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(Poema incompleto, escrito
no exílio)
Natal, encruzilhada do
Mundo.
O ponto mais avançado da
América,
No caminho da Europa, pelo
roteiro da África,
Olhando de frente e
desafinado o mar.
É um duelo de gigantes,
Em que um povo imbátivel,
Abrindo o áspero caminho
de seu futuro,
Desafia o destino a sua
própria natureza.
Não te esquecerei, Natal!
Os olhos do sol transpondo
as dunas,
Iluminando a cidade
Que dormiu embalada
Pelo sussurro das águas
do Potengi.
Jerônimo, o que plantou o
marco de tua fundação;
Poti, o teu guerreiro
nativista,
Que nasceu alí em Igapó,
antiga Aldeia Velha.
Brasil Colônia, Brasil
Império.
Pedro Velho, teu grande
chefe republicano.
Não te esquecerei, Natal!
Nas asas dos pássaros
metálicos,
Foste o trampolim da
Vitória,
Na guerra dos povos contra
o fascismo.
Teus céus foram cruzados
Pela primeira vez, no
Brasil,
Nas travessias
transoceânicas,
Por Gago Coutinho e
Scandura Cabral
Mermoz e Saint-Exupery,
Ferrarin e Del Prete.
O Graf Zeppelin lançando
uma coroa de flores
Sobre a estátua de
Augusto Severo.
Portugueses, Franceses e
Italianos,
E a epopéia verde-amarela
do Jaú, de Ribeiro de Barros.
Teu Aéro Clube fez a obra
de pioneirismo
Na história Brasileira de
aviação civil.
Não te esquecerei, Natal!
No lirismo de teus poetas;
O quase bárbaro Itajubá
E o quase gênio Otoniel
E também o alucinado
Milton Siqueira.
Jorge Fernandes esbanjando
poesia
Na mesa de um bar
Era a imagem viva de um
Verlaine,
Que tem em Câmara Cascudo
Um nome regional com
ressonância internacional
A tradição literária
dos Wanderley,
Revivendo a tua boêmia.
O saxofone de Tibiro.
Os violões de Heronides,
Macrino, os irmãos Lucas.
Tuas modinhas -
"Praiera dos meus amores" -
Deolindo, Cavalcanti
Grande, Ávila, Carlos Siqueira,
Vitoriano, Jaime,
Pedrinho, Saturnino,
Jaime declamando sua
poesia,
Tuas serenatas e Evaristo
de Souza,
O teu último grande
boêmio.
Não te esquecerei, Natal!
A vocação libertária do
teu povo,
A pregação caudilhesca
de Zé da Penha,
Alguns políticos
enganando o povo,
Que um dia ganhará
conscientização.
Os teus médicos
humanitários:
Antunes, Luis Antônio,
José Ivo, Januário,
E Luis Soares, monumento
cívico
Em carne e osso...
Sílvio Soares tocando
requinta na banda,
Alba Garcia, tua primeira
Miss.
E Café Filho, no mastro
da Presidência da República,
Pousando de estadista.
Inês Barreto, Diva Mariz,
Dulced Figueiredo
Encarnando as melhores
virtudes da mulher brasileira.
Teus grandes oradores,
Kerginaldo Cavalcanti
sendo chamado de Patativa do Norte,
Peregrino Júnior
elevando-se 'a Presidência da Academia Brasileira de Letras.
Toscano de Brito, o
primeiro General
Que a cidade conheceu na
intimidade,
A presença, com precisão
cronométrica,
De Nestor de Lima nas
sessões do Instituto Histórico,
Milton Varela com ares de
Grão Senhor.
Não te esquecerei, Natal!
Na tradição de tua
igreja,
A humildade de João Maria
E a bondade de Monsenhor
Pegado,
A cultura do Padre Monte
E os sermões de Luis
Wanderley,
A vocação social das
irmãs Vitória, Gonzaga, Rosalli,
E também os ingênuos
poemas de Dom Marcolino;
Dom José Pereira,
célebre fundador do teu Arcebispado.
Anoto para o futuro as
lutas de hoje
Dos jovens sacerdotes
Plasmados por Dom Eugênio
e Dom Nivaldo,
Para os duros embates
sociais
Na fidelidade às
Encíclicas de João XXIII,
Herdeiros do sacrifício
de Frei Miguelinho.
Não te esquecerei, Natal!
