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Imperialismo e cosmopolitismo

Luiz Gonzaga Belluzzo

 

Marx apostava na homogeneização do espaço econômico mundial a partir da expansão das forças produtivas e das relações de produção capitalistas, movendo-se do centro para a periferia. O capital duplamente constrangido - de um lado pelo impulso irrefreável à acumulação e de outro pelo encolhimento relativo das oportunidades de valorização nos países centrais - desborda para áreas menos desenvolvidas. "De te fabula narratur" falava Marx, de forma otimista, do futuro dos países atrasados, espelhado no presente que observava na Inglaterra.

Marx e Engels defendiam o comércio livre entre as nações. Viam nele o instrumento da "mercantilização" universal e, portanto, de introdução das relações e forças produtivas capitalistas nos países atrasados, capaz de eliminar os resíduos do Ancien Règime. Marx terminou o seu discurso, pronunciado em 1847 na Associação Democrática de Bruxelas, ?????AAE?E??????G????? denunciando o caráter conservador do protecionismo e proclamando: "o sistema de livre-comércio impulsiona a revolução social. É apenas nesse sentido, senhores, que eu voto a favor do livre-comércio."

Os fundadores do "socialismo científico" estavam convencidos de que a revolução social era iminente na Europa, convicção que seria fortalecida pelos acontecimentos de 1848 e pela Comuna de Paris em 1871. Mas os episódios de 1871 nas ruas de Paris foram uma resposta ao desfecho da Guerra Franco-Prussiana, a primeira manifestação de uma nova etapa do capitalismo, marcada sobretudo pela presença da Alemanha, potência emergente, disposta a ameaçar a supremacia industrial inglesa.

A "Era do Imperialismo" estava apenas nascendo. O pensamento socialista levou algum tempo para cuidar das implicações do surgimento dessa nova forma de existência do capitalismo, muito mais complexa do que poderia ser deduzido das "leis de movimento" deste modo de produção.

Lenin, apoiado nos estudo de Hobson sobre o Imperialismo e de Hilferding sobre o capital financeiro, concluiu que a compreensão do fenômeno envolvia a análise de algumas questões fundamentais. A rivalidade entre Estados Nacionais expansionistas e colonialistas - empenhados na "repartição do mundo", destinada a ampliar e manter a submissão da franja periférica - estava amparada na predominância do capital financeiro e em sua capacidade de exacerbar a concorrência e produzir o monopólio. Daí a ?????AAE?E??????G????? centralização e a concentração do capital, impulsionando o aumento das escalas de produção, a formação de enormes massas sob o mesmo comando capitalista e alentando o surgimento das camadas parasitárias e rentistas.

A intervenção estatal na esfera econômica tornou-se crucial para as burguesias nacionais em conflito, modificando as relações entre a economia e a política. O desnudamento do "político" escondido sob o véu do "automatismo das leis de movimento" capitalista suscitaria, mais tarde, a visão inovadora de Gramsci que , nos Cadernos do Cárcere, entre outras coisas, iria tratar das inter-relações necessárias entre as "particularidades nacionais e os processos de internacionalização capitalista". O desastre da Depressão e o Nazi-Facismo encerraram, de forma menos inesperada do que assustadora, o primeiro ciclo da economia política do imperialismo.

O pós-guerra pode ser visto como a história de uma derrota: os que emergiram vitoriosos da grande batalha social, política e militar, acabaram sucumbindo à força do capitalismo que imaginaram apaziguar com o reformismo keynesiano.

Nos 30 anos gloriosos, o rápido crescimento das economias capitalistas esteve apoiado numa forte participação do Estado, destinada a impedir flutuações bruscas do nível de atividades e a garantir a segurança dos mais fracos diante das incertezas inerentes à lógica do mercado. Esta ação de regulação dos mercados e de promoção do crescimento supunha a redução da influência dos condic?????AAE?E??????G?????ionantes externos sobre as políticas macroeconômicas domésticas. Os controles de capitais eram prática corrente e assim, as políticas monetárias e os sistemas financeiros nacionais estavam voltados para a sustentação de taxas elevadas de crescimento econômico. Comandados por políticas monetárias acomodatícias, os sistemas financeiros -incluídos os bancos centrais - funcionavam como redutores de incertezas para o setor privado, que, por sua vez, sustentava elevadas taxas de investimento. O círculo virtuoso entre gasto público, oferta de crédito barato, investimento privado e estabilidade financeira foi a marca registrada da economia da demanda efetiva.

