
Promoção
dos Direitos Indígenas: Brasil - 500 anos
Marcos
Terena*
O
Brasil possui atualmente 160 milhões de pessoas de
diversas origens, como negros, índios, brancos e outros
povos que para cá vieram construir um novo símbolo de
identidade cultural, econômico-social. Mas houve um tempo
em que aqui viviam felizes, com suas tradições, costumes
e línguas, aproximadamente 900 povos e mais de cinco milhões
de pessoas, cultivadores da arte da sobrevivência,
conhecida atualmente como economia auto-sustentável. Sábios
no manejo das riquezas naturais, como a alimentação, a
medicina e o respeito pelo outro, pelos animais e pela
terra, nossos ancestrais ocupavam um território onde não
havia limites, mas o respeito pelo espaço do outro. Era
um sistema de vida quase que perfeito. Um tipo de vida que
de alguma maneira despertou em grandes filósofos e
pensadores reflexão, estudos e dissertações das mais
diversas formas, que não foram suficientes para
transferir tais experiências e modelos de vida a suas próprias
comunidades urbanas ou para as políticas públicas de
governo. Um código de vida jamais decifrado pelo homem
branco, onde a força física, tribal, cultural, fica
totalmente desequilibrada se não há uma sintonia com a
força da terra, do meio ambiente e do grande Criador de
tudo, a força espiritual. Graças a tudo isso,
acreditamos, mesmo sujeito a toda forma de aproximação,
dominação e massacre, foi possível assegurar a sobrevivência
de 215 etnias, 180 línguas faladas. São sociedades,
civilizações que possuem 30 mil pessoas, como os
Guarani, 26 mil, como os Tikuna, ou 06 pessoas como os Xetá
e 16 como os Avá-Canoeiro. No encontro das duas civilizações,
inevitável mesmo para aquelas mais distantes aldeias,
nossos povos são impelidos a reorganizar-se na defesa dos
seus direitos à vida, buscando nos dias de hoje, às vésperas
do próximo milênio, condições de entender um pouco os
costumes e as regras de vida do homem branco. Ao buscar
tornar-se um expert em brancos, nossas comunidades buscam
na verdade, um novo pacto de ajuda mútua com a sociedade
envolvente, e quem sabe, redescobrir um novo Brasil. O
primeiro desafio, o básico é chegar ao final deste Século,
no mínimo, com todas as terras devidamente demarcadas
pelo Governo Federal, áreas que correspondem a apenas 11%
do território original ou nacional, onde estão
depositadas além das grandes riquezas intertribais,
extensos mananciais de águas, riquezas do ecossistema, da
biodiversidade existentes nas matas e os minerais. Mais
que um dever Constitucional, um ato de reparação moral,
ética e étnica.
É
preciso registrar que devido principalmente aos
incessantes avanços econômicos desorganizados, como o
garimpo, a exploração ilegal de madeiras nobres, e mais
recentemente a biopirataria, ou aqueles planejados em
gabinetes governamentais e empresariais como as estradas,
hidrelétricas, hidrovias e a expansão rural, inclusive
com incentivos e recursos financeiros de grandes bancos
multilaterais, os mesmos nunca trouxeram benefício algum
às nossas comunidades, pelo contrário, foram sempre uma
ameaça ao nosso sistema original de direitos humanos, com
a devastação de nossas matas, depredação das terras e
poluição dos rios,. que no fundo são as fontes de
alimentação sadia e suprimento medicinal. Com isso
chegaram a fome, que não conhecíamos, doenças de que
jamais havíamos sofrido, e as transformações culturais
e econômicas. São resultados que chegaram rápidos, da
noite para o dia, e que nos legaram marcas permanente.
Diante
de tudo isso, lamentamos e choramos a perda de diversos
parentes, mas sem o espírito de ódio ou vingança.
Nossos corações se tornam mais tristes quando olhamos o
mundo que nos cerca, verificamos que outros seres humanos
estão à mercê do mesmo método que nos descaracterizou
e nos empobreceu, marginalizados e excluídos do contexto
social e econômico. Mas ao respirar fundo, não podemos
deixar de sentir no cheiro salgado das praias do litoral,
ou no cheiro que exalam as matas de nosso país, o sagrado
sangue de nossos antepassados, que com seus corpos
semearam o início da civilização brasileira e adubaram
estas terras para que este País pudesse ter o que tem e
pudesse ser o que é, para nós: uma grande potência.
Quando
falamos em direitos humanos indígenas, falamos do
processo educacional e de conscientização dos demais
brasileiros, contada através da verdadeira história como
essa mancha na formação do nosso país. Queremos que ela
seja sempre lembrada para a atual sociedade e para as
futuras gerações, para que jamais se repita. E que o
simples fato de sermos diferentes, não mais nos
marginalize, nos discrimine, nos separe e nos alije de uma
nova aliança por um futuro melhor.
A
grande pergunta é: qual o lugar do índio na sociedade
atual? Qual o caminho a ser seguido diante das constantes
invasões sobre nossas comunidades? Qual o tipo de
tratamento que se deve dar às nossas terras, às riquezas
minerais e naturais existentes? Qual o tipo de identidade
cultural a ser adotada? Haveria lugar para o Índio no
contexto nacional? Qual o status do Índio nessa
sociedade, o do selvagem, o do preguiçoso ou de um
cidadão da selva com direito a direitos civis? Um grande
Chefe da nação Xavante subia pelo elevador do Senado
Federal. Em determinado andar, entrou uma criança de mais
ou menos cinco anos com seu pai. Como a criança, vivendo
em seu mundo particular não parasse de falar, de sorrir e
de perguntar, o impaciente pai teve uma brilhante idéia.
