SUBSÍDIOS
PARA PUEBLA
1.
Os Bispos do Brasil esperam de Puebla que saiba assumir a
realidade da América Latina, sobretudo em sua evolução nos últimos
10 anos: partindo de Medellin e mantendo o seu espírito, que
saiba discernir esta realidade à luz do Evangelho e que saiba
indicar corajosamente pistas para a caminhada pastoral futura.
2.
Como
subsídios para esta tarefa, registram aqui as reflexões
da Assembléia Geral Extraordinária realizada em Itaici, SP,
de 18 a 25 de abril de 1978. A - ENFOOUES DA
REALIDADE LATINO-AMERICANA 3. Na realidade latino-americ-:a
discernimos os elementos e aspectos que julgamos devam ser
levados em conta na elaboração de um diagnóstico global do
continente.
Do
ponto de vista eclesiai
4.
A situação eclesial apresenta aspectos negativos e positivos.
Entre os aspectos negativos chamamos a atenção para a situação
de uma Igreja que não se sente ainda suficientemente preparada
para enfrentar os
problemas da civilização urbana e industrial que geram as
megalópoles. A estrutura paroquial, embora ainda válida,
vem revelando inadequação para evangelizar esses grandes
centros urbanos, onde os meios de comunicação social exercem
grande influência freqüentemente conflitante com a mensagem do
Evangelho e superam em eficácia o magistério da Igreja.
5.
A Igreja
se ressente da expansão do secularismo, do ateísmo, que
atingem mais as famílías, e também da expansão de ideologias
anti-cristãs, às quais, para resistir, faltou adequada formação
da consciência crítica. Em certas áreas, aprofunda-se a
dicotomia entre fé e vida.
6.
O
impacto dessas ideologias gerou divergências internas na Igreja
por parte de figuras do clero e das elites intelectuais.
7.
As classes
médias e altas, nas grandes cidades, revelam um certo
descompromisso com o social. Ao lado disto, observa-se em todas
as classes, sobretudo na população menos assistida, um êxodo
para o espiritismo, as religiões esotéricas e orientais e
certas seitas proselitistas.
8.
A reação
pastoral da Igreja a essa situação encontra obstáculos sérios.
Urge descobrir criativamente formas de comunhão eclesial
adequadas à evangelização da cidade, onde o tipo de
relacionamento interpessoal não oferece as mesmas chances às
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) como no mundo rural. Por
vezes, a ação social desenvolvida
pela Igreja em apoio à sua ação pastooral é confundida com
subversão e serviço ao cormunismo.
9.
A imagem
de uma Igreja ligada aos poderes opressores, em passado ainda
recente, reduziu sua credibilidade evangelizadora. A Igreja
mão conseguiu dar sempre um testemunho bastante convincenie de
pobreza e profetismo.
10.
Uma ação
pastoral muitas vezes reduzida quase que a simples
processo de sacramentalização, sem preocupação pelo
acompanhamento e inserção comunitária, teve cómo reaçâo
uma peri,gosa desvalorização da participação sacramental, máxime
da penitência, do matrimônio, da eucaristi:a e talvez até
mesmo do batismo.
11.
A Igreja
da América Latina é uma Igreja ainda dependente de recursos
humanos e nnateriais para a evangelização.
12.
Observa-se
pouco conhecimento da Doutrina Social da Igreja, a não ser por
parte de especialistas. O povo em geral ignora mesmo os
documentos da lárpia, que não Ihe são suficientememte
comunicados.
13.
A eclesiologia
que se vem ellaborando na América Latina ainda se revela
mais wivencial que sistemática.
14.
Uma
renovação mal entendida da Liturgia, em alguns
ambientes, levou a uma perda de preciosas formas de expressão
da religiosidade popular. Tal perda
é uma das causas do fenõmeno do sincretismo religioso.
15.
O
sentimento religioso do povo é pouco esclarecido e envolvido em
formas de sincretismo. Não discerne bem entre Providência e
Fatalismo, entre culto autêntico e cultos sincréticos. As devoções
têm caráter sentìmentalista. Deus é apreendido como Deus
providente, o solucionador de casos, o último recurso do pobre.
Deus, nos meios mais urbanizados e intelectualizados, se reduz a
um conceito distante, nacional, objeto de manipulações,
desvinculado da realidade. Não é anunciado como aquele que se
revela através da própria história.
De
outro lado, os agentes de pastoral - seja levados pela ignorância
dos valores da relìgiosidade popular, seja impulsionados por
certo racìonalismo teológico - impuseram aos fiéis uma
pastoral de cursos e reflexões que dificulta a manifestação
de sua religiosidade, favorecendo sua passagem para outras
religiões.
16.
