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O
Rapto de Milosevic
Quando, na sequência dos
bombardeamentos da NATO contra a população civil na Jugoslávia,
os jornalistas colocaram a possibilidade da Aliança ser inculpada
por crimes de guerra, o então porta-voz da organização militar,
Jamie Shea, respondeu-lhes assim: «a NATO é amiga do tribunal...
foram os países da NATO que colocaram à disposição o dinheiro
para a instalação do tribunal, nós somos os seus principais
financiadores.»
De facto, este tribunal, além das
armas e do dinheiro das grandes potências, não possui nenhuma
legitimidade para julgar o que quer que seja. E se ainda restassem
dúvidas a esse respeito, o recente rapto do ex-presidente,
Milosevic, perpetrado pela Aliança e pelos seus homens de mão em
Belgrado, à revelia do Parlamento, do Presidente da República,
do Supremo Tribunal Federal e da Constituição jugoslava, acabou
por mostrar ao mundo inteiro qual o conceito de legalidade de uma
instituição fantoche, que não hesita em praticar actos de
terrorismo internacional para satisfazer as exigências dos seus
patrocinadores.
Para melhor se compreender a génese
deste tribunal ad-hoc basta recordar que foi criado por iniciativa
dos Estados Unidos e das grandes potências europeias, numa altura
em que a NATO já se preparava para lançar as linhas gerais do
chamado «novo conceito estratégico». Ao instrumentalizar o
Conselho de Segurança, órgão para o qual até hoje nenhum
Estado do planeta transferiu quaisquer competências em matéria
de direito penal, o imperialismo inventou mais um instrumento de
repressão internacional, destinado a dar uma aparência de
legalidade à sua nova doutrina política, segundo a qual todo o
Estado que se submeta à NATO é uma «democracia», e todo o
Estado que lhe resista é uma «ditadura», «um Estado bandido»
ou «fora-da-lei».
Foi com base nesta nova doutrina,
como denunciou o ex-presidente do SPD, Lafontaine, perante
milhares de pessoas, no 1º de Maio de 1999, que a NATO participou
no assassínio dos sérvios da Krajina e na limpeza étnica
daquele território, para seguidamente despoletar o conflito do
Kosovo onde, ao intervir como a força aérea do UCK, despejou
mais bombas sobre a Jugoslávia em 78 dias do que Hitler em quatro
anos, durante a Segunda Guerra Mundial.
O estádio
supremo
do crime organizado
Apesar do apoio verificado em
Portugal à agressão contra a Jugoslávia por parte do Presidente
da República e do Governo, não deixa de ser significativo que
sejam precisamente os povos de Portugal e da Grécia, vítimas de
regimes fascistas membros da Aliança Atlântica, aqueles que na
Europa têm mostrado uma mais elevada consciência democrática e
maior capacidade de resistência à manipulação mediática e
fascizante a que temos vindo a assistir ao longo de toda a agressão
colonial e imperialista nos Balcãs.
Quem viveu os tribunais plenários
do fascismo e a PIDE não deixará de constatar que hoje, a NATO,
é também simultaneamente polícia, acusador, juiz e carcereiro.
Mas a nova ditadura militar
supranacional ainda vai mais longe, ao suspender princípios
fundamentais da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de
1948, onde se estipula que «todas as pessoas têm direito a um
recurso efectivo diante das instituições jurídicas nacionais...
(art. 8)». A confirmação pela inquisidora, Del Ponte, de que
contra o ex-presidente jugoslavo o seu tribunal decretará a «prisão
perpétua», é mais um exemplo da palhaçada de justiça que
reina em Haia, em que ao acusado já lhe foram fixadas a condenação
e a pena mesmo antes de se ter iniciado a encenação de
julgamento.
Num estudo intitulado «O Moderno
Capitalismo - Estádio Supremo do Crime Organizado», o Instituto
de Economia Ecológica e Social de Munique, ISW, analisa alguns
dos métodos violentos, ilegais e criminosos utilizados pelas
grandes potências capitalistas para imporem o seu domínio económico,
político e militar, e destruírem a soberania dos restantes
povos. Por coincidência, o cientista norte-americano, Noam
Chomsky, professor de linguística no Instituto de Tecnologia de
Massachussett em Boston, recorre igualmente à imagem do boss da
mafia para explicar o fundamento da estratégia dos Estados Unidos
e da NATO nos Balcãs: «Se alguém recusar contribuir
regularmente para a mafia, o padrinho tem de repor a sua
autoridade para evitar que outros, seguindo um mau exemplo, passem
também a negar-lhe obediência. O que Clinton & Co dizem, é
que é preciso que todos tenham medo suficiente do polícia
mundial.»
Rui Paz
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