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"Empowerment: uma prática de serviço social"

Pinto, Carla, in Política Social –1998, Lisboa, ISCSP, 1998, pp. 247-264.

O conceito de empowerment tornou-se nos últimos tempos uma das mais requisitadas "buzz words" relativamente à intervenção social. O número de artigos e trabalhos acadêmicos onde se lhe faz referência tem aumentado em várias publicações de âmbito internacional ligadas ao serviço social e à política social. Neste artigo definimos empowerment como um processo de reconhecimento, criação e utilização de recursos e de instrumentos pelos indivíduos, grupos e comunidades, em si mesmos e no meio envolvente, que se traduz num acréscimo de poder - psicológico, sócio-cultural, político e económico - que permite a estes sujeitos aumentar a eficácia do exercício da sua cidadania. O caminho histórico que alimentou este conceito tem sido um caminho que visa a libertação dos indivíduos relativamente a estruturas, conjunturas e práticas culturais e sociais que se revelam injustas, opressivas e descriminadoras, através de um processo de reflexão sobre a realidade da vida humana. Devido a uma certa imaturidade teórica e metodológica, não existe ainda nenhum conjunto de princípios estabelecidos e institucionalizados como sendo os princípios de uma correcta prática deste estilo de intervenção. Contudo, procurámos avançar neste artigo algumas orientações essenciais para este tipo de intervenção.

A abordagem de empowerment remonta a finais da década de 1970, nos EUA, e desde o final dos anos 80 tem vindo a implantar-se como o paradigma dominante do serviço social. Contudo, em Portugal muito pouco se tem reflectido sobre esta orientação teórica e metodológica. Numa breve pesquisa bibliográfica nas revistas "Intervenção Social" 1, "Sociologia: problemas e práticas e "Estudos Políticos e Sociais" em números dos últimos sete anos, não foi encontrado nenhum artigo centrado nesta abordagem. O processo de empowerment é ainda uma opção marginal ou periférica ao discurso institucionalizado da prática do serviço social. Neste contexto, é nosso objectivo divulgar o processo de empowerment e motivar o interesse dos leitores para um aprofundamento deste conceito, bem como incentivar uma reflexão contínua da prática de serviço social.

[...]

7. A expansão da concepção de cidadania

Por último, Simon refere os movimentos de expansão das noções e prática de cidadania. A cidadania é uma construção social dinâmica que se reporta a conjunto de direitos e de deveres que um membro de uma comunidade o sociedade possui enquanto tal. Segundo a teoria de T.H. Marshal, o status de cidadania comporta três elementos ou dimensões: civil, política e social (Barbalet 1989, Simon 1994). Estes três elementos são definidos em termos de direitos e das instituições sociais que dão o sentido e o contexto onde se exercem esses direitos.

1. O elemento civil da cidadania reporta-se ao conjunto de direitos, o direitos civis, necessários ao exercício das liberdades individuais e as instituições a eles ligadas são a Lei e o sistema judicial.

2. O elemento político é constituído pelos direitos que asseguram a participação no exercício do poder político, desde o voto à eleição para cargos públicos, e é contextualizado nas instituições parlamentares.

3. Por fim, o elemento social da cidadania é constituído pelos direitos que defendem a participação no nível de vida predominante numa dada sociedade e na construção e usufruto do seu património social. Este elemento encontra-se ligado às instituições relativas ao sistema educativo e ao Bem Estar Social.

Estes três elementos da cidadania apresentam desenvolvimentos históricos independentes e inter-relações nem sempre harmoniosas. No contexto do Estado-Nação inglês, os elementos da cidadania apresentados por Marshal surgiram em tempos diferentes, desenvolvendo-se primeiro a cidadania civil, no século XVIII das Luzes e da Razão, das revoluções da "Liberdade, Igualdade e Fraternidade", aparecendo depois a necessidade de se desenvolver a cidadania política durante o século XIX e finalmente expandir-se a cidadania social durante o século XX, o século dos Estados-Providência. Foi um processo de desenvolvimento durante o qual se foi observando que os direitos que iam sendo conseguidos não eram suficientes para debelar ou corrigir as injustiças e problemas sociais. Esta situação revelava que o poder para o exercício e defesa desses direitos era claramente insuficiente para a maioria da população da sociedade, sem os meios materiais e o saber necessários para fazer valer os seus direitos. (Barbalet 1989, Simon 1994).

