados em 1993 somente no Espírito Santo.[14]

 

As investigações de Badenes sob o patrocínio da Comissão levaram a numerosas prisões de policiais ligados à SDLC.[15] Entretanto, as prisões levaram a poucas condenações, e muitos dos suspeitos foram subseqüentemente liberados, criando um clima de medo tanto para as testemunhas como para os investigadores. Muitas das testemunhas se recusaram a fornecer provas ou testemunhar, e vários detetives trabalhando para a Comissão requisitaram transferência após serem intimidados, inclusive o presidente da Comissão, Manoel Antônio de Barros, que não acreditava que o governo do estado do Espírito santo estivesse fazendo o suficiente para apoiar a Comissão.[16] No final de 1993, Badenes começou a ser ameaçado.[17] Reportagens de jornal circularam a notícia de que dois assassinos profissionais haviam sido contratados para matá-lo como resposta às investigações da Comissão. Os prováveis assassinos aparentemente fugiram do Espírito Santo antes de realizar o assassinato.

 

Em 20 de novembro de 1995, Badenes apresentou suas descobertas sobre a S.D.L.C à Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, apresentando 5.297 páginas de documentos, nove fitas de vídeo e duas fitas de áudio.[18] Além de implicar a S.D.L.C no assassinato de dezenas de adolescentes, Badenes atribuiu os assassinatos do jornalista Mário Eugênio e da investigadora da Comissão do Orçamento, Ana Elisabeth dos Santos, ambos oponentes da S.D.L.C, aos integrantes do grupo.[19] Em um capítulo entitulado “Do sistema de acobertamento”, Badenes escreveu que devido à influência da S.D.L.C:

 

“No poder judiciário, há a protelação de depoimentos relevantes quando se trata de pessoas influentes... No Ministério Ppúblico não são acompanhados os inquéritos... Na polícia Civil... as provas colhidas pelo perito desaparecem ou são manipuladas. Há confissões forjadas para desviar os verdadeiros culpados. Há álibis forjados.”[20]

 

Badenes identificou uma campanha de intimidação de testemunhas realizada pela S.D.L.C, começando em 1995, na qual a Scuderie ameaçou matar três testemunhas de homicídios cometidos pela organização ou seus simpatizantes, sob o pretexto de que estas testemunhas haviam cometido os crimes. As descobertas de Badenes também demonstraram vínculos entre a S.D.L.C e o Sindicato da Polícia Civil do Espírito Santo, o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte do Espírito Santo e a União Democrática Ruralista (UDR).

 

Além disso, Badenes citou o testemunho de cinqüenta e um membros da S.D.L.C sobre as vantagens de pertencer ao grupo.[21]  Um membro revelou que os policiais de trânsito não o incomodavam por causa da insígnia da S.D.L.C em seu pára-brisas. Outro afirmou que a condição de membro garantia maior segurança privada. Um terceiro se sentia mais seguro sob a proteção do grupo porque a S.D.L.C era “formada por policiais”.

 

Badenes concluiu sua apresentação requisitando a revogação da autorização legal do grupo. Quando este relatório foi escrito, a Ação de Dissolução da Suderie Le Cocq ainda estava pendente.

 

Por essa época, intrigado com o número de assassinatos e outros crimes cometidos pelos membros da S.D.L.C no Espírito Santo que permaneciam sem resolução, Badenes decidiu obter uma lista dos membros do grupo. Badenes conseguiu um mandato judicial da juíza de Vitória, Magda Lugon, ordenando que a S.D.L.C fornecesse uma lista de membros. O presidente da S.D.L.C, Mário Rodrigues Lopes, submeteu uma lista, mas Badenes notou que os nomes de muitos suspeitos nos casos não resolvidos estavam faltando.  Por causa desta falha em cumprir com os termos de uma ordem judicial, Badenes chegou com vários policiais a uma propriedade usada pela S.D.L.C e confiscou os arquivos e computadores do grupo. A correspondência interna da S.D.L.C revelou que suas atividades criminais iam muito além da execução de crianças e adolescentes de rua, e incluíam tráfico de drogas, roubo de carros, jogo do bicho[22] e outros negócios tipicamente associados com o crime organizado.[23] Além disso, estes materiais documentavam o conluio entre promotores, advogados de defesa e juizes filiados à S.D.L.C para garantir a liberdade de membros da S.D.L.C acusados de crimes. Esta prática ajudou a explicar a preponderância de crimes sem resolução envolvendo membros da S.D.L.C que havia inicialmente despertado o interesse de Badenes na lista de membros da S.D.L.C.