Os Grão-Mestres de tua
Maçonaria
Fazendo o bem, sem
perguntar a quem,
Na escuridão sublime do
anonimato.
Os teus Pastores
Protestantes
Evangelizando sem tempo
para tomar fôlego.
As minhas queridas áreas
suburbanas,
Os centros Espíritas
Fazendo da Doutrina Kardec
Uma ciência para aliviar
as dores do próximo.
Leon Wolfson, rabino
improvisado na comunidade judaica.
Mas, também, não posso
esquecer
Os Pais-de-Terreiros, meus
amigos,
Na pureza de suas
ignorâncias.
Não te esquecerei, Natal!
A tua jovem Universidade
Herdeira das tradições
do velho Atheneu:
João Tibúrcio, Torres,
Celestino,
Severiano Bezerra,
Clementino, Seu Emídio.
A tua Escola Doméstica
Iniciativa inesquecível
de Henrique Castriciano,
Centro altamente refinado
de ensino.
E a campanha de Pé no
Chão Também se aprende a Ler
Ferramenta indestrutível
de uma geração
Que teima, deseja e
atingirá
As fontes do saber e da
cultura,
Quando as tuas jornadas de
folclore,
Com Veríssimo e Moacyr de
Goés
E o "Papa"
Cascudinho,
Moreira, Mailde, Roberto,
Omar, Nísia,
O Mateus do Boi Calemba
E o Rei Cariongo dos
Congos.
A Diana do "cordão
azul".
Lapínha e Pastoris,
Que recordam Gotardo e
Felinto Manso
Dr. Ivo marcando, em
francês,
Uma "quadrilha"
na véspera de São João;
Vendo renascerem no
Ararunas
As danças antigas e
semi-desaparecidas,
No compasso de mestre
Cornélio e Dona Chiquinha.
O " rema rema"
do Fandango
E o fardão vermelho dos
mouros da Chegança
O velho Calixto comandando
o Bambelô
E a turma formando o
côco-de-roda,
Dando umbigada,
sapateando,
No ballet rústico dos
antigos escravos.
Não te esquecerei, Natal!
O pregão onomatopaico de
tua vendedora de ervas:
"Juá, Jucá,
Mucambê, Cabeça de Negro, Batata de Purga";
As esquisitices de Joca
Lira e Miguel Leandro;
Os teus
"faroleiros" de memoráveis histórias:
Coronel Quincó, Arari
Brito, Luís Tavares;
A Caixa Rural de Ulisses
de Góis –
O "City Bank" de
tua classe média.
E a rinha de galos de
Jorge Elisio,
A parteira Dona Adelaide,
minha madrinha,
Que viu nascer milhares de
natalenses,
Antes da instituição da
Maternidade hospitalar.
Não te esquecerei, Natal!
A Ribeira subindo em
direção à Cidade
Os teus primeiros bairros
Rocas e Alecrim,
O Grande Ponto dos dias de
hoje,
Convergência de todos os
encontros
E foco de todos os boatos.
Os bairros novos:
Tirol, Petrópolis,
Quintas, Conceição,
Lagoa Seca, Juruá,
Guarita, Carrasco,
(que aqui em Montevidéo,
onde estou exilado,
É nome de uma praia
Chic),
E como estamos falando em
praia,
Vem a saudade de Ponta
Negra e Redinha,
Areia Preta, do meio e
Circular.
Não te esquecerei Natal!
Levas de flagelados,
tangidos pela seca,
Semi mortos de fome,
pedindo comida pelo amor de Deus.
A taxa de mortalidade
infantil de tuas crianças,
A mais alta do mundo
E também recordo os
matutos endinheirados
Viajando pelos trens da
Central e da Great Western,
Com suas botinas marca
"Bostock", rangideiras,
Fazendo compras na Rua Dr.
Barata.
Teus cangaceiros de
gravata,
Cujos nomes não é
conveniente lembrar,
Mas que merecem em estudo
sociológico.
Marginais e valentões do
teu sub-mundo:
Os Quilitanos, Cúscus,
King Kong.
Não te esquecerei, Natal!