As políticas keynesianas tinham, portanto, o propósito declarado de estimular o acesso à riqueza através do crédito dirigido à acumulação produtiva, com o desiderato de manter o pleno emprego, elevando, em termos reais, os salários e demais remunerações do trabalho. A regulamentação financeira foi a norma em todos os países. Os Estados Unidos recorreram à segmentação dos mercados e à especialização das instituições, buscando proteger os money center banks de eventuais surtos de instabilidade originados nos mercados de capitais. Os países europeus e o Japão construíram sistemas financeiros em que prevaleciam as relações de clientela entre os bancos e as empresas. No Japão, é reconhecida a importância do main bank para o financiamento das altas taxas de acumulação de capital e de inovação das empresas. O caráter insular dos sistemas nacionais de crédito permitia a adoção, pelas autoridades monetárias de normas de operação que ?????AAE?E??????G????? definiam: a) segmentação e especialização das instituições financeiras; b) severos requisitos prudenciais e regulamentação estrita das operações; c) fixação de tetos para as taxas de captação e empréstimo; d)criação de linhas especiais de fomento.

As relações entre os bancos centrais e os bancos privados estimulavam as políticas de direcionamento do crédito e de sustentação da liquidez corrente do sistema bancário.

Os sistemas de administração da moeda e do crédito - desenhados à luz da experiência de instabilidade monetária e do desastre da grande depressão dos anos 20 e 30 - tinham como objetivo principal garantir taxas elevadas de crescimento do produto, do emprego e dos salários reais, juntamente com a política fiscal e as regras de formação dos rendimentos do trabalho.

Seria conveniente relembrar que a rápida recuperação das principais economias européias e o espetacular crescimento do Japão foram causas importantes do progressivo desgaste das regras monetárias e cambiais acertadas em Bretton Woods. A concorrência das renovadas economias industrializadas da Europa e do Japão e o fluxo continuado de investimentos americanos diretos para o Resto do Mundo determinaram, desde o final dos anos 50, um enfraquecimento do dólar, que funcionava como moeda-central de sistema de taxas fixas (mas ajustáveis) de câmbio. O enfraquecimento do dólar provocou reiteradas tentativas de "reforma" do sistema de Bretton Woods ,mas todas elas terminaram na resistência ameri?????AAE?E??????G?????cana em aceitar uma redução do papel de sua moeda no comércio e na finança internacionais. As decisões políticas tomadas pelo governo americano, ante à decomposição do sistema de Bretton Woods, já no final dos anos 60 , foram ampliando o espaço supranacional de circulação do capital monetário.

Diga-se que o establishment financeiro americano jamais se conformou com a rigorosa regulamentação imposta aos bancos e demais instituições não-bancárias pelo Glass-Steagall Act no início dos anos 30. Foi também grande a resistência dos negócios do dinheiro às propostas de Keynes e de Dexter White para a reforma do sistema monetário internacional. Na verdade, as políticas americanas de resposta às ameaças contra a hegemonia do dólar estavam associadas à recuperação do predomínio da alta finança nas hierarquia de interesses que se digladiam no interior do Estado plutocrático americano.

As relações umbilicais entre a alta finança e a política externa americanas não são novas nem desconhecidas. Os Estados Unidos emergiram da Primeira Guerra Mundial (1914/18) como os credores do mundo e o Banco Morgan transformou-se no braço financeiro da política internacional de Washington. Para não vender gato por lebre, seria mais exato dizer que a política externa do Estado americano era um apêndice dos interesses financeiros do Morgan.

Os funcionários do Morgan comandaram os empréstimos destinados a garantir reservas em moeda forte para o plano de estabilização da Alemanha em 1924 e para a França em 1926. A partir daí?????AAE?E??????G?????, o Banco Morgan tornou-se o carro chefe da enxurrada de empréstimos para a Europa e América Latina (inclusive para o Brasil). Isso sem contar os malucos da Bolsa que tomavam grana dos bancos para aplicar em ações da "nova economia" daquele tempo: a aviação, radiofonia e energia elétrica.

Os desfecho dessa brincadeira foi a catastrófica depressão de 1929 com seu séquito tenebroso de desemprego, falências e destruição da riqueza.