 

Em 20 de janeiro de 2000, Badenes usou muitos destes documentos apreendidos em uma segunda apresentação sobre a S.D.L.C à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Dessa vez badenes registrou o envolvimento da S.D.L.C em uma larga série de atos criminoso s. Na talvez mais importante parte de seu testemunho, Badenes forneceu um “gráfico organizacional” retratando o ex-governador e então ministro da Defesa Élcio Álvares no topo de um sindicato criminoso com ligações com Partido da Frente Liberal (PFL). O presidente da Assembléia Legislativa do estado do espírito Santo, José carlos gratz, vinha logo abaixo do ministro da Defesa Élcio Álvares no esquema organizacional investigado por Badenes. Além destes funcionários federais, Badenes identificou a participação de vários funcionários públicos do estado do espírito Santo, inclusive do prefeito de Cariacica, Dejair Cabo Camata, na participação em assassinatos contratados de políticos locais, venda ilegal de armas, e estabelecimento de conexões de drogas, tudo em associação com a S.D.L.C. Camata tinha boas conexões na política nacional, o primo de Camata, Gerson, representava o Espírito Santo no Senado Federal, e a mulher de gerson Camata servia na Câmara dos Deputados.

 

Investigações paralelas realizadas por autoridades federais corroboraram muito da substância do que Badenes havia afirmado em seu primeiro depoimento frente à Câmara dos deputados, que por sua vez não diferia significativamente de suas afirmações no segundo depoimento no Congresso.[24] Em novembro de 2000, a Câmara dos De deputados criou a Comissão Parlamentar de Inquérito Destinada a Investigar o Avanço e a Impunidade do Narcotráfico (CPI). Em sua seção no Espírito Santo, o relatório da CPI se baseou significativamente no testemunho de Badenes frente à Comissão de Direitos Humanos em janeiro de 2000, e condenou a influência da SDLC e outras organizações criminosas no estado. O representante do Legislativo José carlos Gratz, identificado nas investigações no mais alto escalão da S.D.L.C , caracterizou o relatório da CPI como “papel higiênico usado”.[25] O porta-voz do ministro da Justiça, João Benedito de Azevedo Marques, declarou que a S.D.L.C cooperou com policiais locais “Como se fossem uma verdadeira quadrilha de bandidos, travestidos de policiais, que matam, extorquem, roubam e seqüestram impunemente”.[26] Um dossiê da Polícia federal caracterizou a SDLC como “O maior grupo de criminosos organizados de que se tem notícia no Brasil, para roubar, traficar, matar e espalhar o terror”.[27] O Procurador da RepúblicaThe regional Prosecutor of the Republic no espírito Santo, ao condenar a S.D.L.C no estado, notou que “Há informações de que grandes empresários sonegadores seriam mandantes de crimes de homicídio para a manutenção de seus esquemas de sonegação”.[28]

 

As investigações de Badenes ganharam o respeito de Ongs brasileiras e internacionais de direitos humanos, que pressionaram o governo federal a investigar a ação criminosa da Scuderie. Alguns meses após seus depoimentos à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados, em 1995, Badenes recebeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos. Uma semana após a apresentação de Badenes para a Comissão em janeiro de 2000, o presidente Fernando Henrique Cardoso exonerou Álvares do Ministério da Defesa. No curso das investigações de Badenes sobre a S.D.L.C, retaliações têm vindo em forma de ameaças de morte, difamação e ações judiciais.[29]

 

Em 9 de abril de 1998, atuando sobre evidências fornecidas por Badenes, a polícia Militar de Vitória prendeu o prefeito de Cariacica, Camata, sob a acusação de contrabando de armas.[30] Naquele dia, camata recebeu um número de visitantes de alto escalão que mais tarde Badenes incluiu em seu gráfico organizacional da SDLC, entre eles o então ministro da Defesa, Élcio Álvares. Mais tarde naquele dia Álvares pediu ao governador do Espírito santo, Vítor Buaiz, que libertasse Camata.[31] Em 10 de abril de 1998, menos de vinte e quatro horas após a prisão de Camata, Geraldo Corrêa Lima, um desembargador do Tribunal de Justiça juiz da Suprema Corte do estado do Espírito santo, ordenou a libertação de Camata. Após sua libertação, Camata fez uma ameaça pública a Badenes, afirmando “Vou deixar um recado para o delegado Badenes: quando ele vier me prender da próxima vez, que venha preparado para tudo”. Camata acrescentou “Prefiro morrer a ser preso por ele outra vez, vou para o inferno mas levo ele comigo”.[32]

 

