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 3. Defesa de direitos no Brasil rural: intensificação de conflitos e ataques direcionados

A distribuição de terras no Brasil tem historicamente estado entre as mais desiguais da América Latina. Um pouco menos de 50.000 proprietários de terra possuem áreas de mil hectares ou mais e controlam mais de 50% das terras registradas. Perto de 1% dos proprietários rurais têm aproximadamente 46% de toda terra arável. Dos 400 milhões de hectares registrados como propriedade particular, apenas sessenta milhões de hectares são usados para plantio. Os 340 milhões de hectares remanescentes são usados para criação de gado. De acordo com as estatísticas do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), existem cerca de cem milhões de hectares de terra não sendo usados produtivamente no Brasil.[1] Para complicar ainda mais este quadro, alguns títulos de terra atualmente mantidos por proprietários são resultado de grilagem, falsificação de escrituras, uma prática que data do período após a Segunda Guerra Mundial, quando o governo transferiu extensas terras públicas para mãos privadas baseado em apresentações de certificados dos reclamantes.

 

Essa desigualdade tem sido a causa da origem de uma série de movimentos que buscam reestruturar a posse de terra no Brasil, e também de violentas reações a essas exigências por parte dos proprietários de terras. A Constituição de 1988, um marco na luta para alcançar a reforma agrária, dispõe que terras que não preenchem uma função social sejam expropriadas para uso na reforma agrária. A função social da terra, por sua vez, é determinada de acordo com critério que incluem simultaneamente a análise do nível de produtividade, o respeito pelos direitos trabalhistas e a proteção ambiental. Desiludidos pela lentidão no processo de redistribuição, alguns grupos de trabalhadores rurais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), adotaram a tática de ocupações de áreas passíveis de redistribuição.

 

Através da história do Brasil, os esforços para alterar a natureza extremamente desigual da distribuição de terra têm encontrado resistência, freqüentemente violenta. Estatísticas da Comissão Pastoral da terra (CPT), a fonte mais confiável de dados sobre conflitos rurais no Brasil, demonstram que de 1988 a 2000 um total de 1.517 trabalhadores rurais foram assassinados em disputas por terra no Brasil.[2]

 

A CPT relatou que em 2001 o número de pessoas assassinadas em conflitos por terra cresceu para trinta, dos vinte e um em 2000. Um número desproporcional destes incidentes ocorreu no sul do Pará. Pelo menos oito trabalhadores foram mortos em conflitos de terra somente no Pará em 2001. A CPT também documentou que o número de conflitos rurais (inclusive trabalho forçado e disputas trabalhistas) pulou de 660 em 2000 para 965 em 2001, acompanhando a tendência nacional de intensificação dos conflitos rurais nos últimos anos.

 

Neste contexto, aqueles que trabalham para defender os direitos dos trabalhadores rurais ou para fazer avançar a causa da reforma agrária freqüentemente se acham em grande risco. Paradoxalmente, isso pode ser mais real hoje do que durante a ditadura militar. Embora o número de pessoas mortas em conflitos rurais no período após a transição de governo possa ter caído, assassinatos e ameaças  nos últimos anos têm sido mais direcionados para lideranças de movimentos sociais de trabalhadores rurais, sindicalistas e defensores dos direitos humanos, através de práticas de intimidação (processos judiciais com a intenção de criminalizar os líderes destes movimentos sociais), ameaças e ataques físicos, como os casos abaixo demonstram.

 

 

Processo sem justificativa e tentativa de assassinato de José Rainha Jr., líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Espírito Santo

 

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começou sua primeira ocupação de terra no estado do Espírito Santo em 1984. Em junho de 1989, o MST decidiu ocupar a fazenda Ypueiras (de aproximadamente 1.500 hectares) que acreditava ser improdutiva e por isso sujeita à expropriação por lei federal. Durante a ocupação, duas pessoas foram assassinadas: o proprietário de terras José Machado Neto e o policial Sérgio Narcísio, que não estava ali a serviço da polícia.

 

José Rainha Jr., um dos mais importantes líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra no Espírito santo, foi indiciado por participação direta nos assassinatos, apesar das evidências esmagadoras de que no momento do crime Rainha estava no Ceará, a cerca de 1.600 quilômetros do local. Várias autoridades de alto escalão do governo do Ceará, inclusive o governador, contaram à polícia que Rainha estava envolvido em negociações com eles quando os assassinatos ocorreram. Mesmo assim, o Ministério Público do Espírito santo optou por levar Rainha a julgamento por esses assassinatos. Em junho de 1997, em um tribunal em Pedro Canário, estado do Espírito santo, o caso de Rainha foi julgado. A maioria de sete membros do júri vivia na área do conflito, e incluía amigos de uma das vítimas, assim como a mulher do presidente da associação de proprietários local. O Tribunal considerou Rainha culpado.[3]

 

No julgamento, a principal testemunha contra Rainha o descreveu como sendo um homem alto com o rosto redondo, sem barba, sem bigodes, pele clara, um pouco acima do peso (aproximadamente 70 kg), com cabelos densos e encaracolados.[4] Rainha é um homem alto, extremamente magro, com cabelos, barba e bigodes pretos. A Promotoria, ao invés de se concentrar especificamente sobre a responsabilidade ou não de Rainha no crime em questão, pressionou o júri a condená-lo por seu envolvimento em ocupações de terras. O juiz que presidia o julgamento condenou Rainha a vinte seis anos e seis meses de prisão. Após a condenação, a Anistia Internacional escreveu: “Esta condenação foi claramente politicamente motivada e obviamente pretendeu intimidar membros do Movimento dos Trabalhadores rurais sem terra... Se José Rainha for preso, nós o consideraremos um prisioneiro político e exigiremos sua libertação imediata e incondicional”.[5] Human rights watch caracterizou o julgamento como “um uso infeliz do sistema de justiça criminal contra ativistas da reforma agrária”.[6]

 

Nas leis brasileiras, pessoas sem condenações anteriores sentenciadas a mais de vinte anos em julgamentos com júri têm um segundo julgamento automaticamente garantido. Em 5 de abril de 2000, em um novo julgamento no tribunal de Vitória, capital do Espírito Santo, Rainha foi absolvido dos mesmos crimes pelos quais tinha sido condenado no julgamento anterior. Neste segundo julgamento, em que ativistas de direitos e jornalistas da imprensa nacional e internacional compareceram em peso, assim como centenas de ativistas sociais e milhares de integrantes do MST, o júri absolveu rainha por uma votação 4-3.