A história política e econômica do planeta, desde meados da década dos 70, registra, como já foi dito, a intensificação das pressões dos Estados Unidos pela liberalização financeira. Isto significa, como muitos já compreenderam, submeter, mais uma vez, a "economia global" ao controle despótico do capital financeiro americano e à supremacia do dólar como moeda universal.

Para executar esses desígnios, a plutocracia de Tio Sam vem usando métodos coletivistas. Ao invés de um grande banco privado, como o Morgan, os instrumentos de controle e dominação de hoje são coletivos, exercidos através dos organismos multilaterais como o FMI, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio. Isso, aliás, os observadores mais atentos e independentes sabem há muito tempo. O Tesouro americano e Wall Street transformaram o FMI no PMI, ou seja, numa Polícia Financeira Internacional a serviço da Grande Especulação.

Não foi por acaso, aliás, que os alemães juntaram-se aos franceses, italianos, dinamarqueses, bel?????AAE?E??????G?????gas etc.. para acelerar a entrada em vigor da moeda única. A constituição de um espaço monetário unificado na Europa, além das vantagens comerciais e de integração produtiva já conhecidas, é condição para o desenvolvimento de um mercado financeiro capaz de contrabalançar a força da alta finança americana. O conflito pela supremacia monetária - desnecessário dizer - é uma luta pelo controle da riqueza global. No capitalismo, a riqueza das nações e dos indivíduos só ganha existência econômica e, portanto, social, quando é avaliada sob a forma monetária nos mercados apropriados. Na realidade, não há critérios firmes, fundamentais, ou necessários para a avaliação das várias modalidades de riqueza, a não ser a sua imaginada capacidade relativa de atrair, no futuro, dentro de certo prazo, um fluxo líquido de receita monetária.

Em tempos de euforia, como os de hoje, as alucinações da nova economia atropelam os cálculos prosaicos da matemática financeira. O economista inglês Peter Gowan resumiu as relações entre a produção e a finança nas economias "de mercado": o setor produtivo é determinante porque só ele é capaz de gerar o novo valor que vai ser acumulado pelos proprietários do capital; o setor financeiro é dominante porque ele vai decidir o valor da riqueza acumulada e o destino dos novos fluxos de crédito.

Na aurora do século XXI, a concorrência capitalista volta a se realizar através do comando do capital-dinheiro autonomizado e da rivalidade entre as grandes empresas amparadas por seus Estados Nacionais. As enormes massas d?????AAE?E??????G?????e capital lançam-se ainda com maior fúria às mega-fusões, à conquista e à "reserva" dos mercados. Mais do que nunca, a concorrência capitalista torna efetiva a sua razão interna que é a de engendrar o monopólio, impor barreiras à entrada de novos competidores, sejam eles empresas ou países. Há, portanto, simultaneamente dinamismo e estagnação, avanço vertiginoso das forças produtivas em algumas áreas e setores, combinado com a regressão e abandono em outras partes.

A globalização se apresenta fundamentalmente como a regeneração das três tendências centrais e inter-relacionadas do capitalismo: 1) a mercantilização acelerada de todas as esferas da vida, inclusive daquelas até agora protegidas (amor, lazer, religião), 2) a universalização da concorrência e 3) a concentração do poder econômico e político.

Isso significa, em primeiro lugar, condicionar o acesso de todos os bens da vida ao impulso cego da acumulação de riqueza sob a forma monetária e abstrata, estreitando o espaço ocupado pelos critérios diretamente sociais, derivados do mundo das necessidades.

Em segundo lugar, a intensificação da concorrência capitalista impõe a redução do tempo de trabalho socialmente necessário, ao mesmo tempo em que acelera o processo de concentração do capital e da riqueza. Isto reverteu as tendências a uma maior igualdade - tanto no interior das classes sociais quanto entre elas - observadas no período que vai do final da Segunda Guerra até meados dos anos 70. Por isso, na era do capitalismo "?????AAE?E??????G?????turbinado", os bem sucedidos acumulam "tempo livre" sob a forma de capital fictício enquanto para os mais fracos, a "liberação" do esforço se apresenta como a ameaça permanente do desemprego, a crescente insegurança e precariedade das novas ocupações , a queda dos salários reais, exclusão social.

O regime do capital impõe a todos as normas do dinheiro que produz mais dinheiro. Em seu rastro de vitórias, a marcha implacável da riqueza abstrata vem dividindo as sociedades entre um séquito de vencedores e uma multidão de perdedores.

