Internet
globaliza a luta pelos Direitos Humanos
Roberto
Monte
dhnet@dhnet.org.br
Nos
dias 15 e 16 de fevereiro participei
do I Encontro Internacional de Direitos
Humanos de Cabo Verde, na cidade
de Praia, capital daquele país africano
de língua portuguesa. O Encontro
focalizou-se em dois aspectos: o
primeiro foi o Direito Internacional
dos Direitos Humanos (os tribunais
penais internacionais, os macro-sistemas
de proteção, etc.), com palestras
de juristas cabo-verdianos e uma
intervenção de Adama Dieng, do Tribunal
Penal Internacional para o Ruanda;
o segundo foi a Educação em Direitos
Humanos, onde o professor da Universidade
de São Paulo (USP) Dalmo de Abreu
Dallari descreveu a situação atual
do Brasil nesta área, eu discursei
sobre formação e sensibilização
sobre os Direitos Humanos e a professora
Maria Rosa Afonso (de Portugal)
e o Dr. Jorge Carlos Fonseca (de
Cabo Verde) aportaram ulteriores
contribuições para o debate.
Minha intervenção esteve divididas
em três partes: os elos de convergência,
a comunicação e a educação em Direitos
Humanos e o que vamos fazer em termos
práticos com Cabo Verde. A palestra
terminou com a projeção do vídeo
da Caravana de Direitos Humanos
que a Rede Estadual de Direitos
Humanos do Rio Grande do Norte realizou
em maio de 2004 em Mossoró, segunda
maior cidade do Estado depois de
Natal, que foi muito apreciado pelo
público presente.
Inicialmente, quis ressaltar alguns
pontos de convergência entre o nosso
trabalho no Rio Grande do Norte,
o que está sendo realizado em Cabo
Verde e experiências e pessoas presentes
no Encontro. O próprio professor
Dalmo Dallari, com o qual temos
contato há muito tempo, desde os
anos 80; o elo intercontinental
representado por Paulo Freire, que
nos anos 60 implantou a experiência
das 40 horas de Angicos no Rio Grande
do Norte, nos anos 70 foi discutir
educação popular em Cabo Verde e
na Guiné Bissau e que hoje na cidade
de Praia é até nome de rua; a presença
muito forte de estudantes cabo-verdianos
e da Guiné Bissau no Rio Grande
do Norte, especialmente em Natal.
Foi, aliás, justamente devido a
essa presença que nós criamos, dentro
da Rede Estadual de Direitos Humanos
- RN, o Núcleo de Direitos Africanos
Amílcar Cabral. É através deste
último - real ponto de convergência
entre o Rio Grande do Norte e a
África de língua portuguesa - que,
este ano, vamos trabalhar na construção
de uma ponte entre nossas experiências
aqui e as dos países lusófonos da
África, especialmente Cabo Verde.
Outro ponto de convergência que
identifiquei é o Programa Nacional
de Acção para os Direitos Humanos
e a Cidadania de Cabo Verde, que
teve como consultor internacional
Paulo de Mesquita Neto, do Núcleo
de Estudos da Violência da USP (NEV/USP),
que - junto com os outros companheiros
do NEV/USP Paulo Sérgio Pinheiro
e Beatriz Afonso - foi também nosso
consultor na elaboração do Programa
Estadual de Direitos Humanos do
Rio Grande do Norte, realizada em
1998 em parceria com a Secretaria
de Justiça do Governo do Estado
e que foi o segundo do país depois
do de São Paulo.
Além disso tudo, nós nordestinos
somos os ‘‘vizinhos do outro lado
do Atlântico’’. Ninguém mais do
que um nordestino sente-se como
em casa em Cabo Verde: lá tem algaroba,
salinas, seca... A vegetação, as
comidas daquele arquipélago têm
muito em comum com as nossas. Eu
estive lá para conhecer o que chamo
de ‘‘o nosso revés africano’’.
