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Big
Brother, a violência
e o esvaziamento da política
Fábio F B Freitas ****
"Conclui-se do que acabo de expor
que não mais desfrutar da liberdade dos antigos, a qual se compunha
da participação ativa e constante no poder coletivo.
Nossa liberdade deve compor-se do exercício pacífico
da independência privada."
(Benjamin Constant, "Da
Liberdade dos antigos comparada à dos modernos".1
)
"Pode-se matar tudo, menos a
nostalgia do reino, que levamos na
cor dos nossos olhos, em cada amor, em tudo
aquilo que profundamente atormenta e desfaz e engana".
(Julio Cortázar, "O Jogo de Amarelinha")
A Farsa
A TV brasileira acaba de dar mais um
passo em direção ao nada; aliás, dois
passos: "Big Brother Brasil", da Globo e "Casa dos
Artistas", do SBT assinalam, ambos,
uma aposta persistente no vácuo cultural. A idéia dos programas, como
se sabe, é a de captar cenas do
cotidiano de "pessoas comuns" em um espaço privado com
câmeras espalhadas em todos os aposentos, banheiros inclusive.
Os escolhidos são catapultados para
a fama por conta do "voyeurismo eletrônico" e costumam
ser especialistas em bobagens. Há,
de início, duas mentiras nos programas: as pessoas convidadas não
são, exatamente, "pessoas
comuns": são, em regra, jovens adultos da classe média que
compartilham as características da ambição e da
superficialidade.
Em segundo lugar, as cenas não são
de "flagrantes da vida privada" uma vez que todos sabem
que estão sob a luz dos refletores; o
espaço que habitam, então, é público por definição.
Nenhum deles está em uma "casa", mas em um
"palco".
A diferença é que não há enredo,
nem peça, nem filme. Não há qualquer proposta estética, nem diretores
ou artistas. O que há, então? Há uma farsa na qual reserva-se lugar
para tudo, menos para o
pensamento.
Há, especialmente, espaço para a grosseria e o grotesco,
para o preconceito e para a ausência de conceito, para a linguagem
vulgar e para a vulgaridade sem
linguagem.
* Professor do Centro de Humanidades da
UFPB 1 in: Filosofia Política 2,Unicamp/Ufrgs,L&PM Ed.SP,1985,p.15.
Os personagens dessa farsa não representam, são caricaturas de si
próprios. Tentam parecer melhores do que
são e, quando conseguem, realçam apenas
o que há de insuportável nas ausências que os constituem. São como
esfinges sem enigmas; jovens que já se
resignaram antes mesmo que houvessem se
revoltado contra o que quer que fosse. É certo que deve-se admitir nas
pessoas o direito à falta de
seriedade, pelo menos nos momentos em que ela não seja uma imposição;
concedo que as pessoas tenham mesmo o direito à tolice, especialmente
quando crianças ou adolescentes.
O que me parece inconcebível é que a TV promova
tudo isso em um padrão de idiotia ao qual se confere, inclusive, o
estatuto de fato noticioso.
Poderíamos dizer que tudo não passa de um espetáculo lamentável,
mas não há sequer "espetáculo". Estamos comentando, então,
aquilo que é a mais recente chatice
da TV que, como era de se imaginar, reúne uma generosa
audiência entre aqueles já acostumados a perder seu tempo.
Sem que se dêem conta, os
telespectadores vão sendo "colonizados" pela mediocridade
midiática. Sintonizam seu tempo livre com esse lixo e, nessa opção,
aprisonam-se com seu tempo. Ao inverso dos
"prisioneiros de consciência", entretanto,
perdem sua liberdade por não pensar. Na célebre ficção de Orwell -
"1984" - a figura do "Big
Brother" representava a ameaça do totalitarismo.
A história nos permitiria inúmeras
analogias ou metáforas mas, sinceramente, esse tipo de programação
não as merece. Na TV brasileira, "Big Brother" é apenas
outro nome para a ameaça da
banalidade.
Efeito Perverso
Como que por encanto, todos os outros
grandes assuntos quase que sumiram do
noticiário da Imprensa brasileira neste início de ano. O que importa
agora é saber quem será o vencedor do Big
Brother Brasil ou se o programa vai bater
a audiência da Casa dos Artistas 2.