 

José Rainha é hoje uma das lideranças mais importantes do MST no Pontal do Paranapanema, em São Paulo.

 

Desde sua absolvição, Rainha tem continuado a defender os direitos dos trabalhadores sem terra. Em 19 de janeiro de 2002, Rainha levou um tiro nas costas na fazenda Santa Rita do Pontal, no Pontal do Paranapanema. Na fazenda havia uma ocupação feita por 275 famílias e que Rainha e o MST haviam ajudado a organizar.[7] Por volta das 11:30 horas, Rainha estava viajando em um carro pela propriedade com os ativistas do MST Sérgio Pantaleão e Fátima Siqueira. De acordo com Patrik Mariano Gomes, um advogado do MST, quinze homens que trabalhavam para o proprietário da fazenda renderam o carro. “Eles se jogaram na frente do carro e começaram a atirar”, Gomes contou aos repórteres. “O Rainha saiu correndo para o mato e alguns deles foram atrás dele atirando. Um tiro pegou nas costas.” Rainha foi levado ao hospital de Porto Primavera, onde os médicos determinaram que sua condição não era crítica.[8]

 

O proprietário da fazenda, Roberto Junqueira, foi preso naquele mesmo dia nos arredores da cidade, sob a acusação de ordenar o assassinato de Rainha. De acordo com o delegado da polícia local, Donato Farias de Oliveira, Junqueira foi preso por volta das 21:30 horas, enquanto deixava sua plantação. Na prisão, Junqueira admitiu sua participação no atentado à vida de Rainha.[9]

 

Quando este relatório foi finalizado, testemunhas do atentado ainda estavam prestando depoimentos à polícia. Em 1 de fevereiro de 2002, o prefeito da cidade de Presidente Prudente, Agripino de Oliveira Lima, de 70 anos, desafiou Rainha para uma “contenda de mãos limpas”. Lima afirmou que “mataria” Rainha se este último aceitasse. Em resposta, a Ouvidoria Agrária, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário requereu a Procuradoria-Geral da República a instauração de ação penal contra Lima por ameaçar Rainha.

 

 

Ameaças de morte e desaparecimento de Miceno Moreira Barros e ameaças a Paulo Novais e Maria de Lourdes Cabral, líderes de trabalhadores rurais, Bom Jardim, Goiás.

 

O presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) no município de Bom Jardim, Goiás, Miceno Moreira Barros, de 45 anos, vinha recebendo ameaças de morte por sua atuação na defesa de reforma agrária e redistribuição de terra.

 

Em 20 de janeiro de 1998, Barros liderou um grupo de trabalhadores rurais em uma manifestação ao longo de uma rodovia de sete quilômetros que liga Bom Jardim à cidade de Baliza. A viagem cruzou 12.000 hectares de terras improdutivas, causando a ira de proprietários de terras, que não permitiram que o grupo montasse acampamento para descansar. Em seguida a este incidente, Barros começou a receber mais e mais ameaças. Como conseqüência, ele chegou a pensar em abandonar seu posto como presidente do sindicato.[10]

 

Na manhã de 4 de abril de 1998, Barros deixou sua casa e partiu em direção a uma propriedade rural no município de Piranhas, acompanhado de seu primo e um vizinho. Foi a última vez em que foi visto.[11]

 

Em 14 de abril do mesmo ano, a Comissão de Direitos humanos da Câmara dos Deputados enviou uma carta ao Secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, Jovenal Gomes de carvalho, informando ao secretário o desaparecimento de Barros, assim como as ameaças de morte sofridas por Maria de Lourdes Cabral, uma líder local do MST, e Pedro Novais, vice-presidente do STR de Bom Jardim. Segundo a Comissão, Novais havia recebido há alguns dias a mensagem de “[Que] caso o mesmo não se calasse iria parar no mesmo lugar do [Barros]”. O presidente da Comissão, deputado Eraldo trindade, exigiu que medidas para garantir a segurança de Cabral e Novais fossem tomadas, e requereu uma investigação imediata para apurar o desaparecimento de Barros.[12]

 

Desde o início das investigações, o Delegado Regional de Iporá, Goiás, considerou que a hipótese mais provável para o desaparecimento de Barros era a emboscada de proprietários de terras da região. O Delegado havia obtido evidências de que os proprietários de terras Jerônimo Epaminondas, Tadeu Antunes e Élvio de Paiva Mesquita Filho eram os responsáveis pelas ameaças que Barros vinha recebendo antes de seu desaparecimento.[13]

 

A Divisão Estadual de Homicídios da Polícia Civil de Goiás abriu o processo no 14941952 para investigar o desaparecimento de Barros e as ameaças recebidas por Cabral e Novais, mas não descobriu mais informações.[14]

 

Em 19 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou o Ofício JG/RJ no 083/02 para José Correa Barbosa,  Delegado Titular da Delegacia Estadual de Homicídios, do estado de Goiás, requisitando maiores informações sobre acontecimentos recentes relacionados ao caso.

 

Em resposta, o Delegado Titular da Delegacia Estadual de Homicídios, Gilberto da Silva Ferro, informou ao Centro de Justiça Global que Barros continua desaparecido e que o inquérito policial encontra-se arquivado na Comarca de Aragarças.[15]

 

 

Assassinato de Darlan Pereira da Silva, presidente da sede local do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Cocalinho, Mato Grosso.

 

Em 30 de maio de 2000, o sindicalista Darlan Pereira da Silva foi assassinado. Silva havia sido presidente da sede local do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) em Cocalinho, uma pequena cidade no estado Mato Grosso. Cocalinho, como muitas pequenas cidades rurais em todo o Brasil, tem sido local de muitos conflitos violentos entre proprietários de terra e trabalhadores sem terra nos últimos anos, envolvendo disputas pela posse de terra e direitos trabalhistas. Como líder do STR, Silva estava freqüentemente envolvido em tais conflitos, na defesa dos trabalhadores.