Relativamente aos desenvolvimentos do conceito de cidadania, consideramos poder afirmar que seguiram fundamentalmente duas tradições: ou foram fruto de longas lutas sociais pela obtenção e defesa de direitos, ou foram dádivas vindas do alto da hierarquia de poder, sem que fossem observadas grandes movimentações sociais nesse sentido. No primeiro caso estamos perante concepções activas da cidadania enquanto que no segundo caso estamos face a uma visão passiva da cidadania, o que, a nosso ver, constitui uma cidadania incompleta, sem um real envolvimento no exercício dos direitos contemplados pelo status de cidadão.

Para Marshal, a expansão dos direitos de cidadania tem lugar através do conflito no seio da sociedade civil. Esta perspectiva de conflito foi adoptada por largos segmentos de profissionais que seguem uma abordagem de empowerment. Efectivamente, a mudança trazida pelo processo de empowerment pode ser entendida de três formas essenciais (Simon 1994):

a) necessariamente como conflito entre os que controlam a divisão do poder e dos recursos e aqueles que são marginalizados e destituídos nesse processo. Esta é uma visão essencialmente social do processo de empowerment. O papel do profissional consiste em preparar clientes em situação de disempowerment para lutarem por uma divisão mais justa dos recursos e defenderem um papel mais válido e activo na sociedade.

b) a mudança é também vista como adaptação, pelos profissionais que seguem o paradigma ecossistémico do relacionamento indivíduos-meio envolvente, baseado nas trocas recíprocas e contínuas. Nesta perspectiva, o papel do trabalhador social consiste em ajudar o cliente a modificar os seus padrões de relacionamento com o meio envolvente de forma a maximizar o crescimento e desenvolvimento de ambas as partes. Neste processo já é dada importância à dimensão psicológica do processo de empowerment.

c) outra forma de entender a mudança é considerá-la como um processo catalítico. Neste caso, é dada maior importância às capacidades interiores dos clientes, indivíduos ou grupos, que são fermentadas e desenvolvidas pelo processo de empowerment. O profissional deve, em primeiro lugar, diagnosticar essas capacidades conjuntamente com o cliente, saber mobilizá-las e desenvolvê-las.

O desenvolvimento histórico da cidadania não é entendido, pelos profissionais de empowerment, como um processo linear e evolucionista, segundo o qual se dá uma acumulação de direitos que passam a ser aceites como garantidos. Pelo contrário, os direitos alcançados devem ser defendidos e exercidos continuamente.

Deste modo, esta abordagem não se preocupa somente com a obtenção de poder, de direitos ou defesas, mas fundamentalmente no exercício do poder.

2.2. Influências recentes (a partir de 1945)

Quando demos um título a este ponto, considerámos que o caminho histórico que alimentou o conceito de empowerment tem sido um caminho que visa a libertação dos indivíduos relativamente a estruturas, conjunturas e prática culturais e sociais que se revelam injustas, opressivas e descriminadoras, através de um processo de reflexão sobre a realidade da vida humana. É nesta perspectiva que entendemos os contributos mais recentes que passamos a referir.

1. Movimentos de cidadania

1.1. Os movimentos pelos direitos cívicos e Poder Negro nos E.U.A.

Como já referimos, os direitos cívicos são direitos relativos à concepção que uma dada sociedade tem do que é inerente à pessoa humana, à sua dignidade, à sua liberdade e busca da felicidade. Os modernos movimentos sociais pelos direitos civis, que se expandiram um pouco por todo o mundo na segunda metade do século XX e com especial notoriedade nos E.U.A., promoveram o desenvolvimento da cidadania e constituíram eles próprios fontes alternativas de poder, na ausência dos direitos de cidadania que defendiam (Barbalet 1989). Efectivamente, os movimentos sociais pelos direitos civis, como intervenções organizadas e planeadas, apelavam à mobilizarão e união dos indivíduos e da sociedade civil em actuações com força bastante para terem algum efeito nas estruturas e definições de poder existentes.