E
se já existia este ‘‘elo espiritual’’,
eu cheguei em Cabo Verde através
de ‘‘elos virtuais’’: lá o Tecido
Social é um meio de comunicação
extremamente conhecido, ao qual
os operadores de Direitos Humanos
se referem como algo do dia a dia,
e do mesmo modo a -DHnet Rede Direitos
Humanos e Cultura www.dhnet.org.br
. Isso nos permite refletir sobre
o poder do ciberespaço: não como
panacéia, mas como ferramenta de
trabalho com a qual nós, no Rio
Grande do Norte, temos uma experiência
de anos e que se traduziu em resultados
palpáveis. O editor-chefe de Tecido
Social, Antonino Condorelli, em
outubro de 2004 foi para a Argentina
graças aos elos internacionais criados
por este meio e lá participou da
criação de uma rede latino-americana
de operadores de Direitos Humanos
que vai tomar vida dentro e graças
aos espaços da virtualidade. Eu,
em fevereiro de 2005, fui para Cabo
Verde pelos mesmos motivos e é graças
ao poder da Internet que está sendo
possível pensar e articular uma
Rede Lusófona de Direitos Humanos
que comece a partir do elo Rio Grande
do Norte-Cabo Verde.
Na
minha intervenção, ressaltei a importância
de globalizar os sistemas de promoção
e proteção aos Direitos Humanos.
Hoje temos um sistema global das
Nações Unidas, vários sistemas regionais
(o da Organização dos Estados Americanos,
o da Organização dos Estados Africanos,
o da União Européia, etc.), muitos
sistemas nacionais (o arcabouço
do brasileiro foi construído na
IX Conferência Nacional, com caráter
deliberativo, que aconteceu em Brasília
entre 29 de junho e 2 de julho de
2004) e se estão realizando experiências,
como a nossa no RN, para a construção
de sistemas estaduais, municipais
e comunitários. A novidade dos sistemas
é a concepção de Direitos Humanos
como políticas públicas.
Mas nossa experiência quer ser também
um grande elo de fusão entre Direitos
Humanos como princípios jurídicos
e Humanismo como concepção global
do ser humano e suas relações com
os e o ambiente: como atingir os
corações e as mentes. E como sermos,
de fato, glocais. Hoje se fala muito
em Viena, Durban, Geneva, etc. Mas
como chegar a Mindelo e Praia, a
qualquer comunidade ou conselhos
de Cabo Verde? Como atingir os cerca
de 450.000 habitantes deste país
com políticas públicas, comunicação,
educação em Direitos Humanos? Como
tornar as nossas ações localizadas,
capilarizadas através de um trabalho
de formiguinha? Como socializar
nosso trabalho e atingir todas as
nossas populações, que sejam os
167 municípios do Rio Grande do
Norte ou os conselhos cabo-verdianos?
Algo
muito relevante da nossa experiência
na área de educação em Direitos
Humanos, que está estritamente ligada
à comunicação (já que textos, áudio,
vídeo, espaços virtuais, jogos educativos,
etc., não são apenas veículos de
comunicação, mas maneiras de educar
ou de sensibilizar), é a valorização
da arte e a cultura e o resgate
da memória histórica. Nossa preocupação
com a recuperação, perpetuação e
preservação da memória na ótica
dos vencidos, principalmente da
memória oral e da arte popular como
forma de memória oral, cria um elo
inevitável com a África, com sua
riquíssima tradição de preservação
da memória histórica através da
oralidade.
Na minha intervenção, também salientei
que os combatentes sociais africanos
não são apenas Amílcar Cabral, Agustinho
Neto, Patrice Lumumba, Samora Machel,
Nelson Mandela... Como acontece
aqui no Brasil, a história costuma
configurar-se como as pirâmides:
sabemos os nomes dos faraós sepultados
nelas, mas não os daqueles que as
construíram. Por isso, como nós
queremos fazer aqui através da Rede
Brasil de Direitos Humanos, é preciso
se resgatar a memória dos oprimidos,
dos vencidos, dos combatentes sociais
das comunidades africanas e trocar
estes conhecimentos para criar uma
identidade lusófona na ótica dos
povos, contraposta a que foi construída
a partir do processo de colonização
portuguesa. Há que usinar utopias
e sintonizar paixões, que é justamente
a palavra de ordem da nossa Rádio
Dhnet : a comunicação como ferramenta
para agregar e disseminar identidades,
culturas, idéias e ações. Nós somos
‘‘camelôs e mercadores da cidadania’’
ou, para usar uma frase de Maiakovski,
‘‘antenas da raça’’.
A última parte da minha intervenção
no I Encontro Nacional de Direitos
Humanos de Cabo Verde foi extremamente
prática: levantar desafios e propor
ações bem concretas. A primeira:
a criação do embrião de uma Rede
Lusófona de Direitos Humanos para
agregar todos os estados que fazem
parte da Comunidade de Países de
Língua Portuguesa. E, de entrada,
uma Rede Cabo Verde de Direitos
Humanos que exista dentro do ciberespaço,
inspirada na nossa Rede Brasil.