Entre
os aspectos positivos, registra-se a situação de uma Igreja
que, mais voltada para n povo e mais preocupada com os simples,
soube assumir posições proféticas, que Ihe mereceram perseguições,
ao mesmo tempo que a glória de seus primeiros mártires. Nesse
contexto, é de assinalar-se que se destacaram figuras proféticas
no episcopado e entre os sacerdotes, religiosos e leìgos.
17.
Essa
Igreja soube abrir mão de privilëgios tradicionais, ganhando
assim maior liberdade ante as forças econômicas e políticas e
podendo estabelecer uma ligação maior entre evangelização e
mudança
social, por maior espírito de serviço, especialmente no anúncio
e em defesa dos Direitos Humanos, como também na denúncia de
suas violações.
18.
A comunhão
interna da Igreja exprime-se mais claramente em estruturas visíveis:
CELAM, Conferéncias Episcopais e Religìosas, Conselhos
Presbiterais e Paroquiais, articulação de Igrejas-Irmãs,
Conselho Indigenista Missionário.
19.
As CEBs
tornam-se valiosa realidade na vida do homem e das comunidades,
pela vivência, testemunho e ação nas dimensões religiosa e
social.
20.
Renova-se
a vida litúrgica da Igreja, sua vida de oraçâo e contemplação.
Cresce nela a consciência da presença do Espírito Santo em
sua vida, com expansão dos movimentos carismáticos. As Igrejas
particulares foram revalorizadas na diversidade dos seus
carismas.
21.
Assiste-se
ao surgimento de novos ministérios, novos típos de missões,
com a valorização de expressões, gestos e símbolos próprios
do povo. Cresce a valorização do laicato, com aceitação
maior de seu trabalho e a corresponsabilìdade dos seus membros
mais conscientes.
22.
A Igreja pode desenvolver assim uma pastoral mais
abrangente com a expansão dos círculos bíblicos, formação
de agentes de pastoral, reciclagem de seus membros, mesmo
bispos, além de presbíteros e líderes leigos, com crescente número
de comunidades religiosas mais inseridas nos planos de pastoral
de conjunto e na realidade do povo, vivendo entre eles em
pequenas comunidades.
Uma
boa parte dos problemas de nossas cidades vêm das relações de
trabalho, fruto dessa concentração do poder econômico e da
conseqüente exploração dos trabalhadores, cuja vida familiar
e social são condicionadas pelo salário baixíssimo que
recebem.
33.
Esses
diversos fenõmenos propiciam, em certos meios, o crescimento da
receptividade à mensagem marxista e os levam a buscar em suas
teorias os instrumentos para interpretar a realidade, e em seus
métodos a estratégia para transformá-Ia.
34.
Aumentam as concentrações urbanas a um ritmo
acelerado pelas migrações de grandes contingentes humanos
através do êxodo rural. Criam-se assim problemas que ameaçam
de colapso as próprias megalópoles. Entre esses problemas,
destacam-se a extensão da favelização sitiando as cidades a
partir de suas periferias, a política de remoção das favelas
exacerbando o problema da segregação dos pobres, e o
crescimento da criminalidade e de formas selvagens de violência.
35.
Aumentam também os movimentos de migração
interna, problematizando a família, e, muitas vezes, sua futura
instalação em outra região e normalmente a possibilidade de
trabalho.
36.
O
contexto urbano vem criando condições sempre mais adversas ao
desenvolvimento normal das famílias. O problema habitacional
assume graves proporções, com suas soluções frustradas pela
desenfreada especulação imobiliária, que absorve, para
construções de alto luxo, recursos de programas habitacionais
inadequados.
37.
Uma àlarmante
difusão do uso dos tóxicos vem corrompendo especialmente a
juventude. Essa difusão, explorada por máfias organizadas,
gera novas formas de crime e de terror, e, por suas ramificações
em todas as classes sociais, torna ineficazes todas as
veleidades de combatê-Ia.
38.
Cresce
em proporções assustadoras o problema do menor abandonado,
provocando, entre outras conseqüências, o aumento da
promiscuidade e dos índices de criminalidade juvenil.
39.
A situação de injustiça vai sendo mantida por mecanismos
de violência institucionalizada, por forças de repressão
operando fora da lei e gozando de omissâo, complacência ou
cumplicidade dos poderes e gerando reações desesperadas que
oferecem pretextos para repressões mais violentas.
40.
A dinâmica
desse processo incentiva a multiplicação das violações dos
mais elementares direitos humanos: invasão de domicílio, seqüestras,
banimentos, desaparecimentos de pessoas indefesas, prisões
arbitrárias, supressão do hábeas-corpos, incomunicabilidade
abusiva, torturas e mortes.
41.
Pelo surgimento de regimes militaristas, os sistemas políticos
do continente foram progressivamen te
influenciados pela doutrina da Segurança Nacional que,
absolutizando o Estado, reduziu a segurança das pessoas e
concentrou o poder nas mãos de oligarquias restritas que
decidem o destino das nações.