Nos E.U.A. os movimentos pelos direitos civis estiveram intimamente ligados à luta pelos direitos civis da minoria negra (e, por arrastamento, de outras minorias étnicas) e teve notoriedade mundial. Seguindo estratégias violentas e segregacionistas (a exemplo dos Black panthers e da Nação do Islão, onde sobressaíram as figuras de Malcom X e de Elijab Muhammad) ou estratégias não violentas e integracionistas (de que foi figura carismática o reverendo Martin Luther King e o pioneiro A. Philip Randolph e a sua marcha sobre Washinton de 1941 por melhores condições contratuais para os trabalhadores negros), o movimento pelos direitos civis norte-americano influenciou fortemente o serviço social e a abordagem de empowerment. Os trabalhadores sociais aproveitaram para a sua prática os ensinamentos, as discussões e as formas de intervenção de todo o movimento, e muitos profissionais envolveram-se directamente em acções integradas na luta pelos direitos civis.

O movimento pela emancipação e pelo poder social, económico, cultural e político da população negra, onde se afirmava a crença nas capacidades desta população para ela própria se libertar de condições opressoras e liderar o processo da sua libertação, e na sua capacidade em se re-definir e em re-encontrar a sua identidade foram integradas na prática e na teoria do empowerment. E tão bem o foram que seria no empowerment de comunidades negras nos E.U.A. que surgiria a obra pioneira de Barbara Solomon atrás referida.

1.2. Feminismo

As várias correntes de pensamento feminista, principalmente a partir da década de 60, deram um grande contributo em termos teóricos e metodológicos para a prática do serviço social segundo esta abordagem. Correntes mais radicais analisaram a raíz da opressão e subalternização da Mulher nas várias instituições sociais e nos vários contextos da vida social, económica e cultural (na família, no trabalho, nos sistemas educativos e de saúde, na religião, nos relacionamentos interpessoais, na auto-imagem). Com base nas conclusões a que foram chegando, as feministas mais radicais foram desenvolvendo e aplicando metodologias de intervenção no trabalho com mulheres e raparigas, que passavam pelo "acordar" da consciência feminina perante a sua subalternidade e alienação, e pela construção de redes de auto-ajuda e iniciativas de base comunitária com as quais se procurava proporcionar às mulheres melhor educação e cuidados de saúde, qualificação profissional e oportunidades de trabalho, independência económica e protecção contra a violência doméstica e sexual.

Outras correntes feministas mais liberais procuraram essencialmente levar a cabo reformas de aspectos discriminatórios dos sistemas legais, educativos e de saúde, no mercado de trabalho e nas várias políticas sociais, através de actividades de lobbing e advocacy (ver ponto 3). Os profissionais de empowerment vieram buscar aos movimentos feministas o know-how de mobilizarão da auto-estima e das capacidades dos clientes (particularmente das mulheres), e técnicas de mobilizarão e direccionamento da revolta individual de cada cliente na mudança de situações de opressão, através da tomada de consciência da situação individual como parte de um problema que envolve outros indivíduos.

1.3. Movimentos de emancipação homossexual

Os movimentos de emancipação homossexual vieram contribuir para o empowerment com outro tipo de experiência de luta pela obtenção e defesa de direitos de cidadania e pela aceitação de populações marginalizadas e mesmo criminalizadas pela sociedade em geral.

Os profissionais de serviço social foram sendo sensibilizados para as consequências psicológicas e sociais da repressão de facetas da personalidade e da culpabilização auto-infligida. É igualmente importante referir a experiência legada pelos movimentos de emancipação homossexual em actividades de advocacy e de lobbing, grupos de auto-ajuda e em campanhas de sensibilização e educação comunitárias.

1.4. Movimento pelos direitos da pessoa deficiente

Os movimentos sociais pelos direitos da pessoa portadora de deficiência trouxeram, à semelhança dos movimentos sociais acima referidos, influências a nível conceptual e metodológico na abordagem de empowerment. Estes movimentos lutaram pelo reconhecimento da pessoa deficiente como cidadã com direitos e deveres e contra a imagem do deficiente como aquele indivíduo do qual se tem pena e que tem de viver da caridade dos outros, incapaz de dar um contributo válido para a sociedade. Foi necessário movimentar a sociedade civil, o sistema político e económico no sentido do reconhecimento das capacidades e potencialidades da pessoa portadora de deficiência e no reconhecimento do direito da pessoa deficiente participar e contribuir como membro de pleno direito da sociedade. Igualmente importante foi o trabalho, muitas vezes levado a cabo por trabalhadores sociais, junto das famílias com elementos portadores de deficiência, a sensibilizarão dos poderes institucionais para as necessidades especiais destas famílias e no desenvolvimento de mecanismos de apoio internos e externos às famílias.