 

No dia 2 de junho de 2000, a polícia de Cocalinho achou o corpo de Silva nas proximidades do rio Araguaia, com dois tiros na cabeça e múltiplas facadas pelo corpo. As autoridades locais estimaram que Silva havia sido assassinado há três dias, mas não tiveram evidências suficientes para determinar a identidade e os motivos dos assassinos. Os colegas de Silva acreditam que proprietários de terras locais ordenaram o assassinato como retaliação ao trabalho de Silva em favor dos trabalhadores. Alguns suspeitam que o crime pode ter sido uma resposta a uma denúncia pública feita por Silva sobre vários fazendeiros locais. Após o assassinato, o STR enviou um fax para o escritório da Federação dos Trabalhadores em Agricultura (FTA), em Mato Grosso, identificando os assassinos de aluguel como Robson de Farias Pires, conhecido como Êda, e Emerson (conhecido apenas pelo primeiro nome). O STR notou que ambos chegaram em Cocalinho apenas alguns dias antes do assassinato e deixaram a cidade no dia em que o crime foi cometido.

 

Logo após o assassinato, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados tomou conhecimento do caso e pressionou autoridades locais para investigá-lo.

 

Em 30 de junho de 2000 a Polícia Civil de Cocalinho abriu o inquérito policial no 026/2000 para investigar o assassinato Darlan Pereira de Silva. Em 22 de agosto de 2000 o juiz Pedro Sakamoto ordenou a prisão preventiva de Êda e Pires, que foram indiciados por assassinato, e em 15 de agosto de 2001, a investigação foi encerrada e o caso encaminhado para o Fórum da Comarca de Água Boa.[16] As acusações mais tarde recaíram sobre Emerson, e Pires desapareceu de Água Boa. Até a data em que este relatório foi concluído, Pires ainda estava em liberdade.[17]

 

 

 

 

Tentativa de assassinato e abuso psicológico contra o frei Rodrigo de Castro Ameddé Péret, coordenador da Comissão Pastoral da Terra, Uberlândia, Minas Gerais

 

O frei Rodrigo de Castro Ameddé Péret, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da diocese de Uberlândia, Minas Gerais, trabalha com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em defesa da implementação da reforma agrária no Triângulo Mineiro.

 

Em 1998, frei Péret sofreu três agressões relacionadas a seu ativismo em favor da reforma agrária. Em fevereiro de 1998, durante um incidente na fazenda Nossa Senhora das Graças, em santa Vitória, frei Péret sofreu agressão por parte de oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais. Em junho de 1998 ele foi segurado por policiais enquanto proprietários de terras o espancavam durante a “Marcha contra a Fome”, em Uberlândia. A última agressão ocorreu em setembro de 1998, em santa Vitória.[18]

 

Na manhã do dia 21 de setembro de 1998, oitenta famílias do MST ocuparam a fazenda Perobas, em santa Vitória. Proprietários de terras ligados à União de Defesa das Propriedades Rurais (UDPR) organizaram uma milícia fortemente armada e foram para a área onde estavam os trabalhadores. Os proprietários de terras mandaram os integrantes do MST a deixarem Perobas e ameaçaram matar todos eles se não se retirassem do local em uma hora. Os proprietários de terras então deixaram o local, dizendo que voltariam com reforços. Depois de sua saída, vários policiais militares chegaram e observaram a ocupação.

 

Por volta das 14:00 horas, perto de cem proprietários de terras armados chegaram, alguns vestindo capuzes. Ao se aproximar da fazenda, eles ameaçaram pôr fogo na mata em que os trabalhadores estavam acampados. A Polícia Militar observou mas não tomou medidas para deter os proprietários de terras.

 

Enquanto isso, frei Péret e Marcelo Resende, outro representante da pastoral, estavam em santa Vitória, tentando contatar autoridades civis e militares do estado de Minas Gerais. Enquanto estavam lá, eles souberam que os proprietários de terras tinham chegado a um acordo com o MST e deixado a área. Ao saber a notícia, eles, juntamente com membros de outros sindicatos de trabalhadores, dirigiram-se para a fazenda Perobas em dois carros. Um carro, um Elba amarelo, levava membros da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e integrantes do MST. O outro carro, um Gol, levava frei Péret, Marcelo Resende e outro representante da CUT na região do Triângulo Mineiro.

 

A dez quilômetros de Santa Vitória, duas caminhonetes levando fazendeiros de terras armados apareceram e forçaram os dois carros a parar. O Gol permaneceu entre as duas caminhonetes, enquanto o Elba estava à frente da primeira perua. Dois passageiros do Elba, o ativista do MST e o membro da CUT, sofreram ferimentos físicos, mas conseguiram escapar sob os tiros dos proprietários de terras.

 

Os passageiros do Gol foram forçados pelos fazendeirosa deixar o veículo. Um dos fazendeiros disse: ”Vamos dar um passeio com eles”. Outro replicou: “Agora não dá para fazer o que combinamos, porque você deixou o outro fugir”.

 

Nesse momento, um fazendeiro atingiu frei Péret no rosto, fazendo-o cair no chão. Os outros fazendeiros então começaram a chutar seu corpo e atacar os outros dois passageiros. Frei Péret recebeu dois chutes na cabeça, que causaram uma convulsão na qual ele mordeu a língua violentamente.

 

Depois da primeira convulsão de frei Péret, alguns dos agrssores permitiram que seus colegas o colocassem no carro. Então, um dos fazendeiros apontou sua arma em direção à cabeça de frei Péret e atirou. A bala atingiu a parte de trás do banco no qual frei Péret estava sentado. Se a bala tivesse atravessado o banco do carro, teria atingido as suas costas.

 

Pouco tempo depois a polícia chegou, e os fazendeiros fugiram.[19]

 

Em 29 de setembro de 1998, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados enviou Ofícios ao governador de Minas Gerais, Eduardo Brandão Azeredo, e ao Procurador-Geral de Justiça, Dr, Epaminondas Fulgêncio Neto, requisitando informações e tomada de medidas a respeito do abuso físico e psicológico sofrido por frei Péret e os outros.[20]

 

Em 19 de fevereiro de 2002 o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 080/02 para Nedens Ulisses freire Vieira, Procurador-Geral de Justiça de Minas Gerais, requisitando mais informações sobre o andamento deste caso.

 

Até o momento de finalizaçào deste relatório, o Centro de Justiça Global não havia recebido nenhuma resposta a este ofício. 

