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REDE
BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS |
Setor Pastoral Social –
CNBB
O QUE PRETENDE A
EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA CIDADANIA?
Os fundamentos da educação como prática
da cidadania
O tempo atual nos desafia a colocar a
ação política e a democracia sobre os seus verdadeiros pés: os
cidadãos, seus valores, suas ações coletivas, suas necessidades, seus
desejos, seus direitos. Para alcançar essa meta, precisamos trilhar
novos caminhos.
Queremos começar pela base da sociedade. Indo ao
encontro de quem faz a vida social.
Indo ao lugar em que a vida
acontece. Em vez de procurar o indivíduo,
livre e juridicamente capaz de contratos, como anunciam idealmente o
liberalismo e o neoliberalismo, procuramos a pessoa concreta, com nome e
sobrenome, com pais, irmãos, parentes, amigos, vizinhos. É importante
partir das relações sociais
em que cada pessoa tem uma identidade,
é reconhecida pelas outras pessoas, contribui com todos para viver junto com eles. E para viver de um jeito bem determinado, do
jeito que se aprende e se quer viver, e sobre o qual se tem um controle
relativo.
Bem que se quer, mas muitas vezes se é
atrapalhado e até impedido de viver. É com agressão de todo tipo:
desde a violência que expulsa da terra, que impede de ter casa nas
cidades, até a invasão nas TVs, que tentam fazer que todos vivam,
pensem e sintam do mesmo jeito. Com tanta fumaça e ação violenta, é
muito difícil manter-se, vivendo do jeito que a gente gosta. E muita
confusão vai entrando no dia-a-dia.
Não bastasse isso, ainda entra o peso
de não se conseguir trabalho e renda para ir se vivendo. Nem mesmo
trabalhos que não gosta de fazer. E quando se trabalha, em geral
fazendo o que não foi escolhido e não se faria se houvesse outro
jeito, o pagamento é aquele roubo, aquela mixaria. Mal dá para se
manter vivendo. Para melhorar de vida, então, nem dá para sonhar. E os
desejos, levados ao grau máximo pelas propagandas, vão deixando um
sentimento de falta, de menos valor, de tristeza e frustração.
Assim esmo, as pessoas vivem, convivem,
rezam, trocam idéias, ouvem música e cantam, organizam pequenas e
grandes festas. Apesar da dureza, da exploração, do esquecimento dos
governantes, as pessoas inventam e reinventam jeitos de viver. Já disse
alguém, e com acerto que “a
democracia vivida pelas pessoas em suas comunidades rurais, bairros e
conjuntos urbanos é bem melhor do que a praticada pelas elites
dominantes e pelos governos”. Pode-se dizer que ela, mesmo
imperfeita, vai existindo no meio do povo apesar da prática das elites e
governos.
Política da vida cotidiana
Este é o nosso
ponto de partida: a vida cotidiana. É nela que a convivência
é feita a partir dos valores em que todos acreditam. E quando existem
diferenças, entram em cena jeitos de fazer acertos. Surgem, agem e são
reconhecidas autoridades e
lideranças, dependendo da prática e não das nomeações.
Como nosso desejo é uma sociedade
fundada sobre valores, orientada ;ela ética e não pela técnica, é no
cotidiano da vida que podemos encontrar o seu fundamento. É aqui que os
valores são vividos. E servem para educar os novos, como servem para
desenvolver iniciativas sociais de todo tipo. São eles que mantêm
firme a criatividade do grupo e da comunidade, gerando união e
iniciativas para enfrentar os problemas de todos.
Existe política na vida cotidiana. Todas
as ações relacionadas à vida em comum são prática política. Numa
sociedade realmente democrática, é nessas ações políticas que se
fundam as instituições públicas, o Estado. O crescimento das ações
locais, ligadas ao cotidiano, significam
um alargamento do espaço público:
ações de pessoas em benefícios de todos. Esse crescimento pode fazer
que as instituições estatais se voltem para o serviço público,
complementando e reforçando as iniciativas locais das pessoas. Sem isso
não é possível uma maior privatização do estatal, através do
controle e canalização dos serviços estatais em favor de algum setor
minoritário da sociedade.
Construção
da cidadania
Vista assim, a vida
cotidiana é a verdadeira escola
da cidadania. Não
existe o cidadão pronto e acabado, idealizado. O que existe é a cidadania
em construção. Aprende-se a ser
cidadão através da prática da cidadania. O lugar e o espaço
primeiro, original e permanente de cidadania é o lugar e o espaço em que se vive, se
luta para viver melhor, se trabalha, se estuda, se reza, se faz festa. Na
casa, roça, fábrica, bar, rua, escola, clube ou salão comunitário,
campo de esporte, festa do padroeiro, convivência com os diferentes...
é aqui que se é mais ou menos cidadão, isto é: pessoa que participa,
que decide, que faz e que ajuda a fazer o que é bom para todos,
inclusive para si próprio.