Em 3 de março de 1999, a pPromotora de Justiça da 9ª Vara de Vitória, Eloísa hHelena Chiabai, indiciou Badenes por difamar o caráter do delegado da Polícia Civil do espírito santo Ismael Foratini Peixoto de Lima. Em um relatório de 495 páginas, badenes havia acusado Foratini de distorcer evidências para isentar os assassinos do advogado criminal Carlos Batista de freitas afiliados da S.D.L.C.[33] Em novembro de 2000, a CPI reviu as alegações de badenes sobre o delegado da Polícia Civil e concordou com elas, contestando a acusação de difamação de Chiabai. O relatório da CPI afirmava que Foratini, “...associando-se com os integrantes da MÁFIA SERRANA; cabendo-lhe, na qualidade de autoridade policial, a missão de sabotar e retardar o desdobramento das apurações neste inquérito policial, para assegurar a impunidade dos mandantes do homicídio de CARLOS BATISTA”.[34] A CPI também destacou Chiabai por suas ligações com a SDLC, escrevendo “Consideramos suspeita as atuações [da promotora] Dra. Eloisa Helena Chiabai... naqueles processos que envolvem questões concernentes à atuação do crime organizado e interesses de associados da Scuderie Detetive Le Cocq...”.[35] A tentativa de Chiabai de proteger Foratini registrando queixas de difamação contra badenes não deu certo. Em 21 de junho de 2001, a Primeira Varadivisão  Criminal de Vitória arquivou a queixa, endossando a conclusão da CPI de que a denúncia de Badenes contra Foratini era fundamentada, e que portanto o indiciamento de Badenes por difamação feito por Chiabai era sem fundamento.

 

Entretanto, enquanto Badenes conseguiu afastar o processo de difamação, a S.D.L.C levou sua campanha de intimidação para a imprensa. Durante 2001, simpatizantes da S.D.L.C deram entrevistas aos jornais do Espírito Santo questionando a saúde mental de Badenes. No começo de 2001, Dório Antunes de Souza em entrevista aos jornais diários de Vitória A Gazeta e A Tribuna, afirmou que Badenes era homossexual. Infelizmente, no Brasil, muitos consideram a homossexualidade doença ou imoral.

 

Em junho de 2001, Eitel Santiago de Brito Pereira (Brito), Assistant Directoe of the Federal Office of the Public ProsecutorSubprocurador-Geral da República, convidou Badenes para dirigir o Centro de Inteligência de Análise Financeira daquele escritório, focalizando em redes financeiras ilegais associadas ao crime organizado. Visto que badenes era tecnicamente um funcionário do estado, sua transferência para um cargo federal requeria a aprovação do governador do Espírito santo José Inácio ferreira, que concedeu a transferência.

 

No final de agosto de 2001, a esposa de ferreira, governador do Espírito Santo, viu-se envolvida num escândalo de desvio fraudulento de verbas públicas. A legislatura estadual estabeleceu uma comissão parlamentar para investigar as acusações, conduzida pelo membro da S.D.L.C Gilson Lopes, detetive de polícia aposentado que foi implicado nas investigações de Badenes em janeiro de 2001, e depois foi eleito deputado estadual. No meio do escândalo, Ferreira tornou-se simpatizante da S.D.L.C., e substituiu o então secretário de Segurança Pública do estado do Espírito Santo pelo ex-presidente da S.D.L.C Mário Rodrigues Lopes, e o presidente do Conselho da Polícia Civil por João manoel Rodrigues, também integrante da S.D.L.C. Ferreira então subitamente voltou atrás em sua decisão de permitir a transferência de Badenes para Brasília, e exigiu que badenes retornasse ao Espírito Santo dentro de trinta dias. Badenes não voltou, mas a campanha da S.D.L.C continuou.

 

Em 22 de agosto de 2001, o novo presidente do Conselho da Polícia Civil nomeado por Ferreira, João rodrigues, começou processos disciplinares contra Badenes, agora subordinado de Rodrigues, citando má conduta de Badenes na investigação sobre Foratini.[36] Rodrigues substanciou suas queixas com as acusações registradas por Chiabai – apesar do fato do tribunal as ter rejeitado dois meses antes – e recomendou a demissão de Badenes. Várias jornais vieram em defesa de Badenes. A edição de setembro de 2001 do jornal Jornal Tribunal do Direito afirmou que “A reação diante das investigações do delegado Badenes sobre as bandas podres foi fulminante: a própria Polícia Civil voltou-se contra ele, abrindo inquérito administrativo acusando-o de ‘denegrir a imagem dos colegas’ (sic)”.[37] Aumentando o furor na imprensa, em dezembro de 2001 o federal prosecutorProcurador da República  Luiz Francisco de Souza anunciou que Badenes havia se tornado o alvo de uma campanha de intimidação da S.D.L.C, e havia recebido ameaças de morte.[38]

 

Com as ações disciplinares de Rodrigues ainda pendentes, a SDLC tentou uma nova abordagem. No final de 2001, Dório Antunes de Souza, um parceiro de negócios de Álvares, vazou em uma reportagem a falsa informação de que havia um contrato no valor de cinco dígitos em reais sobre a vida de Badenes. Depois se descobriu que a informação era realmente falsa, mas essa tática também representou uma forma de intimidação, usando a simpatia da imprensa por Badenes para levá-lo a temer por sua segurança.