Ameaças de morte, difamação e processos criminais infundados contra o frei Henri Burin des Roziers, advogado da Comissão Pastoral da Terra, sul do Pará 

O frei Henri Burin des roziers, advogado da Comissão Pastoral da Terra no sul do pará, tem sido vítima de calúnias e processos criminais infundados desde abril de 2000.[21] 

Em abril de 2000, diferentes fontes confiáveis e seguras da CPT em Xinguara, Pará, informaram à equipe da CPT que fazendeiros da região pretendiam assassinar o frei Henri, assim como um líder sindical local e um candidato às próximas eleições. O líder sindical e o candidato estavam enfrentando processos infundados sob a alegação de terem instigado uma ocupação de terras. Nas ações judiciais decorrentes de conflito por terras, frei Henri atuou como advogado dos trabalhadores. Alguns dias depois, cinco trabalhadores envolvidos em uma disputa por terras na região foram assassinados e suas orelhas foram cortadas, um sinal de que o crime havia sido encomendado.

 

Frei Henri começou a receber ameaças de morte, em 6 de junho de 2000, algumas semanas antes do julgamento, que condenou Jerônimo Alves de Amorim por ordenar em 1991 o assassinato do líder de trabalhadores rurais Expedito Ribeiro de Souza. O julgamento e a sentença receberam larga cobertura da mídia nacional e internacional, inclusive um editorial no The New York Times. Durante este mesmo período, a CPT em Xinguara denunciou três poderosos fazendeiros por submeter pessoas ao trabalho escravo.

 

Em 13 de julho de 2000, em uma entrevista coletiva à imprensa em Belém, frei Henri, em nome da CPT no sul do Pará, denunciou dezessete casos de tortura, inclusive vários casos fatais, que ocorreram em delegacias de polícia do Pará. A denúncia teve larga cobertura pela imprensa nacional e internacional, culminando com a visita ao sul do Pará do Relator Especial da ONU sobre Tortura, Sir Nigel Rodley, durante sua missão ao Brasil, e com uma investigação da Anistia Internacional sobre todos os casos denunciados.

 

Por vários meses, o Delegado Geral de Polícia do Pará difamou frei Henri através de depoimentos divulgados em jornais e programas de rádio e televisão no Pará e região. O Delegado o acusou de ser mentalmente desequilibrado e de envolvimento no assassinato de um fazendeiro, entre outros ataques verbais. A imprensa local também publicou uma carta difamatória sobre frei Henri que o juiz de Xinguara havia enviado ao presidente do Tribunal de Justiça do estado.

 

Em agosto de 2000, duas investigações policiais – uma por assassinato e outra por crime contra honra – foram registradas contra o frei Henri. Em dezembro de 2000, o governador do Pará representou uma queixa contra o frei Henri  por crime contra honra. No mesmo mês, o juiz de Xinguara registrou uma ação criminal contra o frei Henri por incitamento à violência, conspiração e desacato à autoridade, tudo baseado na sua participação em uma manifestação para protestar contra as suspeitas de irregularidades nas eleições locais de 3 de outubro de 2000. O protesto público, feito em frente ao tribunal de Xinguara, foi pacífico e não envolveu danos ou violência. Finalmente, em janeiro de 2001, o ex-Delegado Geral de Polícia Civil do Pará registrou uma ação contra frei Henri por danos morais.

 

Em 27 de setembro de 2001, o centro de Justiça Global encaminhou informações a respeito das ameaças de morte, incidentes de calúnia e processos criminais infundados contra o frei Henri para a Representante Especial da ONU sobre os defensores de Direitos Humanos, Hina Jilani.

 

Segundo frei Henri, todas  os inquéritos e processos abertos contra ele em 2000 têm desde então sido arquivados por falta de fundamentação. O processo movido pelo ex-Delegado Geral de Polícia ainda está pendente. [22]

 

 

Assassinato de José Dutra da Costa, líder de trabalhadores rurais, Rondon, Pará

 

No dia 21 de novembro de 2000, um pistoleiro matou José Dutra da Costa, 43 anos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) do município de Rondon, no estado do pará. Costa também havia sido diretor de Política Agrária do STR, e foi líder estadual da Federação dos Trabalhadores em Agricultura (Fetagri). Enquanto trabalhava nestas instituições, Costa fez muitos inimigos entre os fazendeiros no Pará, que ressentiam o fato de Costa ter organizado campanhas de ocupação de terras improdutivas.  Como reação, esses proprietários de terras fizeram ameaças de morte contra ele, e em várias ocasiões pistoleiros tentaram matá-lo. Mais de quatro anos antes do assassinato, a Comissão Pastoral da terra (CPT) de Marabá citou as ameaças de morte e tentativas de assassinato contra Costa, entre muitos outros casos similares, em seu relatório sobre violência nas áreas rurais. Em cada caso de ameaça, Costa registrou queixa perante a polícia local, solicitando proteção junto à Secretaria de Segurança Pública do estado do Pará, a qual não foi concedida.

 

Por volta das 19:30 horas do dia 21 novembro, 1999, o matador de aluguel Wellington de Jesus Silva, de 20 anos, chegou à casa de Costa. Ao descobrir que Costa não estava, Silva se escondeu atrás de alguns arbustos perto da porta da frente. Quando Costa voltou para casa alguns minutos depois, Silva pulou de seu esconderijo e atirou três vezes. Mesmo ferido, Costa conseguiu lutar com Silva, empurrando-o em uma vala. Assim, os vizinhos de Costa chegaram a tempo de dominar Silva. Eles levaram Costa ao hospital, onde ele morreu algumas horas mais tarde, e entregaram Silva à polícia. Silva confessou que havia recebido dinheiro e o revólver de seu primo, o qual havia sido contratado por um fazendeiro local, Décio Barroso, para matar Costa.[23]

 

Barroso foi preso em seqüência, mas libertado por determinação de um juiz do estado após apenas doze dias de prisão. Em maio de 2001, o poder judiciário do Pará suspendeu as investigações sobre o assassinato de Costa indefinidamente.[24]

 

No dia 15 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 063/02 ao Dr. paulo Sette Câmara, secretário de Segurança Pública do estado do Pará, requisitando maiores informações sobre o andamento do caso.

 

Até a finalização deste relatório, o centro de Justiça Global não havia recebido resposta.

