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Educando para a Cidadania
Os Direitos Humanos no Currículo Escolar

ENSINO RELIGIOSO ESCOLAR E CIDADANIA

Este não é um texto sobre determinada Confissão Religiosa. Quer ser uma contribuição a respeito do que podemos fazer na educação da cidadania, através deste espaço marcado por atitudes de busca que é o Ensino Religioso Escolar. No dia-a-dia do homem, grandes questões se fazem presentes: Qual o meu lugar no Universo? Qual minha função como criador de História e Cultura? Qual o sentido terminal da vida? Busca o Ensino Religioso Escolar, através de uma metodologia dinâmica, contribuir na educação e na formação da criança e do adolescente no sentido primeiro: fomos feitos à imagem e semelhança de nosso Deus, somos portanto sujeitos de dignidade. Busca também contribuir, no dia-a-dia, com resposta carregada de sentido e de expressividade diante dos questionamentos que a vida nos coloca. Toda a construção dessa resposta vem iluminada pela fé num Deus que se apresenta como Criador da Vida, do Amor e da Liberdade.

O homem de fé, sincero e consciente, deve vivenciar atitudes que expressem esses valores fundamentais. Eles não são posse exclusiva de uma determinada religião, mas fazem parte essencial de toda a religiosidade humana.

Aqui transparece aquela que, ao nosso modo de ver, deve ser a grande função do Ensino Religioso Escolar. Insisto na expressão “Ensino Religioso Escolar” para dar-lhe o caráter integrativo, como disciplina ou matéria de um currículo escolar. Se o compromisso de construir a dignidade humana é provocar uma atitude interdisciplinar, o Ensino Religioso Escolar tem algo a dizer, desde que não caia em falsos moralismos, dogmatismos ou uma postura meramente conteudística. É claro que deverá haver uma proposta de reflexão, sem, no entanto, reduzi-la ao individualismo. A educação para a religiosidade, competência do Ensino Religioso Escolar, tem um caráter de universalidade. O valor da religião deve ser sentido por todos os seres humanos que buscam e sonham com um mundo onde a vida esteja presente em todas as formas de relações. Dizia que o Ensino Religioso Escolar tem a sua especificidade, sua organicidade, sua seqüência, sua metodologia própria, seu papel relevante na organização curricular de uma instituição. Para realizar-se como uma verdadeira matéria escolar, deve ter muita clareza dos objetivos que quer atingir, bem como da própria metodologia que deve ser ativa na direção de provocar um processo sistemático de ação-reflexão. É urgente que revisemos o que estamos fazendo em nossa prática do dia-a-dia. Não é competência do Ensino Religioso Escolar e do espaço que possui fazer catequese, aqui entendida como a educação da fé explícita. A Educação da Fé explícita supõe uma resposta do cidadão que seja livre, íntima, consciente e pessoal. Ela deve se dar no interior do ser humanos. Respeitar esse fundamento é condição, entre outras, a uma verdadeira educação integral para a prática da cidadania. A instituição, por outro lado, pode e deve ter sua Identidade. Quanto mais exigente e coerente ela for, na direção da construção de uma sociedade justa e livre, mais os sujeitos que vivem no seu dia-a-dia viverão a prática da liberdade e o compromisso com a justiça.

Neste contexto insere-se o educador que também possui uma opção exigente de vida. A criança e o adolescente buscam, no adulto, modelos e referências. Não podem identificar-se com o adulto que não tenha certeza de seus sonhos, de suas utopias, que não tenha convicção do que diz e de como vive aquilo que anuncia. Tanto um quanto o outro, instituição e educador, devem respeitar e conviver com o mundo pluralista em que vivemos. É condição, para a proclamação da liberdade de expressão, que isto seja vivenciado e nunca violentado. Violentar as consciências é impedir que o sujeito possa fazer livremente sua opção religiosa e até o direito de que ele tem de não fazê-la. Conviver com uma sociedade assim posta exige que estejamos abertos a aceitar este presusposto.