Terceiro, "nova ordem mundial" não é um fenômeno espontâneo. Muito ao contrário: é o resultado do exercício, sem peias, do poder dos Estados Unidos: a normas da mercantilização generalizada e da concorrência universal, apresentadas como forças naturais, refletem, na verdade, a prevalência dos interesses dominantes do país dominante sobre o resto do mundo. As reformas liberais vem sendo impostas aos governos fantoches da periferia pelos organismos internacionais - Banco Mundial, FMI, BID - que, por sua vez, funcionam como executores das políticas compatíveis com a preservação da Ordem Americana.

Diferentemente do período clássico, nesta etapa imperialista as circunstâncias são ainda mais desfavoráveis para os sistemas empresariais das regiões mais frágeis: os recursos de poder político, militar e de comunicação estão distribuídos assimetricamente entre os competidores-rivais, brutalmente concentrados em um só país.

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É muito importante compreender as implicações dessa concentração de poderes no campo simbólico e na formação do imaginário social. O mundo se abre para o novo milênio dominado pelo pensamento único. Falo da ideologia globalitária que vem tentando demonstrar a inevitabilidade e a bem-aventurança dos povos submetidos ao delicioso despotismo. Assim Ignatio Ramonet no Le Monde Diplomatique de maio de 2000 chamou este crescente predomínio urbi et orbi das visões, dos valores, dos métodos de pensamento e do estilo de vida americanos. Construídos "com a cumplicidade passiva dos dominados" esses controles suaves e despóticos das mentes e das almas ainda não pode prescindir , no entanto, do uso brutal ou da ameaça de utilização da enorme supremacia militar e dos métodos de espionagem, de suborno, da chantagem midiática ou de coação moral e material.

Sejam quais forem os seus métodos, o conto de fadas da globalização busca afirmar que as questões essenciais relativas às formas de convivência e ao regime de produção à escala mundial estão resolvidas: a democracia liberal e economia de mercado são as derradeiras conquistas da humanidade. Não há mais razão, dizem, para se colocar em discussão questões anacrônicas, como as do conflito entre as classes ou entre os Estados. A palavra imperialismo, com o fim da Guerra Fria, desapareceu do vocabulário das Ciências Sociais. Ramonet no artigo já mencionado afirma que "a América cuidou de controlar o vocabulário, os conceitos e o sentido. Ela obriga a formular os problemas que cria com as palavras que ela ?????AAE?E??????G????? mesmo propõe. Fornece os códigos que permitem decifrar os enigmas que ela mesma criou."

A grande proeza do Presidente Clinton foi, sem dúvida, a construção da Internacional Capitalista, ou seja a imposição dos interesses da alta finança americana, com o aplauso, o apoio e o benefício dos endinheirados do mundo inteiro e de seus ideólogos-economistas.

Às vésperas das celebrações dos 500 anos do Descobrimento, causou grande alvoroço na Terra Brasilis um artigo publicado pelo ex-vice presidente do Banco Mundial, o economista Joseph Stiglitz. O texto versa sobre as tropelias e "barbeiragens" cometidas pelo FMI nos programas de ajustamento que enfia goela abaixo dos países encalacrados em crises financeiras e cambiais. Entre outras coisas, o ex vice-presidente do BIRD afirmou, em sua catilinária, que o Fundo executa as políticas de interesse do Tesouro americano e da clientela de Wall Street.

Com o fim da Guerra Fria o establishment americano perdeu, de fato, qualquer pudor em relação ao uso das instituições ditas multilaterais para promover os seus interesses políticos e econômicos. Desde a queda do Muro de Berlim o poder americano vem sendo acusado de muitas coisas, menos de timidez no exercício de suas razões. Quando não está ocupado em atirar bombas nos adversários recalcitrantes, cuida de enfiar goela abaixo de países aliados e subordinados o receituário econômico aviado em Wall Street.

No prefacio que escrevi para o livro?????AAE?E??????G????? de Moniz Bandeira sobre as relações Brasil-Estados Unidos, procurei mostrar que por aqui, os avatares do imperialismo são momentos em que o pensamento liberal se mostra vigoroso, em que torna-se predominante o cosmopolitismo sans pharse. Esse cosmopolitismo liberal empenha-se a fundo nos misteres de borrar as diferenças entre as situações nacionais, de ocultar e negar a existência de hierarquias e dominação nas relações internacionais, de exaltar as virtudes regeneradoras da concorrência.