 

 

Assassinato da família de José Pinheiro de Lima, ativista de direitos dos trabalhadores sem terra, do pará

 

Por volta das 19:00 horas do dia 9 de julho de 2001, dois pistoleiros desconhecidos invadiram a residência de José Pinheiro de Lima, um defensor local dos direitos dos trabalhadores rurais e integrante do Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST), a aproximadamente doze quilômetros de Marabá. Após entrar, os homens atiraram na esposa de Lima, Cleonice, e a mataram enquanto ela assistia televisão na sala. Eles então passaram ao quarto, onde Lima se recuperava de uma doença recente, e o mataram com tiros à queima-roupa. Finalmente eles atiraram no filho de Lima, Samuel, que chegou em casa pouco depois, e o mataram. Os dois pistoleiros então fugiram da cena do crime, roubaram uma motocicleta e escaparam pela rodovia PA-150 em direção à cidade de Jacundá.

 

Os fatos envolvendo estes assassinatos sugerem vigorosamente que fazendeiros da região são responsáveis pelas mortes. Antes do assassinato de Lima e sua família, o integrante do MST estava atuando no processo de assentamento de trabalhadores sem terra na fazenda São raimundo, que havia sido designada para desapropriação pelo governo federal em janeiro de 2001. Desde o começo do processo de desapropriação, um grupo de aproximadamente 120 famílias de trabalhadores sem terra havia acampado no local, aguardando a conclusão da transferência de terra e a liberação do título da mesma. Embora o decreto de desapropriação tivesse sido assinado em janeiro de 2001, o governo ainda não havia concluído o processo de assentamento.

 

Nesse meio tempo, o proprietário da Fazenda são raimundo, João david de Melo, havia tomado várias medidas para impedir a conclusão do processo legal de expropriação. Estas medidas incluíam ameaças de morte públicas contra ativistas. Como principal líder das famílias acampadas no latifúndio, Lima era o alvo principal dessas ameaças.

 

De fato, Lima vinha recebendo ameaças de morte pelo menos desde o começo de 2000. Naquela época, quando a Confederação nacional dos trabalhadores na agricultura (CONTAG) denunciou o assassinato de José dutra da Costa, em Rondon do Pará, a organização incluiu o nome de Lima na lista dos líderes que haviam recebido ameaças.[25]

 

Quando testemunhas foram prestar depoimento à polícia a respeito do triplo homicídio de Lima e sua família, foram obrigadas por policias da polícia a esperar aproximadamente quatro horas (até 1:00 h da manhã do dia 10 de julho) antes de poderem falar com alguém. Até a manhã do dia seguinte dos assassinatos, a polícia ainda não havia tomado medidas para investigar os homicídios, como visitar a cena do crime, por exemplo.

 

No dia 12 de julho de 2001, o Centro de Justiça Global encaminhou denúncias para a Relatora Especial da ONU sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias, ou Arbitrárias, Asma Jahangir, a respeito dos assassinatos na casa dos Lima e da falta de diligência da polícia nas investigações que se seguiram.

 

Em 15 de fevereiro de 2002, O Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 068/02 ao Dr. Paulo Sette Câmara, secretário de Segurança Pública do estado do Pará, requisitando maiores informações sobre os recentes progressos deste caso.

 

Até o momento de finalização deste relatório, o Centro de Justiça Global não havia recebido resposta a este ofício.

 

 

 

Assassinato de Onalício Araújo Barros e Valentim da Silva Serra, lideranças do MST, Parauapebas, Pará

 

No final de março de 1998, um fazendeiro e um grupo de capangas assassinaram Onalício Araújo Barros, conhecido como “Fusquinha”, e Valentim da Silva Serra, conhecido como “Doutor”, defensores de direitos de trabalhadores rurais, ambos com trinta e poucos anos de idade. Os assassinatos ocorreram perto da cidade de Parauapebas, no sul do Pará. Tanto Araújo como Serra participavam da liderança em nível estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  A organização dos trabalhadores e as ocupações de terra na região freqüentemente provocavam violentas retaliações por parte dos fazendeiros, que contratavam milícias privadas e policiais para expulsar os trabalhadores à força.  Num dos casos de maior repercussão, a Polícia Militar massacrou dezenove trabalhadores rurais que estavam em uma fazenda em Eldorado dos Carajás, Pará, perto de Parauapebas, em 17 de abril de 1996.[26] Araújo e Serra haviam participado naquela ocupação e sobreviveram ao massacre. Dois anos depois, seu envolvimento em outra ocupação organizada pelo MST lhes custou a vida.

 

Em 14 de março de 1998, um grupo de trabalhadores e suas famílias, cerca de 500 pessoas no total, ocupou a Fazenda Goiás II, perto da cidade de Parauapebas, no sul do Pará.[27] O grupo permaneceu na área por cerca de duas semanas sem incidentes.

 

No dia 26 de março de 1998, por volta das 8:00 horas da manhã, um oficial de Justiça chegou ao acampamento dos trabalhadores com dois capatazes da fazenda. Ele informou aos trabalhadores que sua ocupação era ilegal, e ordenou que deixassem a propriedade imediatamente. Também ameaçou chamar a Polícia Militar para expulsar os trabalhadores que não cooperassem. Apesar do aviso, o grupo permaneceu na fazenda.

 

Por volta das 14:30 horas daquele dia, o oficial retornou com um sargento da polícia e dez policiais (vários deles encapuzados e com os nomes em seus uniformes cobertos), e exigiu que os trabalhadores deixassem a fazenda. O sargento da polícia declarou que se os trabalhadores não partissem, os proprietários da fazenda chegariam com “pistoleiros armados até os dentes”. Os trabalhadores fizeram uma reunião em que decidiram deixar a fazenda.

 

Por volta das 17:00 horas, Araújo e Serra chegaram ao local e acompanharam os trabalhadores enquanto estes andavam ao longo da estrada que corta a fazenda.[28] Depois de deixar a propriedade, o grupo andou mais de seis quilômetros. O esforço físico dessa jornada pesou sobre as crianças e mulheres grávidas do grupo, algumas das quais começaram a desmaiar ou passar mal. Os trabalhadores decidiram parar e passar a noite em um barracão de uma instituição estadual, o Centro de  Desenvolvimento Regional 1 (CEDERE-1), que se encontrava próximo. Araújo, acompanhado de Serra e de uma trabalhadora chamada Maria Zilda Pereira Alves, foram ao escritório da administração do CEDERE-1 para requisitar permissão para que os trabalhadores passassem aquela noite no abrigo.