O espaço do Ensino Religioso não poderá se prestar a um doutrinamento, seja ele de qualquer matiz. Ele deve despertar a grandeza humana de cada um, sua plena dignidade na construção de uma sociedade que contempla a solidariedade humana. Este texto, como um todo, quer privilegiar o espaço do Ensino Religioso Escolar. É evidente que a experiência de Catequese como aprendizado de doutrina e de vivência religiosa deve possuir seu espaço junto à comunidade confessional, respeitada a livre adesão do indivíduo.

Nossa prática religiosa deve explicitar o Deus que queremos anunciar e pelo qual queremos nos comprometer na solidariedade humana. Estratégias como a organização de um jornal ou mural alternativo na escola, tipo “o que a gente não conseguiu ler nas entrelinhas”, a dramatização das mentiras anunciadas com cara de verdade, pesquisa de opinião com a respectiva análise sobre este ou aquele programa, análise de personagens, tudo isso ajuda todos nós a entendermos o processo de manipulação das consciências humanas. Chama a atenção sobre estas questões, trazer para a escola experiências de comunicação alternativa na linha da defesa da vida (ecologia, terra, índio, negros, menores, adolescentes, mulheres...) são exigências vitais para aproximar aspectos teóricos da prática que queremos assumir, de forma cooperativa, na defesa da cidadania aqui e agora. É isto que apaixona crianças e adolescentes. Recentemente, em nossas escolas, participamos de um pedágio, para coleta de fundos para a Anistia Internacional, organização de defesa da vida, e a cadeira de Ensino Religioso esteve profundamente comprometida.

Ao lançarmos a proposta, foi surpreendente o número de adolescentes que abraçaram o projeto, identificando no mesmo uma forma concreta de vivenciar o que, naquele momento do trabalho, estavam refletindo: a gente só consegue mudar a sociedade quando se engaja de fato em práticas que contribuam na experiência da participação, da organização na solidariedade pela pessoa humana. Hoje, nós estamos articulando na escola a formação de um grupo de treinamento e discussão sobre Vida e Cidadania. Exigência dos alunos, gratificados pela experiência que tem mostrado ser mais fácil falar de Deus depois destas vivências. O adolescente se identifica com o educador que aponta referências de Vida e que procura vivê-las no cotidiano. É fundamental que saibamos quem são os educandos com quem trabalhamos, de onde vêm, o que pensam da vida, o que sonham, estimulando neles o que trazem de melhor.

A educação da religiosidade com os adolescentes de periferia não tem o mesmo perfil da educação que se gesta em centros providos de recursos. Para os primeiros, valores como organização, participação, práticas cooperativas em centros comunitários, são requisitos para a vivência da solidariedade. Para os segundos, a compreensão de que a liberdade e a dignidade são questões vitais a todos e que o bem comum deve ser patrimônio de toda uma coletividade, são valores que devem ser trabalhados com muita sensibilidade, no cultivo de atitudes de fundo que provoquem um compromisso com a comunidade. O mundo dos opressores é caracterizado por situações onde uns são mais livres do que outros, econômica e politicamente. Isto fere a dignidade humana. A educação da religiosidade busca capacitar o ser humano para que encontre o significado mais profundo para a sua existência. Nesta busca de significado, vamos descobrindo que Deus entrou em nossas vidas, que seu projeto e exigente e radical.

Ele nos compromete na defesa da vida, na recuperação das experiências de menos vida, na organização do povo que é sua expressão, na rejeição de tudo aquilo que fere seu Projeto, não importando o lugar, nem o sistema, nem a ideologia. Deus não se presta para legitimar qualquer forma de injustiça. Não se compra. Deus se vive. Sua presença exige uma postura que renuncia ao indiferentismo e à omissão. Precisamos afirmar a nós todos, educadores do Ensino Religioso, estes compromissos com a vida. É fundamental que nossos educandos encontrem, em nosso espaço de sala de aula, este empenho de fazer, aqui e agora, um lugar onde transpareça que este é o mundo que Deus quer, marcado pela sensibilidade, pela solidariedade, pelo querer bem, onde a realização humana expresse que aquilo que cremos e fazemos, cremos e fazemos em nome do nosso Deus que nos fez para sermos irmãos.