2. Movimentos de independência anti-colonial

2.1. Gandhi

O serviço social, e a abordagem de empowerment em particular, foram atraídos pela figura de Gandhi, especialmente no que respeita às estratégias de intervenção e à sua análise das situações e mecanismos de opressão. Referiremos sumariamente duas contribuições de peso para o empowerment: os conceitos de Satyagraha e de Hind Swaraj.

a) O Satyagraha é muito mais do que uma técnica de acção. É uma filosofia e uma forma de vida que assenta em três elementos:

a) a) a vida humana deve ser uma busca permanente da Verdade. Contudo, o Homen é incapaz de apreender a Verdade Absoluta e só pode aceder a partes da Verdade. Ora, a Verdade está espalhada por todos, o que nos leva ao segundo elemento, b) a não-Violência. Não posso destruir o outro ao partir do princípio de que também ele tem parte da Verdade. Devo antes estar disponível para dialogar e descobrir no outro a sua parcela da Verdade. Mas, para manter esta procura não-violenta devo ser capaz de sofrer por ela, isto é, c) devo ser coerente e perseverante nas minhas opções, estando preparado para não abdicar nem da procura da Verdade nem da forma não violenta de o fazer, mesmo que tal implique a própria morte, caso contrário os meios e o fim serão incompatíveis. O Satyagraha pressupõe a liberdade inerente a todo o ser humano e promove-a, pois como afirmou Gandhi (citado em Garaudy 1977:183) "só a liberdade individual pode tornar um homem capaz de se dar inteiramente ao serviço da sociedade". Caso contrário, será um ser forçado, oprimido e manipulado, afectado e diminuído na sua humanidade. a vida humana deve ser uma busca permanente da Verdade. Contudo, o Homen é incapaz de apreender a Verdade Absoluta e só pode aceder a partes da Verdade. Ora, a Verdade está espalhada por todos, o que nos leva ao segundo elemento, b) a não-Violência. Não posso destruir o outro ao partir do princípio de que também ele tem parte da Verdade. Devo antes estar disponível para dialogar e descobrir no outro a sua parcela da Verdade. Mas, para manter esta procura não-violenta devo ser capaz de sofrer por ela, isto é, c) devo ser coerente e perseverante nas minhas opções, estando preparado para não abdicar nem da procura da Verdade nem da forma não violenta de o fazer, mesmo que tal implique a própria morte, caso contrário os meios e o fim serão incompatíveis. O Satyagraha pressupõe a liberdade inerente a todo o ser humano e promove-a, pois como afirmou Gandhi (citado em Garaudy 1977:183) "só a liberdade individual pode tornar um homem capaz de se dar inteiramente ao serviço da sociedade". Caso contrário, será um ser forçado, oprimido e manipulado, afectado e diminuído na sua humanidade.

A filosofia do Satyagraha não foge dos conflitos, mas não os encara numa perspectiva de derrota e destruição de um adversário e sim do ultrapassar de situações precisas. Quando se chega a destruir o Outro, isso implica que já nos derrotámos, incapazes de transformar a situação conflitual. O Satyagraha é sempre uma prática de diálogo radical .

b) Outro contributo de Gandhi foi o conceito de Hind Swaraj ou auto-determinação do povo indiano. Segundo um estudioso da obra gandhiana, Jesudasan (Simon 1994:139), o Hind Swaraj baseava-se nos seguintes aspectos: 1. o exercício da auto-determinação pessoal e política, 2. a resistência não violenta e sistemática contra o domínio colonial britânico, 3. a promoção da cultura, produtos e liderança locais e a rejeição da dependência em relação ao exterior, 4. o imperativo ético do Dever como referência quotidiana em todos os assuntos, 5. formas de governarão central e local baseadas na experimentação, em processos de tentativa e erro e 6. uma cidadania activa.