 

Em 27 de janeiro de 2002, badenes respondeu ao registrar uma requisição de processo criminal contra seu superior, alegando que o estabelecimento de processos disciplinares por Rodrigues constituía um abuso de autoridade.[39] Badenes afirmou que ao iniciar os processos, Rodrigues se baseou em evidências falsas que já haviam sido judicialmente descartadas, e que o processo inteiro buscava detê-lo para que não completasse suas legítimas investigações.[40] Duas semanas depois, o Assistant Director of the Federal Office of the Public prosecutor Sub-Procurador-Geral da República, Brito, superior de Badenes em Brasília, requisitou que o presidente do Suprema CorteTribunal de Justiça do Espírito santo arquivasse o processo contra badenes.[41]

 

Em 13 fevereiro de 2002, badenes escreveu para o Prof. Paulo Sérgio pinheiro, secretário Nnacional de Direitos Humanos, resumindo as intimidações perpetradas pela S.D.L.C na década anterior, e requisitando “providências cabíveis” para combatê-las.[42]

 

Até a data em que foi escrito este relatório, o processo de Rodrigues ainda estava pendente. Também sem resolução estavam os processos de dissolução da Scuderie, iniciado depois do primeiro depoimento de Badenes frente à Comissão de Direitos Humanos, em 1995.

 

O Juiz Federal, que sucedeu o Juiz Athiê (indiciado por suspeita de corrupção no Superior Tribunal de Justiça), entendeu que a Justiça Federal não seria competente para julgar o caso, apesar de todos os fatos apontarem nesse sentido e que a atuação criminosa da Scuderie tem ramificações em diversos estados, e proferiu decisão no sentido de que o processo passe para a Justiça Estadual.

 

O Ministério Público Federal recorreu e atualmente o processo encontra-se no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, no Estado do Rio de Janeiro aguardando decisão judicial.

   

Quando este relatório foi escrito, Badenes estava sob proteção do Programa de Assistência às Vítimas e às Testemunhas Ameaçadas, enquadrado em uma modalidade especial[43]

 

Assassinato de João Elízio Lima Pessoa, ativista de direitos humanos e líder comunitário, Águas Lindas, Goiás

 

No início de fevereiro de 2000, homens encapuzados, que se acreditava fossem policiais, fizeram uma emboscada e assassinaram o ativista comunitário João Elízio Lima Pessoa, 43 anos de idade, em Águas lindas, estado de Goiás. João Elízio foi uma figura pública de grande importância por muitos anos em Águas lindas. Em 1998, fundou o Conselho Comunitário de Águas Lindas, que com sucesso conseguiu melhorias na coleta de lixo, trabalho para pessoas carentes e apoio financeiro para os aposentados.[44]  João Elízio também havia trabalhado na comissão regional de Transporte de Águas Lindas, um órgão de supervisão do governo. O objetivo mais visível de João Elízio, entretanto, vinha sendo a defesa dos direitos civis. Nesse contexto, havia sido um crítico aberto da Polícia Militar de Águas Lindas, que acusava de extorsão, buscas sem mandato, ataques, espancamentos, tortura e assassinato.

 

As denúncias João Elízio sobre a má conduta da polícia atraíram sobre ele o descontentamento da polícia local. As autoridades federais e estaduais reconheciam o ativismo de João, e no final de 1998, o secretário de Segurança Pública do estado de Goiás o indicou para o Comitê de Segurança de Águas lindas, um conselho de inspeção civil. Em sua nova função, continuou a denunciar abusos de direitos cometidos pela polícia local. Logo após sua indicação, começou a receber ameaças de morte de integrantes da polícia de Águas Lindas, inclusive de um delegado e de um tenente. Em novembro de 1998, João Elízio testemunhou frente à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, acusando o sargento Josué Alves da Silva de liderar um grupo de policiais corruptos responsável por numerosos casos de espancamentos, extorsão, e, em um caso, por liberar da custódia da polícia dois colegas que seriam julgados por assassinato.[45] O testemunho de João Elízio  foi suficientemente condenatório para levar o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Eraldo trindade, a requisitar que o ministro da Justiça tomasse medidas urgentes para garantir sua segurança.[46] Infelizmente, o ministro da Justiça não agiu. Dois anos depois, o mesmo sargento Alves se tornou o principal suspeito do assassinato de João Elízio Lima Pessoa.