 

No caminho para o escritório, Araújo, Serra e Maria Zilda encontraram um grupo de fazendeiros e pistoleiros contratados da Fazenda Goiás II, e perceberam que este grupo estava seguindo os trabalhadores desde o momento em que suspenderam a ocupação e deixaram Goiás II, naquele mesmo dia. Um dos fazendeiros, Carlos Antônio da Costa, gritou: “O que é? O que é que vocês estão fazendo aí?”.[29] Araújo explicou que ele, Serra e Maria Zilda estavam tentando conseguir que os trabalhadores passassem a noite no barracão CEDERE-1, que era uma propriedade pública.[30] Costa disse que era para eles irem “para o quinto dos infernos”.[31] Outro fazendeiro chamado Donizete tentou pegar uma pasta de documentos das mãos de Serra.  Naquele momento, os faróis de um carro iluminaram os três membros do MST, e o fazendeiro identificou Araújo e Serra pelo nome.[32]

 

O fazendeiro Donizete então se aproximou de Serra e pressionou o cano de um revólver contra o peito do último. Carlos da Costa gritou “Queima!” e Donizete atirou em Serra, matando-o. Donizete então apontou o revólver e atirou em Araújo, que tentou tirar a arma das mãos de Donizete. A bala atingiu Araújo, que se virou e fugiu. Maria Zilda gritou, e Donizete pôs a arma em sua boca. Naquele momento, alguns trabalhadores chegaram em várias caminhonetes e resgataram Maria Zilda.

 

Um trabalhador chamado Paulo Rodrigues de Araújo viu os capangas dos fazendeiros pegarem o corpo de Serra e o jogarem em uma caminhonete branca. Ele também viu Araújo, ferido, correndo em direção à mata.

 

Por volta do meio-dia do dia seguinte, o corpo de Araújo foi achado na beira da estrada cerca de cinco quilômetros do lugar em que ele havia sido atingido.[33] Segundo o representante do MST da cidade vizinha de Marabá, os pistoleiros contratados enterraram eles mesmos o corpo de Serra.[34]

 

A resposta do governo aos assassinatos envolveu autoridades federais, estaduais e locais. Em 27 de março de 1998, o Ministério Público requisitou a instauração de Inquérito Policial. No dia seguinte, a equipe do Instituto de Polícia Técnica recuperou os corpos de Araújo e Serra para realizar autópsia.[35] Cerca de uma semana depois, no dia 2 de abril, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados realizou uma audiência pública para examinar os detalhes do caso e rever a forma como as autoridades locais estavam conduzindo as investigações. Maria Zilda e Paulo Rodrigues de Araújo prestaram depoimento nesse interrogatório, tanto como Gilmar Vianna, Diretor do Departamento de Conflitos Fundiários do Ministério de Polícia Fundiária.[36]  No mesmo dia o ministro da Justiça interino, requisitou proteção policial especial para as duas testemunhas,[37] e o Procurador Geral de Justiça do estado do Pará informou ao presidente da Comissão de Direitos Humanos que ele havia designado dois Promotores de Justiça para acompanhar o caso.[38]

 

Em 15 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 046/02 para o Ministro da Justiça requisitando maiores informações sobre o recente andamento deste caso.

 

Até a finalização deste relatório, o Centro de Justiça Global não havia recebido resposta a este ofício.

 

 

Assassinato de Euclides francisco de Paulo, líder de trabalhadores rurais, Parauapebas, pará

 

Em 20 de maio de 1999, dois pistoleiros assassinaram Euclides Francisco de Paulo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Parauapebas, no sul do Pará.[39] Euclides Francisco de paulo era um ativista em defesa dos trabalhadores rurais desde 1992, fazendo campanhas pela reforma agrária e fornecendo a trabalhadores rurais sem terra suporte organizacional em suas ocupações de fazendas no sul do Pará. O trabalho de Euclides em defesa dos trabalhadores gerou a inimizade de fazendeiros da região opostos à reforma agrária, e no curso de sua carreira como sindicaliste ele recebeu inúmeras ameaças de morte. Uma nova onda de ocupações de terras em 1999 detonou um aumento na violência praticada por milícias privadas de fazendeiros contra trabalhadores rurais. Como parte deste ataque, dezoito líderes de trabalhadores rurais receberam ameaças de morte, inclusive Euclides Francisco de Paulo. No começo de maio de 1999, foi assassinado o primeiro dos dezoito ameaçados: um líder do STR em Marabá, Agripino José da Silva,. Duas semanas depois, no dia 20 de maio, um pistoleiro em uma motocicleta deu dois tiros nas costas de Euclides de Paulo, fazendo dele a segunda vítima fatal.

 

No dia seguinte ao assassinato de Euclides de Paulo, duas organizações rurais (a Federação dos Trabalhadores na Agricultura - FETAGRI e a Comissão Pastoral da Terra - CPT) enviaram uma carta aberta às autoridades exigindo intervenção para prevenir a violência contra trabalhadores rurais.[40] No mesmo dia, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) enviou uma carta ao deputado Nilmário Miranda, então presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, instando a Comissão a adotar todas as medidas necessárias para identificar e punir os assassinos de Euclides de Paulo.[41]

 

Em resposta a esta solicitação, no dia 26 de maio de 1999, o deputado Miranda escreveu para autoridades estaduais e locais do Pará exigindo uma investigação extensiva e rápida, ressaltando que o caso de Euclides de Paulo era o segundo assassinato de um líder de trabalhadores rurais em duas semanas.[42]

 

Em 8 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou um Ofício ao Secretário de Segurança Pública do estado do Pará, Paulo Celso Pinheiro Sette Câmara, requisitando informações sobre os andamentos do caso.[43] O secretário Sette Câmara foi uma das autoridades que recebeu a referida solicitação de providências do deputado Miranda.

 

Até a finalização deste relatório, o centro de Justiça Global não havia recebido resposta do secretário Sette Câmara a este ofício. 