Daí recorrência dos apelos à abertura comercial, ao estímulo à entrada do capital estrangeiro para combater a inevitável ineficiência da indústria nacional que deve ser eliminada através da maior exposição à concorrência externa.

Não é por acaso que, tão logo se restabeleçam os circuitos do crédito internacional, as camadas dominantes clamem pela abertura econômica e passem a exaltar as virtudes do financiamento externo. Os endinheirados, os letrados e os bem postos na vida cultivam o cosmopolitismo, enquanto forma de assegurar o caráter universal e líquido de sua riqueza e, subsidiariamente, de expressar uma secular e singular repugnância pelas condições reais do país, especialmente pelas vida miserável das classes subalternas.

Apesar disso, eu afirmava no referido prefácio, nos 50 anos que terminaram no início da década dos 80, a economia brasileira cresceu de forma acelerada e sofreu notáveis transformações, transitando do modelo primário exportador para a etapa industrial. O colapso do capitalismo nos ?????AAE?E??????G????? anos 30, a Segunda Guerra Mundial e as condições excepcionais do imediato pós-guerra favoreceram o avanço da industrialização nacional. O ethos do desenvolvimento nasceu da percepção das camadas empresariais nascentes, do estamento burocrático-militar, de algumas lideranças intelectuais e do proletariado em formação de que o objetivo de aproximar o país das formas de produção e de convivência não poderia ser alcançado através da simples operação das forças naturais do mercado.

O "desenvolvimentismo", enquanto projeto ideológico e prática política nos países da periferia, nasceu nos anos 30, no mesmo berço que produziu o keynesianismo nos países centrais. Uma reação política contra as misérias e as desgraças produzidas pelo capitalismo dos anos 20.

A onda desenvolvimentista e a experiência keynesiana tiveram o seu apogeu nas três décadas que sucederam o fim da Segunda Guerra. O ambiente político e social estava saturado da idéia de que era possível adotar estratégias nacionais e intencionais de crescimento, industrialização e avanço social.

Para desagrado dos monetaristas e conexos, as políticas monetárias e de crédito de então tinham objetivos nacionais, ou seja estavam relacionadas com o desempenho da economia e das empresas localizadas no país No âmbito internacional, as taxas fixas (mas ajustáveis) de câmbio e as limitações ao movimentos internacionais de capitais de curto-prazo impediam a transmissão de choques causadores de instabilidade às taxas de juros doméstic?????AAE?E??????G?????as.

Os resultados, ainda que muito desiguais, não foram ruins. Comparada a qualquer outro período do capitalismo, anterior ou posterior, a era desenvolvimentista e keynesiana apresentou desempenho muito superior em termos de taxas de crescimento do PIB, de criação de empregos, de aumentos dos salários reais e de ampliação dos direitos sociais e econômicos. A moda, então, entre os economistas, sociólogos e cientistas políticos, eram as teorias do desenvolvimento, os modelos de crescimento econômico e o estudo das técnicas de programação e de planejamento.

No caso brasileiro, as forças ditas progressistas foram incapazes de promover as reformas necessárias para levar adiante o projeto de desenvolvimento nacional. O avanço da industrialização foi sendo travado pelas alianças políticas, regionais e de classe que incorporaram os interesses mais retrógrados e reacionários ao bloco desenvolvimentista. Esta circunstância explica a derrota, no imediato pós-guerra, das tendências políticas que almejavam uma maior autonomia nacional, o que não significava, como pretende o cosmopolitismo conservador, a busca de um economia autárquica. Tratava-se de manter sob controle nacional, estatal ou privado, os setores decisivos do ponto de vista financeiro e tecnológico, estratégicos no que respeita à governança da economia e às relações inter-setoriais e inter-industriais.

A repactuação continuada do compromisso com o cosmopolitismo conservador foi, na verdade, responsável pela trajetória que levou o capitalismo ?????AAE?E??????G?????brasileiro aos impasses que o imobilizam atualmente: a deformação sistemática da vontade popular, imposta por um sistema político oligárquico e intrinsecamente anti-republicano; a espantosa persistência da estrutura agrária que está na origem da reprodução e ampliação das desigualdades sociais, transportadas do campo para a cidade; o patrimonialismo da grande empresa industrial, o rentismo do sistema bancário, a eterna revolta contra o pagamento de impostos por parte dos endinheirados. É daí que decorre a eterna dependência do financiamento externo, a desordem financeira do Estado, o protecionismo excessivo, a passividade tecnológica, o atraso organizacional e a posição subordinada da grande empresa privada nacional, para não falar no alegado crescimento do estatismo.

