| [03/07/2007]
Entrevista a Luis Romano, um dos maiores escritores caboverdianos do século XX:
Antonino Condorelli
Da Redação
Entrevista realizada por escrito, devido à precariedade da saúde e da dificuldade em falar do escritor caboverdiano.
Por Antonino Condorelli
Qual foi o seu papel histórico dentro da literatura caboverdiana?
Embora mencionado nalgumas obras, em verdade o meu papel histórico dentro da literatura caboverdiana é unicamente o mérito de pertencer á Associação dos Escritores Caboverdianos, sediada na Cidade da Praia, Ilha de Santiago. De que forma as suas obras contribuíram para a formação de uma consciência nacional caboverdiana e à luta contra a opressão colonial? Por terem sido editadas no estrangeiro, só após a publicação de Famintos no Brasil minhas obras constituíram-se em ponto de denuncia que levou a censura a procurar eliminar-me dentro e fora de Cabo Verde. Isso contribuiu para esclarecer lacunas que estavam proibidas e de ampliar-se. Que papel desenvolveu seu livro Famintos na luta pela independência do povo caboverdiano? Famintos foi dos mais potentes gritos denunciando o desmando da ditadura estabelecida entre nós. Desde então fiquei escrevendo outros temas que se ligavam ao sofrimento de caboverdianos flagelados pelas secas, despotismo e “reinol” no nosso arquipélago. Qual foi a contribuição da sua obra literária na valorização e o resgate da língua caboverdiana ou crioulo? Acredito que após Cabo Verde, Renascença de uma Civilização no Atlântico Medio, obra etnográfica sem paralelo entre nós e que contem longas amostras da nossa lingua escrita, meu grande mérito foi lançado, informando e estimulando nossos letrados a desenvolverem com desembaraço o inicio da nossa presença na escrita e ficção caboverdianas. O senhor forjou a poética e poderosa expressão “caboverdianamente”. O que significa para Luis Romano ser caboverdiano?
“Caboverdianamente” é para mim, uma esperança e certeza em que se concretiza a nacionalidade a que pertenço: “caboverdiano”, como individuo plenamente consciente da sua identidade nacional e livre. Que episódios e momentos da sua vida foram determinantes para a sua formação humana e literária?
Acima de tudo, o espetáculo de ver compatrícios morrer à fome, sem revolta, esperando pelas chuvas resignadamente, num fatalismo passivo e revoltante, ao desamparo. Qual a sua visão de Cabo Verde (sua gente, suas paisagens, sus história, sua cultura, etc.)? Minha visão de Cabo Verde estaca-se numa patriótica e renovadora panorâmica de pão e progresso, em cada filho não terá mais necessidade de abandonar sua terra natal, em troca dum emprego eventual no estrangeiro. Que autores (romancistas, poetas e ensaístas) influenciaram mais a sua trajetória literária e quais os que mais admira e com que mais se identifica?
Tive uma infância precoce e deixei-me entusiasmar pela imaginação de algumas figuras expoentes tais como: Cervantes, Dostoievesky, Da Vinci, Victor Hugo, Jules Verne, Camões, Dante, etc... Como começou a sua relação humana e literária com Vera Duarte?
Vera Duarte, minha conterrânea, além de talentosa, é dotada de agressiva imaginação poética que por vezes desarma qualquer interpretação apressada. Foi na Praia que descobri o encanto dos seus poemas e não tive receio em testemunhar-lhe o meu apreço. Ela, a principio, ficou arredia. Com o tempo decidiu arriscar-se e hoje temos uma consagração como poetisa de altos vôos e de segura projeção futura. Qual é a sua visão do Cabo Verde pós-independência? Como vê o seu país na atualidade?
Como testemunha pessoal dos pavores que presenciei em Cabo Verde até 1948, hoje sinto-me recompensado por saber minha terra caminhando para melhor em varios sentidos, especialmente ao saber que a Universidade Caboverdiana está sendo uma realidade. Que papel desenvolveram o Brasil e do Rio Grande do Norte na sua vida e na sua obra?
No Rio Grande do Norte, Brasil, vim encontrar uma espécie de paralelismo emocional que me gratificou por me ter arriscado a residir definitivamente neste país. Idêntica sensibilidade popular e fraterna convívio social de que resultou uma quase uniforme forma de sentir e expressar. Quais são na sua visão os elos (históricos, culturais, simbólicos, espirituais, etc.) que unem o Brasil e Cabo Verde?
Por mais curioso que pareça, Brasil e Cabo Verde têm idênticas expressões de convivio na sua formação humana, trazida da Europa e da África. Há um elo sentimental que nos caracteriza, a ponto de não ferir o contacto dessas famílias irmãs, embora separadas pela distância marítima. Qual é a sua relação com a literatura brasileira em geral e a potiguar em particular?
Antes de vir para o Brasil, já tinha largo conhecimento de obras de vanguarda brasileira. o que melhor afectou meu desembaraço com alguns escritores brasileiros, embora de pouco convívio pessoal. Foi aqui que ampliei minha biblioteca com livros brasileiros e quando me deslocava até o Rio e São Paulo, tinha sempre ocasião de refazer contactos, além dos que já tinha aqui no Nordeste. Qual foi a sua relação com Luiz da Câmara Cascudo?
Com Luiz da Câmara Cascudo tive uma dúzia de anos de fraternal convívio. Para mim, ele era um sábio que se dignou acolher-me com sua amizade e sabedoria. seu Dicionário de Folclore Brasileiro distingue-me com palavras de aprêco ao evocar cenas caboverdianas que lhe transmiti. Afora isso o prefácio de Famintos me devaneceu! Que mensagem gostaria de deixar ao povo caboverdiano e ao povo brasileiro?
Ao povo brasileiro, meus agradecimentos por nele ter encontrado o afecto fraternal que nunca me faltou. Ao povo caboverdiano, votos de prosseguir na luta pela cidadania com dignidade e vitórias.
Fonte:Tecido Social
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