 

 

 

 

 

 

Assassinato de Sebastião Maia, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Querência do Norte, Paraná

 

Em 7 de maio de 1999, a Polícia Militar do Paraná removeu à força o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Sebastião Maia, conhecido como “Tiãozinho”,  e sua família da fazenda Rio Novo, localizada em querência do Norte, município do estado do Paraná. Segundo depoimentos prestados em Curitiba, ao então Secretário nacional de Direitos Humanos, Jose Gregori, membros da Polícia Militar maltrataram e agrediram a mulher de Sebastião Maia, sra. Adelina Ventura, durante a expulsão. Adelina Ventura comentou que os policiais chegaram gritando e procurando por seu marido: “O seu marido é um dos líder do movimento, nóis qué ele”.[44]

 

No dia 21 de novembro de 2000, Maia morreu por causa de ferimentos de bala recebidos durante uma violenta expulsão de trabalhadores do MST da fazenda Água da Prata, em Querência do Norte. Segundo o médico que fez a autópsia no corpo de Sebastião Maia, Luís Antônio Ricci Almeida, o pistoleiro que o matou atirou com uma arma de doze calibres a uma distância de menos de um metro. A bala entrou pelo olho esquerdo de Maia e saiu através da nuca. Duas outras balas passaram de raspão, machucando sua cabeça.[45] O pistoleiro foi mais tarde identificado como José Luiz Carneiro, segurança da fazenda Água da Prata.[46]

 

Respondendo à notícia do assassinato de Maia, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados informou ao então Ministro da Justiça, José Gregori, a existência de uma lista de trabalhadores rurais marcados para morrer. A Comissão também requisitou que o ministro pressionasse as autoridades do Paraná para impedir a violência contra líderes de trabalhadores e membros do MST.[47]

 

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Civil abriu um inquérito policial sobre o assassinato de Sebastião Maia, e conseguiu evidências que levaram ao indiciamento de José Luiz Carneiro. A juíza da Comarca, Elizabeth Kather, ordenou que Carneiro fosse mantido preso até a data de seu julgamento.[48]

 

A investigação também vinculou José Ivo Lopes Furquim ao assassinato de maia e levou à expedição de um mandato para sua prisão. Ele ainda está em liberdade, e acredita-se que esteja escondido no Mato Grosso do Sul.[49]

 

Em 15 de fevereiro de 2002, o Centro de Justiça Global enviou Ofício JG/RJ no 064/02 para o Secretário de Segurança Pública do estado do Paraná, José Tavares, requisitando mais informações sobre os últimos andamentos deste caso.

 

Em resposta ao ofício, o Secretário de Segurança Pública informou que em 30 de outubro de 2001 o Juízo da Comarca de Loanda decidiu que José Luiz carneiro seria julgado por um Tribunal do Júri.

Até o momento da finalização deste relatório o julgamento não havia ocorrido.[50]

 

 

Agressões físicas, ameaças de morte e processo judicial indevido de Darci Frigo, advogado da Comissão Pastoral da Terra, Curitiba, paraná

 

Darci frigo tem trabalhado como advogado e defensor dos direitos humanos com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) há mais de dezesseis anos. Ele tem representado trabalhadores rurais envolvidos em dezenas de disputas de terras no Paraná, em foros nacionais e internacionais, freqüentemente se colocando em posição de grande risco pessoal. Além disso, ele tem atuado como defensor da reforma agrária e tem documentado e registrado abusos e violências cometidas contra trabalhadores rurais em relatórios da CPT.

 

Os ataques ao trabalho de Frigo começaram assim que ele começou a trabalhar na CPT. Em 1986, Frigo denunciou Luciano Pizatto, um deputado federal, por utilizar dez crianças de idades entre doze e dezesseis anos de favelas da cidade de Ponta Grossa, Paraná, e forçá-las a realizar trabalhos pesados (como limpar áreas de mata) em sua propriedade rural. Como resultado, Pizatto acusou frigo de difamação e o processou judicialmente em 1987, em um caso que iria durar seis anos. Em 1993, o juiz que presidia o caso sentenciou Frigo a um ano de prisão, uma pena que não poderia ser cumprida pois o crime (tipo penal) já havia prescrito.

 

Em 1993, oficiais da Polícia Militar do Paraná ameaçaram Darci Frigo, enquanto ele estava representando judicialmente o líder rural Diniz Bento da Silva, mais conhecido como “Teixeirinha”, dentro de uma delegacia de polícia. Mais uma retaliação oficial ao trabalho de Frigo aconteceu em 1996, quando o governador do Paraná, Jaime Lerner, o impediu até o ano de 1999, de tomar posse no Conselho Estadual Permanente de Direitos Humanos do Paraná.

 

Em 27 de novembro de 1999, a Polícia Militar do paraná prendeu e deteve arbitrariamente Frigo, com mais sete membros do Movimento das Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), baseada na acusação patentemente falsa de que Frigo havia fraturado a perna do policial Argeu Xavier. A detenção arbitrária teve lugar logo depois que oficiais da polícia ilegalmente impediram Frigo, e sua colega, a advogada Andressa Caldas, de fornecer assistência legal a membros do MST que haviam sido expulsos à força de uma praça no centro de Curitiba, Paraná, durante a madrugada, numa operação de despejo que contou com mais de 1000 policiais. Os trabalhadores rurais sem terra estavam acampados na praça pública, em protesto pela reforma agrária e contra a violência no campo. Durante a prisão, Frigo foi agredido fisicamente pelos policiais militares, que rasgaram seu terno, o algemaram e o levaram a uma Delegacia de Polícia.

 

O policial Xavier registrou uma queixa criminal contra Frigo por lesões corporais leves no Juizado Especial. Este caso ainda está tramitando judicialmente.

 

Após a operação de despejo na praça de Curitiba, a imprensa oficial do estado do Paraná lançou dois boletins fornecendo supostas “evidências” a respeito da culpa de Frigo no que se refere ao incidente com o policial, apesar da presença de inúmeras testemunhas que atestaram a inocência de Frigo, inclusive um bispo local. Frigo ingressou com uma ação judicial civil contra o estado do Paraná por difamação, buscando compensação por danos morais sofridos em decorrência da nota divulgada pelo governo do Paraná. Em 5 de abril de 2000, o estado do Paraná reconheceu formalmente que Darci Frigo não havia cometido atos de violência, através de uma carta do chefe de Gabinete do Governador do Paraná enviada à Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB).

 

Em 8 de outubro de 2001, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) publicou um desagravo oficial no qual o governador do Paraná, o secretário de Segurança Pública, e o comandante da Polícia Militar do estado do Paraná são responsabilizados por abuso de poder e por violação dos direitos dos advogados Darci Frigo e Andressa Caldas durante o conflito em Curitiba.

 

Ainda em fevereiro de 2000, Frigo recebeu três ameaças de morte por telefone, em resposta a sua defesa de trabalhadores rurais. Nos três casos, um homem não-identificado ameaçou repetidamente “quebrar as pernas [de Frigo]” e “terminar o serviço” se ele saísse de sua casa. Os dois últimos dos três telefonemas foram gravados. Na última ligação, o homem disse a Frigo: “Faça seguro para não deixar tua família desamparada”.