Big Brother e a sua versão mais
"charmosa" no SBT são a metáfora perfeita
da exclusão da política da agenda nacional. O que se passa "lá
fora", na esfera pública, não
interessa.
Aliás, chega a ser no mínimo muito
curioso que, em uma época marcada por
grandes ondas de violência, e em que a classe média alta procura
refugiar-se nos condomínios
fechados, as casas mais seguras do Brasil sejam justamente.aquelas mais
abertas ao público. Até Silvio Santos, lembremos, foi sequestrado em
2001, dentro de sua super-fortificada
mansão no aristocrático bairro do Morumbi, em São
Paulo.
A grande tragédia brasileira, nesse
começo de Novo Milênio, é o desaparecimento
da atividade política das preocupações quotidianas. A arte de fazer
política, de procurar o bem da pólis por
meio dos mecanismos democráticos conhecidos
ou por inventar, foi deteriorada por episódios seguidos de corrupção,
impunidade e outras modalidades não menos
deletérias de injustiça. Os culpados por
esses crimes estão soltos, mas a palavra política tem sido ferida de
morte.
Desvalorizada a política, o pacto social
incipiente, duramente costurado depois
de décadas (séculos?) de autoritarismo e tendo a Constituição de
1988 como norte, foi igualmente
golpeado. Interesses corporativistas, à direita e também à
esquerda, passaram a falar mais alto. A
desconfiança tornou-se o prisma das relações
sociais em geral e da política em particular.
Degradado o pacto social ainda imaturo, a
violência manifesta-se plenamente.
Violência não é o ato bárbaro em si, catalogado e registrado exaustivamente
nos últimos anos. Violência é o rompimento das relações sociais, é
o descrédito da política como algo
essencial para o desenvolvimento comunitário, é o
exílio do diálogo, é a execração da polêmica, é o óbito da
palavra como o componente humanizador
essencial para a vida democrática.
Ora, os felizardos do Big Brother ou da
Casa dos Artistas apenas comunicam
com o "lado de fora" por meio da TV, esse instrumento
eletrônico que tem substituído
grande parte da atividade política nos últimos anos, no Brasil e
alhures. O admirável mundo do marketing,
tão cantado, decantado e utilizado pelo elenco
de "cidadãos comuns" ou de "artistas"
arregimentados para satisfazer o voyeurismo
nacional, é a arma com que contam as modernas lideranças políticas,
para tomar o lugar, nas campanhas
eleitorais, dos penosos debates de idéias e da chatíssima
elaboração de programas de governo, a partir da contribuição de
incômodos representantes dos diferentes
grupos organizados da sociedade civil.
Muito antes da Internet, a política
vinha-se tornando uma prática virtual no Brasil
e em todos os países que procuraram duramente construir a democracia. A
arte da proteção e melhoria permanente da
pólis foi reduzida ao ritual, desgastado e banalizado,
de se votar em cada quatro anos - para se esquecer durante esse interregno
o nome do candidato em quem se votou..O combate sem tréguas à
violência e a todas as demais mazelas do mundo
contemporâneo não será vitorioso sem o resgate da dimensão
política, desculpem o chavão, com
"P" maiúsculo. Política que rima com Educação, com Cultura
e com desenvolvimento econômico e social, com Proteção Ambiental e
com respeito à História. Sem a
recuperação da política, como base essencial da reconstrução
do pacto social perdido no nosso País, a solução extremada será a da
violência, sempre.
Existe esperança? Sim, haverá sempre,
mesmo quando milhões de pessoas
preferem direcionar as suas expectativas para a entropia doméstica e
televisada do Big Brother, de onde sai o
líder implacável e resoluto. Resoluto e implacável
porque líder, aquele que sabe escolher os fracos a quem expulsar do
Paraíso.
A esperança é o refúgio na
dessacralização da digna atividade política. Riscá-la
do dicionário particular e comunitário, do público e do privado, é
confessar a derrota para a violência
e para a iminência da chegada do Grande Irmão "de verdade",
aquele de "1984". Vamos cultivá-la e multiplicá-la, como uma
nostalgia do reino que não era e
não será de plástico,caso contrário, sofreremos todas as conseqências
da profecia maldita de Constant. Abril/2002
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