| Coleção
Memória das Lutas Populares no RN
Apresentação
Moacyr de Góes
Moacyr
de Góes, até sempre camarada
Antônio
Capistrano, 30.03.2009
Quem me deu a noticia da doença de Moacyr, foi Nei Leandro
de Castro. Há uns dois meses atrás, conversando com
Nei, na Potylivros, perguntei por Moacyr, disse-me ele – Moacyr
se encontra muito doente, gravemente doente! Saí da livraria
triste, pensativo, Conheci Moacyr no inicio dos anos sessenta, ele
secretário de Djalma e eu um garoto, já metido nas
coisas da política.
Ele
era da turma da AP, ligado à igreja católica, turma
essa que se misturava aos militantes do Partidão, do qual
eu fazia parte. Moacyr nasceu em 1930, portanto estava com 79 anos,
eu sou de 1947, estou com 62, à diferença de idade
entre nós é de 17 anos, na época uma grande
diferença, hoje nem tanto. Participamos das mesmas lutas
nesses últimos 49 anos de história do nosso país,
sempre do lado esquerdo, com a mesma esperança, a construção
de uma sociedade igualitária. Utopia sonhada por comunistas
e católicos seguidores dos ensinamentos do Santo Padre João
XXIII.
Acompanhei
de perto dois programas da sua gestão como secretário
da educação e cultura: De Pé no Chão
Também se Aprende a Ler e Cultura na Praça. Programas
de repercussão nacional, ambos interrompidos pelo golpe militar
de 1964. Não conheço outro programa cultural com o
conteúdo e a objetividade do projeto Cultura na Praça
e um projeto de educação popular igual à De
Pé no Chão Também se Aprende a Ler.
Todos
dois voltados para o nosso povo. Quando fui vice-prefeito de Mossoró
dei de presente à prefeita Rosalba Ciarlini o livro “Dois
livros de Djalma Maranhão no exílio”, de autoria
de Moacyr de Góes, trabalho esse que traz artigos escritos
no exílio por Djalma Maranhão e, os projetos e programas
de educação e cultura do seu governo. É um
bom modelo a ser seguido por qualquer gestor municipal que deseje
fazer um bom trabalho nessas áreas. Após o golpe,
Moacyr ficou preso respondendo a inquérito policial militar,
praticamente durante todo o ano de 1964, sendo solto somente no
final do ano.
Esse
período tumultuado da vida brasileira ele registra no seu
livro “Sem paisagem”, livro publicado pelo Sebo Vermelho,
um belo trabalho, importante na compreensão do cotidiano
de pessoas que pelo crime de pensar, de uma hora para outra se ver
confinada dentro de uma sela, preso com outros camaradas, tentando
compreender os acontecimentos. São sonhadores, crentes em
um mundo de paz e pregresso social. Sem paisagem, é um livro
de crônicas da prisão, relato que emociona que estimula
que nos dá coragem de continuar sonhando.
Em
março de 2004, realizei através do Centro de Estudos
e Pesquisas África/América do Rio Grande do Norte
- Cepaarn, em Mossoró, no auditório do Sesi um seminário
denominado 1964: 40 anos de história. Moacyr, ao lado da
sua esposa, Maria da Conceição Pinto de Góes,
foi um dos convidados, ambos, professores da UFJ. Ela fez uma bela
palestra, tendo como tema: “O golpe de 1964 dentro do contexto
latino-americano”, mostrando que o caso brasileiro não
era um caso isolado, existia toda uma articulação
do governo norte-americano, através da CIA e das suas embaixadas
no nosso continente, com o objetivo de derrubar qualquer governo
progressista na América Latina.
Moacyr
fez uma análise do golpe, o seu tema foi: “1964: o
golpe no Brasil”, ele viveu intensamente esse período,
além de professor de história, Moacyr foi uma testemunha
ocular e vítima dos fatos ocorridos naquele período.
Nesta sexta-feira (27/3/09), o meu filho, Wlademir, me deu a triste
noticia da morte de Moacyr de Góes.
Fiquei
pensando sobre a vida e a morte, passou na minha mente o filme da
existência humana, lembrando essa figura que tanto lutou pelo
nosso país, por um mundo justo, cristão e socialista.
Lembrei-me dos nossos amigos, uns que já foram outros que
continuam na luta: Danilo Bessa, Hélio Vasconcelos, Luiz
Maranhão, Vulpiano Cavalcanti, Pretextato, Djalma Maranhão,
sem esquecer a turma do Centro Popular de Cultura, a maioria continua
no batente, uns com as mesmas convicções outros desistiram.
Refletindo
sobre todos esses anos, sobre as nossas lutas, as vitórias
e as derrotas, cheguei à conclusão que valeu pena.
Eu continuo comunista, lutando pela minha utopia, acho que é
o único caminho para os povos de tudo o mundo. Moacyr morreu,
ficou a sua história, o seu exemplo, a humanidade precisa
de figuras como ele, precisa dos sonhadores, são eles que
constroem o futuro.
|


|