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VÍRGILIO GOMES DA SILVA

Até tu, companheiro?
Equipe Clínico-Grupal Tortura Nunca Mais

O filme “O que é isso, companheiro?”, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, consagra nas telas a adaptação para os dias de hoje da versão militar para os anos de chumbo.

Alegando tratar ficcionalmente o episódio do seqüestro do embaixador americano, sem pretensão de reconstruir a história do país e com a anuência do escritor, o filme oferece o texto ideal ao arremate de mais um capítulo da história dos modos de silenciamento utilizados pelos sucessivos governos pós 64 em seu processo de apropriação de nossa memória.

Do terror que calava, passa-se praticamente sem escalas à obrigação de esquecer. O que reclamarão agora ex-presos políticos e familiares do mortos e desaparecidos? Já não tiveram a anistia, o reconhecimento da responsabilidade da União nas mortes e a indenização dos familiares? E, finalmente, a esquerda também já não pode contar sua própria versão? Agora chaga. Deixemos o passado e cuidemos da vida.

Esta tem sido a recomendação ouvida – em diferentes tons e versões – a partir da década de setenta, desde que grupos de familiares de mortos e desaparecidos se organizam para denunciar as prisões ilegais, torturas, assassinatos e ocultamento dos corpos dos presos políticos perpetrados pela repressão.

Segundo o discurso do poder à época, a Segurança do país estava sendo ameaçada por elementos terrivelmente perigosos, treinados e armados por Moscou para implantar o comunismo. Era preciso, portanto, cortar o mal pela raiz e, cabia às Forças Armadas o papel de identificar e aniquilar exemplarmente o inimigo. Para esta gloriosa tarefa conclamavam o povo a denunciar qualquer suspeito. As mortes, se ocorriam, eram entre forças em guerra ou por suicídio. Quanto aos desaparecidos, estes encontravam-se, na verdade, foragidos. Definitivamente, não havia tortura no Brasil.

Com o enfraquecimenmto do regime, os militares concedem uma jogada de mestre: a Lei de Anistia, que possibilita a volta do exílio e a libertação de militantes presos, também se aplica aos torturadores, igualando a todos no perdão. Familiares de mortos e desaparecidos que exigem a localização de seus parentes e a investigação dos desaparecimentos passam a ser ameaçados e acusados de desestabilizar o processo de redemocratização do país.

Recentemente, quando já não há como negar as evidências de torturas e mortes, alguns militares ilustram em entrevistas publicadas no livro “Os Anos de Chumbo – A Memória Militar Sobre a Repressão” a versão conhecida para o momento. Ora, afirmam que não houve tortura no Brasil e que tudo não passou de invenção da esquerda para justificar as delações ou dos advogados para argüir a legitimidade dos inquéritos. Ora, admitem que a tortura existiu, mas de forma ocasional, devido aos excessos de alguns desequilibrados. No máximo, justificam o uso de algum nível de pressão psicológica ou física, , pois, afinal, estava em jogo a defesa da nação.

Finalmente, frente à crescente força política das entidades de defesa do direitos humanos e a divulgação pela imprensa de provas das mortes por tortura e execução sumária, é preciso responder à opinião pública. Assim age o governo equilibrista de F. H. C.: sanciona a lei que reconhece a responsabilidade da União nas mortes de alguns militares e indeniza seus familiares, mas dobra-se à pressão militar que impede as investigações e a abertura dos arquivos da repressão. Além disso, conclama a nação a esquecer o passado e aponta o Estado e os grupos radicais de esquerda e direita como os responsáveis pelas mortes e desaparecimentos políticos. (JB – 29/08/95)

O terror foi a estratégia usada para garantir o

ambiente necessário para a consolidação de

governos e políticas ditatoriais,

impopulares e injustas.

Esta perspectiva, que promove uma intencional descontextualização político-econômica no quadro que produziu ditaduras militares em série em todos os países do cone sul é a que parece nortear o filme de Bruno Barreto, onde tudo parece girar em torno de alguns jovens idealistas que pegaram em armas e provocaram uma dura reação militar. Uns e outros são responsáveis pelo que se seguiu: O torturador em conflito – justificando a necessidade de seu novo ofício à esposa incrédula – e o guerrilheiro Jonas – ameaçando torturar o embaixador – são apresentados como as duas faces da mesma moeda. Como analisa Franklin Martins, em artigo no jornal O Globo de 10/05/97: “É notável o esforço para dissolver as fronteiras entre os dois lados, mostrando-os como assemelhados. Com isso, tenta-se afastar a necessidade de que o cineasta, atrás da câmara, e o espectador, em frente da tela, tenham de se colocar diante dos dilemas da época. Se todos os gatos são pardos, e ninguém está errado, para que tomar posição? Em vez de reflexão, digestão. É a receita de uma época: a atual. Não era a dos tempos que o filme pretendeu retratar”.

Naqueles tempos, o mundo estava dividido em dois grandes blocos: de um lado, o mundo capitalista cristão representado pelos EUA e de outro, o perigo comunista ateu, identificado com a URSS. Neste contexto, a ideologia de segurança nacional, jogava um papel fundamental, justificando a repressão a qualquer um que questionasse a ordem vigente. Visava não somente a eliminação física dos opositores ativos do regime – os subversivos – mas a disseminação do medo, imobilizando e calando toda sociedade. Com os canais políticos tradicionais obstruídos, alguns pegaram em armas. Não foram os únicos a conhecer o inferno da tortura. O terror não foi um fato aleatório, excesso ou excessão episódica, nem se deveu a traços psicopatológicos de uma dúzia de torturadores, já nos alertava Hélio Peregrino, em 1985. O terror foi a estratégia usada para garantir o ambiente necessário para a consolidação de governos e políticas ditatoriais, impopulares e injustas. As ditaduras orientadas por militares americanos, criaram uma espécie de laboratório de produção de dano irreversível. Além de informação ou confissões visavam a quebra exemplar de toda e qualquer resistência atual ou futura dos presos. Seus filhos, pais e companheiras foram também torturados ou lhes assistiram as torturas. Alguns, foram supliciados até a morte, e tiveram seus corpos desaparecidos, estendendo a tortura aos familiares e amigos que, em vão, tentavam localizá-los e por muito tempo, negaram-se a realizar o processo de luto, como única forma de resistência ao esquecimento imposto pelas autoridades.

Como medir as marcas, os efeitos que tais violências exercem até hoje? Como se exigir levianamente que se vire a página, se essas histórias ainda não encontraram espaço na história oficial? Um dos mais perversos efeitos desse silenciamento é que o dano, ao ser mantido em segredo e transformado em problema individual, aprofunda o isolamento, vitimiza e faz funcionar um movimento de despotencialização política.

Contribuir para isso, sob qualquer pretexto e em qualquer medida, quando se tem acesso aos meios e à mídia, é optar pela conivência, quando se podia utilizá-los para o esclarecimento.

A tortura não é ato de guerra, é crime de guerra, crime contra a humanidade! A violação do direitos humanos essenciais não atinge apenas as vítimas diretas, compromete toda a sociedade. Mas, se a sociedade não se percebe como atingida – por desconhecer informações ocultas até hoje – e não reconhece o dano, este continuará reduzido ao espaço privado da vida familiar dos ditos atingidos pela manto da impunidade, continuarão a fazer vítimas e a comprometer a democracia.

*Equipe de profissionais responsáveis pelo projeto de apoio médico-psicológico e de reabilitação física e social para vítimas da tortura.

As duas Mortes do Companheiro Jonas

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