Gregório Bezerra


Declaração 

Soube da inclusão do meu nome no rol dos presos políticos que devem ser libertados em troca da entrega, vivo, do Embaixador norte-americano, pelo rádio. Não contribui para que tal coisa acontecesse. Estou preso a mais de cinco anos, sem contactos com ninguém, a não ser com meus familiares. Por uma questão de princípio, devo declarar que, embora aceitando a libertação, nessas circunstâncias, discordo das ações isoladas, que nada adiantarão ao desenvolvimento do processo revolucionário.


Respeito o ponto de vista daqueles que impuseram à ditadura a forma de libertar inúmeros compatriotas, que sofrem no cárcere do atual regime entreguista que vem sacrificando a vida e a liberdade do nosso povo. Mas me mantenho firme na convicção de que somente a união de todas as camadas e classes sociais não comprometidas com a ditadura entreguista é que decidirá a sua instauração no Brasil de um regime de plena liberdade, de livre desenvolvimento econômico, de paz e nacionalismo. Só o proletariado, o campesinato, as camadas urbanas da classe média, os estudantes, os intelectuais, o clero, progressistas, os setores da burguesia nacional não comprometidas com o imperialismo, sem excluir camadas das forças armadas que se opõem à atual ditadura, terão força suficiente para implantar no Brasil uma verdadeira democracia, aceitando a minha libertação, faço questão de declarar que não abdicarei jamais dos princípios marxistas-lenilistas, que orientam a luta da massa contra as forças da exploração e do imperialismo longe do Brasil, farei tudo para participar da luta do nosso povo por sua final libertação. Esta a declaração que julgo dever fazer, no momento em que sou posto em liberdade. Exijo, como condição para aceitá-la, que ela seja publicada na íntegra pela imprensa brasileira. Não quero, com minha atitude, pôr em risco a vida dos demais presos políticos a serem libertados. Nem desejo, como humanista que sou, que se sacrifique a vida de um homem, ainda que seja o Embaixador da maior potência imperialista da história, uma vez que luto contra um sistema de força, e não contra pessoas, individualmente.

Recife, 6 de setembro-69

Gregório Bezerra