 

Em 7 de fevereiro de 2000, por volta das 22:00 horas, João e sua mulher, Neuza maria de Souza, estavam indo para casa de carro sob uma chuva pesada após uma reunião do Comitê de Segurança de Águas Lindas.[47] João Elízio, no banco do motorista, notou alguns entulhos e pedras grandes na estrada, e desviou para evitá-los. Quando ele virou o volante, o carro morreu. Devido à chuva, o motor do carro estava frio, e levou mais tempo que o normal para funcionar. Quando finalmente conseguiu fazer o motor do carro funcionar, uma bala de revólver atingiu o carro, esmigalhando o pára-brisas. Este primeiro tiro foi seguido por uma série de disparos, que atingiram a ele e sua esposa antes que conseguissem se agachar juntos ao painel do carro. Depois que os disparos cessaram, sua esposa, ferida no pescoço, engatinhou para fora do carro e correu ao longo da estrada para pedir socorro. O primeiro carro a parar foi um veículo da polícia, que a levou de volta até o carro de João. Enquanto eles se aproximavam,  Neuza notou o que lhe pareceu ser um carro da polícia se afastando de uma área obscura e cheia de árvores próxima dali. João estava morto chegaram ao local da emboscada, tendo sido atingido por três balas na cabeça. Os policiais que ajudaram a esposa de João, disseram a ela que não poderiam perseguir os assaltantes, pois não tinham armas suficientes.

 

No dia seguinte, o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado trindade, solicitou a assistência da polícia Federal na investigação. O deputado Trindade ressaltou em sua correspondência que a ação das autoridades federais era imperativa desta vez, visto que o governo havia falhado anteriormente na forma como tratou a ameaça à vida de João Elízio.[48]

 

Naquela mesma semana, o disco rígido do computador de João Elízio, no escritório da Comissão regional de Transporte foi misteriosamente apagado, segundo os depoimentos de sua esposa e de outra testemunha que solicitou que sua identidade não fosse revelada. Ambas as testemunhas afirmaram que o disco rígido continha testemunhos sobre violações de direitos civis pela polícia e que João pretendia entregar para a Comissão de Direitos Humanos e Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do narcotráfico em Brasília.

 

Em 15 de fevereiro de 2000, uma testemunha ocular oculta por um capuz, óculos escuros, luvas e um casaco longo chegou a uma delegacia de polícia em Goiânia e disse aos investigadores que o mesmo sargento Alves que João havia anteriormente acusado de liderar um grupo de policiais corruptos havia participado de seu  assassinato.[49] A testemunha afirmou que quatro policiais encapuzados, dois usando distintivos da Polícia Militar, abriram fogo contra o carro parado de João Elízio. Depois do tiroteio, os quatro homens saíram da estrada correndo para a mata e tiraram seus capuzes. A testemunha conseguiu ver seus rostos e identificou um dos policiais como o sargento Alves. A testemunha também afirmou que os quatro policiais entraram em uma caminhonete da Polícia Militar estacionada em uma clareira na mata e saíram dali. Finalmente, a testemunha notou dois outros carros da polícia, ambos com policiais dentro, em uma estrada ali perto.

 

O depoimento da testemunha levou o secretário de Segurança Pública do estado de Goiás, Demóstenes Torres, a deter todos os treze oficiais da Polícia Militar em serviço na noite do assassinato de João Elízio Lima Pessoa. Os Departamentos de Polícia Civil e Militar em Águas Lindas iniciaram investigações separadas, tendo o sargento Alves como principal suspeito.

 

Em 14 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 031/02 para o secretário Torres, solicitando maiores informações sobre os recentes progressos deste caso.

 

Até o momento de finalização deste relatório, o Centro de Justiça Global não havia recebido uma resposta.

 

Tentativa de assassinato de Sivaldo Dias campos, membro do Movimento Cívico de Combate à Corrupção, Cuiabá, Mato Grosso

Em setembro de 2000, Sivaldo Dias Campos era o presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Cuiabá. Campos era um militante ativo do Movimento Cívico de Combate à Corrupção (MCCC). Em 9 de setembro de 2000, Campos denunciou um esquema de compra de votos, implicando vários candidatos à câmara municipal de Cuiabá. Campos apresentou suas queixas primeiro a um juiz responsável por supervisão eleitoral, e então publicou suas acusações na imprensa. A denúncia de cCampos incluía conversações de telefone gravadas entre candidatos e equipe de campanha.