Para Gandhi, o Swaraj não era simplesmente a obtenção de maior poder para alguns indivíduos ou grupos, mas sim a conquista de uma situação na qual todos os elementos de uma comunidade ou sociedade obtivessem e exercessem uma maior vigilância e um maior controlo sobre o exercício dos poderes político, económico e social.

2.2. Movimentos anti-colonialistas africanos

As experiências de libertação de vários movimentos independentistas africanos, quando ainda na clandestinidade ou já como govemantes, e o pensamento de líderes anti-colonialistas como Fanon, Nyerere, Amílcar Cabral, Memmi entre muitos outros, inspiraram os movimentos pelos direitos civis, nomeadamente nos E.U.A., os movimentos pela promoção da condição das mulheres, e toda uma prática de intervenção social junto de populações condicionadas por anos de opressão e menoridade como sujeitos da sua história (Simon 1994).

3. Nova esquerda

A Nova Esquerda, em grande parte amadurecido como resposta ao ressurgimento dos ideais liberais e aos déficits democráticos e desencantos sentidos pelas populações relativamente ao poder político tradicional, tem como ideia principal o desenvolvimento da democracia participativa como complemento indispensável da democracia representativa. A democracia participativa implica o envolvimento directo e activo na tomada de decisões que dizem respeito à comunidade, e mesmo na sua execução, por parte de todos os elementos da comunidade. Este processo traz dificuldades a nível prático, pois complexifica e atrasa o processo da tomada de decisões, e exige uma educação para a participação democrática, sem a qual corremos o risco de tornar a democracia participativa num processo popularista, demagógico e manipulativo (Carmo 1997). Contudo traz vantagens no maior envolvimento e responsabilizarão na sua execução e aumenta o sentido de união e pertença na sociedade. A fim de minimizar os seus inconvenientes práticos, a democracia participativa é mais eficiente quando exercida em comunidades ou grupos, de dimensão reduzida, de cidadãos, daí a ênfase posta pela Nova Esquerda nas iniciativas de base comunitária e no poder local.

4. A técnica de "consciouness-raising "

A técnica de "consciouness-raising" (formação de consciência), utilizada pelo movimento maoista no exército vermelho e mais tarde na Revolução Cultural, revelou-se uma das técnicas mais importantes para a abordagem de empowerment. Foi igualmente utilizada' pelos movimentos feministas e de emancipação homossexual, pelos movimentos dos direitos civis e de promoção da pessoa deficiente, bem como por diversos movimentos progressistas de inspiração cristã (de que é exemplo a Acção Católica). Através da técnica de "consciousnes-raising" pretende-se levar cada indivíduo a sentir a sua situação pessoal como fazendo parte de um problema comum a outros indivíduos e fruto de condicionantes externas que podem e devem ser alteradas para que se possa efectivamente resolver o problema.

5. Movimentos de auto-ajuda

Embora as relações entre o movimento de auto-ajuda (com a sua desconfiança nos profissionais, nas burocracias e nas grandes instituições) e os profissionais do serviço social (ciosos de preservarem a sua influência e poder) não sejam por vezes nada pacíficas, o certo é que os movimentos de auto-ajuda foram de grande importância para a abordagem de empowerment. Os princípios que os movimentos de auto-ajuda implantaram, de confiança nas capacidades internas dos indivíduos, na participação e organização voluntária dos grupos de auto-ajuda, na importância do controlo que todos os indivíduos devem ter sobre a sua vida e sobre a importância das redes de apoio, foram trabalhados e incorporados no processo de empowerment. Igualmente importante foi a saudável discussão sobre o poder do profissional nos relacionamentos de ajuda e sobre as formas de opressão e sabotagem do crescimento do cliente que a prática profissional pode revestir./FONT>

6. Sociologia de intervenção

A sociologia de intervenção é uma perspectiva de encarar e fazer sociologia, segundo a qual não basta conhecer a realidade social, é importante modificá-la. Procura-se conhecer para intervir (Hess 1983). Dos vários nomes da sociologia de intervenção seleccionámos dois que consideramos dos mais influentes para a metodologia e teoria do processo de empowerment.

