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Montevideo, 20 de agosto de
1968
Marcos, meu filho; um
grande abraço.
Fiquei, realmente, satisfeito com a sua carta. Uma demonstração clara
do seu amadurecimento. O Homem que se preocupa em ocupar o seu lugar
dentro da sociedade em que vive, descortinando horizontes em novos
ângulos, marcando a transição de um período que se ganha quando se
ultrapassa a maioridade. Os 21 anos de uma juventude, doce e bela
infância que não se reencontra nunca mais, porque a roda da história
não anda para trás... O menino de ontem, que se criou brincando nas
largas avenidas do Tirol e nas encostas dos morros que circundam a
cidade, subiu nos cajueiros, goiabeiras, mangueiras; jogou pedras e deu
tiros; entrou pelo mar adentro, deslumbrado, nadando nas ensolaradas
praias de Areia Preta, Ponta Negra, Redinha, Circular. Teve o seu
velocípede e a sua bicicleta e depois atormentou os pais, saindo as
escondidas dirigindo, sem permissão, um Jeep ou um automóvel. Bebeu o
seu primeiro copo de cerveja, fazendo careta, recusando guaraná, porque
beber cerveja, com um gosto amargo, era uma deliciosa maneira de ir
afirmando-se como homem... Estudou sempre, com extraordinária
facilidade para apreender, mas dando um trabalho imenso a sua mãe, com
a tarefa de obrigá-lo a preparar as lições e acordar cedo para ir ao
Colégio. Entre os esportes e a literatura, preferiu ser um intelectual,
um devorador de livros, deixando permanentemente desarrumada a
biblioteca do pai... Ainda de calças curtas escreveu seu primeiro
artigo quando morreu o padrinho Luis Antonio e fez o primeiro discurso
estimulado por Café Filho. Viajou, conhecendo grande parte do
território de sua Pátria.
Depois veio o dilúvio, a enxurrada que enxovalhou o
Brasil. Angústias, desilusões, a noite negra que acobertou o ódio e
abriu ainda mais as portas de nossas riquezas à voragem insaciável dos
poderosos grupos econômicos norte-americanos. Mas, o sol nasce todos os
dias, desde que o mundo é mundo. O rubro clarão da madrugadas é uma
esperança que se renova. O futuro está do nosso lado. Os mais
poderosos impérios da terra, baseados na força, nunca sobreviveram à
força das idéias. Buda, Confúcio, Cristo, Maomé, Marx, símbolos de
filosofias diversas mas que têm uma raiz comum e desaguam no imenso
estuário em que se encontram milhões de seres humanos, unidos no
desejo de que o mundo seja um mundo melhor. Hitler e Mussolini sonharam
em implantar um sistema, baseado na prepotência, que duraria MIL anos.
Em minhas andanças pelo mundo estive em Milão, na Praça Loreto, onde
Mussolini foi fuzilado e dependurado em um poste, como se fosse um porco
e também visitei em Berlim o local aonde Hitler está soterrado como se
fosse um cão hidrófobo. É a história dos nossos dias. Uma guerra que
se transformou em guerra de liberação dos povos.
Você sabe melhor do que eu. O Brasil é um país de
jovens. Mais da metade de sua população tem menos de vinte anos de
idade. Isto é fabuloso. Sou um homem no caminho da velhice, mas serei
um velho com idéias jovens. Não existe conflito de gerações. Isto é
uma mistificação. Existem velhos que são velhos mesmos e jovens que
já nasceram velhos... A missão do homem que atravessou mais de meio
século de vida, é colocar a sua experiência a serviço do sadio
entusiasmo juvenil, vanguarda de todos os nobres movimentos. Esta é a
minha tarefa. O amanhã pertence a sua geração. Isto não significa
que serei um simples conselheiro, um contemplativo. Não. Sempre
participante, para ser fiel ao jovem que vive dentro do meu coração
Não desespero. Sei esperar. A idade dos povos não
se mede pela idade dos homens. A minha luta é a continuação da luta
dos meus antepassados, os nativistas que plantaram a semente da Pátria
e conquistaram a sua Independência Política. A batalha prossegue para
obtermos a Independência Econômica. Os nativistas de ontem são os
nacionalistas de hoje. Estamos unidos debaixo da mesma bandeira. Os
homens passam, a bandeira fica. Esta mesma bandeira irá dar ânimo aos
teus futuros filhos, meus netos, na fidelidade aos princípios de
liberdade. Igualmente a fraternidade que os franceses receberam dos
gregos e tornaram universal.
O Brasil é minha Pátria, Natal minha cidade, em
cujo chão estão enraizadas indissoluvelmente todos os meus
sentimentos. Tenho a consciência tranquila. Dei minha contribuição no
sentido de arrancar o Brasil do atoleiro em que se encontra, quando
lançamos as bases da Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a ler.
A História fará justiça. Não importa o que passou e o que ainda
está passando. Continuo no caminho certo, aquele traçado pelos
mártires de nossa independência. É melhor sofrer e muitas vezes
morrer, do que participar do festim daqueles que estão vendendo o
Brasil no balcão das negociatas internacionais. Não sinto nenhuma
sedução pelos encantos do Dólar, que nos dias de hoje tem o asco, a
triste e horripilante missão de substituir os 30 dinheiros de JUDAS.
Minha geração, certamente, não assistirá os últimos estertores do
império do Dólar. Não importa. Parto tranquilo. Deixo o Império
moribundo. O século XX que marcou o início de uma nova era social
levará nas suas convulsões os últimos tentáculos e a derradeira
gôta de fel do imperialismo norte-americano. Os povos
sub-desenvolvidos, poderão, então, encontrar o caminho do progresso.
Os meios de produção e a terra serão patrimônios de todos. Haverá
fartura e desaparecerá o fantasma da fome, que mata, assassina é o
termo, milhões de seres humanos. Desaparecerá, também, o espectro do
analfabetismo. Genocídios como do Vietnã não se repetirá.
Meu Filho:
Esta
carta não é nenhum testamento...É a conversa franca de dois homens.
Um mais idoso e outro mais jovem. Ainda espero viver bastante. E a vida
não é somente luta e trabalho. O homem e a mulher necessitam
divertir-se. A outra face. O lado ameno. Música e poesia. Um pouco de
vinho, sim, vinho, porque o vinho está nas Escrituras!... E na tua
idade é ideal para estas coisas. Aproveita. Aproveita bem. Neste
capítulo também posso oferecer a contribuição da minha experiência.
E não estou arrependido. A vida bela. O difícil é saber aproveitá-la
dentro do binômio: intensidade e equilíbrio.
Esta carta está se tornando longa e assim sendo,
deixo para a próxima vários assuntos de ordem pessoal. Ajuda tua mãe,
olha por Aninha e muito carinho com tua avó e receba do teu pai um
grande abraço, extensivo aos velhos amigos
Djalma Maranhão |