Esta é uma tarefa de todas as instituições, de todos os educadores comprometidos de fato na construção da paz.

A relação do homem com o transcendente é verificável em todos os povos da Terra. A religião, por um lado, é vivência e encontro do homem com o sagrado; por outro lado, é resposta deste homem aos apelos de Deus na história do mundo. Todos os credos religiosos devem fazer e dizer a dignidade da pessoa. Ferir a dignidade da pessoa é ferir a Deus. Violar direitos Humanos é uma ação que produz a morte. A morte é a negação da vida. E todos os credos religiosos e as experiências de ensino Religioso devem apontar sempre para a construção da vida. Cabe a cada ser Humanos, religioso por natureza, defender, valorizar e desenvolver a vida. É importante apontar, neste momento, para a significativa experiência que podemos realizar em sala de aula. Estou convencido de que já não basta discutir e aprofundar sinais de menos vida em todos níveis (econômico, político, social, ético, afetivo, cultural, religioso...). este é o risco, se assim o fizermos, de transformarmos nosso espaço formativo num espaço panfletário. É urgente que possibilitemos aos nossos alunos o contato e o possível engajamento em movimentos comprometidos com a defesa da vida. É preciso abrir as portas da escola para organizações ecológicas, de defesa da cidadania, da cultura negra, da mulher, da criança, do adolescente...

Há vários anos temos falado em sala de aula (principalmente nas escolas onde trabalhamos) sobre o trabalho da Anistia Internacional. A experiência tem mostrado que o adolescente busca engajar-se e se apaixona por propostas como a da Anistia. Hoje, vários ex-alunos destas escolas são membros da mesma. Atualmente, alunos de 5ª e 6ª séries reúnem-se periodicamente para discutir cidadania, infância. Este trabalho possibilita a realização, na escola, de uma efetiva experiência interdisciplinar, pois, ao redor do binômio criança-cidadania, contribuem disciplinas como a História, a Língua Portuguesa, as Ciências, as Artes, o Ensino Religioso.

Como membros da Anistia Internacional, sentimos que temos, na prática didático-pedagógico, uma caminhada significativa rumo à Educação da Cidadania e espaço privilegiado de divulgação da Anistia Internacional entre pais, professores e alunos. É preciso que derrubemos os muros invisíveis que separam a escola do mundo, que nos proponhamos o aperfeiçoamento de qualquer questão ligada à defesa da vida. Para analisar a ecologia, é de fundamental importância convidar pessoas envolvidas na defesa do meio ambiente. Acho que não podemos nos acomodar no apenas dizer. Precisamos mesmo apontar caminhos novos de luta rumo à sociedade que almejamos e para qual Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Penso que nós, educadores do Ensino Religioso, de uma maneira sensível e companheira, cabe despertar e cultivar no educando esse jeito de se comprometer com o religioso. Comprometer-se com o religioso é comprometer-se com a vida.