O engano de gente bem intencionada como Stiglitz está em imaginar que as políticas do Fundo ou os receituários nefastos do Consenso de Washington poderiam vingar sem a colaboração decidida das burguesias parasitárias locais, sempre ansiosas por "dolarizar" a sua riqueza.

Os brasileiros lembram-se ou pelo menos deveriam lembrar-se de que anos 80 foram marcados pelo predomínio das políticas patrocinadas pelo FMI, convocado para socorrer os graves distúrbios que acometiam os balanços de pagamentos do país que se enfiara, aos longo das duas décadas anteriores, na aventura do endividamento externo. A missão principal do Fundo era a de impedir o colapso dos sistemas bancários - entre eles o norte-americano - que tinham, em suas carteiras, uma proporção elevada de em?????AAE?E??????G?????préstimos destinados à periferia.

Os programas orientados pelo Fundo Monetário Internacional conseguiram, diga-se, resultados expressivos na redução rápida dos déficits em transações correntes dos países devedores, pavimentando o caminho para a recuperação das carteiras dos bancos comerciais. As políticas do Fundo contaram, então, com a importante colaboração do desempenho da economia americana. Com a recuperação iniciada no terceiro trimestre de 1982, estimulada pela queda dos juros e por um déficit público elevado, a economia dos Estados Unidos, com o dólar sobrevalorizado, gerou demanda abundante para o resto do mundo.

Os bancos internacionais, por sua vez, puderam se beneficiar, tanto do trabalho de coordenação executado pelo Fundo, quanto da formidável expansão da dívida pública norte-americana. Os papéis do governo americano deram mais qualidade aos ativos dos bancos credores, num momento em que a dívida latino-americana sofria forte desvalorização. Foram beneficiados ainda pela rápida melhoria das contas externas dos países devedores, o que assegurava o pagamento dos juros. Os programas do Fundo Monetário cumpriram, portanto, a finalidade implícita em sua concepção: reduzir ao mínimo os riscos de uma crise financeira à escala global, evitando, assim, a contaminação das praças que formam o centro nervoso do sistema internacional de pagamentos e de administração de grandes volumes de capital-dinheiro.

Diversas foram as conseqüências para os devedores. Concebidas para maxim?????AAE?E??????G?????izar os excedentes comerciais e minimizar o aporte de novos recursos pelos bancos credores, as políticas de ajustamento engendraram uma forte transferência de recursos para o exterior e, ao mesmo tempo, no âmbito interno das economia endividadas, "quebraram" o setor público para manter a riqueza dos privados.

Senão vejamos: as reiteradas tentativas de desvalorização do câmbio e as medidas de sustentação do ganho real através das minidesvalorizações diárias incitavam o ânimo da inflação e provocavam o crescimento, em termos reais, do valor, em moeda local, do estoque da dívida externa, quase toda ela de responsabilidade pública; de outra parte, a geração de excedentes comerciais pelo setor privado envolvia a compra destas divisas pelo setor público, o grande devedor em moeda estrangeira. Na ausência de um ajuste fiscal de porte suficiente para esterilizar os efeitos monetários expansionistas desta operação, o governo era obrigado a emitir dívida pública "dolarizada", ou papéis denominados em cruzeiros com taxas de juros nominais elevadas, que -diante da aceleração inflacionária - revelavam-se insuficientes em termos reais.

Daí a completa desorganização das finanças públicas, o mergulho das taxas de investimento, a espantosa "deformação" da riqueza privada, acumulada sob a forma de dinheiro indexado e, finalmente, a marcha para a hiperinflação. No estágio final, depois de várias tentativas fracassadas de estabilização, avançou célere o processo de "substituição" da moeda local pela divisa estrang?????AAE?E??????G?????eira. Foi isso que abriu caminho, mais tarde, para a adoção dos programas de estabilização com âncora cambial. Estes programas foram acompanhados por uma desastrosa abertura financeira, matriz da regressão industrial e da perda de competitividade dos anos 90.

