
Boletim
de Capacitação 01
OUTUBRO DE 2001
Editorial
Educação
em Direitos Humanos na América Latina
Vera
Candau
Diretoria
da Rede
Editorial
O
debate sobre os direitos humanos e cidadania ganha força,
principalmente, no momento de conflitos, de confrontos religiosos
e culturais, em que vivem as nações
O
mundo clama por paz, no entendimento da mesma enquanto ausência
de lutas, de violências nas suas diferentes formas de manifestação,
mas, essencialmente, por uma paz
que materialize o respeito às leis e garanta uma maior eqüidade
social.
A
paz não é algo aleatório, ela é construída, conquistada e está
relacionada ao desenvolvimento econômico, social e cultural.
A
educação para os direitos humanos e a construção da cidadania
tem como ponto de partida e objetivo final a construção de uma
sociedade mais justa, igualitária, calcada nos valores de tolerância,
de não discriminação e de paz entre os homens.
A
Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos, em parceria com
o Movimento Tortura Nunca Mais e o Ministério da Justiça, ao propor
a efetivação de um Projeto de Capacitação em Rede, acredita
que este é um dos caminhos para a construção de uma cultura de
paz, sedimentada na materialização do Estado Democrático de
Direito.
DIREITOS
HUMANOS PRESENTES EM SEMINÁRIOS
DE CAPACITAÇÃO
A
Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos (RBEDH), em
parceria com o Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco e o
Ministério da Justiça, através da Secretaria de Estado de
Direitos Humanos/Departamento de Promoção dos Direitos Humanos,
está realizando uma capacitação em rede através do projeto Construindo
a Cidadania: formação de educadores e lideranças. O
projeto, voltado para a capacitação de profissionais que atuam
em organizações governamentais e não-governamentais, lideranças
comunitárias e gestores públicos, tem entre seus objetivos:
estabelecer redes de agentes multiplicadores; capacitar na defesa dos direitos
humanos e possibilitar a difusão das informações de forma
articulada. Seu desenvolvimento ocorrerá através de três seminários
de capacitação, a serem realizados nas capitais do Pará, de 22
a 25 de novembro, Santa Catarina, e Pernambuco, . As capacitações
abordarão temas como: Direitos Humanos no Brasil e na América
Latina, Educação em Direitos Humanos e Violência Urbana, na Escola
e na Família. As organizações
e pessoas interessadas em participar podem se inscrever pelo site
www.dhnet.org.br e nas próprias capitais dos Estados pelos
telefones: Belém (91) 241-5491 ou 241-9931 (Oswaldina Santos);
Florianópolis e
Recife (81) 3245-8205 (Margareth Barreto).
Esse
projeto vem dar continuidade ao conjunto de ações e trabalhos
realizados pela RBEDH, que tem buscado a formação de educadores
e lideranças promotoras de
direitos humanos na perspectiva de formar cidadãos críticos e
conscientes de seus direitos e deveres no sentido mais coletivo.
Vera
Maria Candau
Em
1999 o Instituto Inter-Americano de Direitos Humanos (IIDH) da
Costa Rica realizou uma pesquisa orientada a fazer um balanço crítico
da educação em direitos humanos nos anos 90 na América Latina.
Em novembro deste mesmo ano, foi realizado um seminário promovido
pelo IIDH em Lima, Peru, para discussão e levantamento de
aspectos e questões considerados importantes para o
desenvolvimento da educação em Direitos Humanos no continente,
no milênio que estamos começando. Assinalarei alguns dos temas
que considero de especial importância.
?????£??????font face="Arial" size="2" color="#000000">span style="mso-bidi-font-size: 10.0pt; mso-fareast-font-family: MS Mincho">Os
participantes construíram um consenso em torno da afirmação de
que a promoção de uma educação em Direitos Humanos hoje exige
que sejam trabalhadas três dimensões básicas.
A
primeira diz respeito à formação de sujeitos de direito. A
maior parte dos cidadãos latino-americanos tem pouca consciência
de que são sujeitos de direito. Esta consciência é muito débil,
as pessoas – inclusive por ter a cultura
latino-americana uma forte marca paternalista e autoritária –
acham que os direitos são dádivas. Os processos de educação em
direitos humanos devem começar por favorecer processos de formação
de sujeitos de direito, no nível pessoal e coletivo, que
articulem as dimensões ética, político-social e as práticas
concretas.