Disse para o menino: “se você não ficar quieto e parar
de me encher, vou mandar esse índio te pegar!!!” A
criança olhou para o rosto surpreso e assustado do Chefe,
que o deixava mais sério ainda, imediatamente abraçou as
pernas do pai e aquietou-se...
Ao
olharmos para o Brasil de ontem, vemos um Brasil Indígena
e a morte de nossos ancestrais. Ao olharmos a atualidade,
centenas de pessoas indígenas continuam sendo
discriminadas, marginalizadas em vários níveis de
relacionamento, da assistência à geração de empregos,
mas mesmo assim, seguimos caminhando em direção ao
futuro, nas trilhas de nossos antepassados.
Povos indígenas - seres
humanos
O
primeiro comunicado, ainda em 1500, de que uma nova terra
fora “descoberta” e de aqui havia gente, jamais falou
de que essas terras tinham donos, ao contrário, fomos
tratados simplesmente como povos indígenas de índole
pacífica. Pero Vaz de Caminha dava a senha para a
invasão colonialista, e o mais grave, trazendo para cá o
que havia de mais ruim em Portugal, dando início à
contradição entre amizade e interesses econômicos, onde
estes prevaleciam sobre aquela, afinal a terra era boa. A
partir desse sinal, o colonizador só conseguia enxergar
uma terra rica, com um potencial de recursos naturais
incomensuráveis sob os pés de um povo que só sabia
fazer artesanatos, coletar frutas, pescar e caçar,
andando de um lado para o outro “sem nada produzir”,
apenas cantando, dançando para os animais, para a lua,
para o sol, para a chuva, etc. Tão incompreensível era
para aqueles “desbravadores”, como fora para nossos
patrícios a traição. Por um sentimento cristão e
político, quem sabe, ficou decidido que era necessário
“civilizar” e “catequizar” aqueles “inocentes”,
porém “preguiçosos pecadores”.
Assim
teve início uma campanha nacional de caçada indígena,
que variava entre escravização e domesticação,
aculturação e miscigenação, modernidade e preservação,
mas que tinha um só objetivo: a dominação física,
cultural e econômica dos primeiros povos. Ocorre que os
povos indígenas, apesar da aparente inocência,
desorganizados para aquele novo tipo de vida, não
conheciam o espírito de dominação, mesmo nas guerras e
nos conflitos inter-étnicos. Povo indígena era ele, com
autonomia de ser e de viver, sem imaginar a existência de
um outro. A globalização seria incompatível com essa
realidade. Os Índios não foram treinados ou educados
para serem serviçais, escravos ou dominados, mas para
serem homens livres. Taxados de preguiçosos, turrões e
selvagens, começava assim o nascimento do Brasil e o
lento desaparecimento das primeiras nações.
Mas
ao longo da história dos povos indígenas, nessa
caminhada em busca da sobrevivência, nossos antepassados
tiveram que aprender novos mecanismos e subterfúgios
culturais e sociais, enquanto outros tantos povos
surpreendidos e desaparelhados, foram sendo sugados pela
nova civilização. Comunidades inteiras foram
massacradas, dizimadas por doenças, assassinatos ou
assimilação, com a perda da identidade territorial e
conseqüente perda cultural e lingüística. Diversos
fatores contribuíram para esse cruel genocídio, como à
época em que matar um índio era motivo de orgulho, ato
de heroísmo, já que havia um conceito criado, fomentado
e generalizado, de que o índio era um animal... sem
alma...
Devido
quem sabe à força espiritual, à força do nosso grande
Criador, na língua Terena o “ITUKO-ÓVITI”, os povos
indígenas aprenderam no modo tradicional diversas
ciências e sabedorias que colocavam o homem branco em
contradições e desajustes sociais e ambientais. Era uma
maneira de reagir diante da impossibilidade de fugir, pois
não havia mais lugar para onde ir e os avanços eram
muitos maiores e muito mais rápidos e eficazes. Era
necessário buscar novos aliados no mundo do branco, como
uma espécie de troca ou solidariedade. Assim, foi
possível trocar a escravização por domesticação,
trabalhando em fazendas missionárias, ensinando aos
religiosos o verdadeiro sentimento de amor ao próximo,
traduzindo a Bíblia e as canções cristãs para suas
línguas originais. Transformados em “bons selvagens”,
passam a atuar como bóias frias temporários nas
plantações das novas agriculturas ou como mateiros junto
aos exploradores nas Entradas e Bandeiras e até como
instrutores de militares na artimanha da sobrevivência na
selva, ao ensinar como encontrar plantas alimentares e
águas que não contivessem venenos, ou medicamentos
naturais e até ler os sinais das estrelas, e assim, na
necessidade que os brancos tinham do índio, ora como
expert em mato e leitura espiritual sob uma outra ótica,
foi possível continuar ensinando suas crianças a língua
e os costumes, bem como a espiritualidade, através dos
xamãs.