42.
Tal
processo é facilitado pela manipulação oficial dos meios de
comunicação e da educação, que perdem
sua significação libertadora, para se transtormarem em
processo de instrumentalização das pessoas a serviço dos
objetivos do desenvolvimento econômico.
43.
A América Latina vem perdendo sua oportunidade
histórica de realizar um modelo justo e humano de
desenvolvimento, sucumbindo às seduções do consumìsmo e
alienando sua liberdade política nas mãos de uma tecnocracia
que reduz as pessoas a número de cálculos de uma engenharia
social e suprime os espaços de liberdade das entidades
intermediárias: família, instituições, associações,
sindicatos...
44.
Os
esforços do continente por libertar-se de sua condição
secular de dependência são ameaçados de fracasso pelas
articulações trilaterais dos poios de dominação tendentes a
transformar o subdesenvolvimento, de uma fase transitória de um
processo, em uma função permanente e tolerável de um sistema
global.
Do
ponto de vista cultural
45.
A cultura
latino-americana distingue-se da espanhola e portuguesa; não se
esqueçam os elementos indígenas e africanos que a marcaram,
promovendo um estudo acurado para discernir os valores nela
existentes e respeitando-os em nossa convivéncia continental;
nesse contexto assumem importância especial o sincretismo da
umbanda e os cultos atro. brasileiros.
46.
Ainda não se encontrou uma resposta latino-americana
satisfatória sobre a preservação das culturas e
a aceitaçáo da cultura mundial de hoje: continua em aberto a
pergunta de como criar consciência crítica e integrar novos
valores.
47.
A
Igreja ganhará muito em credibilidade, se der maior ênfase ao
tema da religiosidade popular a partir de uma opção pelo
pobre. Sua resposta deve basear-se na realidade do continente,
situando-se em seu contexto histórìco e não importando
esquemas interpretativos de contextos históricos muito
diferentes.
48.
Entre
os valores mais expressivos da cultura latino-americana
ressaltam-se os seguintes: religiosidade popular, família,
relacionamento interpessoal, hospitalidade, bondade, compreensão,
perdão, capacidade de sofrer, de lutar, de assimilar
habilidades técnicas.
49.
Observa-se
também um amálgama de contra-valores decorrentes da segregação
racial, do poderio econômico e político.
Existe
uma verdadeira violentação da heterogeneidade de culturas:
pelos meios de comunicação social e pelo consumismo que
nivelam as culturas e levam à cultura de massa; pela expansão
de subculturas de cunho religioso e pela pressão que favorece a
implantaçâo estratégica de uma sociedade de consumo.
50.
A marginalização
cultural do povo traz conseqüências sérias para a vida de fé
e para a convivência social; a marginalização da mulher, que
ainda aparece
em nosso continente, debilita a vitalidade construtora da
sociedade e da Igreja.
51.
Apesar
de a Igreja atingir parcialmente certos núcleos de cultura do
povo mais humilde (escola, culto etc.), talta-Ihe metodologia
para responder às necessidades das expressões culturais;
verifica-se um processo evolutivo na tentativa de respostas, mas
os valores que existem nas camadas populares ainda não são
aproveitados.
52.
Observa-se
também que alguns setores abusam do título "cultura cristã
na América Latina", para defenderam a manutenção do
"status quo" da sociedade, esvaziando e
instrumentalizando a palavra "cristã".
53.
No enfoque
da realidade latino-americana, é indispensável integrar os
diversos sintomas numa referência a suas causas profundas: opção
por um capitalismo dirigido pela tecnocracia sem atenção ao
valor da pessoa humana e seus direitos; opção por regimes de
força como única alternativa para manter a ordem; visão míope
de um dualismo irredutível entre capitalismo e comunismo, como
se não .fosse possível ser anti-capitalista sem ser comunista.
B
- ELEMENTOS
PARA JULGAR A REALIDADE LATINO-AMERICANA
Quanto
à Igreja
54.
Para julgar a realidade latino-americana à luz da Palavra de
Deus, alguns elementos devem ser colocados em destaque: a Igreja
quer viver um momento intenso de testemunho de fé, de proclamação
da Graçá de Cristo que dê testemunho de solidariedade entre
seüs membros. Assim quer tornar-se visíve! como sinal de
comunhão entre as pessoas.
55.
Dada a
vooação original do homem todo para filho de Deus, e por
conseguinte sua destinação à comunhão de vida com Deus e
participação de sua felicidade, toda a situação negativa,
assim descrita, deve ser caracterizada pela marca do pecado,
isto é, de uma situação que ofende a Deus pelo fato de
contrariar à dignidade do homem como filho de Deus, e
por isso tal situação não pode ser justificada ném muito
menos mantida.