 

Em 9 de outubro, indivíduos em um carro vermelho não-identificado fotografaram a casa de Sivaldo e as de seus vizinhos no Jardim Industriário, bairro de Cuiabá.[50] Na manhã de 10 de outubro de 2000, às 7:30 horas, Campos estava em casa com sua mulher, Sônia Paiva de Oliveira, quando um homem jovem apareceu em sua porta da frente. Segundo sua esposa , após alguns minutos ela olhou novamente e percebeu que havia três homens à porta, ao invés de um. Campos apareceu na sala e os homens entraram na casa. Sônia percebeu que os três homens jovens carregavam revólveres. Campos disse a sua mulher que permanecesse calma. Os homens perguntaram por objetos de valor, como dinheiro, jóias e a chave do carro, e a levaram para o quarto. Do quarto Sônia ouviu um barulho alto seguido pelo som de um corpo caindo no chão. Ela deixou o quarto para ver o que estava acontecendo e viu seu marido caído no chão. Ele conseguiu levantar e sair da sala, indo em direção ao quarto. Um dos homens então atirou em Campos, atingindo-o no pescoço. Campos cambaleou até o quarto e então caiu no chão. Quando eles estavam saindo, outro homem deu um tiro na cabeça de Campos. Eles deixaram a casa no carro da vítima e o abandonaram a menos de cinco quilômetros dali.[51] Por milagre, Campos sobreviveu.

 

A pasta de documentos de Campos desapareceu do carro. naquele dia Campos tinha uma entrevista agendada na qual planejava denunciar outros crimes eleitorais.

 

Por volta das 10:30 horas, apenas três horas após a tentativa de assassinato, a polícia conclui sua investigação do caso, dizendo a Sônia que havia ocorrido um roubo de rotina, agravado pela reação da vítima.[52]

 

No começo da tarde do mesmo dia, três suspeitos já haviam sido presos. Testemunhas oculares não reconheceram nenhum deles.[53]

 

Os deputados josé Dirceu e aloísio mercadante apresentaram ao ministro da Justiça José Gregori um documento solicitando a proteção de Sônia assim como de outras vítimas potenciais. Entretanto, o ministro da Justiça autorizou proteção apenas para Sônia, e somente pelo tempo que ela passar fora de casa.[54]

 

O Public prosecutorprocurador-geral de justiça de mato Grosso indiciou seis pessoas pelo atentado à vida de Sivaldo. Três deles confessaram a participação no crime, estão presos e aguardam julgamento. Nicássio Barbosa, que supostamente orquestrou o ataque, e dois cúmplices também aguardam julgamento, em liberdade.

 

O ataque a Sivaldo o deixou com o lado esquerdo do corpo paralisado e incapaz de falar.[55]

 

 

Ameaças de morte à equipe do Centro de Direitos Humanos Simão Bororo, Rondonópolis, Mato Grosso

 

No outono de 1996, a equipe do Centro de Direitos Humanos “Simão Bororo” (CDHSB) de Rondonópolis, estado do Mato Grosso, tornou-se alvo de uma campanha difamatória da mídia e começou a receber cartas ameaçadoras. O CDHSB vem denunciando por vários anos, as más condições das prisões em Rondonópolis e documentando ameaças de morte, tortura e assassinatos cometidos pela Polícia Civil local. Isso levou a uma reação contra o CDHSB e a defesa dos direitos civis em geral, por parte da polícia e os políticos locais.

 

No outono de 1996, essa reação começou a tomar a forma de uma campanha ativa quando uma estação de rádio local, Rádio Clube de Rondonópolis, começou a atacar diretamente o CDHSB em seu programa “Ronda Policial”.[56] O programa acusou o CDHSB de favorecer os direitos dos criminosos sobre os das vítimas, e foi parte de uma campanha maior da mídia dirigida contra o CDHSB e defensores dos direitos humanos em geral que envolveu a estação de televisão local TV Cidade. A Rádio Clube e a TV Cidade eram ambas de propriedade do deputado Wellington Fagundes, um oponente da defesa de direitos humanos com conexões próximas com a força policial de Rondonópolis. Logo após a primeira transmissão, o deputado Fagundes devotou uma segunda publicação à suposta má conduta do CDHSB, e instou os espectadores a fechar a organização. O CDHSB considerou essa mensagem um incitamento à violência, e solicitou intervenção judicial para moderar o tom do programa. Os esforços do CDHSB não tiveram sucesso, e o deputado fagundes redobrou seus ataques contra o CDHSB.[57]

 

Em 13 de novembro de 1996, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados enviou o deputado Pedro Wilson Guimarães a Rondonópolis para investigar a situação, e solicitou que a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) enviasse um representante para acompanhar a investigação do deputado Wilson.[58]

 