Outro
elemento fundamental na educação de direitos humanos é
favorecer o processo de "empoderamento" (“empowerment”),
principalmente orientado aos atores sociais que historicamente
tiveram menos poder na sociedade, ou seja, menos capacidade de
influir nas decisões e nos processos coletivos. O "empoderamento"
começa por liberar a possibilidade, o poder, a potência que cada
pessoa tem para que ela possa ser sujeito de sua vida e ator
social, alçando também uma dimensão coletiva, favorecendo a
organização dos grupos minoritários e sua participação ativa
na sociedade civil.
O
terceiro elemento diz respeito aos processos de transformação
necessários para a construção de sociedades verdadeiramente
democráticas e humanas. Um dos componentes fundamentais destes
processos se relaciona a "educar para o nunca mais",
resgatar a memória histórica e romper a cultura do silêncio e
da impunidade que ainda está muito presente em nossos países.
Quanto
às estratégias metodológicas a serem utilizadas, estas têm de
estar em coerência com as finalidades acima assinaladas, o que supõe a utilização de
metodologias ativas, participativas, assim como diferentes
linguagens. Exigem, no caso da educação formal, a construção
de uma cultura escolar diferente, que supere as estratégias
puramente frontais e expositivas, assim como a produção de
materiais adequados, que promovam a interação entre o saber
sistematizado sobre direitos humanos e o saber socialmente
produzido. Devem ter como referência fundamental a realidade e
trabalhar diferentes dimensões dos processos educativos e do
cotidiano escolar, favorecendo que a cultura dos direitos humanos
penetre todo o processo educativo.
Trata-se,
portanto, de transformar mentalidades, atitudes, comportamentos,
dinâmicas organizacionais e práticas cotidianas dos diferentes
atores sociais e das institucionais educativas. Não é difícil
promover eventos, situações esporádicas, introduzir alguns
temas relacionados com os Direitos Humanos. O difícil é promover
processos de formação que trabalhem em profundidade e favoreçam
a constituição de sujeitos e atores sociais, no nível pessoal e
coletivo.
*
Professora do departamento de Educação da PUC-Rio e membro da
equipe de coordenação da Novamerica (ong)
(Brasil).
ENTREVISTA/Margarida
Genevois
Carioca, com formação na área de sociologia e política
pela Universidade Nacional (RJ), pela Escola de Sociologia e Política
(SP) e pela Universidade de Sorbone,
Margarida Genevois é participante ativa na defesa dos
direitos humanos, com destaque para seu trabalho na Comissão de
Justiça e Paz de São Paulo, a partir de 1973. Com várias
atividades sociais realizadas, entre as quais o trabalho com
mulheres de operários e colonos da Fazenda São Francisco, em
Campinas (SP), Margarida tem
recebido diversas condecorações, como a Ordre National du Mérite
(1980), concedida pelo governo francês, e o IV Prêmio Nacional
de Direitos Humanos (1998), concedido pelo governo brasileiro. É
uma mulher forte e decidida, de fala doce e sorriso
cativante. Dedicou sua vida a lutar pelos seus ideais e manteve a
coerência em suas atitudes. Essa é a melhor descrição de
Margarida Genevois para aqueles que não a conhecem. Com sua força
e persistência continua lutando para mudar mentes e corações e
com seu exemplo continua estimulando a vivência cotidiana dos
direitos humanos. Na edição deste
boletim de capacitação a RBEDH presta uma homenagem pela sua
grande contribuição na defesa e ampliação dos direitos
humanos, e aproveita para
apresentar essa entrevista, em que
Margarida Genevois fala, entre outras coisas, da RBEDH – ONG que
fundou e presidiu até 2000 –,
da importância da educação em direitos humanos e dos desafios
desse trabalho.
JR - Como
surgiu a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos (RBEDH)
e qual a sua finalidade?
Margarida
Genevois –
Nossa maior preocupação foi ser útil e prestar serviços,
buscando o modo mais eficiente de fazê-lo.