56.
A comunhão
com o Pai fará dela um instrumento de conversão dos homens
para a união, onde cada membro possa chegar à participação
ativa e à corresponsabilidade através de organismos eficazes.
Pela
convivência assumida de modo prático e sempre novo, a Igreja
será vista como sinal e instrumento de salvação e poderá
educar os homens neste continente para a autêntica
solidariedade, vencendo todas as formas de injustiças dentro da
Igreja e fora dela.
57.
A Igreja,
solidária, sinal e instrumento de comunhão no meio do povo,
superarâ qualquer vinculação a sistemas ou regimes de opressão.
Assumìndo sua missão de serviço aos homens, em especìal pelo
compromisso claro de estar ao lado dos pobres e oprimidos,
mantendo-se aberta a todas as classes sociais, a Igreja dará
testemunho de sua atenção às necessidades da pessoa humana em
todas as suas dimensões.
58.
Povo de
Deus em marcha, todos os membros da Igreja participam da mesma
aventura, animados pela esperança
da libertação. A fé na Palavra dAquele que passou
fazendo o bem, sofreu, morreu e ressuscitou, suscita, no íntimo
de cada cristão, o espírito de serviço que compromete a todos
e a cada um no processo dé luta pela superaçâo dos
sofrimentos, da miséria, da pobreza, da injustiça, da opressão
de qualquer tipo.
Neste
sentido, a própria Igreja - para ser autenticamente evangélica
- deVerá superar as dìscrimi. nações internas.
59.
As funções
dos bispos, dos presbíteros, dos diversos ministros e dos leìgos,
serão sempre distintas. Melhor definida, de modo prático e
concreto, a missão dos pastores não Ihes confere títulos de
honra e de privilégio, mas de serviço.
Assim,
a Igreja se apresentará ao Pai e diante dos homens como os
"filhos reunidos em Cristo, pela força do Espírito
Santo".
S0.
Unida
na mesma fraternidade, a Igreja deve dìversificar os ministérios,
não segundo padrões préestabelecidos, mas segundo o impulso
do Espírito, de acordo com as necessidades das comunidades em
diversas situações. A diversidade de dons e carismas
dará à Igreja a multiforme capacidade de servir com
disponibilidade, abertura, eficácia e despojamento.
61.
Na América
Latina, as CEBs e muitas outras formas de convivência eclesial
estão a exigir uma especificação e preparo mais adequados dos
bispos, presbíteros e diáconos, para o exercício de sua função.
Mas
vàì além a necessidade de nossas situações: a criatividade
sugerirá o reexame dos atuais modelos de ministros e o
aparecimento de novos mìnistérios. que, por sua vez, reclamarão
processo de amadureciTnento na fé e consciência eclesial, bem
como verdadeira aceitação por parte da hierarquia e das
comunidades.
62.
A Igreja
particular, com suas características e fisionomia próprias, não
pode perder de vista a transcendência da fé e da unidade visível
com as demaìs Igrejas, marco central do cristianismo.
No
anúncio do Evangelho, na defesa corajosa dos Díreitos Humanos,
na encarnação que faz assumir a pessoa humana em suas circunstâncias
concretas, é preciso que a Igreja viva o dinamismo da conversão
para a unidade sem fechamento nem particularismo. 63. O
autêntico espírito evangélico faz da Igreja sinal e
instrumento da salvação, reveladora do sentido libertador da fé
face aos acontecimentos e aos sinais dos tempos. Por outro lado,
ela denuncia toda imagem de Igreja dominadora imbuída de espírito
clericalista, identificado muitas vezes com a hierarquia, e
coloca em relevo seu compromisso com a história e com o povo.
Em particular, compromete-se com as comunidades que se reúnem
para a escuta da Palavra e, sob o impulso do Espírito,
encarnam a fé viva nos fatos de cada dia, celebrando-os na
comunhão com o mistério do Cristo.
Quanto
à Cristologia
64.
O caminhar do povo de Deus está marcado pela passagem de Jesus
de Nazaré, que entra no mundo e
na casa dos pecadores. Isto significa que Ele assume as situações
reais do homem nas circuns. tãncias em que este vive. Suas
atitudes concretas sempre foram de libertação de situações
concretas. 65. Cristo libertador é o profeta que coloca
gestos, mediante os quais o doente, o marginalizado, as crianças
e toda pessoa sob qualquer forma de abandono deixam de viver na
marginalidade e passam a fazer parte de um povo. A Igreja
da América Latina, seguidora do Cristo que convive com a gente
de seu tempo, sabe e deve assumir, como causa própria, as condições
do pobre, do perseguido, do marginalizado, para identificar-se
com ele.
66.