As políticas perpetradas na "década perdida" dos 80 culminaram na enfraquecimento dos Estados Nacionais da periferia e de suas economias. Estrangulados pelo garrote do Fundo e dos credores e pela resistência dos grupos enriquecidos da sociedade, os projetos de desenvolvimento nacional acabaram por sucumbir completamente à velha e sempre renovada aliança entre o cosmopolitismo patrimonialista e parasitário dos nativos e a finança internacionalizada. Sob os auspícios desse contubérnio e diante da impotência dos derrotados, reinstalou-se no Brasil, em pleno ocaso do século XX, uma democracia de patrícios.

Mas a desorganização dos anos 80, não deve ser interpretada como uma crise que ocorre apenas no interior do pacto oligárquico. Desta vez, apesar das aparências, o estrago foi maior. Por um lado, caducou o consenso das camadas dominantes em torno do objetivo comum do desenvolvimento e de outro aumentaram as pressões das classes subalternas por um reconhecimento integral de seus direitos políticos, sociais e econômicos.

Não foi apenas por conta das mudanças no ambiente internacional que o ideário do liberalismo cosmopolita ganhou força e transformou-se na ideologia dominante do patriciado. Diante da dificuldade de se?????AAE?E??????G????? reconstituir, em novas bases, um objetivo compartilhado, do visível enfraquecimento financeiro e da capacidade coordenadora do Estado, o liberalismo "internacionalista" reaparece como a fórmula mágica da conciliação de interesses no interior das camadas dominantes e, ao mesmo tempo, como método político destinado a bloquear, mais uma vez, o avanço das classes subordinadas na conquista do seus direitos.

No Brasil, o cosmopolitismo conservador empreendeu, no final dos 80 e início dos 90, mais uma vez, a missão de "recolocar o pais nos eixos". Primeiro vieram os coloridos, barulhentos e folgazões, um grupo colegiais em viagem de férias. O progressismo deste pessoal ruidoso invadiu todas as esferas de atividade, sobretudo as pessoais. Os aventureiros duraram pouco. Foram apeados do poder pela indignação da opinião pública. Mas a expulsão dos decaídos não significou o fim das suas idéias e projetos. Como um estandarte tombado, elas foram resgatadas no campo de batalha. Agora seriam empunhadas por mãos sábias e respeitáveis da social democracia brasileira e de seus doutores.

Como o Brasil é um país singular e surpreendente, neste caso, produziu-se uma notável inversão daquela famosa seqüência vislumbrada por Marx no 18 Brumário : a história se manifestou primeiro como Farsa e depois como Tragédia. O solene sucedeu o grotesco.

Nas tragédias, o destino impessoal e inexorável conduz a vida dos homens. Era preciso engatar o país na globalização e em suas modernidades. Primeiro a ?????AAE?E??????G????? estabilização da economia. Um sucesso retumbante. Vejam que o real, com sua majestade, nasceu valendo mais que um dólar. As prateleiras das lojas e dos supermercados ficaram apinhadas de produtos estrangeiros baratos. Havia para todos os gostos e idades. Brinquedos chineses, carros alemães e japoneses, verduras frescas francesas e até berinjela italiana. A indústria, a agricultura e os serviços mudaram rapidamente seus fornecedores, para gozar das vantagens dos equipamentos, peças e componentes mais avançados e mais baratos dos produtores estrangeiros.

Melhor que tudo: toda esta festança foi financiada com dinheiro emprestado lá fora. Haja progressismo. Mas o que conta mesmo é a imaginação: nem bem nos livramos de um e começamos a empilhar outro alentado passivo externo. Desta vez, preste muita atenção, você aí, que anda na contramão, não é aquela dívida perniciosa contraída pelo Estado perdulário. Não! É uma dívida saudável, contratada por consumidores que maximizam sua utilidade e melhoram seu bem estar e por produtores que incrementam sua produtividade e eficiência. Isto para não falar dos estrangeiros que vêm por aqui comprar a preço de banana as empresas locais, tanto privadas quanto públicas.

Se o negócio é privado, não há porque se preocupar, dizem os sabichões. As decisões privadas, eles sustentam, ao contrário das públicas, são sempre racionais : se um agente toma emprestado é porque do outro lado da operação está a aquisição de um ativo capaz de gerar os recursos necessários para pagar a dívida.

Assim iam as comemorações. Até que os argumentos fantásticos e fantasiosos começaram a bater contra a realidade das turbulências financeiras internacionais e mudanças de humor dos financiadores. As conseqüências da má vontade dos credores foram logo descobertas: baixo crescimento da economia, desemprego, o estreitamento das oportunidades e, de quebra, vulnerabilidade crônica do balanço de pagamentos./font>

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