No
início deste Século, quando começaram os grandes avanços
colonizadores, o desbravamento da Amazônia, com estradas,
a extensão telegráfica e as ferrovias, os Índios lá
estavam também. Foram usados mais de uma vez nas guerras
contra países vizinhos, como a vergonhosa Guerra do
Paraguai, a Revolução interna de 1932 e a IIª guerra
mundial. Eram formas de sobrevivência, num mundo caótico
e contraditório que se justifica na busca do melhor para
si. Um índio se tornara amigo de um pára-quedista que
realizava treinamento de sobrevivência na selva. Ao
realizar um salto, o jovem cadete caiu longe do
acampamento, então o índio correu para ajudar o amigo.
No caminho de volta, depararam com uma anta que tranqüilamente
bebia água num igarapé. O jovem branco, imediatamente,
sacou de sua pistola e apontou para o tiro fatal. O
guerreiro gritou para que não fizesse aquilo, perguntando
para que matar o animal? O jovem envergonhado não tinha
explicação. O guerreiro explicou então, que se um dia
sua família ou sua aldeia tivesse fome, ele saberia onde
encontrar uma saborosa comida, o que não era o caso, pelo
menos naquele momento, pois o animal voltaria para beber
naquele local.
No
ano de 1910, surge nas matas brasileiras um tipo de
desbravador diferente. Era um oficial a serviço do
Exército Brasileiro que tinha a missão de levar aos mais
distantes rincões do país a linha telegráfica, a
comunicação. Ao adentrar as matas aparentemente
desertas, Cândido Marrano da Silva Rondon descobre um
tipo de gente diferente, um povo que não pedira para ser
encontrado, para ser importunado, e que vivia feliz na sua
maneira de ser, de viver, sadios e ricos. Tocado quem sabe
pelo mesmo sangue enterrado naquelas terras de seus
antepassados, como talvez estivera em suas veias, em seu
coração, sua consciência passa a despertar nele o
interesse por aqueles verdadeiros donos da terra, afinal
era possuidor do sangue indígena Bororo. Através de um
lobby essencialmente humanitário de abnegados
discípulos, Rondon ergue primeiro dentro do Exército
Brasileiro, e depois, no sistema do Governo Brasileiro, a
necessidade de um compromisso de resgate social e de
proteção para aquelas comunidades totalmente
desamparadas após o primeiro contato, feito da noite para
o dia, sem um programa de prevenção mas só de ataque. O
Governo Federal então, assume publicamente sua função
de proteger, de “integrar” o Índio através de um
órgão governamental específico, cuja responsabilidade
maior seria o de manter contato com os índios,
assisti-los e demarcar as terras tradicionalmente
ocupadas. O Governo Federal busca com isso, dar uma
guinada em relação a tudo que fizera contra as
sociedades indígenas e suas aldeias, destacando seu
compromisso idealista e humanitário de levar um mínimo e
adequado convívio social, àqueles considerados como
sobreviventes da última escala social dessa Pátria.
Assim, os povos indígenas passam a ser vistos, embora
carentes de tudo, como seres humanos. A atitude de Rondon
e do Governo Federal, enfoca um novo conceito a partir
dessa época em relação aos índios, o indianismo, o
indigenismo, e o reconhecimento de que compete ao Governo,
e tão somente ao Governo, a responsabilidade de assegurar
a sobrevivência dos povos indígenas.
Nasce
o Serviço de Proteção aos Índios, o SPI, mas
percebe-se logo que uma agência governamental que não
seja adequadamente estruturada do ponto de vista
administrativo, institucional e político em relação a
outras agências governamentais, em relação a capacitação
humana, não está, na prática, suficientemente
capacitada para atuar com a diversidade étnica e lingüística,
ou em situações inóspitas de convivência tribal. Um
indigenista que trabalha e conhece o universo Karajá,
jamais poderia aplicar seus conhecimentos em relação aos
Parakanã, apesar de ser um elemento altamente treinado,
muitas vezes desvalorizado como profissional quando na
verdade seu trabalho deveria ser comparado aos diplomatas
do Instituto Rio Branco, pois esta é a verdadeira
realidade. Outro exemplo de dedicação e riscos de vida,
é o do indigenista incumbido de realizar o primeiro
contato, geralmente acompanhado da primeira flechada, ou
da primeira malária.
Em
1967, o SPI é fechado por denúncias de corrupção,
desvio administrativo e venda ilegal de terras indígenas,
sem ter cumprido sua missão. Naquele ano, Rondon já
havia morrido; felizmente, para não assistir como
terminara seu trabalho. Infelizmente para os povos
indígenas a incógnita permaneceria: como cumprir as
metas de “fazer do índio, um índio melhor?”. De toda
forma, o trabalho de Rondon não foi em vão, pois gerara
uma consciência de que as terras brasileiras tinham dono,
fomentando o amor à terra, e criando um sentimento de
culpa pelos estragos causados às comunidades indígenas.
Surge, então, um modelo de valorização e de ideais,
através de cenários intelectuais, artísticos e
jornalísticos. Percebendo a grande injustiça que
cometeria contra os povos indígenas, caso o Governo
Militar apenas extinguisse o SPI, é criada a Fundação
Nacional do Índio para dar continuidade à política
indigenista oficial baseada num Estatuto do Índio e nas
regras estabelecidas pela Constituição Federal, além da
Convenção 107 de Genebra.