O
Cristo morto e ressuscitado está vivb e presente na história
de todos os tempos, sobretudo pela Igreja, que é seu sacramento
de ação salvadora. Está do mesmo modo presente na pessoa
humana, máxime no pobre, pois veio para dar a plenitude da
vida.
O
mesmo Jesus, dom do Pai à humanidade para libertá-Ia, contìnua
oferecendo-se como propiciação pelos nossos pecados e vive
intercedendo por nós.
A
Eucaristia é a realidade e a proclamação do Cristo sempre
presente.
67.
O
Cristo que viveu a condição humana, profeta morto e
ressuscitado, convoca a sua Igreja que prolonga seu corpo no
tempo e no espaço. Ele integra como membro seu cada ser humano,
de qualquer raça e condição. Cada homem encarna em si a
imagem dAquele que veïo na fraqueza e foi dela libertado pelo
Paì, a fim de fazer de cada pessoa um "filho
muito
amado", escolhido para ser, pela força do Espírito, confìgurado
com o Senhor Jesus e destinado à ressurreição. Por isso, aqui
e agora, cada ser humano já merece todo o respeito.
68.
Partindo
da visão do homem, especialmente do homem sofredor, manifestação
viva de Jesus, a Cristologia procura iluminar mutuamente o
conhecimento de Cristo, o revelador do Pai, e o conhecìmento
mais profundo do próprio homem.
69.
A Cristologia,
como evangelização, deve anunciar o Cristo como Filho Unigénito
de Deus que se fez homem para, precisamente, refazer o homem
como filho de Deus, unindo-o a si e fazendo-o viver de sua vida
de ressuscitado, vencendo o pecado em toda. a sua extensâo
individual e social.
Quanto
à Liturgia
70.
A Liturgia, centro e cume da vida eclesiai deve ser a fonte de
toda e qualquer evangelização. A vida do homem do
campo, da periferia dos centros urbanos, vivida na fé e na
esperança, se caracteriza pelo sofrimento que necessita de
liberfiação e de novas perspectivas.
Cristo,
homem morto e Filho de Deus ressuscitado pelo poder do Espírito,
tornar-se-á motivo de força e de ânimo para o povo em marcha.
71.
O mïstério
pascal que a Liturgia apresenta em sinais é a história do
homem de todos os tempos. fão basta que os ritos façam menção
do Jesus histórico.
' preciso que a realidade do mistério se aproxime concretamente
da realidade vivida pelo homem de hoje. Os gestos, símbolos e
palavras revelem a situaçâo das comunidades e ao mesmo tempo
sejam reconhecidos como expressão do mistério.
72.
A união
do mistério e da situação do homem de hoje é que proclama a
glória de Deus e a libertação do homem. Celebrar significa,
pois, colocar em harmonia o homem em situação e a esperança
do Reino que se prepara.
73.
Assim
como a evangelização é indispensável para que os sinais litúrgicos
expressem o mistério celebrado, assim a Liturgia se apresenta
como modo prático e concreto de manifestar os aspectos da vida
cotidiano assumìda pelo Cristo.
quanto
à Evangelização
74.
A pessoa
humana, centro de toda ação apostólica e destinatária da
evangelização, é de fato o ponto de partida da encarnação
da Liturgia. Ignorar a situação do homem é também ignorar o
caminho para o conhecimento de Deus.
75.
A
tarefa de evangelizar, pelo testemunho 'e pelo anúncio, deve
levar a pessoa humana e os grupos sociais:
-
a tomar consciëncia de sua dignidade e da situação em que se
encontram;
-
a comprometer-se na renovação de sua vida e da sociedade,
segundo os valores evangélicos, atrarvés
Qa vivëncia e da solidariedade humana e da participação na
comunhão eclesial (cfr. E.N.. n ° 191;
-
a buscar uma libertação que ultrapasse todos os limites
temporais e que tenha sua plena realização na comunhão com
Deus (cfr. E.N., n ° 27);
-
a manifestar sua ação em todas as dimensões do Mandamento
Novo, que é um amor inteligente e crítico [cfr. E.N. n °
38).
76.
A
teologia da comunhâo dá sentido, força e rumo à teologia da
libertação: libertar integralmente para a plena comunhão da
vida fraterna dos homens entre si e comunhão filial dos homens
com Deus Pai.
77.
Toda
evangelização libertadora é, por isso, também transformadora
do mundo em que a pessoa humana vive e se realiza. É próprio
da índole secular que o leigo exerça uma ação de presença
num mundo contaminado pelo pecado, para recriá-Io segundo o desígnio
de Deus. A salvação sit0a-se no plano da própria criação.
78.
A formação
da consciência missionária é indispensável. Ovem não
alimenta o anseio de salvar o "homem todo", estaria
alienado. Mas a consciëncia de libertar "todos os
homens" é também parte integrante da evangelizaçâo. Ser
missionário e tornar-se apóstolo das nações, é condição
do cristão.