Em contato com a SERPAJ de Montevidéu, ONG fundada pelo educador
Luis Perez Aguirre, conhecemos o trabalho que se fazia no Uruguai
e em vários países da América Latina: a Educação em Direitos
Humanos. O projeto nos pareceu muito interessante e se tornou a
prioridade de nossas ações. A RBEDH quer congregar entidades que
se interessam pelos Direitos Humanos, que busquem os meios e
possibilitem o reconhecimento, a defesa e a promoção dos
Direitos Humanos para a construção de uma sociedade baseada no
respeito à dignidade da pessoa humana e na justiça social.
JR
– Qual a importância do trabalho da RBEDH no contexto social do
país?
Margarida
Genevois – A RBEdH luta pela formação de verdadeiros cidadãos,
conscientes de suas responsabilidades na construção de uma
sociedade justa e democrática. Para alcançar essa sociedade não
bastam novas leis, é preciso que todas as pessoas tenham consciência
dos seus direitos e deveres como cidadãos e da obrigação de
participar da construção do Bem Comum. A RBEDH, através dos
seus cursos, tenta despertar essa consciência cívica, mudar a
mentalidade egoísta, combater a indiferença e a intolerância,
mostrando que todos somos iguais, com os mesmo direitos. Só haverá
Paz nas sociedades quando baseada na justiça e no respeito ao
outro. A RBEDH quer fazer refletir, “mudar mentes e corações”.
JR
– Qual o perfil das entidades que integram a RBEDH?
Margarida
Genevois - As
entidades que compõem a RBEDH são muito variadas. O ponto comum a
todas é a concepção de que respeito aos direitos humanos é
essencial para qualquer nível de trabalho social.
JR – Por que
a necessidade no Brasil de uma educação que priorize os valores
relacionados à cidadania?
Margarida
Genevois – A
democracia exige a transformação do cidadão num ator político,
crítico, consciente, participante, que supere
o papel de mero espectador e que pense
comunitariamente. Vivemos no Brasil, no mundo todo, uma grave
crise de valores. Os valores antigos, e mesmo os valores
religiosos,
já não têm o mesmo peso na família, nas relações humanas. E
as dificuldades da vida cotidiana são inúmeras: desemprego,
concorrência, consumismo desenfreado. Para mudar essa realidade
esses valores são fundamentais. Porque Direitos Humanos não se
vive de vez em quando nas grandes ocasiões, mas na vivência
cotidiana, nos pequenos atos de cada dia, devem impregnar todas as
ações e gestos, devem ser como que um “ estado de espírito”.
JR
– Quais são os desafios atuais da RBEDH?
Margarida
Genevois – A
Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos é uma organização
suprapartidária, sem quaisquer vínculos religiosos;
luta pela valorização do ser humano, por uma
cidadania ativa e participante, base da uma sociedade justa e
democrática. A RBEDH é uma ONG que acredita no Brasil e nos
brasileiros. Nossas dificuldades têm
sido muitas: falta de voluntários
para a realização de cursos, problemas financeiros, mas os
resultados obtidos nestes 7 anos de atividades foram muito
compensadores. Para crescermos precisamos juntar forças.
TOME
NOTA
A
Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos está com novo
endereço e telefone. Com a mudança da coordenação-geral para
Pernambuco, agora a Rede tem sede na Estrada do Bongi, casa 05,
Bongi, Recife/PE – CEP: 50.830.260. Fone: (81) 32458205. Os
contatos também podem ser feitos pelo site: www.dhnet.org.br e pelo e-mail:
trevoam@terra.com.br.
EDUCAÇÃO
EM DIREITOS HUMANOS : DE QUE SE TRATA?
Maria
Victoria Benevides
EXPEDIENTE:
Diretoria
da Rede:
Aida
Monteiro
Coordenadora-geral
Maria
Victoria Benevides
Vice-coordenadora
Roberto
Monte
Secretário
Amparo
Araújo
Tesoureira
Conselho:
Dom
Paulo Evaristo Arns
Frei
Betto
Margarida
Genevois
Alfredo
Bosi
Marco
Antonio Rodrigues Barbosa
Dalmo
Dallari
Fábio
Konder Comparato
Belisário
dos Santos Júnior
Antonio
Carlos Ribeiro Fester
Lygia
Bove
Margarida
Genevois
Maria
Dulce Sigrist
Maria
Luíza Faraone
Nazih
Meserani
Zita
Bressane
Endereço: Estrada do Bongi, casa
05, Bongi, Recife/PE – CEP: 50.830.260
Fone:
(81) 32458205
E-mail:
trevoam@terra.com.br
|