Paralelamente
a toda essa história, aqueles incentivos governamentais
de ocupação da Amazônia, de extensão rural, de novos
avanços continuaram sendo planejados, estruturados agora
com dinheiro do governo e de Bancos multilaterais como o
Mundial e o Interamericano de Desenvolvimento, repetindo
os mesmos processos de dizimação das comunidades indígenas
que, ao serem encontradas ao longo das obras, eram
simplesmente tratadas como obstáculos ao desenvolvimento
e ao progresso, pois o Brasil não podia parar. Hoje
alguns dados extra-oficiais asseguram que entre 1900 e
1957 pelo menos 90 povos indígenas deixaram de existir,
desaparecendo totalmente.
Direitos humanos dos povos
indígenas - direitos civis dos primeiros povos e cidadãos
da selva
Neste
ano de 1998, a Organização das Nações Unidas estará
comemorando os 50 Anos da Declaração Universal dos
Direitos Humanos. Neste ano também, nós como povos indígenas
ressaltamos que faz um ano que um parente da tribo Pataxó
Hã-Hã-Hãe, da Bahia, foi assassinado em plena Capital
do Brasil, queimado vivo por 05 jovens de classe média
que brincavam de incendiar mendigo.
Antes
de mais nada, nós os povos indígenas queremos enviar
nossa mensagem de solidariedade a todos os povos
perseguidos, massacrados pelos poderes bélicos e poderes
econômicos e que muitas vezes sofrem sanções em nome do
bem comum, ou são incentivados a uma guerra inter-étnica
em nome da soberania e com a justificativa de
estabelecer-se a paz. Nossa solidariedade, como povos
donos da terra, para com aquelas comunidades que morrem de
fome (como ocorre com os nordestinos aqui em nosso país)
para com aqueles órfãos e viúvas que não têm uma família
e, sem ter para onde ir, vagam abandonados pelas ruas,
escorraçados como ameaças à sociedade, sem ter onde
comer, onde dormir, onde viver. Nossa mensagem a todos os
governos, principalmente àqueles que se intitulam como
grupo dos ricos, para que prestem atenção a tudo isso,
mas também às suas próprias famílias, suas crianças e
seu povo. Como filhos de famílias indígenas, aprendemos
que os recursos financeiros abastados jamais poderão
comprar princípios de sabedoria, de espiritualidade, de
fraternidade, de amor à terra, de amor ao meio ambiente e
ao próximo.
Da
fase de contato, da fase de integração, da fase do
relacionamento com a sociedade brasileira, da fase de
relacionamento com as Igrejas, da fase de relacionamento
com o Governo Federal, nós como índios temos muitas
perguntas para a sociedade dita “civilizada”, diante
dos incessantes avanços que ela mesma promoveu sobre
nossas terras como a invasão territorial, invasão
cultural, lingüística, religiosa e até mesmo a
obrigatoriedade a nós imposta de mudar nossas famílias
para outros lugares, e assim, mais uma vez, ceder nosso
lugar tradicional onde jazem os corpos dos antepassados,
para que seus empreendimentos fossem viabilizados.
Agora,
quando fazemos uma breve - e esperamos não passageira -
reflexão sobre os 50 Anos da Declaração dos Direitos do
Homem;. agora, que, no caso brasileiro, quando estamos às
vésperas de completar 500 anos de Brasil, queremos
provocar um novo encontro entre povos indígenas e a
sociedade envolvente, porque, sob qualquer ponto de vista
jamais tivemos oportunidade, consideração mínima para
reagir, para argumentar nossa defesa segundo nossos critérios
de vida. Sempre fomos levados a fazer alguma coisa. Sempre
fomos considerados incapazes para agir e defendermo-nos,
como dito anteriormente, com a mesma justificativa de
sermos considerados selvagens, preguiçosos e
improdutivos, isto, agora compreendemos, para justificar ações
paternalistas, assistencialistas, em nome da proteção, e
quem sabe até mesmo em nome dos direitos humanos.
A
nossa história de ontem, de hoje para o amanhã, tem sido
pavimentada com o sangue de grandes líderes, como
Cunhambebe quando da sua luta contra portugueses,
holandeses e franceses no litoral paulista; como aconteceu
com Ângelo Kretan, índio Kaingangue do Paraná e sua
luta pela terra de seu povo diante de grandes empresas
madeireiras e de celulose; Marçal de Souza, índio
Guarani do Mato Grosso do Sul que lutava pela recuperação
das terras originais invadidas, assassinado com vários
tiros na porta de sua cabana Hibes Menino, da tribo Wassú
de Alagoas, encontrado morto com sinais de tortura, que
lutava contra usineiros da cana de açúcar e fazendeiros
para obter o reconhecimento da terra de seu povo e um dos
fundadores do 1º movimento indígena no Brasil, a União
das Nações Indígenas; Galdino dos Santos, da tribo
Pataxó Hã-Hã-Hãe da Bahia, cujos acusados, filhos de
influentes famílias brasilienses, têm levado vantagem
nos julgamentos com argumentos jurídicos, quando a justiça
que buscamos deveria ser também uma justiça moral; e, em
maio deste ano, Chicão Xucurú, de Pernambuco, que também
lutava pela terra de seu povo, ameaçado de morte, acabou
morrendo assassinado com vários tiros, até o momento sem
nenhuma solução.