79.
'É
impossível evangelizar sem admitir atitude aberta de chegar-se
a cada pessoa como Deus a fez e a história a situou. O culto e
crescìmento da fé que parassem num afeto à Igreja católica
sem despertar
20 I 21 para
a dimensâo missionária, serìam atitude de homem religioso e não
de cristão.
80.
A Igreja deve anunciar ao homem de hoje que ele
é, por desígnio divino, filho de Deus, com todos os
seus valores materiais e espirituais, nas dimensões de comunhão
com Deus, com o outro, consigo mesmo e com as coìsas criadas (GS
13).
81.
A religiosidade
popular e a peculiar devoção a Maria são elementos
importantes para a vìda de fé do povo latino-americano e brasìleiro.
Todo crescímento na educação da fé deve levar em conta esses
dados. Ser homem religioso e não ter chegado a uma fé
evangelicamente esclarecïda, é a situaçâo freqüente do
homem em nosso continente. Portanto. o respeito e o estudo da
religiosidade são condições indispensáveis à evangelização
do homem na América Latina.
82.
Ovando se trata de ações concretas, dentro de uma visão
ecumênica, não se deve perguntar a que Igreja pertence o
outro, mas verificar se esse outro está aberto à pessoa
humana e se aceita o princípio doutrinal de que a libertação
do homem é tarefa de todos.
83.
Jesus
Cristo - Deus que se fez peregrino da histõria - se situou no
centro da mesma história. Sua ação evangelizadora e a da
sua Igreja visam a construir o Reino de Deus. A Igreja quer
construir o reino e evidenciar que Jesus, o Homem-Deus, deve
ser o centro da história.
O
Reino de Deus, embora nâo seja deste mundo, é força que exige
realizações concretas dentro dos modelos reais históricos
deste mundo.
Pode,
em nossa história ambígua, até gerar conflitos duros.
O
Reino de Deus é virtude.
O
Senhor Jesus, Servidor do Pai e dos homens, veio servir.
A
Igreja servidora da Palavra e do Reino de Deus.
O
Reino de Deus é comunhão.
Construir
o Reino exige ter °paciência" com o pecador, inclusive
com o opressor.
Construir
o Reino é visibilizar a glórìa do Pai, que está no céu.
C
- SUGESTES
PARA A AÇdO EVANGELIZADORA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA
84.
Depois de alguns enfoques de nossa realidade latino-americana e
de alguns elementos para julgá-Ia, apresentamos algumas sugestões
para uma AÇaÃO EVANGELIZADORA DA
IGREJA NA AM'ÉRICA LATINA.
Sugerem-se,
pois, diversas iniciativas. Vida da
igreja
85.
Continue a Ação Evangelizadora da Igreja na América Latina à
luz do Concílio Vaticano II,; da Conferência de Medellín, da
Exortação Evangelii Nuntiandi, de
Documentos dos Episcopados Latino-americanos,
como "Exigências Cristâs de uma Ordem Política",
reforçando-se desta forma a unidade pastoral da Igreja no
Continente.
86.
Desdobre-se
a ação pastoral no anúncio da Boa Nova, na denúncia das
injustiças; na convocação dos batizados para assumirem suas
próprias responsabilidades como Povo de Deus.
87.
Prossiga-se
o aprofundamento das CEBs, da evangelização libertadora, de um
pensamento teológico original; de uma Igreja de fraternidade,
participação e diálogo, descomprometida com sistemas,. regimes
e ideologias e encarnada nas características próprias de sua
originalidade latino-americana; de uma opção prioritária, mas
não excludente, pelos pobres e oprimidos.
88.
Encaminhe-se
o estudo sobre temas que criam perplexidades e tensões. Entre
estes, a teologia da libertação; a problemática da evangelização
das elìtes, dos grupos de influência, das classes média e
alta e da pastoral castrense; a evangelização dosa que se
afastam da Igreja e dos que vivem em condições públicas de
pecado; a invasâo de seitas anti-cristãs e do sincretismo
religioso; o problema de radicalizações dentro da Igreja e
fora dela; a temática do regime de cristandade e da Igreja da
diáspora; o problema da "análise marxista" em seu
valor, seu método e seu uso; a função social da propriedade
no carìpo e na cidade; a temática do socialismo; capitalismo
liberal e luta de classes; segurança nacional; sociedade de
consumo; a distinção entre poder e autoridade dentro da Igreja
e fora; a exigência de uma catequese e uma liturgia mais
adaptadas à
mentalidade e às expressões culturais do povo; a religiosidade
popular com todos os seus valores e seus problemas; a convivência
da Igreja com os vários sistemas da sociedade, salvaguardando
os princípios do Evangelho.