 

Os responsáveis por essas ameaças não foram identificados, mas a referência constante a “quebrar as pernas” sugerem fortemente que estas ameaças de morte estão vinculadas à acusação fabricada de que Frigo quebrou a perna do policial Argeu Xavier. As autoridades federais responderam à requisição de proteção da vida de Frigo apenas dois meses após a solicitação. A proteção que foi realizada pela Polícia Federal durou apenas 45 dias.

 

Em 13 de junho de 2001, Darci Frigo, juntamente com o Centro de Justiça Global, encaminhou informações a respeito das ameaças de morte e da sua detenção arbitrária para a Representante Especial da ONU sobre os Defensores de Direitos Humanos, Hina Jilani.

 

Em julho de 2001, o Centro de Justiça Global indicou frigo para o Prêmio de Direitos Humanos robert F. Kennedy. Em outubro de 2001, em virtude de sua trajetória pessoal e seu compromisso com a defesa dos trabalhadores rurais, Frigo foi escolhido entre defensores de direitos humanos do mundo inteiro para  receber o referido Prêmio de 2001, em uma cerimônia realizada em Washington, em novembro daquele ano.

 

 

Abuso físico, ameaças e intimidação legal contra Avanilson Alves Araújo, advogado da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares, Querência do Norte, Paraná[51]

 

O estado do paraná, onde o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) tem uma forte atuação, apresenta um alto índice de violência no campo. Das várias centenas de trabalhadores mortos em conflitos rurais nos últimos anos no Brasil, um número significativo ocorreu no estado do paraná. Somente de janeiro de 1997 a dezembro de 2000, dezesseis pessoas foram mortas em conflitos de terras e vinte outras sobreviveram a tentativas de homicídios no Paraná. Em nenhum desses casos, as pessoas responsáveis pelos assassinatos e tentativas de assassinatos foram condenadas. No mesmo período, pelo menos trinta e seis ameaças de morte contra pessoas envolvidas na defesa da reforma agrária foram registradas.

 

Neste contexto, Avanilson Alves de Araújo, um advogado da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP) foi vítima de intimidações, ameaças e processos judiciais injustificados relacionados à sua atuação em defesa dos trabalhadores rurais. O primeiro caso de ameaça e ataque contra Avanilson Araújo ocorreu em 26 de junho de 1999, na fazenda Rio Novo, estado do paraná, e em suas vizinhanças. Naquela época, um grupo de trabalhadores rurais sem terra estava ocupando a fazenda Rio Novo, tentando pressionar o governo a desapropriar a área para reforma agrária. Os proprietários da fazenda responderam chamando a Polícia Militar, que cercou a área e ameaçou expulsar os trabalhadores à força.

 

Buscando uma solução pacífica, líderes do MST chamaram Avanilson Araújo para negociar com os fazendeiros. No entanto, na sua chegada, três viaturas da polícia o forçaram a parar seu veículo a 200 metros dos portões da fazenda. Sete ou oito policiais saíram dos carros, agarraram Avanilson Araújo e o empurraram violentamente para dentro de um dos carros, torcendo seu braço e rasgando sua camisa, a despeito do fato dele dizer repetidas vezes a eles que era advogado dos trabalhadores e mostrar sua carteira profissional. Os policiais estavam prestes a partir com Araújo no carro da polícia quando o comandante da polícia, entrou em contato com a viatura através do rádio e ordenou a libertação de Avanilson Araújo. Os policiais obedeceram, jogando o advogado para fora do veículo.

 

Após sua liberação, Araújo pediu a um dos policiais envolvidos na tentativa de prendê-lo que se identificasse, visto que nenhum dos policiais estava usando alguma forma de identificação. Ao invés de responder, o policial ameaçou Araújo com sua arma. Avanislon Araújo requisitou ao comandante no local, Cristiano Cobas, que mandasse o policial se identificar e responder por suas ações.

 

Em 28 de junho de 1999, dois dias após o conflito na fazenda Rio Novo, Avanilson Araújo registrou uma queixa oficial contra três dos policiais envolvidos: Carlos roberto de Campos, Rodiney Mota de Almeida e Gerson maurício Zocchi.

 

Em 30 de junho, a polícia causou outra violenta confrontação com Araújo enquanto este último auxiliava na entrega de comida, roupas e suprimentos aos trabalhadores sem terra acampados na fazenda. A polícia usou um bloqueio em frente à entrada da fazenda para forçar o carro de Araújo a parar quando se aproximava da propriedade. Avanilson Araújo e outros ocupantes do carro foram forçados a sair do veículo e a polícia executou uma busca detalhada no automóvel.

 

Araújo mostrou aos policiais sua carteira da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Ao ver suas credenciais, os policiais riram de Araújo. Quando o comandante da polícia Militar de Loanda, policial Clóvis, examinou o documento, ele se recusou a devolvê-lo para Avanilson Araújo e gritou com ele, dizendo que o advogado havia desrespeitado seus subordinados durante o incidente de 26 de junho.

 

Avanilson Araújo disse a Clóvis que se recusava a discutir o caso naquelas circunstâncias. Ao ouvir isso, Gerson Zocchi, um dos policiais acusados por Avanilson disse aos demais: “esse babaca está querendo aparecer”, e empurrou violentamente Araújo contra um carro. O policial continuou a ameaçar e provocar araújo, dizendo “babaca, pau no cú, você não vai ver onde isso vai parar”. Quando araújo perguntou a Zocchi se ele estava fazendo uma ameaça, Zocchi pegou Araújo pelo pescoço e o estrangulou enquanto continuava a ameaçá-lo verbalmente. Alguns dos policiais presentes tentaram separar os dois, mas o policial Clóvis os impediu de interceder.

 

Quando Zocchi finalmente soltou Avanilson Araújo, o policial Clóvis ordenou que vários policiais escoltassem o carro do advogado de volta à cidade de Querência do Norte, deixando Araújo e o resto de seu grupo para trás. O grupo foi forçado a entrar a pé na fazenda Rio Novo.

 

Após esse confronto, Avanilson Araújo concedeu várias entrevistas á imprensa a respeito do fato, mais notavelmente para o repórter Marcos zanata, da Folha do Paraná, e para o jornalista Roberto Silva, d’O Diário, reafirmando os eventos relatados acima. Ele também prestou queixa contra os policiais envolvidos. 

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