Quando
falamos em direitos humanos e os povos indígenas, não
basta falar em assassinatos contra nossos líderes, pois
outros fatores têm provocado formas de “assassinatos
indiretos” como os que têm ocorrido com os Guarani e
Kaiwá, em Mato Grosso do Sul, em que jovens são
encontrados mortos por enforcamento, envenenamento,
suicídios indecifráveis que totalizaram, entre os anos
de l990 e l998, quase 280 mortes, sendo que, destes, 45
tinham entre 9 e 14 anos. 17 só neste ano.
Um
outro exemplo aconteceu com a tribo dos Krenakarore,
conhecidos pela mídia como os famosos índios gigantes,
que chegaram a ter 300 pessoas aproximadamente na época
do contato, e que resistiram a toda forma de entregar-se a
nova civilização, só o fazendo depois que começaram a
morrer devido a novas enfermidades como a gripe e a
tuberculose, até que uma equipe da Fundação Nacional do
Índio e da Força Aérea Brasileira fosse designada para
uma missão de misericórdia e resgate. Foram
transportados menos de 100 índios, trazidos de suas
terras originais para dentro do Parque do Xingú, onde,
constrangidos, tiveram que viver exatamente com seus
inimigos tradicionais, os Kaiapó. Chegaram à beira da
dizimação total, não só pelas doenças, mas, também
as mulheres esqueceram seus sistemas tradicionais e, começaram
a usar anticoncepcionais, como se caminhassem
voluntariamente para a auto-extinção. Como resultado
desse sacrifício, obrigados a ficarem longe de suas
terras tradicionais, nasceram uma estrada federal e várias
cidades garimpeiras. Hoje regressaram a uma parte do que
um dia lhes pertenceu, resgatando a auto-estima e o nome
tradicional, os Panará.
Uma
outra situação ocorreu com diversas aldeias, nos anos
70, quando o Governo brasileiro decidiu incentivar colônias
agrícolas na região da Amazônia ocidental, nos estados
de Mato Grosso e Rondônia, abrindo uma grande estrada
denominada BR.364, com incentivo financeiro do Banco
Mundial. Nesse caso, além do prejuízo social e da dizimação
étnica que ocorreu contra os povos indígenas, também
trouxe uma grande crise existencial aos colonos vindos do
sul, que lá chegavam para ocupar o lugar prometido, e que
só depois, a milhares de quilômetros de suas casas,
descobriram que para ocupar a terra prometida teriam que
adentrar as matas traiçoeiras, morrer por uma flecha
envenenada ou pelas doenças tropicais, caracterizando
mais uma vez que aquelas terras tinham dono. Povos indígenas
como os Suruí, Gavião, Arara e Nambikuara quase foram
extintos, o que só não ocorreu devido à grande pressão
da opinião pública internacional e à consciência de
antropólogos e sociólogos engajados nesse tipo de
trabalho.
Uma
história parecida ocorreu com um dos povos indígenas
mais cantados pelos artistas brasileiros, como a famosa
composição de Milton Nascimento, os Avá-Canoeiro, que
habitavam em linha reta, a 200km de Brasília. Por muitos
anos perambularam em pleno centro-oeste sem ter para onde
ir e sem ter uma aldeia definida, já que suas terras
originais deram lugar a novas cidades no entorno da
capital federal. Um dia também tiveram que se entregar,
com apenas 15 pessoas adultas, caracterizando que o mesmo
processo anticoncepcional tinha sido utilizado. Só
recentemente, após um árduo trabalho de indigenistas da
Fundação Nacional do Índio, puderam ter novas crianças,
pois o governo finalmente definira uma área para a
implantação de sua aldeia. Há três anos atrás uma das
maiores empresas de eletricidade do país decidiu criar
uma nova hidrelétrica. Onde? Exatamente no local onde
estavam começando a viver os Avá Canoeiro, e tudo começou
de novo...
Diante
de todo um quadro de catástrofe no encontro entre nossa
civilização que vem das selvas, com conceitos de amor à
terra e ao meio ambiente, e a civilização moderna e
altamente tecnológica, capaz de produzir com suas loucas
e milionárias máquinas até mesmo um ser com vida,
podemos ressaltar que todos nós homens e brancos,
nascemos da mesma forma e vamos morrer da mesma forma.
Todos nós, como seres humanos, fazemos jus a direitos
humanos, como o direito a uma melhor qualidade de vida e o
direito de existir como somos. Será que isso significa
caminhar junto as estrelas e sonhar? Ou é uma utopia possível
de ser alcançada, apesar das diferenças?
Quando
repetimos por várias vezes que os índios eram “obstáculos”
ao desenvolvimento, isso não deve significar um descaso
nosso com o País. Nossos antepassados, nossas aldeias
eram muito ricas, com águas, rios e mares, matas e
animais. Nossas aldeias nunca precisaram de moedas para
definir quem era rico e pobre, pois em princípio havia o
bem comum e o bem viver. Julgamos que houve um erro desde
o primeiro encontro entre as duas civilizações, quando
os especialistas em fazer contato com nossas aldeias, se
aproximaram com espelhos, panelas e facões. Eram
presentes que nos atraiam e nos enganavam, pois o mundo do
homem branco não vive de presentes ou doações, mas sim
da capacitação, da concorrência e da competitividade,
onde o valor material é mais importante e a dominação
se torna valor de poder entre pessoas, sociedades e
países...