89.
Preocupe-se
a Igreja com as várías culturas na evangelização, na
liturgia, na pastoral e na formação de agentes ordenados e não
ordenados.
90.
Face ao
continuado processo de marginalìzação e extinção dos índios
no Brasil, a Igreja vem procurando atuar junto a eles uma
pastoral que vise aos seguintes objetivos:
1.°)
Defesa da posse de suas terras como condição de sua sobrevivência
cultural e física;
2
°) Respeito pela sua cultura e seus valores;
3
°) Encarnação na sua realidade, identificando-se com eles
coma forma de explicitar com eles a salvação que vem de
Cristo;
4
°) Incentivo e apoio às formas de busca e concretização de
sua auto-determinaçâo.
91.
Proceda-se
a uma revisão crítica das obras da Igreja na sua eficácia
evangelizadora, com atenção especial à problemática da
Escola Católica.
92.
Assuma-se
a religiosidade popular com todos os seus valores e expressões
culturais do povo.
93.
Sendo a Liturgia cume e fonte da vida da Igreja, prossiga-se à
autêntica renovação litúrgica no contìnente,
levando em consideração especial documentos de importância (itúrgica
próprios da América Latina, como o I e II Encortros
Latino-americanos de Medellín e de Caracas, além da carta
especial enviada pelo Cardeal Secretário de Estado aos
participantes do Encontro de Caracas.
94.
Valorize-se
na América Latina a importáncia, para a evangelização, da
liturgia de rádio e TV.
95.
Desenvolva-se
uma catequese educadora permanente da fé mais atinente ã situação
envolvente, capaz de formar a consciéncia moral, o senso crítico,
o espírito comunitário e o compromisso social.
96.
Os Pastores
incluam em suas diversas tarefas pastorais a de
promoverem a participação do Povo de Deus, particularmente
do leigo, que tem seu lugar e seu papel próprios na Igreja e
no mundo.
97.
Quanto aos presbíteros, acredita-se que no presente e no futuro
a figura do presbítero, cooperador imediato do ministério
episcopal, é fundamental na Igreja. Proclame-se a significação
eclesial do presbítero, fiel à sua vocação e à sua atitude
de serviço ao seu povo e à conseqüente promoçâo de vocações
que continuem seu trabalho.
98.
Analise-se
a situação dos que deixaram o ministério e estude-se a
possibilidade do aparecimento, num futuro próximo, de um novo
tipo de presbítero surgido da própria comunidade, sem exigências
de uma longa preparação acadêmica.
Considerando
a caréncia de presbíteros e a necessidade
espiritual das pequenas comunidades, examine-se
a.possibilidade de ordenação presbiteral de homens casados,
que se recomendam por sua vida cristã e liderança apostólica
na sua própria comunidade.
39.
Dé-se
especial atsnço aos ministérios eclesiais, ordenados e não
ordenados, como solução para os problemas das comunidades.
Isto envolve o surgimento e a prorrioção dos novos ministérios,
a valorização particular dos ministérios leigos e a formação
dos agentes a partir da realidade latino-americana. 100. Estudem-se
também as possibilidades pastorais do ministério diaconal,
auxiliar do ministério do Bispo e de seu presbitério a serviço
da Igreja.
101.
Valorizem-se
as grandes tendências da vida retigiosa quanto à
evangelização. Amplie-se o campo de sua atuação apostólica
com deslocamentos para novos espaços geográficos e sociais
mais pobres. Formem-se comunidades mais evangélicas pelo compromisso
de oração, estilo pessoal e comurütário de convivência mais
fraterna; simplifiquem-se as suas estruturas e suas formas de
vida; sejam mais evangelizadoras, atentas às necessidades do
contexto, inseridas nas Igrejas locais, reinterpretadoras do
carisma; evangelizem pelo testemunho da fé e do amor e pelo
compromisso com a justiça. Haja certa desinstitucionalização
das atividades apostólicas. Integrem-se mais os religiosos na
pastoral orgãnica das Igrejas particulares. Haja trabalhos
pastorais assumidos por grupo intercongregacionais.
102.
Aclare-se mais o lugar e a missão do leigo na Igreja e no
mundo.
Em
particular:
a)
descubra-se a vocação cristã de cada líder, a fim de
impulsioná-Io ao anúncio do Cristo Ressuscitado;
b)
capacite-se o leigo para assumir a pastoral nas diversas faixas:
rural, urbana, operária, universitária, jovem. Nessa formação
evite-se o perigo de sua clericalizaçâo;
c)
estruturem-se mais os movimentos de leigos em nível diocesano e
paroquial;
d)
favoreça-se mais sua participação em assembléias;
e)
promovam-se grupos que ajudem os leigos a viverem a "índole
secular", iluminando suas tarefas temporais à luz' do
Evangelho;
f)
atenda-se ao papel relevante da mulher na Igreja e na sociedade;
g)
atualizem-se os movimentos de Ação Católica. Presença
da Igreja no mundo
103.