É fundamental que tenhamos, diante de nós, um marco de referências a respeito das grandes questões urgentes e emergentes a serem refletidas em aula. Refletir nao é discutir. A atitude reflexiva exige leitura, aprofundamento. Exige silêncio. Exige abertura para mudar, para buscar, para querer mais, para inconformar-se, inquietar-se, desacomodar-se. Esta busca do cultivo da atitude reflexiva, em nós e em nossos alunos, clama para que organizemos o processo ensino-aprendizagem nessa direção. A análise de temas como aborto, pena de morte, perda da identidade cultural, manipulação e monopólio da informação, a gravidez na adolescência, relação homem-mulher, sexualidade, sistemas sociais, ideologias... é exemplo do quanto podemos contribuir na formação de nossos alunos, no oferecimento de critérios humanizadores, que os conduzem a pensar o mundo e suas relações no enfoque de libertação. Fomos criados para a dignidade. Deus é o autor e o criador da Vida. Abraçar a morte ou os caminhos que a propagam não é condizente com os desígnios de Deus. A proposta de Deus defende a vida e a prática da liberdade. Deve conduzir um relacionamento humano que resguarda os direitos dos pequenos contra a tentação e prática de apropriação do ser humano em todas as instâncias. Não matar é, na realidade concreta, impedir esquadrões da morte, o índice altíssimo de mortalidade infantil, os povos empobrecidos com o enriquecimento de outros. É resgatar a consciência do negro, do índio, da mulher, dos povos terceiromundistas. É dar ao homem o direito de traçar seu destino com autonomia, construindo a reciprocidade e a cooperação e assumindo a responsabilidade pessoal e coletiva de que o mundo é de todos e de todo homem. Não deveriam caber, neste mundo, arbítrios, torturas, ditaduras, assassinatos. Nós, educadores do Ensino Religioso, não podemos compactuar com essa triste realidade. Estratégias como o júri simulado, resolvendo com seriedade ética e científica, por exemplo, a questão da pena de morte, ajudam a aprofundar estas reflexões.

Se o religioso é Vida, o Ensino Religioso tem de apontar este horizonte. Este é um compromisso a ser assumido por todas as confissões religiosas. É tarefa emergente, que extrapola a sala de aula, mas encontra, na mesma, espaço concreto de vivência e de práticas em defesa da Vida. O adolescente somente se identificará com a nossa proposta de trabalho se perceber na mesma um efetivo compromisso com a justiça e a liberdade. A experiência tem mostrado a rejeição às práticas de caráter doutrinário e moralizante. É preciso trazer para a sala de aula experiências que falem da luta pela vida. O Ensino Religioso escolar jamais se dissociará da visão de mundo, da realidade, de educação, da pessoa e de Deus de quem o ministra. O Ensino Religioso deve manifestar toda uma visão dinâmica e processual da Vida. Deus não é algo estático, acomodador. Pelo contrário, exige compromisso dinâmico com a Verdade e a Paz. Deus inquieta e clama por pessoas que falem em seu nome.

Ao assumirmos seu projeto urge que nos coloquemos numa postura de missão, numa atitude de busca, de diálogo gerador de encontro do homem consigo mesmo, do homem com seu irmão homem, do homem com sua irmã natureza, do homem com Deus.

Temos um compromisso com a cidadania. Quando lutamos por uma sociedade igualitária, quando rejeitamos, por nossa prática, sistemas totalitários que dividem os homens entre si, quando negamos o aviltamento do ser humano pelo lucro fácil, por salários de fome que acumulam riqueza, quando lutamos pela igualdade, lutamos, sim, pelo Deus de todos os homens.

Somente gente de fé. Temos uma identidade, se Deus é comunhão e provoca participação, então é preciso trabalhar para erradicarmos a marginalização, a dor imposta, o ódio, a guerra. A luta pela Paz e pela Justiça é dura e permanente. Ela não tem bandeiras nem fronteiras. É tarefa das instituições e dos educadores. É preciso, no entanto, estar atentos ao clamor que brota dos oprimidos.

“Vai! Sai da tua terra! Envio-te pelo mundo”. Ninguém fará por nós o que nos cabe. Em nome de Deus, chamados somos a manifestar, a cantar, a dizer e a viver seu projeto hoje, experiência antecipadora do mundo novo que todos queremos e que queremos para todos.

Esta é a nossa missão profética.

Carlos Alberto Barcellos*
Ivanor Reginatto**

 

* Educador nos Colégios Anchieta e Sévigné em Porto Alegre, especialista em psicomotricidade e Assessor da Anistia Internacional no Programa Nacional de Educação para a Cidadania – PRONEC.

** Educador e Coordenador da Área de Ciências Humanas do II Grau do Colégio Anchieta, em Porto Alegre e assessor da Anistia Internacional no Programa Nacional de Educação para a Cidadania

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