Ficamos
tristes quando países que não possuem a quantidade de águas
doces como nós, a quantidade de riquezas minerais e
riquezas da biodiversidade inexploradas como há em nossas
terras, ficam a criticar nossa incapacidade de administrar
tantas riquezas. Nossa capacidade deve ser antes de tudo
dentro de uma perspectiva de desenvolvimento tipicamente
brasileira. Ficamos tristes quando nossos governos não se
dão conta de suas responsabilidades, como o dar início a
um tipo de política e ações para resolver pendências e
problemas nacionais, como no caso indígena que mesmo
donos de terras riquíssimas no solo e subsolo se
encontram em condições sub-humanas e próximos de entrar
na faixa da marginalização e pobreza total. O erro de
relacionamento continua, mesmo quando a nova Constituição
do País estabelece o respeito ao modo de vida indígena e
suas organizações. Queremos fazer jus a um processo de
justiça social que nos coloque como parte de qualquer
outro processo de justiça social, de desenvolvimento
social, cultural, político e econômico, ou daqueles
voltados para a melhoria da qualidade de vida do povo
brasileiro e para o sonhado progresso do país.
Os
povos indígenas sempre demonstraram boa vontade no
relacionamento com o homem branco, especialmente com os
governos, e foram traídos. Agora, quando se fala em
direitos humanos, direitos indígenas, é preciso saber até
que ponto o Governo Federal está capacitado para enxergar
e ouvir a voz de um povo silenciado por quase cinco séculos.
Ao Governo, e somente a ele, compete o dever histórico de
corrigir os rumos desse relacionamento, considerando o
passado, mas sobretudo a demanda dos povos indígenas
sobreviventes. São exemplos fortes do pluralismo
cultural, ecológico e tribal, com mais de 330 mil
pessoas, em diversos estados brasileiros, com exceção de
dois, Piauí e Rio Grande do Norte. O Governo do Brasil
deve estar atento também ao surgimento de diversas
lideranças indígenas, cada vez mais capacitadas do ponto
de vista da linguagem, da artimanha e do jogo proposto
pelo homem branco, sem ter sido seduzidas, corrompidas ou
descaracterizadas, pelo contrário, nascidas junto aos
problemas de seus povos, se tornaram conhecedoras dos
caminhos que levam aos foros internacionais, como as Nações
Unidas, o Parlamento Europeu e os Bancos multilaterais. São
novamente os povos indígenas que retomam o verdadeiro
caminho da sobrevivência, com respeito e dignidade,
questionando cada vez mais os processos anteriores. São
peças fundamentais junto a seus caciques tribais e suas
comunidades, para a criação de uma nova relação entre
o Índio e o Estado Brasileiro, disponíveis para a
consulta e o aconselhamento nas decisões sobre suas próprias
aldeias, onde o índio deixa de ser pedra no caminho e
passa a ser parceiro. Um caminho que vai ao encontro das
novas idéias que caracterizam a universalidade dos
direitos humanos, dos direitos civis e políticos, dos
direitos econômicos, sociais e culturais e dos direitos
ao desenvolvimento, ao meio ambiente e a paz.
No
Brasil, o Governo não deve esperar um caos maior para
agir, ou uma crise, como ocorre com a FUNAI, deve sim
assumir seu papel na condução da sua política
indigenista, afim de concretizar, antes dos 500 Anos do
Brasil, recomendações legais e questões práticas, como
já estão fazendo as Nações Unidas ao declararem a
Década Internacional do Índio, analisando e consultando
os povos indígenas para a aprovação de um Fórum
Permanente de uma Declaração Universal dos Direitos
Indígenas, cujas recomendações se traduzem em
princípios, sobre os quais esperamos que o Governo do
Brasil, não tenha qualquer restrição para sua
assinatura, como questionar detalhes insignificantes a
nosso ver, como o uso da palavra em inglês, “people”
ou “peoples”, e como vem fazendo a Organização
Internacional do Trabalho com a Convenção 169, que se
encontra estacionada há quase três anos no Senado
Federal, e por último o sonhado novo Estatuto do Índio,
quase aprovado, não fosse um pedido de vistas do Deputado
pelo Rio de Janeiro, então em final de mandato, Arthur da
Távola, hoje Senador, prejudicando o andamento do
processo que continua parado até hoje na Câmara dos
Deputados.
Direitos indígenas no
Brasil estratégias e perspectivas
Nós
os povos indígenas sabemos que o Brasil foi estruturado
de uma forma tal, que não aceita nossas formas de ser,
sendo-nos legado o lado mais ruím e desprezível como o
isolamento e a exclusão. Sabemos que muitos povos irmãos
deixaram de existir. Sabemos que ao criar um organismo
governamental para assistir nossas aldeias e nossas
necessidades, fomos mais uma vez violentados, a tal ponto
que o simples sair das pré-condições de ser índio,
como falar a língua do homem branco, adquirir novas
capacidades, solicitar emprego ou ampliar o currículo
escolar, significava deixar de ser índio. Questionar
determinado tipo de comportamento de dirigentes do órgão
indigenista bastava para ser entendido como
insubordinação. Foi criado então, no Estado de Minas
Gerais, “uma prisão indígena”, e até mesmo uma
guarda rural indígena, para corrigir e disciplinar nossos
líderes. O que dizer da incapacidade administrativa de
diversos dirigentes, onde até o Governo era enganado como
ocorreu há alguns anos atrás, quando um alto
funcionário chegara na FUNAI identificando-se como um
Almirante, sendo na verdade um ex-militar graduado da
Marinha. A falta de um programa de governo, um
planejamento dos recursos federais, compatível com as
demandas indígenas. Por isso, justifica-se quando
qualquer pessoa assume a presidência da Instituição,
sem compromisso com a causa, atuando como lhe convém, o
que certamente contribuiu para a dilapidação do
patrimônio indígena e os parcos recursos que
transformaram o órgão indigenista, num saco de dinheiro
sem fundo.