6. 1. Saul Alinsky

Alinsky é um exemplo bem conseguido de um sociólogo de intervenção: tinha como meta aplicar o conhecimento sociológico na mudança social. Era um sociólogo radical, no sentido em que buscava as raízes, as fundações dos problemas, para aí intervir. Embora não sendo um profissional de serviço social, Alinsky não deixou de se envolver activamente em actividades e projectos que poderíamos descrever como de serviço social: trabalhou com delinquentes, presidiários e populações de bairros pobres e fê-lo em termos de organização comunitária e promoção das condições de vida destas populações. Inclusivé, chegou a fundar uma escola de formação de trabalhadores sociais radicais, em 1968 (Hess 1983:129). Para Alinky, o interventor social era fundamentalmente um organizador e um mobilizador das energias dos clientes para que estes pudessem, constituídos como comunidade de interesses, lutar pela obtenção de um maior poder, definido por Alinsky como "a capacidade mental, física e moral de agir" (Alinsky citado em Hess 1983:13 1).

6.2. Paulo Freire

Paulo Freire foi também um interventor social radical, propondo mudanças que actuassem na origem das situações-problema. Para que tal seja possível, é fundamental interromper a reprodução social das estruturas opressoras, que perpetuam situações de dominação e cerceiam a tarefa ontológica da humanidade de "ser mais". Esta intervenção libertadora só seria possível através da educação dialógica entendida como "prática da liberdade" (Freire 1975, 1977), pela qual os indivíduos dominados se "conscientizam" das contradições da realidade em que vivem. Esta "conscientização" é um passo para a acção, sobre esta mesma realidade, iniciando-se um processo de reflexão-acção contínua, no qual não de deve cair nem no verbalismo sem acção, nem numa actividade frenética sem que se pare para se reflectir sobre ela (Freire 1975, Garaudy 1977, Payne 1991). Este processo não é simples nem sem dificuldades, muito pelo contrário. O interventor social deve apoiar este processo, sem o dirigir, mas ajudando o cliente a enfrentar o "medo da liberdade"(Freire 1975:46) que a consciência da necessidade da mudança pode criar, e a aceitar e desempenhar o seu papel de sujeito no processo histórico. Para que o profissional possa desempenhar convenientemente o seu papel é necessária uma perspectiva multidimensional e multidisciplinar da intervenção social. O trabalhador social deve aceitar o seu papel de mobilizador e organizador de massas, educador e interveniente implicado no processo de mudança. A intervenção social não é neutra: ao acreditar que é neutra, o interventor social está a apoiar a facção detentora do poder dominador. Sendo assim, o profissional não pode ter uma atitude de descrença na possibilidade de transformação da realidade social (Freire 1977).

7. Teologia da Libertação

A Teologia da Libertação nasceu no seio das igrejas cristãs, nos finais da década de 1960, como reacção perante a evidência do sofrimento humano e a aparente falta de protagonismo das autoridades religiosas em denunciar e combater as injustiças e violências sobre os mais desfavorecidos. Alimentada pelo trabalho que muitos religiosos desenvolviam junto de populações mais desfavorecidas, particularmente na América Latin-i, pela Encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, Populorum Progressio, do Papa Paulo VI e outros documentos conciliares, a Teologia da Libertação traduz uma preocupação pela aplicação dos mandamentos evangélicos de promoção de justiça e de protecção dos mais pobres e mais fracos.

A libertação sempre foi um conceito fundamental das teologias judaico-cristãs. Quer o Antigo como o Novo Testamento frisam as exigências de justiça e de solidariedade, criticando os ricos e os poderosos. As injustiças em relação aos homens são injustiças em relação a Deus. O discurso pela justiça dos profetas do Antigo Testamento é mesmo radicalizado por Jesus, como o demonstra as "Bem Aventuranças". Sendo assim, a igreja de Cristo não pode ser conivente nem complacente com estruturas injustas e opressoras mas deve liderar a luta contra as injustiças.

Os teólogos da libertação, como o padre Gutierrez, Leonardo Boff ou Buber, pretenderam fazer da fé uma base para a acção, contrariando assim a acusação de Marx de que a religião era o ópio do povo. Para Gutierrez, a Igreja devia "denunciar tudo o que desumaniza o homem, quer dizer, tudo o que impede o homem de ser criador à imagem de Deus"(citado em Garaudy 1977:204).

 

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