Na construção da nova sociedade à luz do Evangelho, tratem-se
os mais diversos problemas sócio-econõmico-político-culturais,
particularmente os relacionados com os sistemas vigentes, o índio,
o negro, o marginalizado, o oprimido, a terra, o jovem, 0 operário,
o universitário, a família, o homem da cidade e do campo...
104.
A presença da Igreja no mundo deve ser apresentada
como a presença do fermento evangélico que procura transformar
a sociedade em convivência fra
terna,
mas de modo a que essa fraternidade se traduza em è'struturas
econômicas e políticas que permitam a participação de todo o
povo na definição dos objetivos a serem alcançados e promovam
uma justa distribuição da renda, sem privilégios.
A
propósito
de pastoral urbana, questione-se a própria realidade da grande
cidade e dos incentivos à sua crescente expansão, uma vez que
a própria vida da grande cidade constitui especial desafio à
vivência cristã. Nossa ação pastoral deve partir de uma
consideração da realidade da estrutura própria da cidade, que
funciona como uma unidade orgânica; de outro modo, será difícil
evangelizar o homem urbano.
105.
Procurem-se as causas da marginalização, evitando
concentrações desumanas, causadas por imperialismos
gananciosos de grupos. Denuncie-se a posse concentrada dos meios
de produção, como instrumentos de marginalizaçâo.
106.
Atenda-se
ao problema ecológico em suas incidências pastorais.
107.
Incentive-se
a pastoral dos Meios de Comunicaçâo Social de maneira que se
tornem veículos do pensamento social cristão.
108.
Desperte-se a consciência do povo para o escândalo
das tremendas injustiças existentes na América Latina.
109.
Considere-se o papel das elites como fator de mudanças,
sem contrapõ-Ias às bases, para não favotecer
a luta de classes. Veja-se também o ângulo de influência dos
pobres na conversão dos ricos.
Atue-se
junto aos grupos de influência, como intelectuais, empresários,
políticos, jovens, operários, procurando pedagogicamente
promover, à luz do Evangelho, homens novos que assumam as mais
diversas funções na sociedade.
110.
Incentive-se
a pastoral no mundo do trabalho pela criação de grupos e formação
de lideranças, a fim de que, educados nos princípios do
Evangelho, com o auxílìo do método ver-julgar-agir, possam
inspirar a transformação da problemática social reinante e
nortear a convivência humana nas comunidades a respeito das
questões econõmico-sociais. Na ação evangelizadora,
descubram-se, em espírito de solidariedade, os seus valores
autenticamente humanos cristãos, sem violar o processo de
sua caminhada histórica, cuja definição e desenvolvimento é
da com. petência dos próprios trabalhadores.
111.
Valorizem-se as CEBs que procuram viver toda a
sua vida eclesial. Gluestionando as macro-estruturas eclesiais,
elas, em suas diversidades, se integram na unidade. Repercute
beneficamente sua influência no campo sócio-econõmico-político,
levando o povo a uma participação mais ativa e mais consciente
na comunidade. Acompanhem-se as CEBs, que se têm revelado
integratórias, quando a Igreja está ao lado do povo.
112.
Promovam-se
"Comissões de Justiça e Paz" em nível diocesano,
para serem efetivas nos problemas locais com gestos concretos
puros e motivados.
t13.
Crièm-se
"Centros de Defesa dos Direitos Humanos", a fim de
lutarem por eles em nível nacional e internacional; e de modo
ecumênico.
1t4.
Apele-se
às Igrejas Cristãs do CQntinente para, em espírito ecumênico,
unirem-se num tes;emurho evangelizador em favor do povo
oprimido.
115.
Criern-se
Conselhos de Igrejas Cristãs em nível de nação e continente
na América Latina.
116.
Assuma
a Igreja sua missão profética com gestos concretos,
enfrentando os conflitos que dividem a Amérìca Latina no que
tange aos díreitos humanos, à doutrina de Segurança Nacional,
às radicalizações integristas e revolucionárias e ao trilateraÍ
i smo.
D
- SUGESTÕES
DIVERSAS Sugestões para preparar a Assembléia
117.
Incentive-se a participação do povo na prèparação de Puebla
por uma campanha de orações e por contínuas informações
através dos Meios de Comunicação Social e de conferências
evhomilias.
118.
Favoreça-se
intensa participação das bases pela acolhida efetiva
das contribuições dos regionais e das dioceses, como também
de outras entidades e grupos.
119.
Os
episcopados sejam consultados sobre os teólogos assessores, a
fim de evitar em Puebla rumos tendenciosos.