O
Governo brasileiro, principal responsável pela política
indigenista oficial, deve retomar a condução dos debates
e do planejamento voltados para um futuro melhor das
sociedades indígenas, sob a ótica do resgate, do
desenvolvimento, da dignidade e da paz social, princípios
básicos dos direitos humanos. Daí a necessidade de se
retomar no Congresso Nacional, os debates para a aprovação
de um novo Estatuto do Índio, adaptado à nova realidade
indígena. É preciso a reorganização e o fortalecimento
da entidade indigenista oficial com recursos e instâncias
políticas capazes de responder em nome da Nação e do
Estado brasileiro a quaisquer questionamentos em termos de
assistência a saúde, a educação e ao crescimento econômico
das comunidades indígenas, tal como o Esporte, a fauna e
a flora tem sido contemplados, inclusive com Ministérios
específicos. Uma Instituição com gerenciamento bilingüe
e bicultural, que saiba atuar em alguns momentos como um
parlamento intertribal, outras vezes com poder de polícia
capaz de fiscalizar as terras indígenas e ainda, em
outros casos, assistindo, orientando e capacitando. O
Governo brasileiro, baseado no direito sagrado à sobrevivência
indígena e ao futuro melhor, não pode a despeito de
desculpas econômicas e meramente burocráticas-administrativas,
abrir mão de sua responsabilidade pública em resgatar os
povos indígenas ao verdadeiro espírito de cidadania,
corrigindo os erros do passado diante desse grave pecado
social, como diria Rondon.
Apesar
de tudo, do ponto de vista indígena, vale a pena ser índio
em nosso Brasil, porque aí está a própria raiz do país
e a linguagem universal da pluralidade cultural como
patrimônio de uma terra livre de guerras inter-étnicas
como as que ocorrem na África e na Europa. Ao mesmo
tempo, esperamos que o Brasil, com esse patrimônio, se
constitua fator de orgulho perante o cenário
internacional como é o sonho indígena. Junto aos demais
160 milhões de irmãos brasileiros, queremos somar na
busca do bem estar de todos, ao conhecer, ao conviver com
as histórias de vida das nossas comunidades, como têm
demonstrado artistas, cantores, compositores, atores,
intelectuais e políticos a quem agradecemos e
homenageamos como defensores de nossos direitos, como
aliados e conscientizadores de massas, exemplificados
naqueles que partiram para caminhar entre as estrelas como
Darcy Ribeiro, Cláudio Vilas Boas, Antônio Callado,
Betinho, Ulisses Guimarães e Severo Gomes.
Acreditamos
nos ideais e na esperança dos Direitos Humanos e dos
Direitos Indígenas, pois sabemos que já não podemos
caminhar sozinhos. Nasce uma nova compreensão na
sociedade envolvente quando lutamos pela demarcação de
nossas terras. Lutamos por nossa sobrevivência cultural e
física, ao mesmo tempo defendendo um patrimônio ecológico
a ser preservado e usufruído através do manejo sustentável,
pois nossas matas escondem um vasto patrimônio mineral
como o urânio e o nióbio, sem falar no grande potencial
da biodiversidade. Além disso, constatamos que ao
demarcar uma terra indígena, o Governo está assegurando
uma tranqüilidade de reprodução e crescimento
populacional para nossas famílias, que têm registrado
uma média de 4:1 em relação a sociedade nacional.
Mais
importante que destacar, é preciso um compromisso para a
efetiva demarcação e proteção das terras indígenas
antes do ano 2.000, como prova do respeito aos direitos
humanos dos povos indígenas. O Governo de Fernando
Henrique tem sido um campeão em áreas demarcadas,
atingindo mais da metade dos 11% do território nacional,
reconhecidos como terras indígenas. Alertamos contudo,
que de nada valerá tamanho esforço e gastos financeiros,
se não houver um planejamento condizente para as
comunidades indígenas com vistas ao próximo milênio,
como um programa de empreendimentos comunitários, visando
o desenvolvimento de cada aldeia e sua competitividade
econômica, comercial e financeira, de maneira
auto-sustentável no manejo dos recursos naturais e a
implementação de novas formas agrícolas e pecuárias,
alimentares e medicinais.
Temos
clareza do processo histórico que vivemos, por isso não
queremos continuar chorando a morte de nossos
antepassados, como não queremos novas conquistas e acesso
aos poderes constituídos simplesmente como uma concessão
do Estado, afinal todas as demandas basearam-se na resistência
trazida dos nossos costumes, tradições e cultura, sem os
quais jamais seríamos índios. O desenvolvimento
reivindicado em nome dos direitos humanos, tornar-se-á
capenga, cremos, caso não esteja acompanhado do
desenvolvimento cultural, da auto-estima e de uma
identidade étnica, compreensível inclusive ao mundo que
nos cerca, como um código oral, legado pelos velhos aos
mais jovens.