A conquista de uma cidadania plena não se completa
aqui, no local. Ela precisa acontecer e marcar a vida do trabalho, a
convivência e organização do conjunto das localidades de um
município, de uma região ou estado, de todas as regiões do país. Mas
é no concreto, nas relações sociais diárias que a cidadania
revelará sua plenitude ou limitação. Por isso, a prática da
cidadania nas relações políticas nacionais tem seu fundamento e seu
destin9o na vida concreta das pessoas, que vivem em diferentes
localidades, com diferentes possibilidades e até diferentes jeitos de
conviver. Construir uma unidade de tantas diferenças é o desafio comum
dos brasileiros que vivem em lugares bem concretos, e não no ar, ou nas
idéias, na generalidade dos conceitos.
Mobilização
e celebração cultural
A vida dos cidadãos se
faz por meio da contribuição de cada um, de cada família, de cada
grupo social que compõe a sociedade local, a comunidade humana
concreta, no campo ou na cidade. A convivência acontece, por isso, pela
ação de diferentes sujeitos
sociais. É a colaboração entre essas ações que faz a vida
continuar, ser mais gostosa, ter sentido, enfrentar as dificuldades, ser
criativa...
Comecemos pelo aparentemente mais
simples e mais esquecido, pelo menos pelas análises: as crianças. Cada uma é pessoa,
vivendo relações sociais com os outros. Elas têm muita coisa em
comum: basta estarem juntas para imediatamente desejarem brincar,
tagarelar, fazer ruído, descobrir coisas novas, inventar. Elas são a
presença viva da imaginação, da curiosidade, da alegria. Pois é... as crianças são sujeitos sociais
construtores das relações que caracterizam uma comunidade humana. Elas
contribuem, a seu modo, com a colaboração que só elas são capazes de
dar. Existe, por isso, um modo próprio de as crianças participarem na
construção da qualidade da vida comum. Elas marcam a democracia que
existe realmente. Elas são cidadãos, a seu modo.
Assim como as crianças, os idosos têm
modos próprios de serem cidadãos, dando uma contribuição
inestimável à vida em sociedade. Os camponeses, os operários, os
jovens, mulheres, professores, enfermeiros, garis, pedreiros, etc. todos
são diferentes e originais sujeitos da vida social.
A educação como prática da cidadania
se propõe a mobilizar a comunidade a partir da descoberta e do
reconhecimento da elaboração dos muitos sujeitos sociais que fazem a
vida continuar em cada comunidade. O objetivo é a descoberta de quanto
e de como cada pessoa e cada grupo ou setor social é construtor da vida
e da convivência. Isto significa: descobrir como cada um e todos são
cidadãos, construtores de relações democráticas na sociedade.
A descoberta é feita pela
mobilização. Isto quer dizer: por meio de alguma prática coletiva em
que se percebam os diferentes sujeitos, celebrando suas contribuições
para a vida em conjunto. Celebrar significa reconhecer com alegria, com
festa. Não basta uma descoberta ou reconhecimento formal. É preciso
que a comunidade se alegre, confirmando a importância da contribuição
de cada sujeito coletivo.
Invenção
e construção das alternativas
A sociedade em que vivemos
tem uma orientação contrária à vida da maioria. Ela é excludente, diminuidora de oportunidades de vida.
A invenção e a construção de
alternativas, desde as mais simples até as mais complexas, é uma urgência urgentíssima. Sem
elas, muitos estão condenados a morrer. Ou, para não morrer, são
forçados a buscar, até com violência, os bens que precisam para
viver.
É no espaço da vida concreta que
surgem as alternativas. É preciso, antes de qualquer outra coisa,
descobrir, reconhecer, valorizar e celebrar as inventividades e as
alternativas já construídas em cada comunidade humana.
Partindo dessa experiência acumulada,
o passo seguinte é mobilizar a inventividade, constituindo novas alternativas para manter e
melhorar a vida. E essas iniciativas podem estar ligadas a todas as
dimensões da vida, desde o econômico até o cultural e espiritual. E
podem dar conta das características de uma região, construindo
alternativas para o Semi-árido, para
a Amazônia, para o Cerrado, para o Pantanal, para o Sul, para as áreas
ribeirinhas, dos rios e do mar... Tudo é necessário e importante. Tudo
tem o seu tempo e seus sujeitos. Basta que se acredite e se aposte na
capacidade de todos.
Laboração de propostas de políticas
públicas
As práticas de
alternativas em diferentes dimensões da vida são fonte de descobertas
em relação às políticas públicas. Já não são vistas como
exclusividade dos governos e de outras instâncias estatais. São
assumidas como responsabilidade dos próprios cidadãos. As ações
governamentais, nessa visão, devem estar submetidas à sociedade, sendo
responsáveis pela generalização de direitos reconhecidos e de
propostas de ação apresentadas pela cidadania.
É um caminho novo, mas que já
começou a ser trilhado. Seu desenvolvimento apresenta desafios grandes.