Durante o começo de 1997, o CDHSB recebeu ameaças de morte anônimas pelo correio. Uma carta avisava que se continuasse a “defende ladrão asasino” (sic), a equipe do CDHSB estava colocando suas vidas em risco.[59] Algumas cartas tinham como alvo funcionários específicos e suas famílias. Em abril daquele ano, a procuradora Valéria Teressoli Bertholdi Estrela e a juíza Sonja Faria Borges de Sá, que estavam na época trabalhando com o CDHSB em um caso envolvendo crimes cometidos pela Polícia Civil, receberam ameaças de morte e solicitaram proteção às suas vidas. Em 28 de abril de 1997, após vários meses de ameaças, o CDHSB enviou uma extensa queixa ao procurador Geralprocurador-geral de justiça do mato Grosso, Antônio Hans, assim como para outras autoridades estaduais e federais, com relação a natureza incendiária do programa de televisão e das cartas hostis.[60] No mesmo dia, o deputado Pedro Wilson Guimarães, que havia estado em Rondonópolis investigando o caso em nome da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, escreveu ao procurador-g Geral solicitando que autoridades estaduais fornecessem apoio e recursos adequados para o Ministério Público de Rondonópolis, para que o mesmo fosse capaz de levar em frente as investigações e seus funcionários não estivessem sujeitos a intimidações.[61]

 

Em 10 de julho de 1997, o procurador-geral informou à Comissão que tomaria medidas para investigar as ameaças sofridas pelo CDHSB e protegeria as vítimas dessas ameaças.[62]

 

Em 15 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 058/02 para o procurador-geral de justiçadr. antônio, Public prosecutor do estado do Mato Grosso, solicitando maiores informações sobre os recentes progressos deste caso.

 

Em resposta, em 28 de fevereiro de 2002, Guiomar Teodoro Borges, director of Public Prosecutionsprocurador-geral de Justiça  dee Mato Grosso, informou ao Centro de Justiça Global que, em resposta a uma requisição do Office of the Public ProsecutorMinistério Público, o juiz supervisionando que cuidava do caso havia arquivado o mesmo baseado na expiração do estatuto de limitaçõesdeclarou por sentença a extinção da punibilidade dos agentes, que nunca foram identificados.[63]

 

 

Assassinato de Carlos Magno Nazareth cerqueira, Ex-Chefe daPolícia Militar, Rio de Janeiro

 

O cCoronel carlos magno Nazareth cerqueira serviu como delegado chefe da Polícia Militar no estado do Rio de Janeiro durante as administrações do governador Leonel Brizola de 1983 a 1986 e de 1991 a 1994. Como chefe da polícia, o coronel Cel. Cerqueira buscou limitar os abusos cometidos por seus subordinados através de uma série de medidas, inclusive restringindo as operações policiais nas favelas. Antes de se aposentar da Polícia Militar em 1994, o coronel Cel. Cerqueira desenvolveu uma reputação de ser a favor dos direitos humanos e punir os policiais envolvidos em violações dos direitos dos cidadãos. Depois de sua aposentadoria, o coronel Cel. Cerqueira dedicou seu tempo ao estudo da violência urbana como vice-presidente do Instituto carioca de Criminologia.

 

Em 14 de setembro de 1999, o coronel Cel. Cerqueira, 62 anos de idade, foi atingido por tiros e assassinado enquanto esperava o elevador no prédio em que trabalhava, perto do centro do Rio.[64] Espantosamente, duas horas depois autoridades estaduais da polícia declararam o crime solucionado. O secretário de segurança pública do estado do rio de janeiro, Josias Quintal, contou à mídia brasileira que o sargento da Polícia Militar Sidney Rodrigues, 45, havia dado o tiro que matou Cel. Cerqueira e então, logo depois, matou-se com um tiro na cabeça.[65] Autoridades do rio de Janeiro também afirmaram que o sargento Sgt. Rodrigues tinha um histórico de problemas psicológicos. O comandante do batalhão em que Sgt. rodrigues trabalhava e a esposa de Sgt. Rodrigues negaram ter conhecimento de seus supostos problemas psicológicos.[66]

 

Segundo os depoimentos iniciais das testemunhas publicados na mídia brasileira, rodrigues atirou várias vezes; tiros adicionais podem ter sido disparados pelos guardas de segurança em serviço no prédio.[67] A arma usada por Rodrigues pertencia a outro policial que havia sido assassinado em agosto de 1998. desde a morte deste policial, a arma estava desaparecida.