O austero Forte dos Reis
Magos
Com os velhos canhões de
fogo morto,
A ponte metálica de
Igapó,
A alegre pensão de Maria
Boa,
Onde uma geração se
iniciou nos segredos de amor,
A Peixada da Comadre, no
Canto do Mangue,
E a caranguejada do
Arnaldo,
A Feira do Alecrim e o seu
Clube do Sarapatel,
Os cegos tocando viola,
A carne assada do Lira e
do Marinho,
Batidas de Maracujá nas
baíucas da Quarentena,
Cerveja bem geladinha no
Carneirinho de Ouro
E o café sempre
requentado do Bar Quitandinha,
A farmácia de Cloro, na
rua Ulisses Caldas,
A última que manté as
características
Das históricas
"boticas" do começo do século,
Os apritivos do Majestic,
(onde Oliveira Junior
tinha uma garrafa "cativa")’,
traço de união de três
gerações,
Esquina com Royal Cinema
Que o progresso da cidade
engoliu,
Mas imortalizando na valsa
de Tonheca Dantas
O Strauss Papa-jerimun.
Não te esquecerei, Natal!
A velha Simôa,
Mais imoral que uma
antologia de Bocage,
Chico Santeiro, O
Aleijadinho potiguar,
Esculpindo os seus bonecos
de madeira,
Com uma ponta de canivete.
ABC e América, na guerra
santa do futebol,
Deixando os botões do
jaquetão.
O duelo esportivo-feminino
entre Centro e AFA.
Comerciantes que o tempo
levou:
Seu Melo, Lagreca,
Coriolano, Santos, Fortunato,
Viana, Ismael Pereira,
Machado, Galvão, Aureliano.
Os teus novos ricos após
a guerra,
Aficcionados no pooker do
Natal Clube:
Sandoval Capistrano,
Augusto de Souza, Teodorico
E o meu xará Djalma
Marinho.
O apito de tua primeira
fábrica de tecidos.
O Esquadrão de Cavalaria,
lá na Solidão.
E o capital Joca do Pará,
O primeiro Sherlock que a
cidade conhceu.
Novenário da Festa da
Apresentação,
Exarcebando a emulação
das bandas de música
Do exército e da
Polícia.
E acabou-sem, também a
rivalidade briguenta
Entre Xarias e
Canguleiros.
Não te esquecerei, Natal!
O teu carnaval, festa do
povo.
A "Divisão
Branca" de Barôncio Guerra,
Esnobando na sociedade
E o "Pinto
Pelado" esbaldando-se nas ruas.
E a namorada que arranjei,
Em um Sábado de carnaval,
E que hoje minha mulher.
Os velhos bondes,
Substituídos pelos
ônibus, que já estão velhos.
Genar e Bulhões.
Os que primeiro falaram em
microfone.
Carlos Lama fundando a
Rádio Educadora.
O Tiro de Guerra 18 e o
Brigada Chicó.
Luis Toró, com um braço
só,
Campeão de bilhar.
Ângelo Pessoa e João
Ferreira, dançando um tango.
Tuas regatas marcaram
época,
Antes do apogeu do
futebol.
Não te esquecerei, Natal!
Encontro os teus
pescadores no Ano do Centenário,
Com a mesma audácia dos
irmãos Polinésios,
Numa jangada de velas
esfarrapadas,
Levando a mensagem do
Potengi a Baia Guanabara.
Alberto Maranhão,
governador e Mecenas.
Época dos maestros
italianos:
Nicolino, Russel,
Mariscano, Babini.
Tempo do perfume Pirioca,
Doces similares e cigarros
Vigilante,
Água de côco com
aguardente,
Era e continúa sendo o
melhor wisky nacional.
E o menestrel escravo
Fabião das Queimadas,
Que libertou a si e a
própria mãe,
Ganhando dinheiro,
cantando e tocando rabeca.
Dos teus juristas
notáveis,
De Amaro Cavalcanti a
Seabra Fagundes.
Dr. José Augusto que
envelheceu no tempo
E continuou jovem com o
soro da eterna juventude.
Não te esquecerei, Natal!
A revolução liberal de
1930,
Meu batismo nas lutas
sociais.
Fanfarras agitando,
agitando,
Muitos discursos, poucos
tiros.
Guimarães na prefeitura
Café e Silvino Bezerra
disputando a interventoria,
Que ficou com Irineu
Jofilly,
Misturando cachaça com
austeridade
Autêntico percursor de
Jânio Quadros –
A quixotesca espada de
Varela, à frente da milícia,
Vai, em 1932, enfrentar a
rebeldia cívica dos paulistas,
Desfilando desembainhada
pelas ruas.
A voz do fogo do seus
tribunos,
Ontem, contra o
colonialismo,
Hoje frente ao
imperialismo.
Não te esquecerei, Natal! |