Trata-se de construir articulações democráticas locais, regionais e
nacionais a partir das múltiplas experiências. Na perspectiva em que
estamos trabalhando, pode-se centrar forças na construção de fóruns locais e regionais de
desenvolvimento. Articulando as experiências localizadas, busca-se
formular estratégias adequadas à localidade e à região,
estabelecendo o que pode e deve ser feito pelos participantes e o que é
exigido como competência de instâncias do Estado. De todo modo, ao
lutar para que recursos públicos administrados pelo Estados sejam
destinados como apoio às propostas dos fóruns, a iniciativa é da
sociedade organizada.
O avanço de políticas públicas
efetivamente democráticas acontecerá pelo alargamento das iniciativas
dos grupos sociais e pela desprivatização do Estado. Mesmo com
limites, já existem experiências neste sentido abrangendo municípios
e regiões. Pode-se lembrar, por exemplo, as iniciativas de Tauá, no
Ceará, para elaborar e implantar o programa agroecológico para todo o
município. Sua base foi o desenvolvimento de experiências e a
constituição de grupos, praticando o manejo agroecológico de pequenas
propriedades dessa região do Semi-árido. Passou pela elaboração de
um mapa agroecológico, que
serviu de referência para o projeto de desenvolvimento. Com ele em
mãos, foi possível apresentar a proposta à câmara municipal, lutando
pela sua aprovação, comprometendo parte do orçamento municipal na sua
implementação. Quando liberados, os recursos estatais reforçam as
ações democráticas dos cidadãos.
Sem listar outras experiências,
pode-se repensar a participação nos conquistados conselhos (de saúde,
da criança e do adolescente...) a partir de fóruns que articulam as
práticas dos grupos populares, que devem servir de base para
elaboração e propostas que propiciem o desenvolvimento de políticas
favoráveis a todos os cidadãos. Do mesmo modo, as práticas de orçamentos participativos podem tomar outro sentido através da
articulação prévia das iniciativas populares. Em vez de ser uma consulta dos governantes,
poderiam ser práticas de verdadeira parceria entre as ações da
cidadania e as do Estado.
Organizar-se para lutar por mais
oportunidades de trabalho e por melhores salários faz parte desse
avanço do público na vida
social. Trata-se de fazer que os recursos existentes sejam aplicados em
favor da vida de todos. Mesmo os recursos privados, que se acumulam por
falta de normas que garantam o destino social dos frutos do trabalho
social. As lutas sindicais e as câmaras setoriais são bases importantes para fazer avanças essa
perspectiva. Mas seria indispensável o surgimento de fóruns
democráticos que possibilitassem elaborar propostas alternativas de
desenvolvimento industrial e urbano, assentadas sobre o aprofundamento
do público nas iniciativas sociais e na atuação do Estado,
estabelecendo estratégias coerentes para a escolha de tecnologias, para
o funcionamento das empresas, para a participação nos lucros, para a
relação com o meio ambiente, etc.
Abrindo
para a prática
Estes são alguns
princípios fundamentais da educação como prática da cidadania. A
esperança é de que sua prática venha significar uma educação política permanente. O
aprendizado se faz junto com a vida diária. Seguindo este caminho,
haverá o momento em que a mobilização
acontecerá em torno de eleições. Este seria o momento da vida em
que se poderia descobrir, valorizar e celebrar o significado das
eleições para a vida concreta que acontece em cada lugar, em
diferentes lugares. Poderia ser a oportunidade para descobrir os
sujeitos sociais desta atividade política, decidindo como a comunidade
pode ser mais dona também desse tipo de prática política. E de como
esse tipo de prática política poderá ser importante para a vida
cotidiana.
De todo modo, este é um esforço para
criar um caminho de educação popular mais adequado ao nosso tempo,
sendo, por isso, uma educação política que se faz através da
prática da cidadania. Não se trata de uma novidade. Não deve ser
assumida como uma moda. Na verdade, o que se propõe é um
aprofundamento e alargamento de processos existentes, como destacamos
já no começo deste texto. É fundamental que se valorize ao máximo
todas as iniciativas e experiências existentes em cada lugar. É a
partir delas que se pode buscar formas para realizar o aprofundamento
que estamos sugerindo.
O mais importante de tudo isso é
sermos criativos na geração de alternativas concretas e a vivência da
esperança. Como os desafios aumentaram, nossa missão e tarefa
profética, de manter viva a esperança do povo, é mais urgente do que
nunca.
Temos certeza que a presente proposta provocará polêmicas. Não as teremos. Pelo contrário, elas são bem-vindas.
São necessárias. É desejável que o processo da produção de
diferentes visões que caracterizou a 2ª Semana Social
Brasileira seja retomado, agora em torno da construção coletiva de formas
concretas para realizarmos uma educação política adequada ao nosso
tempo. Não deixe para amanhã a sua contribuição.
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