 

Na opinião do então ex-governador do Rio de Janeiro leonel Brizola e do atual governador Anthony Garotinho, o assassinato pode ter sido uma represália contra o coronel Cel. Cerqueira por seus esforços em reestruturar as forças policiais do Rio de Janeiro. “Foi um crime encomendado”, declarou Garotinho.[68]

 

Após a morte do sargento Sgt. Rodrigues em 27 de setembro, em decorrência de ferimentos causados por arma de fogo, a polícia descartou a hipótese de suicídio.[69] Relatórios da autópsia mostraram que a bala que atingiu Rodrigues foi disparada de uma certa distância e de outro revólver que o dele. Esta revelação invalidou a explicação do assassinato de Cel. Cerqueira inicialmente apresentada pelas autoridades, isto é, homicídio seguido de suicídio. As verdadeiras circunstâncias da morte de Cel. Cerqueira permanecem desconhecidas, assim como os motivos das autoridades para apresentar o caso como solucionado apesar da falta de evidências convincentes que garantissem tal conclusão.

 

Em 19 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 073/02 para o secretário Josias Quintal requisitando maiores informações sobre os recentes progressos deste caso.

 

Em resposta, em 28 de fevereiro de 2002 o chefe de Gabinete da polícia Civil, Danton Moreira de Souza, informou ao Centro de Justiça Global que em 7 de julho de 2000 o inquérito policial havia sido reativado, mas que não havia mais informações disponíveis sobre o assassinato de Cel. Cerqueira.[70]

 

 

 

 

Ameaças contra Luis Eduardo Soares, Ex-Coordenador de Segurança Pública, Rio de Janeiro, Capital

 

Em 1998, Anthony Garotinho foi eleito governador do Estado do Rio de Janeiro. Um dos principais pontos de sua campanha era a reforma da polícia. Após sua eleição, Garotinho nomeou Luis Eduardo Soares, respeitado professor universitário e especialista em segurança pública, para o cargo de Coordenador de Segurança, Justiça, Defesa Civil e Cidadania da Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Em linhas gerais, o projeto de segurança proposto por Luis Eduardo Soares promovia o policiamento comunitário e o controle externo dos abusos policiais. Logo após tomar posse, o governo do Estado criou a Ouvidoria de Polícia e nomeou Julita Lerngruber, reconhecida especialista em assuntos penais, para sua diretoria. Na mesma época, Luis Eduardo Soares buscou a exoneração de policiais, conhecidos por seus métodos abusivos, dos postos de comando das forças policiais. Esses esforços provocaram resistência significativa de vários setores tanto da Polícia Civil quanto da Polícia Militar do estado. Durante seu mandato na Secretaria de Segurança Pública do Estado, Luis Eduardo Soares precisou de um minucioso esquema de segurança pessoal.

 

No final de 2000, Luis Eduardo Soares se opôs a nomeação de Rafik Lousada para a direção da Polícia Civil. Sua posição — baseada em preocupações sobre o envolvimento de Rafik Lousada em corrupção — acionou uma crise dentro da Secretaria de Segurança Pública. Em princípios de março, após receber uma queixa de um delegado sobre a participação de policiais que teriam facilitado a fuga de um suspeito traficante, Luis Eduardo Soares encaminhou a informação diretamente ao Ministério Público e não à Corregedoria da Polícia. Imediatamente após esse incidente, o Governador Garotinho exonerou Luis Eduardo Soares.[71] Após seu afastamento, Luis Eduardo Soares, sofreu ataques do Governador que através da imprensa contestou sua ética e acusou-o de indiretamente apoiar o tráfico de drogas. Em decorrência da intensificação das tensões que seguiram as acusações, o Secretário de Segurança Pública designou trinta policiais militares para garantir a segurança pessoal de Luis Eduardo Soares. Apesar dessa medida de precaução, Luis Eduardo Soares temia que os ataques verbais se tornassem físicos e no dia 21 de março de 2000, deixou o Rio de Janeiro em direção aos Estados Unidos. Sua família, mais tarde, também se transferiu para Nova Iorque, também temendo por sua segurança. [72]

 

Alguns dias após a partida de Luis Eduardo Soares, a esposa de um de seus colegas foi abordada por policiais da Delegacia de Repressão de Entorpecentes, DRE, divisão da Polícia Civil. Depois do incidente a mulher contatou seu marido que solicitou a ajuda da força da Polícia Militar designada para a proteção de Luis Eduardo Soares. Policiais Militares escoltaram o casal até sua casa em um veículo utilizado pelo destacamento de segurança do Luis Eduardo Soares, e em seu trajeto, foram interceptados em uma emboscada da Polícia Civil. Seguiu-se uma disputa entre representantes das Polícias Civil e Militar que quase resultou em um confronto armado.[73]

 

Nos Estados Unidos, Luis Eduardo Soares trabalhou na Universidade de Columbia, onde escreveu um livro, Meu Casaco de General,[74] relatando suas experiências na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Em 2001, Luis Eduardo Soares retornou ao Brasil e assumiu a responsabilidade pelos assuntos de segurança do governo da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

 

No dia 19 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou ofício JG/RJ No. 074/02