Por
fim, ao assinalar os recentes assassinatos de líderes indígenas
em nosso país, não queremos apenas enaltecer a memória
desses mártires, mas sinalizar a necessidade de uma instância
eficaz de justiça para os povos indígenas, por exemplo
quando o Governo Federal reconhece que diversos líderes
da resistência contra o Governo Militar morreram sob a
custódia do Estado, e diversas indenizações têm sido
pagas. Por que aos índios e suas comunidades não se dá
o mesmo tratamento, já que reconhecidamente a Fundação
Nacional do Índio e o extinto Serviço de Proteção ao
Índio eram na verdade os responsáveis pelas vidas indígenas
quando ocorreram assassinatos e caçadas aos índios, e
mesmo por contaminação de nossas aldeias por novas doenças?
Sabemos
que ao longo de 500 anos de Brasil fomos silenciados e
aprisionados por diversos modelos de doutrina, que hoje ao
nos libertarmos, podemos perceber o que esteve errado ou
insuficiente para nos conduzir a uma solução mais
adequada dentro da expectativa do Índio para o branco, de
que: “ posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou!”. Houve
um tempo em que fomos tratados como preguiçosos e
selvagens, fomos perseguidos, aprisionados e mortos. Houve
um tempo em que devíamos nos tornar cristãos,
abandonando nossas características espirituais, para
conhecer um Deus que já conhecíamos. Houve um tempo em
que, sob a o pretexto de proteção e tutela, nos isolaram
ou nos coagiram para que não enxergássemos e não
compreendêssemos nossos verdadeiros direitos. Em todos
esses processos, tínhamos donos. Ao criarmos um movimento
indígena conseqüente, nos tornamos politizados e
questionadores da política indigenista oficial, exigindo
um melhor tratamento e um olhar sobre nossa e capacidades
de ingresso nos diversos setores da vida pública, como
forma de construir uma participação democrática; e
fomos vistos pelos nossos “donos” como boicotadores da
ordem estabelecida, tendo como reação, mais uma vez, a
velha tentativa de questionarem nossa legitimidade ao
tratarem-nos como os “índios da cidade”.
Aprendemos
no processo de sobrevivência abrir brechas dentro dos
diversos Ministérios, obtendo iniciativas em prol dos indígenas
que deram certo, como a publicação de cartilhas através
do MEC, Festival de culturas indígenas através do MinC,
e até programas de índio para rádios, televisões
educativas e universitárias, criados e apresentados por
índios que falavam em várias línguas indígenas e também
em português, e até mesmo no intercâmbio esportivo, com
a realização dos Jogos dos Povos Indígenas, apoiados
pelo Rei Pelé.
Hoje
temos consciência de que a participação indígena em
qualquer processo democrático deve ser contestador, mas
também de contribuição para o todo, conforme os
ensinamentos de nossos antepassados, deixando claro nosso
desejo de uma nova aliança com a sociedade envolvente, e
nosso desejo de contribuir com o Governo Federal,
principal responsável pelos direitos humanos indígenas
na construção de uma política indigenista oficial e uma
instituição condizente com as demandas indígenas para o
próximo milênio. Por outro lado, não desejamos ser
lembrados apenas nas homenagens a cada 19 de Abril (dia do
índio) ou pelos nomes de cidades, rios e ruas, como se fôssemos
parte de um passado histórico. Queremos sim, ser parte
integrante das decisões governamentais e da conquista de
direitos civis, políticos, culturais e sociais com os
demais setores da sociedade brasileira, buscando ao mesmo
tempo assegurar nossa própria identidade dentro das
características da identidade nacional. São formas de
promoção dos direitos humanos e direitos civis indígenas,
que abrem e ampliam a participação indígena em diversos
níveis dos poderes decisórios do sistema do Estado,
respeitando nossos códigos indígenas e a hierarquia de
nossos costumes e tradições, ao atingirmos determinadas
condições e requisitos que a sociedade maior impõe.
Direitos Humanos aos Índios significa, ainda, a elaboração
de políticas públicas em relação à saúde tradicional
do branco e do índio, a educação, formação e capacitação,
bilingüe e bicultural, que nos leve à manutenção das
tradições e costumes, mas também às condições necessárias
para as novas demandas de emprego e salário.
Para
isso, o Governo brasileiro deve aprender a conversar com
expressões indígenas, pessoas que possam inclusive
assumir a condução desses processos, capaz de
sustentar-se num debate democrático, de dar sustentação
indigenista ao mesmo Governo, inovando para um período em
que indigenistas, antropólogos, sociólogos,
historiadores, juristas, organizações não
governamentais se tornam auxiliares e assessores
verdadeiros e confiáveis de uma justa causa. Caso
contrário, nesses 50 anos da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, a recomendação de que “todos
os homens nascem livres e iguais em dignidade e
direitos... todo homem tem capacidade para gozar os
direitos e as liberdades nesta Declaração, sem distinção
de qualquer espécie...”, ainda não se aplicará ao
Índio do Brasil, numa demonstração de que nada mudou
durante esses cinco séculos.
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