Para começar a construir esta rede,
vamos trabalhar encima de coisas
extremamente concretas: trouxe de
Cabo Verde toda a documentação do
Encontro e o mais breve possível
vamos abrir um sítio web, hospedado
na Dhnet, sobre a I Conferência
de Direitos Humanos daquele país.
Ampliamos nossos contatos com entidades
e instituições de Direitos Humanos
cabo-verdianas: entidades que trabalham
com portadores de deficiência, militantes
da luta anti-manicomial, novos membros
da própria Comissão Nacional para
os Direitos Humanos e a Cidadania
(CNDHC) que organizou o Encontro
e que me convidou, etc. Muitas entidades
e pessoas em Cabo Verde produzem
informação sobre Direitos Humanos
e nós vamos fazer tudo o possível
para divulgá-las, seja através do
Tecido Social como das nossas ferramentas
da Internet.
Por outro lado, levei cerca de 50
CDs da nossa Enciclopédia Digital
de Direitos Humanos que distribui
às entidades e instituições com
as quais me articulei e vamos doar
mais 150 CDs para realizar, através
da CNDHC de Cabo Verde, uma ampla
distribuição deste material em escolas,
bibliotecas, a pesquisadores, etc.
Inclusive, propus em uma entrevista
a um canal televisivo cabo-verdiano
a possibilidade de realizarmos uma
parceria com um jornal local para
colocar cupons enviando-nos os quais
os leitores interessados poderão
obter o CD.
Com a viagem que a coordenadora
da CNDHC, Vera Duarte, realizará
ao Brasil no início de abril estreitaremos
um elo entre a instituição que ela
dirige e a Secretaria Especial de
Direitos Humanos da Presidência
da República (SEDH) e o Comitê Nacional
de Educação em Direitos Humanos
do nosso país. Durante a sua viagem,
Vera Duarte visitará também o estado
de São Paulo, conhecendo a experiência
da Rede Brasileira de Educação em
Direitos Humanos; o Rio Grande do
Sul, para entender o programa de
Cidades de Direitos Humanos promovido
pelo Movimento dos Povos para a
Educação em Direitos Humanos e posto
em prática em Porto Alegre; e o
Ceará, para conhecer a experiência
do Observatório do Judiciário.
Além
do mais, a coordenadora da CNDHC
passará três dias Rio Grande do
Norte e estreitará seus laços com
a Rede Estadual de Direitos Humanos
- RN (através do Centro de Direitos
Humanos e Memória Popular e o jornal
Tecido Social) e com o braço desta
última para a África, o Núcleo de
Direitos Africanos Amílcar Cabral.
Também queremos criar elos com a
sociedade civil organizada cabo-verdiana
para discutirmos as
mais diferentes facetas referentes
a direitos humanos e cidadania,
na escola, na mídia, com o governo,
etc.
No que diz respeito a direitos humanos
e polícia, em Cabo Verde estão iniciando
a realizar cursos de capacitação
em cidadania para policiais e vamos
disponibilizar para os operadores
cabo-verdianos de segurança toda
a experiência concretizada no Portal
Comunitário de Segurança Humana
, uma parceria da DHnet com a Secretaria
Nacional de Segurança Pública (SENASP)
do Ministério da Justiça e o PNUD
através do endereço eletrônico www.segurancahumana.org.br.
Para concluir, a proposição que
minha viagem a Cabo Verde em representação
da REDH-RN fez foi a da junção de
ousadias: a da pequenina Cabo Verde
e a de potiguares (brasileiros e
nordestinos) no outro lado do Atlântico
que, info-conectados, estão construindo
uma rede de Direitos Humanos glocal
para atingir os cerca de 450.000
habitantes das dez ilhas do arquipélago
cabo-verdiano e os 167 municípios
do Rio Grande do Norte. Nossas palavras
de ordem são: Direitos Humanos para
todos os Potiguares! e Direitos
Humanos para todos os Cabo-Verdianos!
Esta junção de ousadias tenta ser
um elo entre a teoria global e as
necessidades locais usando toda
a criatividade nordestina e africana
em cima daquela idéia de ‘‘intelectual
orgânico’’ de Antonio Gramsci.