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Djalma Maranhão – Memorial Online
No ano de 2015, ano do centenário de nascimento de Djalma Maranhão, o Centro de Direitos Humanos e Memória Popular e a DHnet preparam diversos subsídios para comemorar a vida desse ilustre potiguar, além de material didático a ser utilizado por professores, alunos e interessados no assunto. O nosso intuito é a construção de um Memorial Online

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Galeria de Arte Popular
Exposições

Xico Santeiro, ícone da Cultura Popular do RN
Antônio Marques

Joaquim Manoel de Oliveira conhecido como Xico Santeiro, nasceu no município de Santo Antônio do Salto da Onça – RN, em 1889.

Juntamente com seu pai, Manoel Francisco Xavier, foi santeiro ambulante por cidades de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Nessa fase inicial de sua carreira, fazia um trabalho artístico voltado para as devoções populares, destinado a ser conservado nos oratórios domésticos ou exposto em dias de festas – nas novenas – ou nos momentos de oração em família.

As esculturas devocionais eram pintadas. Recebiam uma policromia para ficarem parecidas com as imagens que eram vistas nas capelas, igrejas e paróquias.

Atendeu assim, durante muitos anos, a demanda dos católicos que cultuavam as imagens sacras.

Provavelmente, muitas dessas peças ainda são preservadas, no silêncio dos oratórios populares. Difícil identificá-las, hoje, até porque não eram assinadas e, além do mais, realizados em parceria com seu próprio pai.

Do tempo em que “pintava” as imagens pouca coisa se conhece do trabalho que restou. Mas, ainda assim, algumas peças policromadas dão testemunho do referido período.

Cansado da vida de ambulante, Xico Santeiro, já casado com Maria Feliz de Oliveira, com quem teve oito filhos (dos quais três morreram antes da primeira infância), fixou residência em bairro humilde de Natal, à margem da linha do trem, no quilometro cinco.

Quanto à “descoberta” de Xico Santeiro na “grande cidade” não se conhece muitos detalhes.

Veríssimo de Melo relata que foi o comerciante Sérgio Severo, descendente dos “Albuquerque Maranhão” quem o apresentou ao mestre Câmara Cascudo. Isso se deu, provavelmente no final da década de 1940. Xico Santeiro conta que Câmara Cascudo gostava de fazer encomendas de “Santo Antônio” (miniaturas policromadas) que presenteava às moças que tinham pressa em arranjar “casamento”.

Em 1950, no Jornal “A República”, Câmara Cascudo redige uma calorosa apresentação do escultor popular Xico Santeiro. Graças à divulgação feita através de impressa, Xico torna-se conhecido e vai, pouco a pouco, consagra-se como um ícone ou um símbolo da força da arte popular do nosso Estado.

É o começo de uma nova fase, caracterizada por obras de cunho mais popular que ele passa a executar com seu canivete, na imburana crua, isto é, sem pintura. Esculpe com mais agilidade centenas de cangaceiros, rendeiras, pescadores, Fabião das Queimadas, Inácio da Catingueira, Zé Minininho, enfim, gente do povo.

Não se pode esquecer que essa mudança aconteceu graças ao incentivo de Protásio de Melo, Veríssimo de Melo e outros intelectuais sob a influência do Movimento Modernista Brasileiro. Infelizmente, as novas encomendas chegaram ao extremo de pedir a Xico Santeiro para esculpir Buda, Beethoven, estatuetas africanas e outros temas alienígenas à sua cultura.

De acordo com inúmeros depoimentos foi ainda Câmara Cascuda que levou o Prefeito Djalma Maranhão, (em sua 1ª gestão) à casa de Xico Santeiro, quando já residia na Praia de Areia Preta.

Entre o Prefeito e o Artista surgiu uma admiração mútua.

De imediato, Djalma Maranhão adquire várias esculturas de Xico Santeiro e cria o 1º Museu de Arte Popular do Estado.

O acervo cresceu rápido e foi ampliado com esculturas de outros artesãos, inclusive com cerâmicas vindas de Caruaru, assinadas pelo Mestre Vitalino.

Em 1991, a universidade Federal do Ceará, presta uma homenagem especial a Xico Santeiro. Nessa ocasião adquire para o museu da referida universidade – MAUC – uma centena de esculturas populares, assinadas por Xico Santeiro, Irene Oliveira e Zé Santeiro. Hoje constitui um acervo precioso para os estudiosos da cultura popular.

No final de 1962, Djalma Maranhão reconhecendo que Xico Santeiro não tinha um chão próprio para morar e trabalhar, faz-lhe doação de uma pequena casa, situada à rua Guanabara, no bairro de Mãe Luiza. Em 1963, Navarro escreve uma crônica na Tribuna do Norte, intitulada “Nova Casa de Chico Santeiro”.

Ainda em 1963, com a instalação da Galeria de Arte, na Praça André de Albuquerque, ele teve a oportunidade de ver suas peças expostas ao público. Na referida galeria também participou de várias exposições, uma dela, inclusive, ao lado de Newton Navarro, assessor da Diretoria de Documentação e Cultura, então dirigida por Mailde Ferreira Pinto Galvão.

Em Natal, Xico Santeiro foi um divisor de águas. A história da escultura popular, hoje, se divide em duas épocas fundamentais: “Antes e depois” de Xico Santeiro. “Antes” é a história da arte popular anônima. Só as obras que sobreviveram ao tempo dão testemunho do talento e da criatividade, sem registrar nomes. “Depois” é a história da valorização da arte popular. É a ação comprometida do Prefeito Djalma Maranhão com a cultura do Povo. Também o surgimento de colecionadores em residências particulares ou em instituições públicas. Enfim, um “conceito novo” de Arte Popular passa a ser debatido nos quatros cantos da cidade.

Caso semelhante ocorreu em Pernambuco, que teve como marco divisor a obra do Mestre Vitalino.

Poderíamos ainda fazer referência, ao estado do Ceará, que, nessa mesma época, contou com o reconhecimento do Mestre Noza, xilógrafo e escultor, vinculado igualmente às tradições populares.

Mestre Vitalino e Mestre Noza foram, por conseguinte, contemporâneos de Xico Santeiro. Três nomes indispensáveis ao conhecimento da arte no Nordeste do Brasil, do século XX.

Em Natal, Xico Santeiro ainda teve o mérito de fundar uma “escola”, no sentido de ter criado uma maneira, um estilo de esculpir. Entre os discípulos merecem destaque especial sua filha Irene Oliveira, casada com outro discípulo, José Santeiro, ambos já falecidos. Também pertenceu a mesma escola, um outro genro de Xico Santeiro, conhecido como Zé Nicássio ou Zé de Neuza. Ele reside atualmente em Taipú-RN e continua produzindo, sem jamais negar a influência que recebeu do seu Mestre.

Em 1964, com o golpe Militar ocorrido no Brasil, o conceito de arte popular passa a ser questionado e até mesmo a ser considerado como “subversivo”. O Museu de Arte Popular, criado por Djalma Maranhão, foi totalmente desarticulado e na sequência dos tempos ditatoriais, a Galeria de Arte, edificada na Praça André de Albuquerque, totalmente demolida.

No começo de 1966, abatido pelos acontecimentos políticos que ele vivenciou profundamente, ao lado de Djalma Maranhão, Xico Santeiro veio a falecer em Natal, no Hospital das Clínicas, com diagnóstico de doença hepática.

Apesar do tempo decorrido, a memória de Xico Santeiro e a memória de Djalma Maranhão continuam vivas, na Cidade do Natal.

Natal, 100 anos do Nascimento de Djalma Maranhão.

Texto de Antônio Marques.

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